quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O ROSTO DE DEUS

Contemple a face do Criador com serenidade. Ele está entre nós em todo momento



Em 1986, eu era um adolescente irrequieto. Gostava de leitura, mas também de aventura. Apesar da deficiência que me persegue desde a infância, costumava fazer longas trilhas por matas que ainda circundavam a área do conjunto habitacional em que residia.

Nos morros ali existentes, fazia escaladas, me movimentando pelos lugares mais íngremes. A dificuldade era para mim uma espécie de aliada. Tinha ideais de grandeza, ser alguém na vida, um escritor famoso, jornalista reconhecido, quem sabe ganhar projeção nacional. Coisas da idade.

Por aqueles dias tive um sonho. Foi pouco antes do jogo fatídico entre Brasil e França, pela Copa do Mundo do México, em que Zico perdeu um pênalti que poderia garantir nossa passagem para a próxima fase. Fomos desclassificados.

Aparecia uma casa imensa, de estilo indefinido e paredes amarelas, de tintura desbotada e situada numa área espaçosa e provavelmente afastada de centros urbanos. Em frente, uma figueira gigantesca e centenária. Fiquei com aquela imagem na cabeça por vários meses, até que em julho fui passar as férias na residência de minha avó, dona Anália, em Piripiri.

Nas andanças com meu tio Bento encontrei a imagem do sonho. Quando vi a casa, meu coração bateu aceleradamente. Era a mesmíssima que aparecera para mim, muito embora eu nunca a tivesse visto antes. Chamamos a isso de deja vù.

Morava ali um casal de idosos. Tinham para mais de 80 anos e eram extremamente simpáticos. Conversamos demoradamente. Eles conheciam meu avô, Felipe, que fora vereador e prefeito.

Passaram-se alguns anos. Tornei-me jornalista e escritor, constituí família, lancei alguns livros e produzi inúmeras reportagens polêmicas, que me trouxeram muitas alegrias e algumas frustações. Jornalistas são judicialmente processados quando dizem coisas que desagradam aos poderosos.

Em 1993, fomos passar a Semana Santa na localidade Salgado, pertencente aos avós de Pedrina -- seu Arlindo e dona Belinha. Na madrugada de Sexta-Feira da Paixão despertei por volta das 2h30min com uma imensa vontade de urinar.

Antes, porém, que me levantasse da rede deparei-me com a figura angelical diante de mim. Envolta na penumbra do ambiente, onde uma pequena claridade provocada pelo luar penetrava, estava uma criança de uns 10 anos de idade. Ela me olhava em silêncio. Olhei para também silenciosamente. Não conseguia dizer palavra e logo pensei tratar-se de um fantasma.

Fiquei atordoado e paralisado. Queria gritar e não conseguia. A menina me olhava, agora intensamente, e naquele recinto fracamente iluminado divisei cabelos loiros e cacheados. Era realmente um anjo e eu não entendia por que estava sentindo tanto medo.

Ela pronunciou algumas palavras. Falou sobre uma pequena caixa de madeira, perdida no tempo distante, e cuja localização me ensinou. "Abra a caixinha e retire o seu conteúdo. Lá você vai encontrar a chave para a felicidade." Antes que perguntasse do que se tratava, ela falou taxativamente: "O rosto de Deus."

A imagem suave desapareceu como névoa nas primeiras horas da manhã. Lembrei-me então que estava apertado e corri para atrás de uma moita no quintal da casa onde urinei demoradamente. Pouco a pouco as pessoas da casa foram despertando. Falei da minha visão e as opiniões ficaram divididas.

Alguns disseram que eu tivera apenas um sonho. Outros afirmavam que podia ter recebido realmente a visita de um espírito. Seu Arlindo, notório contador de histórias, afirmou que há muito e muito tempo havia morrido uma menina no lugar com as mesmas descrições que eu fizera. Foi quando ele ainda era pouco mais que uma criança.

A menina me disse que não era dali. Viera de longe, em direção à capital, em busca de tratamento para um grave problema de saúde. Morrera durante a noite, quando seus pais decidiram acampar da longa jornada em lombos de animais. O episódio podia ter se passado no começo do século XX, no máximo até os anos 50. Depois os automóveis, mesmo rudimentares, substituíram os bichos em viagens prolongadas.

Com suas palavras doces, ela me conduziu de volta à terra natal. Pela descrição que me fizera do lugar, eu já o conhecia muito bem. A casa de paredes amarelas, em Piripiri, onde residiam seu Ângelo e sua esposa. A mulher havia morrido há pouco tempo. Ele estava inconsolável e ainda mais afetado -- pelo peso dos anos, com mais de 90, e da perda insuperável.

Ele conhecia, sim, a história. Era sua irmã mais nova. Tinha 11 anos e fora acometida de pneumonia devastadora. Os pais tentaram de tudo e decidiram levá-la para Teresina. A criança não resistiu e veio a falecer à altura do município de Altos. "Ela nunca apareceu para mim. Minha mãe passou o resto da vida clamando por ela, pedindo que ela viesse nem que fosse em sonho. Ela nunca veio. Apareceu para você, então..."

Eu disse que sim e pedi permissão para escavar numa área bem ao fundo do quintal, embaixo de um frondoso cajueiro. Não tardei a encontrar sua caixinha de segredos -- uma cápsula do tempo, enterrada ali pelos idos de 1928, e trazia alguns escritos pelos quais pude situar-me. Eram páginas, que não constituíam propriamente um diário, mas contavam das angústias daquela pequena atormentada pela saúde frágil, até debilitar-se de forma definitiva.

"Ele esteve comigo várias vezes. Pude contemplar sua face em vida, embora afetada pelo delírio." Escrevia com perfeição. Tivera educação esmerada. "Tem barbas longas, olhar manso e penetrante, e veste-se como alguém normal. Ao pé de minha cama, enquanto todos dormem, ele vela por mim, mantém acesa minha luz singela, a vida que ele próprio havia me dado. Falou-me de cenários encantadores, descreveu-me as mais belas paisagens que em minha existência jamais iria divisar e disse que tudo aquilo estava ao meu inteiro dispor. Confortou-me quando entrei em pânico, temia a morte, achava injusto ir-me ainda na infância. Queria crescer, estudar, casar-me, ter filhos, tornar-me uma escritora e contar histórias da minha gente para o mundo inteiro. Ele pediu-me que tivesse paciência. Há tempo e lugar para tudo. Nesta vida, meu tempo não me pertence. Terei, infelizmente, que mudar de plano. Desesperei-me, chorei, meus pais vieram, meus irmãos, os criados, todos me acudiram. Estava aos prantos e perguntava por ele. Alguém o vira? Ninguém... Era invisível para os demais. Porém, continuava a sentir sua presença, mesmo em meio aos demais, bem ali do meu lado, olhando-me ternamente. Algumas noites depois já não sentia a angústia oprimir-me o peito. Tive plena certeza. Aquele velho bondoso só podia ser Deus..."

Eram muitas páginas. A caligrafia firme, letra bonita, bem arranjada sobre as linhas. Uma pequena obra de arte. Numa última folha, encontrei o retrato que ela mesma havia desenhado de acordo com a visão que tivera em suas noites de sofrimento. Delírio? Não creio. A não ser que admita o meu próprio quando a vi, diante de mim, naquela madrugada de Sexta-Feira Santa.