Contemple a face do Criador com serenidade. Ele está entre nós em todo momento
Em 1986, eu era um adolescente irrequieto. Gostava de leitura, mas também de aventura. Apesar da deficiência que me persegue desde a infância, costumava fazer longas trilhas por matas que ainda circundavam a área do conjunto habitacional em que residia.
Nos morros ali existentes, fazia escaladas, me movimentando pelos lugares mais íngremes. A dificuldade era para mim uma espécie de aliada. Tinha ideais de grandeza, ser alguém na vida, um escritor famoso, jornalista reconhecido, quem sabe ganhar projeção nacional. Coisas da idade.
Por aqueles dias tive um sonho. Foi pouco antes do jogo fatídico entre Brasil e França, pela Copa do Mundo do México, em que Zico perdeu um pênalti que poderia garantir nossa passagem para a próxima fase. Fomos desclassificados.
Aparecia uma casa imensa, de estilo indefinido e paredes amarelas, de tintura desbotada e situada numa área espaçosa e provavelmente afastada de centros urbanos. Em frente, uma figueira gigantesca e centenária. Fiquei com aquela imagem na cabeça por vários meses, até que em julho fui passar as férias na residência de minha avó, dona Anália, em Piripiri.
Nas andanças com meu tio Bento encontrei a imagem do sonho. Quando vi a casa, meu coração bateu aceleradamente. Era a mesmíssima que aparecera para mim, muito embora eu nunca a tivesse visto antes. Chamamos a isso de deja vù.
Morava ali um casal de idosos. Tinham para mais de 80 anos e eram extremamente simpáticos. Conversamos demoradamente. Eles conheciam meu avô, Felipe, que fora vereador e prefeito.
Passaram-se alguns anos. Tornei-me jornalista e escritor, constituí família, lancei alguns livros e produzi inúmeras reportagens polêmicas, que me trouxeram muitas alegrias e algumas frustações. Jornalistas são judicialmente processados quando dizem coisas que desagradam aos poderosos.
Em 1993, fomos passar a Semana Santa na localidade Salgado, pertencente aos avós de Pedrina -- seu Arlindo e dona Belinha. Na madrugada de Sexta-Feira da Paixão despertei por volta das 2h30min com uma imensa vontade de urinar.
Antes, porém, que me levantasse da rede deparei-me com a figura angelical diante de mim. Envolta na penumbra do ambiente, onde uma pequena claridade provocada pelo luar penetrava, estava uma criança de uns 10 anos de idade. Ela me olhava em silêncio. Olhei para também silenciosamente. Não conseguia dizer palavra e logo pensei tratar-se de um fantasma.
Fiquei atordoado e paralisado. Queria gritar e não conseguia. A menina me olhava, agora intensamente, e naquele recinto fracamente iluminado divisei cabelos loiros e cacheados. Era realmente um anjo e eu não entendia por que estava sentindo tanto medo.
Ela pronunciou algumas palavras. Falou sobre uma pequena caixa de madeira, perdida no tempo distante, e cuja localização me ensinou. "Abra a caixinha e retire o seu conteúdo. Lá você vai encontrar a chave para a felicidade." Antes que perguntasse do que se tratava, ela falou taxativamente: "O rosto de Deus."
A imagem suave desapareceu como névoa nas primeiras horas da manhã. Lembrei-me então que estava apertado e corri para atrás de uma moita no quintal da casa onde urinei demoradamente. Pouco a pouco as pessoas da casa foram despertando. Falei da minha visão e as opiniões ficaram divididas.
Alguns disseram que eu tivera apenas um sonho. Outros afirmavam que podia ter recebido realmente a visita de um espírito. Seu Arlindo, notório contador de histórias, afirmou que há muito e muito tempo havia morrido uma menina no lugar com as mesmas descrições que eu fizera. Foi quando ele ainda era pouco mais que uma criança.
A menina me disse que não era dali. Viera de longe, em direção à capital, em busca de tratamento para um grave problema de saúde. Morrera durante a noite, quando seus pais decidiram acampar da longa jornada em lombos de animais. O episódio podia ter se passado no começo do século XX, no máximo até os anos 50. Depois os automóveis, mesmo rudimentares, substituíram os bichos em viagens prolongadas.
Com suas palavras doces, ela me conduziu de volta à terra natal. Pela descrição que me fizera do lugar, eu já o conhecia muito bem. A casa de paredes amarelas, em Piripiri, onde residiam seu Ângelo e sua esposa. A mulher havia morrido há pouco tempo. Ele estava inconsolável e ainda mais afetado -- pelo peso dos anos, com mais de 90, e da perda insuperável.
Ele conhecia, sim, a história. Era sua irmã mais nova. Tinha 11 anos e fora acometida de pneumonia devastadora. Os pais tentaram de tudo e decidiram levá-la para Teresina. A criança não resistiu e veio a falecer à altura do município de Altos. "Ela nunca apareceu para mim. Minha mãe passou o resto da vida clamando por ela, pedindo que ela viesse nem que fosse em sonho. Ela nunca veio. Apareceu para você, então..."
Eu disse que sim e pedi permissão para escavar numa área bem ao fundo do quintal, embaixo de um frondoso cajueiro. Não tardei a encontrar sua caixinha de segredos -- uma cápsula do tempo, enterrada ali pelos idos de 1928, e trazia alguns escritos pelos quais pude situar-me. Eram páginas, que não constituíam propriamente um diário, mas contavam das angústias daquela pequena atormentada pela saúde frágil, até debilitar-se de forma definitiva.
"Ele esteve comigo várias vezes. Pude contemplar sua face em vida, embora afetada pelo delírio." Escrevia com perfeição. Tivera educação esmerada. "Tem barbas longas, olhar manso e penetrante, e veste-se como alguém normal. Ao pé de minha cama, enquanto todos dormem, ele vela por mim, mantém acesa minha luz singela, a vida que ele próprio havia me dado. Falou-me de cenários encantadores, descreveu-me as mais belas paisagens que em minha existência jamais iria divisar e disse que tudo aquilo estava ao meu inteiro dispor. Confortou-me quando entrei em pânico, temia a morte, achava injusto ir-me ainda na infância. Queria crescer, estudar, casar-me, ter filhos, tornar-me uma escritora e contar histórias da minha gente para o mundo inteiro. Ele pediu-me que tivesse paciência. Há tempo e lugar para tudo. Nesta vida, meu tempo não me pertence. Terei, infelizmente, que mudar de plano. Desesperei-me, chorei, meus pais vieram, meus irmãos, os criados, todos me acudiram. Estava aos prantos e perguntava por ele. Alguém o vira? Ninguém... Era invisível para os demais. Porém, continuava a sentir sua presença, mesmo em meio aos demais, bem ali do meu lado, olhando-me ternamente. Algumas noites depois já não sentia a angústia oprimir-me o peito. Tive plena certeza. Aquele velho bondoso só podia ser Deus..."
Eram muitas páginas. A caligrafia firme, letra bonita, bem arranjada sobre as linhas. Uma pequena obra de arte. Numa última folha, encontrei o retrato que ela mesma havia desenhado de acordo com a visão que tivera em suas noites de sofrimento. Delírio? Não creio. A não ser que admita o meu próprio quando a vi, diante de mim, naquela madrugada de Sexta-Feira Santa.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
sábado, 22 de maio de 2010
ANÍSIA E OUTRAS MULHERES

Intimidade é intimidade. Nunca é bom falarmos com estranhos sobre nossas coisas pessoais, principalmente quando se trata de alguém como eu, que me conduzo quase sempre por caminhos tortuosos. Meu primeiro encontro com o álcool se deu depois de Anísia. Ela foi a primeira garota de quem gostei de verdade. Tinha alguns anos a mais que eu, mas eu não me importava porque ela era linda, loira, tinha olhos azuis e um corpo escultural.
Ela parecia estar em mim mesmo antes de eu conhecê-la, por isso quando a vi pela primeira vez fiquei fissurado. Era atendente numa loja do centro de Teresina. Estava com minha mãe comprando roupas para ela quando me deparei com aquele riso encantador. Ela nos tratava como clientes, porém passou a olhar para mim com um pouco mais de interesse, especialmente quando sentiu que eu já a olhava com um pouco mais de interesse.
Lembro-me que passei diante da loja com Gonzaga e Geno. Andávamos no carro de Gonzaga, um Chevette antigo que ele cultua como se fosse uma raridade. Tem um som possante e coloquei a música do Roupa Nova, Linda Demais, e então fiquei cantando diante da loja e chamando seu nome. Ela veio até mim e pediu que eu parasse com aquilo porque poderia dar problema com seu chefe. Parei de cantar mas não desisti de ficar esperando por ela.
Caminhamos juntos até a praça Rio Branco. Meus amigos partiram com destino a algum bar das imediações. Eu os encontraria depois. Mas isso não importava. Eu estava ao lado de Anísia e isso era tudo para mim naquele momento.
“Você é linda.”
“Não sabe dizer outra coisa.”
“Não.”
“O que quer de mim, afinal?”
“Você. Eu quero você.”
Sorriu. “Você é muito novo. Quantos anos tem?”
“Quatorze.”
Ela sorriu mais ainda, os dentes brancos, perfeita disposição. “Não faz sentido. Que menino maluco e danadinho! Sabe quantos anos tenho? Tenho 22. É isso mesmo. Sou adulta e não quero ser chamada de pedófila por aí.”
“Garanto que não será.”
“Como assim, garante?”
“Ninguém precisa ficar sabendo.”
Ficamos sentados um bom tempo no banco da praça. O comércio estava fechando suas portas. Havia muitos braçais carregando material de camelôs. O lugar estava esvaziando aos poucos. Em algum lugar que não conseguíamos identificar alguém estava escutando a música do Paralamas do Sucesso, Alagados.
“Queria entender vocês, homens, que mesmo novinhos são safados.”
“Peço que não me entenda dessa forma...”
“E deveria entendê-lo como? Ora, Juliano, percebe-se que você quer apenas sexo. Está encantado com a possibilidade de transar comigo.”
Ela podia até ter razão, mas eu sentia que era muito mais do que isso.
“Claro que você está enganada. Estou gostando mesmo de ti.’
“Como pode?! Me viu apenas uma vez, não sabe quem sou, de onde venho, o que faço na vida...”
“Epa, alto lá! O que faz na vida sei muito bem. É vendedora em loja do centro.”
Ela sorriu novamente aquele sorriso lindo. Nunca pensei que fosse me ligar tanto no sorriso de alguém.
Anísia cedeu aos meus argumentos e trocamos beijos calorosos ali mesmo, em meio a toda aquela movimentação de gente suada e barulhenta, enquanto ao longe Herbert Viana entoava sua canção...
“Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria...”
Meu pênis ficou todo úmido com uma substância preparatória ao coito. Confesso que fiquei tentado a tocar em suas partes íntimas, mas não queria estragar tudo, e ficamos apenas nos abraçando e beijando. De vez em quando ela me olhava, passava a mão em meus cabelos e dizia do quanto estava sendo louca por entregar-se daquela forma a uma criança.
“Mas beijo e abraço não é entrega total.”
Cheguei em casa em estado de júbilo. Fui imediatamente para o banheiro e toquei uma demorada punheta. Via Anísia inteiramente nua diante de mim, abrindo-me suas pernas e seus segredos, deixando-me entrar cada vez mais fundo naquela gruta de sabores inúmeros. Retive o gozo o quanto pude. Queria segurar em mim aquela sensação gostosa que acomete os sinceramente apaixonados.
“Quem é você que de repente encheu de luz o meu caminho...”
Nos encontramos várias outras vezes, sempre no final do expediente. No sábado, ela saía às 13h. Eu estava sempre lá, à sua espera, lamentando não ter nenhum dinheiro para levá-la a um bom restaurante. Tio Valdêncio me dizia que garotas gostam de bons restaurantes. Numa vez, ele me arranjou a grana e a convidei para irmos ao Comidas Típicas do Centro Artesanal. Comemos uma galinha ensopada com arroz de cenoura e uma salada no vapor. Que delícia!, ela repetia e passava a mão em meus cabelos. “Meu Deus, como você é lindo.”
Ficamos juntos por dois meses. Transamos na quinta semana. Ela me levou até o apartamento de uma amiga, ali mesmo no centro, disse que morava longe, na periferia e que seria muito desagradável apresentar-me aos pais como seu namorado. Eles não entenderiam por causa da minha pouca idade mas confessou que estava sentindo um negócio muito louco por mim, que poderia perfeitamente ser entendido como paixão e que ainda era muito cedo para falar de amor.
Fiquei embevecido com a tonalidade de sua pele branquíssima, parecia alguém vinda de outra região do planeta, uma nórdica, quem sabe, porque na TV os nórdicos sempre aparecem muito alvos e aquilo me deixou sem palavras. Fiquei beijando todo o seu por um tempo que para mim pareceram alguns segundos apenas mas que na contagem do relógio demorou bastante. Fiz sexo oral com ela sem nenhum constrangimento e em seguida ela também fez o mesmo comigo. Todas as preliminares foram cumpridas e ao atingir o clímax Anísia me perguntou onde eu aprendera todos aqueles truques.
“Sou um mestre nas artes do amor.”
Se ela soubesse... mas isso não vem ao caso agora...
“Jamais quero ter que dividi-lo com alguém. Quero que fique sempre ao meu lado. Promete, meu pequeno amado?”
Foi assim que ela passou a me chamar. Pequeno amado. Fazia planos para quando eu completasse 18 anos. Me levaria até sua casa, me apresentaria aos pais e aos demais familiares e finalmente assumiríamos nossa relação. Fiquei sonhando com aquilo e imaginando que ainda levaria muito tempo, porém quanto mais tempo melhor, porque aí teria como aproveitar o máximo daquela relação.
“Sou mais velha que você. Promete nunca me deixar?”
“São apenas oito anos. Por que todo esse drama?!”
“Tu é muito gostosinho, meu pequeno príncipe, as garotas ficam loucas por ti só de olhar e eu fico louca de medo de te perder. Promete, vai?...”
“Prometo. Serei teu pra toda vida.”
BONS AMANTES...
Os bons amantes têm que ler muita poesia, precisam estar sempre repletos de inspiração para dizer belas palavras para suas amadas e contar que elas sejam receptivas para tudo aquilo que dizem. Li um poema de Drummond em que ele afirma: “Nunca diga o santo nome do amor em vão.” Olhava para Anísia, lia para ela e dizia: “Eu te amo.” Ela me respondia com o mesmo olhar de encantamento e falava: “Eu também te amo.”
Dizemos muitos “eu te amo” ao longo daqueles poucos meses. Já bem perto do final ela passou a me cobrar ciúmes intensamente. Não podia me ver conversando com nenhuma garota que ficava logo querendo saber quem era, do que estávamos tratando e assim por diante. Quando uma colega me cumprimentava na rua, então, ela ficava fazendo questionamentos do tipo: “Quem é essa espevitada?”
Nada a ver, mas vá entender as mulheres!
Naquela tarde de sexta-feira havia muita animação na rua. Fui ao calçadão da Simplício Mendes esperar por ela, que sairia do trabalho às 18h. Fiquei por ali matutando num banco nada cômodo até que apareceram duas colegas da escola. Eram muito simpáticas e estavam retornando do cinema. Decidiram parar e conversar um pouco, trocar ideias sobre coisas de adolescentes, o filme que haviam assistido, roupas da moda, recomendaram até que eu usasse um brinco na orelha esquerda. Ficaria ainda mais bonito, me disseram.
Apesar de animado com a conversa, entendi que já estava se aproximando a hora fatal e que Anísia chegaria a qualquer momento. Não gostaria nada de me ver ali conversando com duas garotas!
Dito e feito. Ao nos ver, nem se aproximou. Estava a uns quarenta metros quando deu meia volta e seguiu em passo acelerado. Não pude alcançá-la porque havia machucado o pé numa partida de futebol naquela mesma tarde. Tentei apressar também mas não consegui, a dor era intensa, então eu chamava seu nome e ela fingia não me ouvir.
Quando cheguei ao ponto ela acabara de entrar no ônibus. Fiquei na calçada, olhando-a partir, totalmente desolado e sem saber o que fazer daquela noite, da minha vida.
Passei a noite em claro, em meu quarto, contando estrelas. Não tinha ânimo nem para ouvir música. No dia seguinte fui esperá-la. Não houve um término propriamente dito, mas eu entendi que nossa relação terminara ali, nem tanto por ela, nem tanto por mim. Havia algo maior que nós dois, talvez a idade, talvez a condição social. Anísia tinha vergonha de morar na periferia que ela insistia em chamar de “fundão”. “Você não vai gostar de conhecer ‘o fundão’”, ela me dizia. E eu respondia que onde ela estivesse era bom para mim. Sua existência já era suficiente para me completar. Estava muito romântico, pode crer, mas aquilo de nada adiantou.
Ficamos juntos pela última vez naquele sábado. Ela me apresentou uma amiga chamada Luciana, que nos acompanhou até a praça Pedro II.
“Por que fez aquilo?”
“Você me prometeu que nunca me trairia.”
“Mas eu não a traí.”
“Então quem eram aquelas espevitadas?!”
“São apenas conhecidas da escola. Não tenho nenhuma ligação maior com elas. Foi a primeira vez que falamos por mais de cinco minutos...”
Tentei argumentar de todas as formas. Estava irredutível. Parecia querer encontrar, a todo custo, um motivo para me dispensar.
Convidei-a para assistirmos a um filme. Ela aceitou com muita relutância. Entramos no cinema para ver Garota Dourada.
Ricardo Valente é um surfista muito louco. Ele é abandonado pela mulher e decide se mudar para o litoral. Lá, conhece Diana, a garota dourada, e se apaixona por ela. Só que ela já tem um pretendente. Trata-se do cruel Betinho, que faz de tudo para afastar Valente de seu caminho. Lógico que ele não consegue. No The End, o surfista fica com sua musa e são felizes para sempre.
“Pensei que estávamos vivendo um caso de amor único.”
“Não existe caso de amor único. Fico triste em te dizer.”
“Não sou mais seu pequeno amado?”
“Você será sempre meu pequeno amado. Mas aqui, ó...”, e apontou para sua a própria cabeça, completando: “Em minha mente. Minhas lembranças...”
Partiu me deixando com lágrimas nos olhos. Pediu-me que eu não a levasse ao ponto. Queria caminhar sozinha até lá.
Nunca descobri suas razões. Penso que ela tinha um noivo, sei lá, quem sabe fosse até casada. Não fiz força para descobrir porque imaginava que assim ampliaria meu sofrimento.
E sofri bastante, pode crer!
OUTRAS MULHERES...
Decidi pegar Luciana, a amiga de Anísia. Ficamos algumas vezes mas ela era muito recatada. Queria transar mas não queria fazer sexo oral. Não podia aceitar relação com uma garota assim. Ela me disse que eu era muito avançado pra minha idade e me deixou. Fiquei tentado em dizer-lhe “já vai tarde!”, mas pensei que poderia reencontrá-la numa carência qualquer em futuro próximo. Era sempre bom ter uma carta na manga.
Naqueles dias de 1982 ainda estávamos muito sentidos com a derrota da Seleção Brasileira na Copa da Itália. Eu, duplamente afetado: a perda do título mundial de futebol da Espanha, onde seríamos tetra, e a ausência de minha doce Anísia. Gonzaga e Geno ficavam o tempo inteiro me dando força e dizendo que viriam outros campeonatos e que seríamos campeões sem dúvida em 1986. Diziam também que surgiriam outras mulheres como Anísia. Eles estavam enganados. Mas eu ainda não sabia, eles tampouco.
Conheci Rosângela num fim de tarde na praça Pedro II, que naquela época já começava a ser frequentada por homossexuais e prostitutas. Ela era apenas uma jovem comerciária, tal qual Anísia, e talvez isso tenha me impelido em sua direção. Morena, cabelos longos e cheios, olhos sublimes e um corpo divino. Nunca entendi por que essas mulheres belíssimas se interessam por mim!
Não disse meu nome verdadeiro. Dali por diante decidi ser um pegador sem escrúpulos. Rosângela gostava de uns amassos. Geralmente ficávamos ali mesmo, na praça, ou então entrávamos no cinema. Algumas vezes fomos a uns quartinhos de aluguel no centro, coisa de pobre mesmo, com paredes encardidas, cama de solteiro e um ventilador. Ela me induzia ao sexo apenas com o olhar.
Nossa relação durou poucas semanas. Ela tinha um namoro firme com o ascensorista do comércio em que trabalhava. O cara estava desconfiando de suas saídas. Ela dizia para ele que estava com as amigas – mas não era possível que todo dia tivesse o mesmo programa. Mesmo assim, senti saudades de seus olhos súplices e seus lábios doces e carnudos. Fiquei me remoendo por bem uns três ou quatro dias e até deixei crescer uns fios de pêlos que me havia pelo rosto.
Logo, apareceu Marina, que eu conheci na saída de uma boate do centro. Ela me deu bola e eu me aproximei perguntando qual era seu nome. Conversamos pouco e em seguida nos beijamos. Havia uma química poderosa na minha forma de beijar, mas não posso dizer para você. É um segredo que trago comigo desde esse período e até imagino que seja por isso que tenho tanta sorte com as mulheres.
Há também uma história que conto para as meninas e que as deixam doidinhas para ficar comigo, nem que seja por uma noite apenas. Quem sabe um dia eu decida contar.
Marina era bem alta, muito mais que eu, e queria entrar para a Seleção Brasileira de Voley. Nunca achei que ela conseguiria. Creio que tenha desistido ao cabo de alguns anos. Mas naquela época fomos felizes, até porque tínhamos praticamente a mesma idade. Ela estava com 15 anos, eu tinha 14.
Minha mãe reclamava. “Por que tantas mulheres. Você nem tem idade.”
Lembrava de meu pai. Ele me dizia: “Um homem é reconhecido pela quantidade de mulheres que conquista ao longo da vida. Mas é respeitado ao se fazer gostar por todas elas.”
No caminho para a casa de Marina conheci um sujeito musculoso e de fala mansa. Era professor de educação física e perguntou se eu não gostaria de fazer uma viagem com ele. “Como assim, uma viagem?!”
Ele me respondeu que era uma viagem na qual a gente não sai do lugar. A mente é que se desloca por lugares os mais diversos e distantes. Havia experimentado cigarro algumas vezes. Não vi nenhum mal em fumar uma maconha com Sandoval.
Algum tempo apareceram outros que foram preenchendo uma necessidade cada vez mais ampla que eu tinha pelo produto infame. Em menos de um ano Sandoval desapareceu das ruas. Consta que teria sido apanhado pela polícia e processado por indução de menores ao vício. Pegou uns anos de cadeia mas conseguiram aliviar sua pena para internação numa clínica psiquiátrica. Os pais tinham condição.
Há alguns meses eu o vi caminhando numa rua do centro. Parecia um zumbi, sem vida, o olhar perdido. Seu corpo era magro, nem de longe lembrava o antigo professor de educação física, verdadeiro “pecado” para as menininhas de sua geração.
Com Marina, não houve sexo, apenas aquele contato de pele que nos deixa irados e faltando pouco explodir de desejo. Achei que não fazia sentido ficar com alguém que não fazia amor e então a dispensei. Ela ficou estupefata ao me ouvir dizendo que não dava mais para continuarmos. Nunca imaginou que seria dispensada e até disse que estava gostando de mim.
“Lamento.”
domingo, 16 de maio de 2010
ASSOMBRAÇÃO

Lázaro e Policarpo eram amigos. Um dia, eles se desentenderam. Parece que havia uma intriga anterior. Haviam discutido por causa de uma garota. Mas isso todos sabem apenas de ouvir dizer. Foi briga feia. Coisa feia é dois homens brigando. Você já viu dois homens brigando de verdade?! Pois então sabe do que estou falando... Eles haviam discutido num cabaré da cidade. Era de sexta pra sábado, na feira dos bichos. Começaram a beber muito cedo, logo depois do apurado, tu sabe. Eles vêm do interior trazendo aqueles bichinhos pra negociar, é galinha, capote, carneiro, bode... depois pegam parte do dinheiro, ou até mesmo o dinheiro todo, e vão gastar nas mesas de jogo ou nos quartos das raparigas. Então, Lázaro e Policarpo se conheciam de muito tempo, desde rapazes, e sempre se deram muito bem, mas nessa noite a coisa esquentou.
A garota se insinuou para os dois. É verdade, ela deu bola pros dois e depois ficou jogando um contra o outro. É jogo de rapariga pra ganhar mais dinheiro, fica fazendo esse tipo de coisa. Aí eles dois discutiram e andaram trocando uns socos, mas chegou a turma do “deixa-disso” e apartou. Cada um foi pra seu lado. Anos mais tarde, os dois voltaram a se encontrar, desta vez na construção de uma estrada no interior do Pará, naqueles tempos de Juscelino...
A briga agora foi numa mesa de jogo. Desta vez não houve quem apartasse. Lázaro e Policarpo se atracaram e o pau comeu!! Eles estavam armados, cada qual com a sua faca, e ficaram naquela confusão pela madrugada adentro. Na beira do rio Amazonas, Lázaro deu um golpe terrível em Policarpo, bem em cima da clavícula, que abriu o camarada de alto a baixo. Foi morte certa, doída, demorada. Policarpo caiu na água e ficou gritando até se perder na escuridão daquelas águas barrentas. Lázaro conseguiu fugir, o corpo do rival nunca foi encontrado.
Ele veio se esconder em Altos. Na propriedade de um compadre seu por nome Elias, no lugar Segurança, bem aqui pertinho, coisa de 3 km da cidade. Sabe onde fica? Pois é. Ele ficou escondido lá foi tempo, esperando algum chamado da Justiça, mas nunca veio e então ele ficou mais tranquilo. Certo dia, bem um ano depois, ele disse para o compadre que queria dar uma volta pela propriedade, armar uma espera, caçar uma pacas, alguns veados, quem sabe... Elias o advertiu de que ainda era muito cedo, a família do morto estava desconfiando da demora, não tinha notícias e isso sempre traz muita aflição. Além do mais, nunca se sabe, pode ser que eles soubessem da verdade e tivessem apenas esperando a ocasião certa pra agir.
Ele tava angustiado, queria sair de dentro de casa, já não aguentava mais aquele isolamento, as paredes pareciam sufocá-lo. Elias, vendo que nada poderia fazer, achou por bem deixar o compadre dar essa volta e liberou pra ele uma espingarda e munição. Lázaro foi pro mato, armou a rede na copa de uma árvore bem alta e ficou esperando, pertinho de um olho d’água. Era ali que os bichos vinham beber à noite. Passou muito tempo acordado, até que o sono bateu. Começou a sonhar com coisa ruim, visagem, essas coisas. De repente, acordou sobressaltado, havia um barulho esquisito nas folhagens lá embaixo. Pegou a arma e apontou em direção ao olho d’água, no entanto não deu tempo de nada. Quando ele menos espera lá vem subindo aquele negro pequeno, com um saco grande amarrado na cintura. O negro partiu pra ele e o agarrou pelo meio, querendo colocá-lo dentro do saco...
Isso mesmo, pelo menos foi o que ele contou depois... O tal do negro, que era ligeiro que só vendo, queria porque queria colocar ele dentro do saco. Lázaro deixou a espingarda cair, então puxou do facão e ficou se defendendo. Mas o negro parecia o cão e vinha pra cima dele o tempo todo, parecia não sentir os golpes ou então se desviava com uma rapidez impressionante. De longe Elias ouviu os gritos, acordou a vizinhança e partiram todos em defesa do Lázaro. Quando chegaram na espera, encontraram o coitado atacando o vazio com o facão e gritando “me acudam, me acudam, é o Policarpo que mandou me buscar”.
Depois, ficou num estado deplorável, nem parecia aquele homenzarrão disposto que ele foi um dia. Foi internado num sanatário em Teresina e lá permaneceu por muitos anos até sua morte definitiva.
MORADOR DE RUA

Fui um morador de rua por 48 horas, tempo suficiente para a produção de uma reportagem. Eu trabalhava no Sistema Meio Norte de Comunicação e queria retratar a dura realidade dos sem-teto na capital piauiense. Eles perambulam pelas ruas e praças, vivem de esmolas e pequenos furtos e consomem muita bebida e drogas. Dormem ao relento, geralmente sobre pedaços de papelão e embaixo de marquises de lojas do centro. Alguns preferem os bancos de praças. Meu editor considerou muito arriscado, notadamente porque eu não contaria com nenhuma proteção em caso de necessidade. Adotamos como parâmetro que eu me limitaria às praças do centro – Pedro II, Saraiva, Bandeira, Rio Branco e Costa e Silva. Teria que adotar alguns cuidados para não ser reconhecido. A simples pronúncia da palavra jornalista poderia colocar tudo a perder. O ideal era que não houvesse nenhuma alteração comportamental.
O primeiro dia foi de adaptação. Fiquei na praça Saraiva. Estabeleci contato com um casal. Duas crianças andavam com eles. Não eram seus filhos. Eles não me conheciam. Queria saber de onde eu vinha e o que estava fazendo ali. Disse que não tinha emprego e nem aposentadoria. Não tinha casa e nem como me sustentar. Perguntei se podia ficar por ali até arranjar um lugar melhor. Me avisaram que eu deveria ter cuidado. Principalmente com os “trombadinhas”. Eram ladrões, drogados e perigosos. Por qualquer coisa espetavam alguém. Andavam com ferros de ponta e facas enferrujadas. Alguns armamentos eram produzidos ali mesmo, usando-se pedaços de madeira, ferro e borracha. Fiquei impressionado com a habilidade do casal. As armas eram feitas a menos de 300 metros da Secretaria de Segurança.
Vários outros moradores de rua se juntaram a nós ao cair da noite. Eles fizeram uma roda e ficaram bebendo e conversando madrugada adentro. Os moleques ficavam de longe se embriagando e fumando maconha. Um deles se aproximou e perguntou se eu não queria um “tapinha”. Disse que não e não estiquei a conversa. Fiquei com receio porque os outros permaneceram a uma certa distância. Pareciam interessados na minha pessoa. A mulher me chamou e perguntou se eu não queria dar uma trepada. Custava apenas 5 reais. Falei que não tinha cabeça para aquilo naquele momento e pedi desculpas. O companheiro dela ficou chateado. Contava com o dinheiro para comprar maconha dos meninos.
Havia mais dois sujeitos conosco. Eram pequenos e magros. Tinham faces encovadas, bocas murchas e olhos perdidos. A certa altura, um deles tratou o outro pelo nome. Foi agredido com um murro no rosto famélico. Não queriam ser identificados pelos nomes verdadeiros. Na rua, assumem outra identidade. Isso os ajuda a se distanciar das outras pessoas. Não consegui dormir naquela noite. Fiquei o tempo inteiro atento. O medo era maior que o sono. Todos os demais adormeceram. O casal e as duas crianças ficaram na escadaria da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Pela manhã, o pessoal da paróquia serviu uma sopa. Um deles me reconheceu e colocou a matéria a perder. Os moradores de rua ficaram desconfiados e se distanciaram de imediato. Em pouco tempo, não havia mais nenhum deles por ali. Nem os meninos ficaram. Um deles me mostrou um punhal, da distância, e fez gestos de estocagem em minha direção. Segui para a redação e produzi a matéria que nunca publicaram.
CUBA

Miguel Valente trabalhava para o jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1959, quando Fidel Castro, Che Guevara e companhia limitada assumiram o poder em Cuba. Quase meio século depois ele recorda daquele dia como se fosse ontem porque representou para ele uma oportunidade única de tornar-se mundialmente famoso. No entanto, estava lutando pela própria vida no meio de um fogo cruzado.
De um lado, os soldados do exército de Fulgêncio Baptista, o presidente constitucional; de outro, os comunistas, que brigavam pelo poder alegando que o povo cubano era explorado por Fulgêncio e que as riquezas do país eram cedidas para os Estados Unidos sem a devida contrapartida.
“Havia intensa propaganda de parte a parte, mas no fim os comunistas levaram a melhor porque havia muita pobreza. Fidel e seu pessoal conseguiram fazer a população acreditar que a ilha tinha enorme potencial inexplorado e que um governo popular poderia tranquilamente garantir a exploração destes valores e assegurar uma justa distribuição da renda”, relata Valente em conversa com o autor.
Valente afirma que despachava suas matérias todos os dias. Eram textos escritos à máquina sob supervisão do departamento de imprensa do governo Baptista. “A lauda tinha 30 linhas de 70 caracteres, algo em torno de 2.100 caracteres. Até que não era muito difícil tratar sobre a política cubana, os políticos viviam se exibindo para a imprensa, sobretudo os jornalistas estrangeiros, o grande problema era fazer com que os censores aceitassem o material. Muitas vezes a matéria estava pronta para ser enviada e a gente tinha que cortar tudo, escrever tudo de novo”, comenta.
A poucos dias da invasão, Miguel Valente foi chamado no Palácio Presidencial. Fulgênio Baptista estava acompanhado do general Zenóbio Dantas, que era o ministro do Exército e homem forte da segurança nacional. “Um torturador nato. Deve ter matado pra mais de cinquenta pessoas, entre culpados e inocentes. Ele matava comunistas, tinha ódio por eles, os seguidores de Fidel Castro eram seu brinquedo predileto. Os porões do governo estavam repletos de cadáveres insepultos, uma podridão, se quer saber”, revela.
Chegou ao palácio e deparou-se com uma situação totalmente incomum e que representava perigo real para sua vida. “Fulgênio era um homem sedutor, um sujeito de hábitos aparentemente refinados. Na verdade, viveu sempre às custas do poder. Sua família mandava no país há muitas décadas. Ele nunca soube o que era trabalho, esforço pessoal para conquistar objetivos. Ganhou a presidência de presente do pai, que havia ganho de presente do avô e assim sucessivamente. Uma sucessão efetivamente hereditária”, ironiza.
Fulgênio aproximou dele e falou mansamente que gostaria muito de contar com sua ajuda para livrar o país de uma situação de perigo. Disse que Cuba estava em risco de cair nas mãos dos socialistas sob o controle da União Soviética e que seria o fim para a sociedade cubana. Claro que Fulgêncio Baptista falava por si porque apenas a elite fazia jus às benesses do poder e obtinha alguma vantagem fora dele. A economia girava em torno dos hotéis e cassinos à beira mar. O Malecón, gigantesco calçadão de frente para o mar do Caribe, em Havana, era ponto de prostituição. Os homens ricos dos Estados Unidos iam para Cuba apenas para se divertir com suas belíssimas negras e mulatas.
“Jogo e prostituição eram o grande negócio. Fulgêncio era presidente e também o maior empresário. Tinha hotéis, restaurantes, postos de combustíveis, era dono das empresas de ônibus, das companhias de táxis, dos aeroportos e assim por diante. Era literalmente onipresente”, diz o jornalista afetado por uma angústia notável. Ele toma um gole d’água explica, explica que tem problemas renais como saldo da velhice e prossegue em suas lembranças.
O presidente queria que o jornalista se aproximasse de Fidel sob pretexto de fazer com ele uma entrevista e o executasse. No começo da década, Miguel Valente havia entrevistado Fidel Castro quando de sua prisão. Na condição de jovem advogado, o comandante foi acusado de incitar trabalhadores rurais contra o regime e amargou cinco anos de reclusão. Após a soltura, viajou para os Estados Unidos, recrutou apoio e empreendeu a revolução.
Miguel relutou. Disse ao presidente que não fazia sentido algum, que era apenas um jornalista e não tinha prática nenhuma com armas. Além do mais, Fidel estava muitíssimo bem guardado por seus seguidores. Chegar perto dele com uma arma e atirar contra o comandante era missão impossível. De outro lado, não havia como saber sua exata localização. Ele estava sob proteção e seu paradeiro era mantido sob sigilo. Somente seu irmão Raúl Castro e o médico argentino Ernesto Guevara Serna, o Che, tinham informações sobre a localização do comandante guerrilheiro.
A movimentação era intensa em Havana, milhares de pessoas deixavam suas casas em busca de proteção por temerem. Temiam serem atingidos no confronto que fatalmente se daria entre a guarda nacional e os revoltosos. Os sinais do enfrentamento cercavam a capital na forma de longas espirais de fumaça decorrentes de tiros e explosões, cujo barulho era ouvido cada vez mais perto.
“Eu disse ao presidente que não atenderia seu apelo mas ele colocou algumas fotos na mesa em minha frente. Eram imagens de minha mulher e minha filha, que ele mantinha em lugar incerto e não sabido. Neste momento, o general Zenóbio segurava o cabo da pistola, prevenido contra uma possível reação intempestiva, irada, de minha parte. Fiquei sem saber o que fazer, a vida de minha família estava nas mãos daqueles homens. Eu tinha que matar Fidel. Mas como?”, enfatiza.
O velho encara o repórter do alto de seus oitenta e poucos anos e continua falando sem parar. Relata que fez contato com núcleos da guerrilha alojados na periferia. Um deles, Ramón, prometeu de levá-lo até onde estavam Raúl e Che. Valente pensou em aproximar-se de Fidel, apoderar-se da arma de um dos seus guardas e executá-lo sem demora com um tiro na cabeça. Garantiria a liberdade de sua pequena família ao mesmo tempo em que atenderia o projeto de Fulgênio Baptista: a morte de Fidel, ele imaginava, colocaria um ponto final na revolução.
Conseguiu chegar até Fidel com muita dificuldade. Alegou que gostaria de uma declaração do líder horas antes da possível capitulação do poder vigente e que a matéria deveria ser publicada no Brasil e América do Sul dali a quarenta e oito horas. O comandante também posaria para fotos que seriam reproduzidas em jornais do Cone Sul e que certamente chegariam aos Estados Unidos, com quem o guerrilheiro já estava rompido. Os americanos lhe negaram apoio. Optaram por apoiar o presidente. Os revolucionários conseguiram ajuda do Kremlin. Era o auge da Guerra Fria.
A matéria de Valente seria de grande serventia para Castro e seus seguidores. Somente por isso o jornalista conseguiu chegar até o guerrilheiro pelas mãos de fontes muitíssimo privilegiadas que ele não revela até os dias atuais “nem a peso de ouro.”
“Estava nervoso e suando muito. O comandante bem ali na minha frente, falando sem parar, como é de seu costume, eu imaginando em meter-lhe uma bala na cabeça e não sabia como, porque sequer tinha uma arma. Os homens que o guarneciam eram autênticos cães de guarda, não descuidavam um só instante, em número de três. Pareciam dispostos a matar e a morrer. Tudo em nome da causa. Fidel era como um santo para eles. Pensei na hora: se eu conseguir matar o homem, jamais sairia dali com vida. De fato. Porém pensei em minha mulher e filha. Eu tinha que conseguir, tinha que matar Fidel Castro”, assinala.
Havia uma mulher entre eles. “Era Anita, amante de Fidel, mas que, muitos diziam, também transava com Raúl e Guevara.” Valente pernoitou num acampamento na selva. No dia seguinte andaria alguns quilômetros até um reduto ainda mais escondido aonde se encontrava o líder. Seus planos não foram percebidos. Pelo menos, não de imediato. Mas seriam. E aquilo seria muito ruim para ele.
Por pouco não perde a vida no meio da selva. “Pelo menos o clima era muito agradável – apesar dos mosquitos. Fazia frio a maior parte do tempo.” Fidel estava angustiado ao recebê-lo. Parecia não acreditar no que estava acontecendo. A guerrilha estava chegando ao final. Ele estava prestes a se tornar o chefe supremo da nação cubana. Mas ainda tinha um problema muito sério a resolver: Camilo Cienfuegos era bem mais popular e queria ser presidente.
“Perguntei a ele o que pensava em fazer logo que assumisse o poder, sua primeira providência como chefe revolucionário”, relembra Miguel Valente. “O guerrilheiro me olhou, ainda não era um bandido internacional mas apenas um político em ascensão que, acredito sinceramente, gostaria de melhorar a vida da maioria. Mas o poder corrompe. Fidel foi corrompido por ele.” Pretendia executá-lo ao final da entrevista avançando sobre a arma de algum dos guardas e logo em seguida fazendo Anita de refém.
“Anita era mulher conceituada junto aos guerrilheiros. Percebi quando ela sussurrou algo no ouvido de Fidel. Foi pouco antes de ele me receber em sua cabana. Era uma armação rústica de lona, folhas verdes e galhos retorcidos no meio da mata. O gigante barbudo estava de pé na entrada da toca e parecia me chamar ao seu encontro. Então ela se aproximou e disse algo bem baixinho para ele. Fidel me olhou furiosamente e fez um sinal para Raúl, seu irmão e cão de guarda. Che estava a alguns metros ajudando outros elementos a tirarem o couro de um animal abatido. Parecia, a mim, um veado. Mas não sei direito. Raúl segurou o cabo da pistola e caminhou em meu rumo. Daí ouvimos tiros, explosões e gritos. Os homens de Fulgêncio haviam seguido em nosso encalço. Eles chegaram para arrebentar com tudo, fortemente municiados e disparando sem piedade. Havia linhas de contenção em redor do acampamento, várias delas, e foi por isso que Fidel conseguiu escapar ileso. Fulgêncio jogara sua última cartada naquele ataque, ato de total desespero. Se eu eu não conseguisse, e não conseguiria, porque não sou assassino, seus matadores vinham logo atrás e cumpririam a tarefa. Nem uma coisa nem outra. Consegui escapar embrenhando-me na floresta densa, seguindo o rastro de alguns guerrilheiros covardes que, como eu, apenas queriam preservar a própria vida. Estavam desiludidos com o movimento e talvez soubessem, dias antes da marcha sobre Havana, que Fidel era um sujeito frio, sanguinário, apenas sedento pelo poder, como todo e qualquer ditador.”
Miguel Valente toma uma dose de conhaque. Um jovem que organiza seus escritos entrega ao repórter os originais de um livro intitulado “Minha história em Cuba” que ele escrevera há décadas e que pretendia publicar. “Nunca consegui editora. Naquele tempo a imagem de Fidel Castro e seus sequazes era muito romantizada tanto pela direita quanto pela esquerda. Os donos de editoras não queriam se comprometer. Um livro contra Fidel não venderia nada. O contrário de livros a favor dele e de seus matadores, que vendiam aos montes, como se eles fossem realmente pessoas preocupadas com o bem estar social. Nunca houve esta preocupação. Sou testemunha ocular de tudo o que aconteceu na ilha nos dias subsequentes. E escapei com vida por muito pouco. Consegui resgatar minha mulher e filha porque elas se esconderam num recanto do palácio presidencial logo após a fuga de Fulgêncio Baptista e seus ministros. Muita gente do antigo regime se refugiou ali e foi fuzilada. Minha família, graças ao Criador, escapou sem um arranhão. Como jornalista eu havia construído uma excelente rede de relacionamentos, igual à que me levara até o barbudo. E foi por meio destes amigos, muitos tombados em sacrifício pela crueldade do tirano, que consegui embarcar para Miami e logo em seguida para o Brasil. O pessoal do Diário de Notícias ficou felicíssimo em me ver. Escrevi a melhor reportagem de toda a minha vida. Foram inúmeros prêmios. Dei palestras ao longo de meses a fio. No Brasil, outra revolução estava em curso, tão ruim quanto aquela. Mas essa é outra história sobre a qual podemos tratar oportunamente.”
O jornalista pergunta se Miguel gostaria de voltar a Cuba para ver a quantas anda a revolução socialista dos Castro. “De modo algum. Sou persona nón grata para o regime castrista. Mesmo que o ditador esteja doente, quase à morte, isso não importa. Meu nome foi lançado no rol dos culpados. Se eu colocar os pés na ilha serei imediatamente fuzilados. Muitos foram antes de mim. Os fuzilamentos sumários continuam a acontecer até hoje. Cuba, nunca mais.”
sábado, 15 de maio de 2010
A BATALHA E O CANGAÇO

A Batalha do Jenipapo é a principal referência histórica do Piauí. Ocorreu em 1823 anos na vila de Campo Maior, situada a 82 quilômetros de Teresina -- quando a capital ainda nem existia. Na época, a região era um dos principais pólos econômicos da província, apesar da pobreza da maioria dos seus habitantes.
Os campomaiorenses fizeram a batalha estimulados pelo desejo de independência, não a independência no sentido patriótico, mas a busca da independência econômica. Formada na sua maioria por vaqueiros e roceiros, praticamente todos os moradores da vila eram agregados dos fazendeiros portugueses.
Engajaram-se na luta, portanto, diante da promessa de conquistarem a sua própria terra para morar e plantar. Por outro lado, a vila se transformou numa região infestada de bandoleiros. Cem anos antes de Virgulino Ferreira, o Lampião, havia Vicente Bezerra da Costa, um cangaceiro que atormentava proprietários lusitanos com seqüestros e assassinatos sem conta e sem punição.
O matador tinha a proteção dos líderes políticos revoltosos e chegou a ter suas ações rechaçadas pelo governo português, mas nunca pagou pelos seus crimes. Ao contrário disso, foi elevado à condição de herói da independência.
Seus feitos foram reconhecidos pelo futuro oligarca Né de Sousa, o Visconde da Parnaíba, como de extrema importância para a conquista da independência da província. Vicente Bezerra era uma espécie de ancestral do cangaço. Matava e roubava sem dó nem piedade.
Espalhava o terror não apenas entre os fazendeiros portugueses, mas entre os portugueses em geral, mesmo aqueles que conviviam harmônica e pacificamente com os demais moradores da vila. Houve muita desordem antes, durante e depois da batalha de 13 de março, anualmente comemorada e incorporada como feito do exército brasileiro em 1993.
O combate que causou a morte de mais de duzentos piauienses em cinco horas durou de nove da manhã às duas da tarde. Imediamente depois, os valentes lutadores invadiram a vila saqueando tudo quanto podiam, juntamente com os mercenários de Fidié. E praticaram um crime que ficou registrado como de extrema crueldade.
Massacraram quase vinte portugueses que estavam encarcerados na cadeia pública a golpes de foice e machado. Mataram-nos sem nenhuma chance de defesa. Apesar de tudo, a Batalha do Jenipapo consolidou a independência do Brasil e deu forma à nossa unidade territorial, um país gigante de 8,5 milhões de quilômetros quadrados.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
FIXAÇÃO
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Imagino que todos vocês tenham tido desilusões amorosas. Eu tive muitas. Sobrevivi para contar a história. Ou as histórias. Nenhuma como a de Marluce. Era linda desde pequena. Eu a conheci quando tinha talvez oito anos. Eu, a mesma idade. Nossas famílias eram amigas de há muito. Nos encontrávamos em finais de semana durante visitas que minha mãe fazia à mãe dela e aproveitávamos para brincar às escondidas. Na infância, trocávamos beijos à moda dos artistas de tevê.
Eu te amo, ela me dizia, sem saber absolutamente do que se tratava aquela palavra. O amor verdadeiro talvez seja este de que se fala sem o conhecimento do seu significado. A palavra, a inocência, tudo em profundidade, brotando do mais fundo de nossa alma. Eu a abraçava com ternura, imaginando-a minha mulher no futuro. Eu também te amo, dizia para ela, e tocava seus lábios com meus lábios, como se fôssemos feitos um para o outro. Nunca me senti tão feliz em toda a minha vida como naqueles anos em que brincava de casal com Marluce.
Alguns meses depois sofri um terrível acidente que me tirou parcialmente a mobilidade dos membros inferiores. Morávamos em uma cidadezinha perto de Teresina. Fui submetido a várias operações e a um tratamento demorado. Fiquei muito tempo hospedado em casa de Marluce. Sua mãe, dona Graça, era uma mulher extraordinária, que fora abandonada pelo marido e criava sozinha os filhos – a partir do exaustivo trabalho no pensionato que mantinha no centro. Estava triste, deprimido, não queria que Marluce me visse naquela situação, com as pernas engessadas, jogado ora sobre um colchão d’água, ora sobre a cama de um hospital. O teto branco, horas intermináveis, no rádio canções de época. Me acostumei a ouvir as vozes de Agnaldo Rayol, Jerry Adriani, Paulo Márcio, Odair José, Benito de Paula, transmitidas em programas das rádios Clube, Pioneira e Difusora. Também gostava de programas jornalísticos apresentados por Deoclécio Dantas, Chico Figueiredo, Carlos Augusto e Tomaz Teixeira, dentre outros.
Eram os anos 70. Teresina era então uma cidade provinciana, de hábitos simples. As pessoas se reuniam na praça para conversar. Não fazia tanto calor como agora. Havia poucas ruas asfaltadas. Prédios, praticamente não existiam. No centro, um dos mais altos era o sobrado de dona Graça. O que houve contigo?, Marluce me perguntou. Fiquei sem saber o que dizer para ela. Vou ficar paralítico, falei. O que é paralítico? Não sei. De fato, não sabia. Apenas ouvira minha mãe fizer para minha tia que em seguida disse para meus irmãos. Todos ficaram com os olhos marejados de lágrimas e eu fui tomado por uma estranha sensação de insegurança que desaparecia por completo quando estava perto de Marluce. Ela me fez companhia por algum tempo, porém à medida em que os anos passavam deve ter entendido o que era paralítico e por isso foi se distanciando de mim, até que desapareceu por completo, sem deixar vestígios.
A situação financeira de minha família mudou drasticamente no começo da década de 80. Minha mãe tinha algumas economias na poupança bancária que foram tragadas pela inflação galopante nos estertores do regime militar. Também gastou muito dinheiro com meu tratamento. Possuía muitos imóveis em diversas cidades da região norte e teve que se desfazer da grande maioria deles para custear minhas cirurgias. Algumas delas foram feitas em outros estados. Só em São Paulo ficamos durante quase um ano. Minha mãe também não tinha marido. Eles haviam se separado há muitos anos. Tive uma infância longe do meu pai. Parece que ele tinha outra família e sua mulher não gostava nada que ele se relacionasse com os filhos do matrimônio anterior.
Minha adolescência foi difícil. Sem dinheiro, muita precisão. Em alguns dias, tínhamos comida. Em outros, não. Quando tínhamos comida, não havia gás. Quando havia gás, raramente havia alimento. Eu estudava e lia muito. Às vezes ficava deitado no terraço de casa mirando as estrelas, sem saber ao certo o que seria de mim. Pensava em Marluce como uma daqueles pontinhos de luz no Universo. Onde estaria naquele momento? Com quem estaria? Ficava pensando em seu abraço, em seus lábios, em como ela silenciosamente desistira de mim. Minha tristeza era enorme.
Conheci outras garotas. No entanto, não podia firmar compromisso com nenhuma delas. Não havia dinheiro para nada. Nem mesmo para levar uma namorada ao cinema ou a uma lanchonete. Aqui e ali sobrava algum e então eu aproveitava para pagar um sanduba. Coisa sem classe. E sem futuro. Quem iria querer namorar um sujeito sem dinheiro e naquelas condições físicas? Passei três anos em cadeira de rodas, consegui andar por esforço próprio. Os médicos já haviam desistido de mim. Eles disseram para minha mãe que eu não conseguiria. Um deles, que depois se tornou político, falou que ela deveria ser forte para suportar a verdade. Caí, levantei, errei, aprendi, voltei a andar e aqui estou, tentando tocar a vida com alguma esperança.
Tive uma namorada linda. Chamava-se Leila. Devia estar com treze anos quando a conheci. Eu contava dezesseis. Nos conhecemos no ônibus, na volta da escola. Corria o mês de março, as chuvas eram intensas, o nível dos rios Parnaíba e Poty aumentou consideravelmente, invadiu ruas, casas, estabelecimentos comerciais. O trajeto dos coletivos teve que ser alterado porque a avenida Maranhão estava completamente inundada. Lá estava Leila, com seus olhos pretos, profundos, o olhar preso ao meu, indefinidamente, por todo o percurso. Não consegui desligar-me dela por todos os dias seguintes até que descobri onde morava. Tomei coragem e fui até sua casa.Fiz e declamei poemas para ela. Princesa da tarde. Ficou encantada comigo.
Começamos a namorar e então ela decidiu me fazer uma surpresa. Foi até minha casa. Eu estava em meu quarto ouvindo música num toca-fitas que ganhara de presente de aniversário de minha tia. Ritchie cantava “A vida tem dessas coisas” e Leila adentrou o quarto com olhar estranho. Parecia estar em outro mundo, um lugar de pobreza extrema que ela só conhecia de ouvir falar. As paredes estavam sujas, havia poucas cadeiras, não havia sofá, a televisão ainda era em preto e branco. Em outra época aquele aparelho de tevê fora saudado como uma grande conquista. Minha mãe tinha dinheiro e comprara a primeira tevê da sua cidade. Centenas de pessoas vinham para nossa todas as noites para assistir aos programas da antiga TV Tupi ou da nascente TV Globo. Mas naquela tarde muito tempo decorrera e Leila encontrou-nos em uma situação completamente adversa. Foi demais para ela. Seu poeta era um pobretão. Além de tudo.
Os dias seguintes foram de depressão. Pensei que ia enlouquecer. Não conseguia me concentrar nos estudos. Ficava lembrando de Leila, seu olhar, seus beijos. Marluce estava banida da minha mente. Pelo menos por enquanto. O sentimento por Leila persistiu além da conversa que tivemos, posteriormente, na praça Pedro II, quando implorei que ficasse comigo. Ela disse que não, porque era muito nova e pretendia investir mais nos seus estudos. Queria ser alguém na vida e por isso não podia se envolver seriamente com ninguém. Mas por que não deixamos a coisa evoluir, por que não aproveitamos o fato de estarmos juntos, a beleza de sermos felizes no esplendor de nossa juventude?, argumentei. Por favor, Boris, é melhor assim. Não insista porque assim sofremos mais. Meu abalo foi maior quando apenas alguns dias depois deparei com ela, em plena praça João Luiz Ferreira, por volta das treze horas, aos abraços e beijos com um camarada de cor que era filho de empresário e morava na zona leste. Tudo por dinheiro.
Leila deixou de existir como num passe de mágica. Foi aí que Marluce reapareceu. Matriculei-me para o ensino médio numa escola particular do centro. No segundo dia de aula ela adentrou a sala com uma elegância no andar que nunca vi em outra pessoa. Cabelos loiros, olhos verdes, lábios finos, a sensualidade latente, embora não proposital. Lembra de mim? Pareceu não me reconhecer, a princípio, mas em seguida disse que sim, que lembrava, era Boris, o filho de dona Luiza, grande amiga de sua família. Como está sua mãe? Bem, respondi. Vocês ainda estão morando em Cidade Alta? Não, estamos em Teresina, no Saci. Bom te encontrar. Aparece lá em casa qualquer dia. Minha mãe vai adorar.
Nem tanto. Dona Graça fez pouco caso de minha chegada. Não queria a filha envolvida com um pobre qualquer. Mesmo que fosse filho de amiga. Que amizade é essa?! Você pode até pensar que tenho complexo de Peter Parker. Não é bem assim. Estou contando a mais pura verdade. Nunca me abri tanto sobre meu passado como agora. Marluce queria ficar comigo e demonstrou isso nos primeiros dias após nosso reencontro. Foi aí que entendi o que de fato havia acontecido. Ela fora afastada de mim por influência de seus familiares, que achavam demasiado para ela carregar-me como peso quase morto ao longo da existência. Como se eu nunca fosse voltar a andar ou então fosse ficar encostado o resto dos meus dias. Talvez fosse esta a impressão que eu causava naqueles dias depois do acidente.
O fato de estar mergulhado em pobreza não parecia importar muito para ela. Parecia sinceramente feliz ao meu lado. Ouvíamos músicas de Michael Jackson, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Legião Urbana. Todas pareciam feitas sob medida para nossa história. Em "Fixação", Paula Toller cantava "Seus olhos no retrato, minha assombração, fantasmas no meu quarto, i want to be alone..." Queríamos apenas estar juntos.
Eu quase nunca tinha dinheiro. Ela pagava a conta do lanche durante o recreio na escola. Quando saíamos, eu conseguia emprestado o carro do meu vizinho que era jogador de futebol. Ele confiava cegamente em mim mesmo sabendo que eu não possuía carta de habilitação. Eu e Marluce namoramos muito em seu velho fusca. Em diversas oportunidades tivemos que nos conter para não chegarmos às últimas consequência. Nos gostávamos tanto que queríamos fazer amor de uma forma planejada, de modo a não impor nenhum sacrifício ao outro ou a quem quer que fosse.
Minha mãe começou a se preocupar. Estou achando que você e esta garota estão ficando muito tempo juntos. É melhor tomarem cuidado. Nem você nem ela têm qualquer condição de assumir relacionamento agora. Você, principalmente, que não tem onde cair morto. Minha mãe não precisava falar desse jeito. Nunca entendi ao certo porque fez isso. Acho que a senhora está exagerando. Não pretendo casar agora. Nem Marluce. E por que passam tanto tempo juntos? Ela te liga o tempo inteiro. A vizinha já até reclamou. Diz que está cansada de te chamar pra atender telefone na casa dela. Falei com Marluce e pedi que não ligasse mais pra casa de minha vizinha da direita. Ela passou a ligar para o vizinho da esquerda ou então para a casa de meu amigo jogador, que era um pouco longe, isso quando eu não ligava pra ela, porque ficava aquela vontade em mim de estar ao seu lado e eu conseguia compensar ouvindo sua voz macia. Ajude-me, eu dizia; beije-me, ela dizia.
Fizemos amor num dia em que sua mãe viajara pro Rio de Janeiro. A pretexto de fazer trabalhos da escola, Marluce inventou de dormir na casa de uma amiga. Os irmãos de nada desconfiaram. Ficamos em casa de sua amiga por toda a madrugada. Dormimos e acordamos várias vezes. Nos amamos de todas as formas possíveis e imagináveis. Não quero ter filho agora, disse ela. Eu também não. No entanto, quero que fique ao meu lado pra sempre. Acha que é possível na situação em que estamos hoje? Claro que sim. Querer é poder, ela disse. Nunca mais consegui viver tão intensamente uma relação. Não me deixe nunca. Promete?, ela disse. Claro que sim. Nunca vou deixar. Prefiro antes a morte. Lágrimas em seus olhos. Eu te amo, ela falou. Eu também. Como quando éramos crianças. Só que agora éramos adolescentes, quase adultos, estávamos cada vez mais perto de realizar nosso antigo sonho de nos tornarmos marido e mulher. De verdade.
Nenhuma felicidade é para sempre. Marluce já conhecia Gustavo. Os dois tinham ficado antes. Ele era filho de um fazendeiro rico do interior do Maranhão. Estudava em Teresina e ficava hospedado no pensionato de dona Graça. Dividia o mesmo teto com minha doce amada. Conseguiu roubá-la de mim com muita insistência e mimos. Creio que ela tenha resistido inicialmente. Mas o poder corrompe. Sobretudo o poder do dinheiro. A mãe era louca por gente de posses. Eu não tinha absolutamente nada a oferecer à sua filha que não fosse o meu amor. Segundo ela, não existe amor que consiga sobreviver à falta de grana. Talvez dona Graça tenha razão. Desisti de tentar entender esse tipo de gente e esse tipo de sentimento.
Numa tarde de sábado, cheguei para apanhá-la em casa. Havíamos combinado de ir ao cinema. Mandou dizer que não estava. Na semana seguinte, tentei falar com ela por telefone todos os dias. Não consegui. Ela nunca atendia. Dava uma desculpa qualquer, dizia estar com dor de cabeça ou então estudando para provas. No sábado seguinte cheguei em sua casa e ela de fato não estava. Geraldo, seu irmão, me disse que ela havia saído para o Jóquei Center em companhia de Rosália, sua melhor amiga. Decidi seguir até lá – eu não devia ter feito aquilo. Marluce estava trocando um caloroso beijo com Gustavo enquanto sua amiga Rosália conversava animadamente com o namorado, que parecia lhe dizer palavras doces e que de vez em quando bebericava uma dose de rum. Pensei em fazer um escândalo, entretanto me contive porque seria um papel ridículo. Melhor seguir em frente.
Outro dia a revi. Está mais linda que nunca. Tem filhos lindos também. De vez em quando lembro de sua voz na infância me dizendo “eu te amo”. Suas palavras fazem eco na adolescência e me perseguem até hoje. Saudade.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
UM REPÓRTER

Túlio Bragança apresenta o programa de rádio de maior audiência de Cidade Alta. Na emissora Capital FM ele centraliza todas as atenções por conta da coragem em denunciar os poderosos de plantão. Independente do partido ou condição que ocupam, os que incorrem em ilegalidades são sempre relacionados em sua fala que acontece diariamente entre 7h e 9h. Os ouvintes estão acostumados a ir para o trabalho escutando o programa Primeira Edição. Túlio está no ar há pelo menos 15 anos. Tem 20 anos de profissão como jornalista e um apego tremendo ao direito de expressão.
Certa feita entrou em atrito com um dos diretores da emissora porque o dito cujo havia lhe pedido que não noticiasse um fato envolvendo filho de uma autoridade política do município. O jovem se envolvera em acidente de trânsito completamente embriagado e provocara a morte de uma adolescente que andava com ele altas horas da madrugada. No mesmo acidente ficou ferido gravemente um senhor de 40 e poucos anos, casado e pai de vários filhos, sendo que a vítima ficou paraplégica. Era pedreiro e por isso não teve mais condições de trabalhar, sendo sustentado pela caridade alheia e aguardando aposentadoria do INSS.
Túlio não aceitou não divulgar. O diretor o ameaçou de demissão. Ele renunciou ao emprego. Disse que tinha orgulho em ser radialista e que se mirava em grandes exemplos do passado recente do Piauí, que tinham colocado a própria vida em sacrifício em nome da liberdade de expressão. Lembrou ainda que no tempo da ditadura inúmeros profissionais foram perseguidos e torturados para que tivéssemos o direito de colocar abertamente nossos posicionamentos políticos, ideológicos ou religiosos. "A liberdade de expressão é a minha razão de existir", proclamou, em sua reação ao tal diretor.
Claro que o conselho de gestão da rádio não aceitou o pedido de Túlio. Ele foi mantido no programa e o diretor nunca mais o importunou. Algum tempo depois, o sujeito é que foi demitido por envolvimento com corrupção na prefeitura. Fora flagrado em vídeo recebendo propina do prefeito para não divulgar denúncias sobre obra superfaturada na área de saneamento. O radialista divulgou a notícia, o prefeito se enfureceu com a divulgação e então decidiu divulgar o vídeo que ele mesmo gravara para tentar enlamear a honra de Túlio. Somente o diretor participara da transação ilícita, sendo portanto punido com afastamento sumário.
***
Em outra oportunidade, o polêmico radialista foi acusado de sensacionalismo por vereadores da situação. Túlio havia denunciado que eles eram serviçais do prefeito e apresentou provas de que os parlamentares vinham recebendo, desde o início do mandato, pagamento extra da prefeitura, um dos quais na forma de combustível para os seus veículos. O prefeito negou a acusação e afirmou que Túlio Bragança era conhecido como sensacionalista convicto, querendo apenas com isso ganhar projeção política para, quem sabe um dia, pleitear mandato eletivo. "Sua afirmação não tem razão de ser. O Poder Legislativo é autônomo. Os vereadores votam de acordo com suas consciências. Agora, existe independência mas também existe harmonia. O prefeito não se nega em dialogar com os nobres integrantes da Câmara Municipal de Cidade Alta", foi o que disse o prefeito em sua resposta gravada à emissora.
No dia seguinte, Túlio Bragança levou ao programa dezenas de cópias de autorizações assinadas pelo prefeito em favor dos vereadores da base aliada, todas para abastecimento dos seus veículos particulares. "O sentimento de impunidade é tão grande que eles sequer se preocupam em esconder o fato... A corrupção é praticada à luz dos olhos de todo o povo altaneiro... Tenho aqui as notas, tenho aqui a assinatura do senhor prefeito e também os nomes dos beneficiários. Ele coloca tudo, no alto o nome do vereador, em seguida informa: 'autorizo abastecimento deste veículo com tantos litros de gasolina ou álcool ou diesel', conforme seja, e prossegue datando e assinando... Ele (o prefeito) sabe que nada lhe acontecerá, por isso age dessa forma, em total desrespeito à lei e à sociedade deste município, que trabalha duro e paga seus impostos..."
Em nenhum momento ele chamou o prefeito de ladrão. Mas alguns vereadores da situação foram à tribuna para acusá-lo de ter feito discurso político e fazer sensacionalismo ao chamar o prefeito de ladrão. Túlio Bragança era assim. Apresentava os fatos para que a população fizesse o seu julgamento.
***
O vereador Prudêncio Delgado, líder da oposição, tentou instalar CPI na Câmara Municipal para apurar a denúncia de doação de combustíveis para os parlamentares governistas.
- Somente uma Comissão Parlamentar de Inquérito terá a condição necessária para investigar a fundo este absurdo que é denunciado por cidadão de nossa comunidade. O radialista tem razão em dizer que a prefeitura está tomada por uma gestão que age ao arrepio da lei e que acredita plenamente na impunidade. Temos que virar este jogo rapidamente...
O líder do prefeito, vereador Juca Vaz, também se pronunciou. E procurou ironizar o orador que o antecedeu:
- Vossa Excelência sabe muito bem que isso não existe... Talvez tenha havido no passado, quando o esquema ao qual Vossa Excelência pertencia, governou o município. No atual governo predomina a seriedade, a honradez, o prefeito é um homem justo e sério que apenas trata bem os seus aliados. Mas ele não nos confere nenhum privilégio além do que já temos como direito.
Os ânimos ficaram exaltados quando Vaz completou:
- O que acredito mesmo, nobre colega Prudêncio Delgado, é que Vossa Excelência está se "roendo" porque gostaria de ganhar uma gasolinazinha, né não?!
Foi o suficiente para o plenário da Câmara se transformar em palco de baixaria.
- Vossa Excelência me respeite!
- Vossa Excelência não é digno de respeito.
- Quem não é digno de respeito é Vossa Excelência, que recebe ordem de gasolina do prefeito...
- Vossa Excelência me faz uma acusação séria, espero que tenha como provar...
Alguns mais comedidos tentaram amenizar o espírito beligerante dos contendores. Não foi possível.
Àquela altura, Prudêncio Delgado e todos os demais membros da bancada de oposição já dispunham de cópias das notas assinadas pelo chefe do executivo em favor dos membros de sua numerosa bancada.
Ele arremessou um pacote de autorizações na cara do adversário.
- Vossa Excelência quer provas?! Pois tome!
Juca Vaz estava segurando um copo de água, pois tinha costume de beber enquanto falava, e jogou o objeto contra Prudêncio.
Ato contínuo saltou da tribuna em cima do outro e começaram a trocar murros bem ali, diante de toda a assistência popular das galerias.
O povo urrava de contentamento, haja visto que espetáculo semelhante há muito não era visto.
Depois de muito pelejar, os demais parlamentares conseguiram conter os brigões e retirá-los da arena, levando-os cada um para seu gabinete.
O presidente encerrou a sessão lamentando que um simples radialista com seu desejo insano de aparecer tenha causado tamanha conturbação ao Poder Legislativo do município.
Ele foi amplamente vaiado pela plateia, embora tenha dito que o regimento interno não admite a manifestação das galerias.
O presidente da Câmara é aliado político do prefeito.
***
O filho do prefeito chama-se Germano. É um desocupado.
Aos quase 30 anos de idade não conseguiu concluir o curso de engenharia para o qual fora admitido na Universidade Federal há pelo menos 9 anos. Também não arranja emprego porque simplesmente se recusa em acordar antes do meio-dia.
Passa as madrugadas na esbórnia e recentemente se envolveu em acidente de graves repercussões. Menos para ele, que nada sofreu, a não ser o prejuízo do carro, que ficou completamente danificado.
- Mas isso meu pai compensa - proclamava em rodas diversas de bebedeira.
Túlio Bragança ficou indignado com sua insensibilidade perante ao sofrimento que causara e fez editorial em que destacou o perfil de aberração que o filho de Sua Excelência, o prefeito municipal, gosta de exercer.
Germano o esperou na saída da rádio armado com uma pistola 7.65mm e quando Túlio dirigia-se ao estacionamento ele disparou três vezes seguidas. Os tiros foram desferidos em direção ao radialista mas nenhum deles acertou o alvo. Em contrapartida, atingiram a perna de um vendedor ambulante que trabalhava na praça do Centenário.
Túlio teve sorte porque Germano estava embriagado. O valentão foi contido por alguns policiais que passavam pelo local, porém ao invés de ser preso foi levado para casa e de lá despachado para a capital, em carro sob disfarce.
- A prefeitura deslocou uma ambulância para transportar Germano à capital - contaram ao radialista.
No dia seguinte, em seu programa, ele lamentou o incidente e comunicou aos ouvintes que estava encaminhando expediente ao governo do estado, solicitando providências, mas que não iria andar com seguranças. "Minha segurança está em Deus." Dezenas de cidadãos do povo se colocaram à sua disposição para protegê-lo de quaisquer outros atentados dali por diante.
Túlio não teve como recusar.
***
Os jornais da capital repercutiram o lamentável episódio:
FILHO DE PREFEITO TENTA MATAR JORNALISTA
Foi em Cidade Alta. Túlio Bragança apresenta programa em rádio local. Germano Matoso está foragido. Polícia é acusada de conivência.
***
O radialista Túlio Bragança tem posição clara sobre a corrupção que assola os negócios públicos no país:
- É um câncer que lentamente destroi o tecido social brasileiro e que infelizmente não é combatido como deveria.
Sobre o denuncismo da imprensa e do qual também é acusado:
- Corrupção não se combate com notícia de jornal. Também não se combate esperando que o eleitor vá dar o troco aos ladrões no dia da eleição. Está provado que isso não funciona.
Para ele, só existe um meio de combater a roubalheira:
- Tem que fortalecer as instituições. O estado democrático de direito tem que funcionar. Polícia, Ministério Público e Tribunal de Justiça têm que se juntar para acabar com a impunidade.
***
Numa noite, em casa, recebeu ligação do vereador Juca Vaz.
- Pode falar?
- Claro.
- Falo em nome do prefeito. Ele gostaria de ter uma conversa com o nobre radialista.
- Nem tão nobre assim, caro vereador. Mas qual é mesmo o assunto de Sua Excelência para comigo?
- O assunto é privativo. Ele gostaria de tratar pessoalmente.
- Diga ao prefeito que posso recebê-lo amanhã na emissora, a partir das 9h, logo em seguida ao término do Primeira Edição.
O vereador emitiu uma risadinha sarcástica.
- Tem que ser na casa dele.
- Na casa do prefeito?!
- Sim. Claro. Algum problema?
- Todos. Na casa dele não vou. Lamento.
E desligou o telefone.
***
De outra vez, foi o presidente da Câmara quem o abordou no meio da rua.
- Podemos falar um minutinho?
- À vontade.
- Por que tem se recusado a um diálogo conosco?
- Não entendo que tipo de diálogo poderíamos ter. O espaço na emissora está aberto a todos vocês no instante em que desejarem.
- Não falo deste tipo de diálogo.
- E o que seria, vereador?
- O local não é apropriado... É assunto particular... Poderíamos conversar em meu gabinete, na Câmara, ou então em minha residência.
- Lamento, presidente, mas não temos nenhum assunto em particular.
Afastou-se caminhando apressado.
O presidente gritou:
- Você vai se arrepender...
Ele respondeu:
- É o que veremos.
***
Túlio Bragança compareceu à delegacia para prestar queixa e pedir esclarecimentos ao delegado sobre a fuga de Germano Matoso.
Aproveitou a oportunidade para fazer uma entrevista com a autoridade policial.
O delegado explicou que não tivera conhecimento de fuga nenhuma e que os policiais estavam na captura do elemento.
Disse ainda que não procedia a afirmação de que policiais sob seu comando tinham dado guarida ao atirador e que todos estavam empenhados em resolver o problema com a maior brevidade.
- O senhor não acha estranho que ele tenha sido contido por policiais e que logo depois, mesmo estando armado e alcoolizado, tenha conseguido evadir-se? - questionou o radialista, sempre com o gravador ligado.
O delegado:
- De modo algum. Os policiais o contiveram e estavam se preparando para conduzi-lo à delegacia quando foram surpreendidos por verdadeira multidão que clamava pela libertação do rapaz. Eles se descuidaram apenas um minuto para tentar conter a turba enfurecida e quando deram por si o indivíduo havia escapado. Mas a sociedade pode ficar tranquila que estamos diligenciando e em pouco teremos o acusado em detenção para que responda pelo seu ato.
- Delegado, me desculpe, mas de que multidão o senhor está falando? Consta que não havia multidão alguma em defesa do acusado. Pelo contrário. Houve muita gente que protestava contra ele, acusando-o de baderneiro e assassino...
- Isso é o senhor quem está dizendo... Tenho aqui depoimentos de policiais honrados, trabalhadores, que diariamente saem às ruas arriscando a própria vida para garantir que a população de Cidade Alta tenha segurança.
- Outro fato que também não está sendo compreendido pela sociedade altaneira é que ele tendo contribuído para a morte de uma pessoa e deixado inválida outra continue dirigindo tranquilamente pelas ruas da cidade, na grande maioria das vezes totalmente embriagado. O senhor tem conhecimento deste fato?
- Não, não tenho, estou sabendo agora e garanto que vamos apurar.
A entrevista foi levada ao ar e logo em seguida Túlio comentou:
- O delegado, com suas palavras, demonstra seu alinhamento com o esquema do prefeito. Demonstra que sua polícia não está para garantir a segurança da sociedade coisa nenhuma. O delegado não prende Germano porque não quer. E não importa para ele, delegado, quantas vítimas este indivíduo venha a causar, quanto sofrimento ele venha a provocar ainda mais em nossa cidade.
Ouvindo o programa, o delegado ficou furioso e esmurrou a própria mesa. Acariciou a pistola e pensou que mais dia menos dia o tal radialista teria o destino merecido.
***
Azenário Matoso, o prefeito, encontra-se com o vereador Prudêncio Delgado. Os dois se cumprimentam de má vontade e Matoso interpela seu adversário:
- Não sou contra a oposição cumprir o seu papel. Sou contra um vereador como senhor, que é experiente e tem compromisso com a cidade, se deixar levar por um desocupado e arruaceiro como Túlio Bragança. Difícil de entender.
- Não acho que Túlio Bragança seja um arruaceiro. Muito antes pelo contrário. Acho apenas que ele exerce plenamente o seu papel de bem informar à nossa população e logicamente que isso não agrada aos que se utilizam do poder indevidamente. Aos que tentam transformar o poder público em patrimônio privado. E sobretudo aos que mentem para o povo, fazendo promessas de realização e transparência que nunca se cumpriram.
O prefeito se afastou rapidamente porque um pequeno ajuntamento de curiosos estava se formando em torno deles. Dali a pouco seriam inúmeros e o falatório seria geral.
***
Prudêncio Delgado o procura em sua residência. Era por volta de 22h. Ficou ligeiramente apreensivo, mas tranquilizou-se ao perceber de quem se tratava.
- Quanta honra! Em que posso servi-lo?
Convidou o vereador a entrar. A esposa Tâmara já estava recolhida.
- Vim manifestar minha preocupação e o meu temor.
- Em relação a quê?!
- Tenho para mim que o nobre radialista está correndo um risco muito grande.
Sorriu. Sempre correra riscos.
- O risco é inerente à minha profissão.
- Nem por isso devemos exacerbar do direito.
- Tenho me mantido reto.
- Sei disso, digo quanto ao direito de correr riscos. Entendo que todos temos a nossa cota. Sou seu amigo, estou sinceramente preocupado.
- Não se preocupe. Tudo está sob controle.
- Tem certeza.
- Claro.
Prudêncio despede-se apreensivo. Em seu íntimo pressentia que algo de ruim estava para ocorrer com Túlio. Bem mais cedo do que imaginava.
***
Dali a alguns dias, Prudêncio enviou-lhe uma mensagem acompanhada de um litro de uísque do bom. O texto dizia:
"Lamento causar-lhe apreensão. Talvez tenha razão e as coisas estejam sob controle. Desejo-lhe muita sorte. Abraços,
P.D."
Mandou devolver o litro de uísque com a seguinte mensagem:
"Não posso aceitar o presente. Espero que entenda. Quanto ao mais, agradeço. Fraternalmente,
T.B."
***
Os altaneiros, como são chamados os moradores de Cidade Alta, são pessoas simples na sua maioria. A economia do município tem base na agricultura, pecuária e prestação de serviços. O comércio é incipiente e portanto insuficiente para atender as demandas do lugar. Tanto que a maioria dos habitantes sempre recorre à capital em busca de produtos de maior qualidade e serviços especializados.
Para a próxima campanha, o prefeito promete a criação de um distrito industrial, a perspectiva de atração de indústrias por meio de incentivos fiscais e consequentemente a geração de empregos em quantidade suficiente para transformar completamente, e para muito melhor, a face sócio-econômica e cultural do município.
Túlio contesta. O radialista explica que se trata apenas de marketing político porque a população, para conseguir os empregos, deve estar preparada. Ele defende a implantação de uma escola técnica municipal em que as pessoas, sobretudo os jovens, possam obter a qualificação necessária para conquistar espaço no mercado de trabalho, seja em Cidade Alta ou em qualquer parte do Brasil.
O prefeito rebate e enfatiza que essa conversa de escola técnica municipal é fiada porque se trata de empreendimento que pode ser feito unicamente pelo governo federal, não tendo a municipalidade condições suficientes para assumir projeto de tamanha envergadura.
***
Estava saindo da rádio, logo depois do programa, quando foi abordado por um conhecido.
- Quero te fazer um alerta.
- Um alerta?!
- Sim. Um alerta.
- Sobre o quê?
- Estava andando no mercado quando me deparei com um sujeito conhecido. Esteve por aqui há muito tempo. Me parece que é foragido da Justiça. Um sujeito perigoso, que tem mortes nas costas.
- Então vamos denunciar no programa.
- Não é disso que estou falando, Túlio.
- E o que é?
- Tu não é imortal. Tem que se precaver. Está falando demais. Vai por mim.
E afastou-se rapidamente.
O radialista ficou olhando o homem de fala tranquila se distanciar.
***
O corpo foi encontrado dali a dois dias.
Tinha dois buracos de bala na cabeça.
Num deles, o projétil saíra por trás arrebentando a caixa craniana.
Os moradores de uma localidade rural distante foram avisados pelo grande número de urubus sobrevoando o cadáver em decomposição.
No descampado, folhas espalhadas com anotações para um programa que nunca realizaria:
“Prefeito contrata pistoleiro para executar radialista”...
domingo, 2 de maio de 2010
CONTO DA PROVÍNCIA

A província estava em pé de guerra naquele ano de 1849. Tudo porque o imperador havia desprezado os pleitos dos líderes locais visando a nomeação de Caio Lourenço pra presidência. O nomeado foi um jovem pernambucano Adonis Boaventura, que além de ser muito novo ainda por cima era solteiro e tinha tinha fama de progressista. Os chefes políticos detestavam a palavra progresso e tudo o que podia significar, porque isso implicava em retirá-los da zona de conforto em que viviam.
O moço era uma espécie de lunático que havia conquistado definitivamente as atenções do imperador. Pedro II era por demais sensível à inteligência humana. Mantinha correspondência regular com os intelectuais do mundo inteiro e do Brasil em particular. Aceitava com parcimônia os ataques do deputado José de Alencar na tribuna do Congresso Nacional pelo simples fato de que o admirava como escritor. Crescera lendo suas histórias em forma de novelas cujos capítulos eram publicados nos jornais do Rio de Janeiro.
Gostava de ficar ouvindo por tempo indeterminado as projeções do bacharel em direito Adonis Boaventura sobre planejamento administrativo. Dizia que as cidades devem ser construídas de acordo com um planejamento prévio em que a área residencial deve ficar distante do setor administrativo; em que o setor hospitalar deve ocupar um determinado espaço enquanto que o polo educacional deve estar situado em outro; e assim por diante.
Na verdade, Adonis era um visionário em pleno século 19. Suas ideias seriam aplicadas com vigor dali a algumas décadas, mas por enquanto ele pretendia transformar a distante província do Piauí do Piauí numa espécie de laboratório, construindo no lugar a primeira capital planejada do Império. A obra ainda não tinha nome mas o governador era muito simpático ao projeto porque há tempos que se debruçava sobre uma forma de levar o desenvolvimento para os lugares mais distantes da gigantesca nação brasileira.
“Tem certeza de que levará adiante o teu projeto de construir a nova capital do Piauí?”, questiona o imperador, enquanto degustam camarões ao alho e óleo acompanhados de um delicioso vinho do Porto.
“Claro que sim, Sua Alteza, quanto a isso não tem com que se preocupar. Estou pronto para a missão”, declara Adonis, ufanista em relação ao ídolo de olhos azuis e altura desmedida. Na prática, Pedro II era um europeu aprisionado nos trópicos e sofria por demais com as implicações do calor. Havia negros para o abanarem com longas plumas de pavão o tempo inteiro.
A conversa prossegue. O bacharel prevê um território cortado de norte a sul e de leste a oeste por ferrovias, barcaças singrando os rios – transportando gente e riquezas, portos em toda a costa recebendo os eflúvios de desenvolvimento das nações do mundo inteiro. O progresso é uma conquista irreversível da civilização, diz ele. O imperador concorda enquanto fixa a pintura a óleo com a imagem de seu avô, Dom João VI, que pensava o contrário e queria manter o Brasil sob os grilhões de Portugal.
Adonis deitava falação sobre uma tal de segunda onda. Segundo ele, a primeira ocorrera há muitos séculos, quando o homem aprendeu a plantar e criar animais para se alimentar. Deixou de ser nômade e fixou moradia, criando núcleos habitacionais que mais tarde seriam chamados de cidades. A segunda viera com a revolução industrial inglesa, ocorrida no século anterior, e que estava a pouco e pouco mudando a feição da economia mundial. Os homens deixaram de ser escravos e passaram ser remunerados pelo trabalho desempenhado – assim podia ganhar salários e com isso consumir os produtos da indústria nascente.
Os maiorais da província fizeram cara feia na sua chegada e de tudo procederam no objetivo de indispô-lo com a população. Colocaram nele o apelido de “fedelho”, espalharam que era um garanhão e que logo causaria problema para os pais de família – que guardassem suas donzelas a sete-chaves porque aquele moço era um perigo para o recatamento local. Deram, porém, com os burros nágua. O jovem presidente se mostrou respeitador ao extremo e de pronto não se interessou por nenhum moçoila, embora muitas delas suspirassem ante sua passagem, sempre acompanhado de numeroso séquito. Dentre os integrantes, muitos dos que o apedrejavam pelas costas.
Constatou, após um breve espaço de tempo, que o local era impróprio para garantir o desenvolvimento pretendido. A capital da província era distante de tudo, fincada no meio do sertão de dentro. Em redor, apenas a caatinga – muita secura e um sol de rachar a maior parte do ano.
Tratou do assunto com alguns deputados provinciais e foi advertido por um deles que levasse a coisa com jeito pois estava na mira do cacique da província, que era o poderoso ex-presidente Arcano Maldonado – começara a vida como vaqueiro mas não havia medida para sua ganância de poder; e assim chegou a presidente da província, cargo que exerceu por mais de vinte anos, tendo sido destituído por Sua Alteza em virtude dos numerosos crimes de que foi autor.
O deputado Fidelis de Macedo também era jornalista, editor do jornal “O Piauí” e profundo admirador do novo presidente. Na verdade, de tanto denunciar os desmandos dos seus antecessores, caíra em desgraça com os mandatários do lugar e buscava um lugar ao sol.
Adonis o acolheu. “Ajude-me. Coloque notícias em seu jornal que levem o povo a defender a causa mudancista.” E assim Fidelis procedeu. Semanalmente, que era a periodicidade da publicação, saíam matérias e comentários sobre a importância de se transferir a capital. Novamente os grandes do lugar o hostilizaram. Agora, diziam, não haveria mais espaço para ele – não tardava por esperar; bastava que caísse o “fedelho” para que ele fosse expulso de Oeiras com um pé na bunda.
***
Os homens andavam todos armados. Guardavam suas pistolas em coldres de couro de boi que mantinham atadas à cinta. Outros preferiam rifles de cano comprido com os quais podiam abater alguns índios das tribos remanescentes. Eram poucas, contavam-se nos dedos, mas ainda havia delas que não tinham desmoronado completamente ante o absurdo da campanha de aniquilação empreendida pelos colonizadores desde séculos antes.
“O senhor deve andar armado, presidente”, orientou Fidelis.
“Na Corte, esta prática foi abolida há muito”, disse Adonis Boaventura.
Estavam andando pelas ruas movimentadas do centro. Um grupo de pequenos criadores se queixou ao presidente de que não havia estradas para transportarem seus animais para outros centros. Tinham fechado negócios com a Bahia, Pernambuco e até com o Maranhão, mas os custos de locomoção eram altíssimos. Inúmeros bichos se perdiam na jornada.
“Marchem comigo em apoio à causa mudancista, pretendo levar a capital para um outro lugar, em que possamos manter contato com as demais províncias brasileiras e até com outras nações do mundo”, falou ele, ao fim da improvisada audiência, na qual foi obrigado a experimentar, ali mesmo, no meio da rua, de uma talagada de cachaça produzinda em alambique da região. Ficou meio tonto e teve que ser amparado até a sombra de uma enorme figueira, provocando comentários entre os rústicos homens de que seria, na verdade, um maricas, um “macho e fêmea”.
Adonis foi cortejado por muitas mulheres, algumas delas casadas, mas não deu trégua para nenhuma delas. Ainda não era tempo de se envolver com mulher nenhuma, mesmo que fosse apenas por aventura, porque passava a maior parte do tempo debruçado sobre mapas escritos; além de conceder audiências a líderes políticos queixosos de que a transferência da capital não daria certo.
Foram dias de muita tensão. Aqui e ali, Fidelis o conduzia por entre as sombras da noite para uma conhecida casa de diversões, a apenas algumas léguas de distância. Os guardas eram mantidos à certa distância porque se tratava de lugar violento, embora frequentado pelos grandes da província, mas que vez por outra trocavam tiros até se matarem pelo amor de alguma caboclinha dentre as mais formosas.
Numa dessas visitas foi reconhecido por um coronel de araque, que possuía título comprado por ser fazendeiro muito rico, dono de centenas de escravos e milhares de cabeças de gado, um dos maiores seguidores de Arcano Maldonado e ele próprio detentor de mandato eletivo na Assembleia Provincial.
“Ora, ora, se não é o fedelho Adonis, que nos quer tirar do sossego para se lançar, conosco, numa aventura suicida!?”, ironizou Carmelo Botocudo, com nada menos que cinco mandatos parlamentares e ao longo de todo esse tempo nenhum projeto em favor da coletividade.
Ocorre que Adonis admitia muitas provocações. Com algumas, ficava irritado, chegando ao cúmulo de pensar em partir para cima de seus detratores. Ser chamado de “fedelho” era algo que o tirava do sério.
“Espero que vossa excelência se retrate, pois que não aceito provocações, sobretudo em estando num ambiente de lazer e descontração”, disse o presidente. “Estamos aqui para nos divertir, portanto fique do seu lado que fico do meu.”
O deputado cresceu para cima do presidente.
“Lá, em teu palácio, pode ser o presidente da província, mas aqui mando eu”, falou, em tom desafiador, e colocou a mão sobre o cabo do revólver.
Os presentes trataram de se ocultarem atrás de mesas e do balcão; outros preferiram sair do recinto de uma vez que não estavam ali para comer bala.
“Com o que então insiste com a provocação?!”
Nesse momento, vários homens da Guarda Provincial cercaram o deputado Botocudo, que encarou Adonis e disse duramente: “Não pense que o fato de ser o queridinho do imperador poderá livrá-lo de cumprir o seu destino”, ao que o presidente indagou: “E qual seria o meu destino, na sua concepção?”
“Certamente não será aquele que imagina. Lembre-se de que enfrentamos e expulsamos Fidié e toda a canalha portuguesa, de que fomos decisivos pra conquista da independência e que já vivemos tempo demais pra aceitar imposição de quem quer que seja.”
Nos dias que se seguiram, os debates foram intensos no plenário da Assembleia. Os deputados da oposição ainda eram maioria porque predominava o sentimento de repúdio à figura do jovem presidente, principalmente depois que descobriram sua verdadeira intenção, que era fazer do Piauí espécie de laboratório para seu projeto de arquitetura urbana. Fidelis teve muito trabalho tanto na tribuna quanto no jornal mas cumpriu muito bem o seu papel e ganhou lugar de confiança no conceito do presidente, tornando-se seu principal assessor e conselheiro para assuntos políticos.
Muita gente se aproximou pra dizer-lhe que ele corria perigo de vida acompanhando-se com o presidente, porém Fidelis resistiu e permaneceu onde estava, palmilhando apoio de outros parlamentares, passo a passo, porque apesar de estarmos em regime imperial, a província era muito distante e sempre valia a lei do mais forte. Os deputados votavam de acordo com a orientação dos caciques locais, dentre eles Arcano Maldonado, porque a ele muito deviam em razão do seu longo período como chefe do governo provincial.
Fidelis desmonta do cavalo de um salto e coloca o animal diante da residência presidencial. Dirige-se com passos largos para o gabinete de sua excelência para transmitir-lhe informação urgente. Adonis está imerso em leitura e cálculos quando autoriza a entrada de seu fiel escudeiro. “O que temos como novidade?”, indaga. Fidelis: “Estou aqui para trazer-lhe um convite. O ex-presidente Maldonado o chama em sua fazenda. Quer um dedo de prosa com vossência.”
Parecia temeroso em transmitir o recado. Não se dava a tal com frequência, entretanto na condição de articulador imaginou que seria de bom alvitre se conseguissem um entendimento com o Visconde da Guabiraba. A denominação da nobreza se dava em honra ao lugar em que nascera. “E vosmecê, o que pensa disso?”, questiona Adonis. Estava a alguns passos apenas de deflagrar o processo de transferência. Já tinha até o local, para o qual se dirigiria em alguns dias, na companhia, é claro, do amigo Fidelis, de guardas confiáveis e bem armados, todos que vieram com ele do Rio, e de algumas quengas que havia encomendado à Madame Nora, com quem mantinha estreita ligação.
Diante do poderoso fazendeiro, manteve altivez. Era presidente, tinha garantias legais para tomar a decisão que julgasse conveniente no melhor interesse da província.
“Chamei-o aqui para tentar sensibilizar vossa excelência. Sabe que temos empreendido grande luta por este lugar, conquistas que foram difíceis, muitos pagaram com a vida. Conhece a história da nossa independência?”
“Sim. Como não? Li muito sobre o assunto antes de aceitar a incumbência que me foi conferida por Sua Alteza Imperial.”
“Então deve saber que Oeiras é das mais antigas povoações brasileiras. Era rota de passagem no começo do período colonial. Prosperou com dificuldade até tornar-se decisiva na conquista da liberdade ante os portugueses. Este velho que agora está diante de vossência emprestou o próprio sangue em sacrifício patriótico e está vivo por um milagre do Criador. Temos aqui nossas repartições, nossos funcionários públicos, a central de coleta dos nossos impostos, todos se encaminham para cá. É verdade que estamos distantes de tudo e de todos. Mas não resta dúvida que estamos geograficamente bem posicionados e algumas obras de infraestrutura bastariam para melhorar nossa ligação com o restante da província e da nação. Vê que nossa produção na agricultura é fraca, que também não somos grandes criadores. O que fazemos é política e vivemos em torno dela. Transferir a capital para outro lugar seria o mesmo que nos estrangular, que nos condenar à morte por inanição.”
Pra um ex-vaqueiro até que falava bem o danado, pensou Adonis Boaventura, mas estava decidido e entendeu de não dar ouvidos aos argumentos do velho. Disse para ele que pensaria com carinho no diálogo e oportunamente o procuraria para um desfecho em torno do delicado tema. Não procurou e nem aceitou mais convites de Maldonado.
Notou que a fazenda era como uma fortaleza, repleta de marginais armados até os dentes e com os quais o poderoso homem poderia fazer frente às tropas legais. Tinha que arredar-se dali o quanto antes, fundar uma cidade e proteger-se o quanto melhor porque sem dúvida haveria reação de maior gravidade. Que, a propósito, não tardaram de acontecer.
***
Estava andando do palácio do governo em direção à coletoria para se entender com o coordenador sobre a arrecadação da semana e que destino seria dado aos recursos. Pretendia também agendar um deslocamento para a região conhecida como Chapada do Corisco, situada na margem do caudaloso rio Parnaíba, já bem perto do encontro com o rio Poty. O lugar era recomendado pelo mestre de obras Severiano Gaudêncio, cidadão modesto e muito trabalhador a quem se confiava os serviços de construção e reforma dos prédios públicos e obras diversas.
Súbito, dois homens passam a cavalo em disparada. Um deles está de pistola na mão e mira em direção ao presidente. O guarda que estava mais próximo joga-se na frente da autoridade e recebe o tiro em cheio no peito morrendo de imediato. O outro guarda consegue sacar sua arma e atira contra o pistoleiro, que recebe a bala no ombro e cai no solo empoeirado da rua principal. Pessoas correm de um lado para outro em busca de proteção. O outro elemento foge na maior carreira que seu animal podia empreender. É o próprio presidente que cuida em persegui-lo valendo-se para tanto do cavalo cujo cavaleiro estava, naquele exato instante, tendo o coração trespassado pela espada afiada de um dos homens da guarda provincial.
O outro ainda se vira e dispara contra o presidente, que segue adiante na perseguição até alcançá-lo meia légua depois, em plena mata, saltando sobre o pistoleiro e caindo sobre ele. A luta que se seguiu foi encarniçada, pois o homem já não tinha bala em sua arma de fogo porém contava com uma adaga amolada por demais. Investiu contra Adonis, que tinha pouca prática de luta corporal, contudo o pouco que sabia foi suficiente para tomar a arma do elemento e imobilizá-lo em questão de alguns golpes apenas.
***
Naquela mesma tarde, o ex-presidente Arcano Maldonado recebeu em sua residência um decreto do atual presidente, determinando sua prisão domiciliar e informando que não seria imediatamente transferido para presídio de segurança por conta da idade avançada. O deputado Carmelo Botocudo teve o mandato suspenso sob acusação de conspiração contra o governo provincial, o que significava também crime de lesa-majestade, tendo em vista ser o presidente indicado diretamente pelo imperador. Atentar contra ele era o mesmo que atentar contra Pedro II. Maldonado resignou-se, não tinha mais idade para tal enfrentamento, mas se aquele fedelho tivesse aparecido por aqui alguns anos antes, seguramente se veria com ele. Botocudo, entretanto, não teve a mesma atitude. A princípio, ficou irado. Depois, fingiu acalmar-se e foi até a camarinha. Familiares escutaram o único disparo e acorreram para a alcova em que o deputado jazia com uma bala enfiada na cabeça. Matara-se por não suportar a vergonha de ser derrotado politicamente por um “fedelho” que sequer tinha origem política.
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