sábado, 14 de abril de 2012

FOGO INTERIOR



De repente, não mais que de repente (não é assim que dizem os irônicos?), eu a reencontrei.
Estava bem ali o tempo todo, mas até aquele momento eu não a vira.
por que será? Fazia parte de um plano divino?
Deus escolheria a hora certa para encontrarmos e/ou reencontrarmos a pessoa amada?
Diante de mim, como uma deusa, revi Larissa.
Fazia tanto tempo que, para mim, é como se tivesse entrado num portal mágico que me conduzisse a outra etapa de existência.
Estaria, portanto, em outra vida.
Mas não, estamos vivendo a continuidade daquilo que somos e devemos pagar pelos erros que cometemos no passado.
“O que tem feito de sua vida?”, ela perguntou.
“Trabalhado muito e... pensado em você...”, respondi.
Larissa sorriu espalhafatosamente.
Ela sempre virava a cabeça para trás e sorria espalhafatosamente, deixando-me ver o céu de sua boca linda que tantas vezes beijei.
“Pensado em mim? Por quê?”
“Porque você é a mulher de minha vida. Sempre foi. Não consigo apagar sua lembrança de minha mente. Tentei inúmeras vezes, mas, perdoe-me, não consegui.”
“Você sabe que não posso, Jorge, sou agora uma mulher casada. Tenho compromisso, filhos...”
“Sei, sei perfeitamente, não precisa ficar me torturando ainda mais.”
A acompanhante veio ao seu encontro. Se distanciara em busca de algo que perdera durante o passeio na praça da Matriz.
A torre da Igreja de São Benedito se recortava contra um céu todinho azul, entrecortado por nuvens brancas aqui e ali.
A amiga. “Ducarmo, este é Jorge, um amigo da família.”
“Muito prazer”, disse a outra, estendendo-me a mão.
Apertei com delicadeza.
“De onde se conhecem?”
“Jorge é amigo do Barão.”
Não entendi porque Larissa mentira. O Barão era um homem poderoso, tinha poucos amigos, eu certamente não era um deles.
Ducarmo ficou descrente da informação, afinal conhecia o Barão muito bem para saber que ele jamais teria um amigo nas minhas condições.
Sou o que pode se definir como trapo humano.
Vivo bêbado pelos bares e churrascarias, aproveitando cada instante para me embriagar ainda mais com o objetivo de esquecer meu passado que tanto me atormenta.
Talvez mais ainda do que a presença da mulher amada, ali, diante de mim, distante de mim.
Nas horas vagas, trabalhava como operário na fábrica de tecidos na beira do rio Parnaíba.
Nas últimas semanas, tivemos muito trabalho.
Chovera forte sobre a cidade (coisa não muito rara), com raios e trovoadas (Teresina é conhecida também como Chapada do Corisco) e todos os estabelecimentos situados na avenida Maranhão ficaram inundados.
Os empregados, todos, indistintamente, foram utilizados na difícil tarefa de remoção do maquinário, da produção em larga escala, numa tentativa de reduzir os prejuízos que foram muitos.
Eu soube (não tenho bem certeza) que o Barão é dono de parte do empreendimento em que trabalho.
Meus olhos vermelhos indicavam o estado de alcoolismo.
“Você tem certeza que está bem, Jorge?”, perguntou Larissa.
“Claro, pode ficar tranqüila”.
Ela sorriu um sorriso azedo, enlaçou o braço de Ducarmo e juntas saíram andando apressadas.
Para ela, não ficaria bem ser vista na companhia de um demente em plena praça pública.
Àquela noite, fui tomar um porre no “Cai Nágua”, ambiente dos mais devastados da capital, lugar para lisos e devassos.
Era onde se podia tomar nos braços algumas putas de péssima qualidade pelos menores preços (sempre com o risco de contrair uma doença venérea).
“Covardia. Covardia. O doutor foi morto covardemente. Enquanto isso, o governador e o chefe de polícia se empenham em tentar descobrir o incendiário. Homem bom, arrimo de família, estudou e trabalhou muito para galgar posição de destaque na sociedade... Morrer daquele jeito”.
Januário Pinga, boêmio e jornalista, lamentava a morte do advogado Francisco Santiago, assassinado há uma semana em sua própria residência.
Morrera, segundo consta, pelas mãos do indivíduo conhecido como Monstro do Poti Velho, que matara dois (talvez mais, visto que ninguém conhece seu passado no Maranhão, de onde veio), a própria mulher e um comerciante da região conhecido por Mariano da Conceição.
Flagrara os dois em pleno coito na beira do Poti e depois de matá-los embrenhou-se na mata, depois veio para a urbe em busca de alimento e terminou infiltrando-se nas residências (como um rato, durante a noite, para catar os restos de comida lançados ao lixo).
O doutor teve muito azar. Saiu à noite para urinar e, na área externa da casa, deparou-se com o homicida.
Foi esfaqueado abaixo do umbigo. Teve morte imediata.
“Covardia”, protestava Januário Pinga. “Garçom, mais uma, por bondade. E tu, Jorge Arruda, o que anda aprontando nesta vida inútil?”
“Tenho dado muito duro...”
“É, pra gastar tudo na mesa de bebida e nas camas das raparigas. Tu é um verdadeiro imbecil”, disse Januário.
O escroto não tinha nenhum comedimento.
Às vezes eu ficava puto e queria partir para a briga, mas ele já estava com a idade avançada, seria ato de loucura bater num velho, mesmo um velho odiento como Januário Pinga.
“Vá se danar, velho cretino”, levantei-me, procurando outra mesa, outra companhia.
Ele veio atrás de mim.
“Está assim porque encontrou a mulher do Barão. Estou sabendo, idiota, aliás, toda a cidade está sabendo. O Barão está sabendo e, seu eu fosse você, cuidava em me esconder no buraco mais fundo de Teresina. Todos sabem. O Barão não perdoa. Não chega a ser um Monstro do Poti Velho, mas tu é muito compenetrado e merece mesmo uma lição. O que queria, afinal, de papo com a mulher alheia?”
“Não foi papo. Foi apenas um esbarrão. Nos cumprimentamos e pronto.”
“Compenetrado. Um simples operário dando em cima da mulher do homem mais rico de Teresina. Só mesmo um infeliz como tu, Jorge, pra cair numa esparrela dessas. Cuidado, rapaz, muito cuidado. Sei que teve um caso com essa mulher, mas é coisa de antigamente, procure esquecer. Hoje ela tem outra vida, vive numa outra esfera social, bem longe do teu mundo e do espaço que tu ocupa na sociedade. Tu é um merda, Jorge Arruda, um merda, e aquela mulher é uma flor. Lembre-se disso.”
Fui para casa antes da noite terminar. No dia seguinte, domingo, fui dar um mergulho no Parnaíba.
Antes de sair, minha mãe perguntou. “Para onde vai tão cedo? Mal chegou...”
“Nadar um pouco.”
“Cuidado, filho, o rio está muito cheio.”
Fiquei pensando que de ontem para cá todo mundo me dizia para ter cuidado.
Cuidado com o Barão, cuidado com o maquinário, cuidado com a cheia do rio.
Estou cansado de ter cuidado.
Larissa ainda gosta de mim, senti pelo seu olhar.
Tive apenas a má sorte de não ter nascido em berço de ouro.
Ela optou por outro caminho.
Namoramos durante muito tempo, desde a adolescência, passando boa parte da fase adulta.
Estivemos noivos, mas de repente (não mais que de repente), ela conheceu o Barão, homem de posse, recém-chegado da capital federal, financiando todo mundo, comprando casas e terrenos, instalando-se comercialmente e chegado aos principais escalões de poder.
Larissa disse para mim que estava com o coração partido, mas precisava pensar na mãe, no pai, já velhos, cansados de tanto trabalhar e sem conseguir juntar praticamente nada.
“Preciso aceitar a proposta do Barão. Por outro lado, além de tudo, meu pai está devendo muito dinheiro a ele. Você sabe, ele tem um pequeno estabelecimento de crédito. Empresta dinheiro a juros. Papai foi entrando, entrando, ele sempre afável. O débito tornou-se impagável para nossas condições”, ela.
“Tem certeza que não tem outro jeito? Posso tentar um acordo, quem sabe negociar com ele. Tenho certeza de que encontro uma forma de saldar a dívida.”
Tentei de todas as formas demovê-las, mais depois refleti melhor e entendi que Larissa estava, de fato, querendo mudar de vida, experimentar os ares da nobreza.
Restava-me, portanto, a angústia.
Ela se dera bem no casamento. Fora morar na zona Leste, área nobre da cidade, bem longe dos pobres que infestam a beira do rio e uma parte do centro.
Para chegar à mansão é preciso atravessar o Poti.
A travessia é feita por meio de barca.
O barqueiro é agregado do Barão e me conhece.
Os pais de Larissa estavam morando numa casa próxima à dela própria; uma casa que mandara construir especialmente para os pais.
Voltei à terra firme depois de vigorosas braçadas contra a correnteza forte que insistia em me levar para longe, para o fundo, engoli água, mas não pedi socorro, não gritei por ninguém; queria gritar por Larissa, mas ela não ouviria meu apelo.
Dizem que é uma mulher vulgar. Meu companheiro de trabalho, Menestrel, afirma que ela não tem coração. “Pensa apenas em se dar bem, não tem amor no coração”, disse ele, naquela mesma tarde, em torno de um litro de cachaça da boa, vinda de Castelo do Piauí e custando os olhos da cara.
“Veja, olhe para nós, não somos nada, nada representamos para aqueles que vivem do lado de lá da avenida Getúlio Vargas. A nobreza quer nos ver debaixo do chão, Jorge, e agora Larissa pertence à nobreza. Esqueça esta mulher. Ela não é mais para você.”
Convenci-me de que era verdade. Mas, naquela noite, ao retornar embriagado para a casa de palha em que morava com mamãe fui surpreendido por uma presença inesperada.
“Larissa?! O que faz aqui?”
Ela viera com motorista.
O carro ficara distante, coisa de um quilômetro e meio.
“Preciso de você, Jorge, me perdoe. Eu te amo.”
E se atirou em meus braços.
Fizemos amor ali mesmo, no meio da rua, encostados num muro de tijolos, um dos poucos existente naquele pedaço de chão paupérrimo.
“Como está sua mãe?”, perguntou, depois de baixar o vestido.
“Está bem. Por que fez isso?”
“Naquela tarde, depois que nos vimos lá na praça, fiquei completamente louca. Pensei em ti desesperadamente. Tive consciência de que minha vida não faz sentido sem você.”
“Mas você tem filhos, marido, uma vida que não tem mais nada a ver com a gente aqui da rua de baixo. Por que acha que ainda gosta de mim?”
“Por que, durante todo esse tempo, eu estava sentindo falta de alguma coisa. No começo, tentei dizer para mim mesmo que não era de ti, mas depois daquele encontro, não tive mais como negar.”
“E sua amiga?”
“Ducarmo?”
“Sim.”
“Não é minha amiga. É apenas uma dondoca que adora cortejar a esposa do Barão.”
Fui deixá-la próximo ao carro.
“O que disse para seu marido?”
“Nada. Ele não está em casa. Está viajando. Foi verificar o andamento dos negócios em São Luís. Retorna apenas na semana que vem. Se quiser me ver, atravesse o rio e vá até este ponto. A casa é minha, comprei para alugar em caso de algum empecilho futuro. Aqui está a chave. Te espero amanhã à tarde.”
Partiu.
Minha mãe estava me esperando na sala, sentada ao lado do rádio.
Um cantor de voz grossa cantava uma música sentimental; eu estava feliz e não conseguia esconder.
Tomei-a pelo braço e comecei a dançar com ela pelo meio da salinha miserável, em que a mobília mais valiosa era exatamente o rádio, única herança de meu falecido pai.
“Andou bebendo de novo, Jorge? Meu filho, você está bebendo demais. Por que não pára de beber? Quer acabar como seu pai?”
Meu velho morrera vítima de cirrose hepática.
A doença fora diagnosticada por um médico amigo, doutor Cabral.
Ele vinha regularmente à periferia para visitar os pobres e fazer consultas gratuitamente.
“Quer fazer carreira política”, protestava Januário Pinga.
Eu o cutucava. “Por que não pára de falar mal de todo mundo, Pinga. Tu fala demais, porra. Todo mundo quer levar vantagem. Será que não existe ninguém bom de verdade?”
Eu mal podia esperar a hora de encontrar-me novamente com minha amada.
Ela, antes de partir, colocara em minha mão, além da chave, um pequeno mapa com a indicação da residência.
Atravessei o Poti a nado.
Temia ser reconhecido pelo barqueiro.
Do outro lado, vesti a camisa que levara embrulhada num saco plástico; depois, a pé, dirigi-me ao endereço que Larissa anotara.
Não foi difícil encontrar.
Era uma ruazinha quase deserta.
Havia poucas casas, todas distantes umas das outras, com muros altos que contribuíam para isolar ainda mais os moradores.
Havia amplo e rico mobiliário na casa, que não era tão simples como eu imaginara.
Deitei no chão frio. Peguei no sono.
Acordei com os beijos quentes de Larissa.
Ficamos ali até tarde da noite, até que ela se foi, novamente com a promessa de nos reencontrarmos no dia seguinte.
“À noite, pois tenho de trabalhar durante o dia.”
“Não tem que trabalhar para ninguém. Tome...”
E me deu dinheiro suficiente para viver durante meses.
“Desculpe, meu amor, mas não posso aceitar”. Devolvi o dinheiro. “Não se ofenda, por favor.”
Larissa não se ofendeu. Partiu.
Também fui para casa.
Quando cheguei, estendi a camisa e, ao tirar a calça, senti o volume num dos bolsos.
Ela colocara o dinheiro ali. Era muito dinheiro.
Como explicar para minha mãe?
Decidi guardar para alguma dificuldade futura.
No quintal, escavei um buraco bem fundo; depositei o conteúdo enrolado em saco plástico e dentro de uma pequena caixa de madeira.
Em seguida, plantei um galho de arruda, árvore do meu sobrenome, e reguei com bastante água.
“Chegando tarde novamente, Jorge?”, era minha mãe. “Está bêbado de novo?”, cheirou-me a boca para sentir o hálito. Estranhou quando viu que eu não tomara uma única gota de álcool. “Quer comer alguma coisa?”
“Não, fique despreocupada.”
Dormi profundamente e sonhei com Larissa. Éramos marido e mulher e vivíamos juntos e felizes naquela sua mansão luxuosa do bairro nobre com nossos lindos filhos. Minha mãe morava conosco e ficava o tempo inteiro dizendo: “Que bom que meu filho parou de beber”, pareciar estar caducando de tanto repetir a mesma coisa.
A realidade era dura para nós.
Mamãe ganhara a vida lavando roupa. Tentara aposentadoria remunerada pelo governo; não conseguira.
Eu tinha que trabalhar na fábrica, arrimo de família.
Januário me parou a caminho da fábrica. “Cuidado, garoto, tem gente de olho em você...”
O Barão chegou dali a duas semanas; foram duas semanas em que eu e Larissa aproveitamos para nos encontrar o quando possível e quantas vezes pudéssemos fazer amor e desfrutar dos nossos corpos jovens e reprimidos pela distância social.
“Se eu tivesse nascido rico você não teria precisado casar com este sujeito.”
“Não fique assim, Jorge, quero que saiba que, mesmo casada com o Barão, serei sua para sempre.”
O Barão, na verdade José Fernandes Gonçalves, ficou furioso ao chegar e tomar conhecimento, por boca dos empregados da casa, que a esposa saía todas as tardes para lugar incerto e não sabido; e que saía sem avisar a ninguém e sempre sozinha.
Com sua vasta rede de informantes e puxa-sacos não tardou a descobrir a verdade.
Chamou Larissa e decretou: “Matarei este moleque.”
Ela se ajoelhou, confessou toda a verdade, disse que me amava, mas que era submissa às vontades do marido; implorou para que nada me fizesse, mas o homem estava irredutível.
“Pouparei tua vida porque é mãe dos meus filhos, mas não tolerarei uma segunda vez. Que tenha sido a primeira e última. Quanto ao cabra da peste, morrerá sem sombra de dúvida.”
Vejamos.
O confronto se deu num dia em que a Força Policial invadiu o bairro disparando tiros para o alto em perseguição a um indivíduo que diziam ser o temido incendiário.
Minha mãe já não dormia de tanto pavor.
Alguém estava ateando fogo nas casas e ninguém sabia quem era.
O governador Leônidas Melo, o chefe de polícia Coronel Evilásio e o senador José Cândido Ferraz haviam transformado a dramática situação em caso de política; ficavam buscando culpados para eximir-se da suspeita que recaía sobre cada um deles (com acusações mútuas).
Os policiais encurralaram Mazinho em sua própria casa (também de palha) e meteram bala nas paredes de taipa.
Felizmente, diante dos protestos, pararam de atirar; ninguém do lado de dentro ficou ferido.
Mazinho saiu de mãos para cima e os policiais partiram para cima dele dando pancada.
Não agüentei ver aquilo; rompi a multidão e enfrentei os macacos com a coragem e a loucura que recebera de Deus.
Vendo minha reação, os demais moradores também protestaram e os policiais terminaram recuando, prometendo voltar com reforço.
Antes de chegarem para cumprir a promessa de prender Mazinho fui atacado pelos homens do Barão.
Estava na beira do rio lavando as feridas do confronto quando ouvi o barulho do automóvel parando a alguma distância.
Depois, eles vieram, espancaram-me brutalmente, amarraram-me e jogaram-me no porta-malas.
Desmaiado, acordei com água morna sobre meu rosto.
Estava num porão escuro, provavelmente em lugar afastado da cidade.
Minhas mãos estavam amarradas para cima num poste de madeira.
De cima para baixo havia uma corrente, modo de um pelourinho, coisa de outros tempos para torturar escravos fugidios.
O Barão estava sorridente; como sempre, impecavelmente vestido em terno de linho branco e com chapéu Panamá.
“Então este é o rapaz que estava comendo minha mulher? Que decadência”, ironizou. “Eu sabia que Larissa me trairia, mas não pensei que fosse rebaixar-se tanto.”
“O que o senhor quer de mim?”, perguntei; tinha a visão conturbada pelo inchaço do rosto, sobretudo na área em redor dos olhos. Os capangas haviam batido firme.
“Tu não é capaz de adivinhar, ó imbecil. Acha que é assim tão fácil comer a mulher dos outros? Olha, rapaz, isso é crime. Em outros países, eles punem com a decapitação do... você sabe... do membro infrator. Há países em que a punição é a morte, à moda dos índios, que canibalizavam os adúlteros. Mas contigo quero agir diferente. Vou te dar uma chance...”
Ele começou a gritar. Parecia possuído por uma força estranha.
“VOCÊ SABE O QUANTO ME FEZ SOFRER, SEU DESGRAÇADO?”
Avançou sobre mim com a navalha. Me retorci, tentando mordê-lo, contê-lo de qualquer forma, mas estava com as mãos e os pés atados.
Não senti, a princípio, a dor, que veio depois com intensidade.
Perdi a consciência.
Acordei vários dias depois num cômodo da Casa de Misericórdia.
Ao meu lado, uma freira que fazia as vezes de enfermeira.
Em seguida, entrou um senhor alto vestido de branco.
Abriu as janelas.
A luz penetrou no ambiente lúgubre.
A brisa da manhã entrou junto.
Estava me sentindo menor.
“O que houve comigo, doutor?”, perguntei, tropeçando nas palavras, com medo de ouvir a verdade.
O médico falou firmemente. Toda a verdade.
“Seus agressores lhe deixaram na pior, meu rapaz.”
Sim, eu fora “capado” – ou castrado, como preferir.
Fiquei muitos dias remoendo minha dor, agravada pela ausência de Larissa.
Não tive notícias dela por muitas semanas e meses, até que numa tarde recebi um emissário.
Ela me esperava em nosso antigo “ninho de amor”.
Não tive como resistir; fui ao seu encontro.
Ficamos abraçados demoradamente.
Depois, nos despedimos, agora para sempre (nossas vidas corriam perigo).
Fui até o quintal de minha casa.
Desenterrei o dinheiro que Larissa havia me ofertado.
Falei com um conhecido da Força Pública. Ele negociava armas no mercado negro.
Eram armas não registradas e apreendidas em operações policiais.
Sobrou-me algum dinheiro para a viagem.
Fui para diante do estabelecimento comercial do Barão, na verdade uma de suas inúmeras fachadas.
Ele estava sorridente e confiante ao sair ao meio-dia para almoçar em companhia da esposa e dos filhos.
Os “cães de guarda” não o acompanhavam na ocasião, para minha sorte ou azar.
Cheguei bem perto, caminhando ligeiro e com a cabeça baixa para não ser reconhecido à distância.
De fato, ele me reconheceu apenas a um passo de si; impossível reagir àquela distância.
O primeiro tiro foi na barriga, para imobilizar; o segundo, na cabeça – para matar.
Depois, andei em direção ao rio, mergulhei em suas águas barrentas e nadei de um lado para outro, até meus braços e pernas cansarem, tentando lavar-me do pesadelo e livrar minha consciência do remorso pelo crime cometido.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O SECRETÁRIO

O deputado/secretário costuma entrar por uma porta lateral. O salão cheio de gente, a dona sempre o atende com discrição. É uma amiga de muitos anos.
“Está feliz?”
“Muito.”
“Por que tanta felicidade?”
“Hoje devo receber a visita de um amigo... vem de Salvador.”
“Sei. Amizade colorida?”
“Amizade colorida. Vai passar o final de semana comigo. Já temos um caso antigo.”
Ele faz o contorno da bunda. Cera quente. Marinez tem a mão suave.
Coloca a cera e repuxa com firmeza, mas sem agredir a sua pele macia.
“Pelo visto, hoje vai rolar muita alegria.”
“Com certeza.”
Ele sorri.

15:00.
Humberto chama Clodoaldo. O assistente vem rapidamente. Permanece no gabinete apenas informalmente. Na prática, estava licenciado por motivo de candidatura.
O expediente havia encerrado às 13:00, mas o deputado costuma esticar. Exerce o cargo de secretário de estado das Cidades. Indicação dele próprio dado a sua ligação com o governador.
“Quero que vá ao aeroporto.”
“Pois não, secretário.”
“Vai chegar um amigo. Ele desembarca pelas 15:30. Quero que o apanhe e o traga diretamente para cá.”
Clodoaldo sempre foi um assessor dedicado. Nunca cometeu nenhuma indisciplina.
“Pode deixar, doutor Humberto.”

Humberto Balbo está no segundo mandato de deputado estadual. Antes fora vereador numa cidadezinha da região norte onde sua família mantém relativa influência política.
Fora eleito, é claro, com a força do dinheiro. Seus avós são fazendeiros, muito ricos, e não deixariam de atender mais aquele mimo do netinho querido.
Comenta-se, nos bastidores da política piauiense, que sua homossexualidade nunca agradou ao velho avô, um homem rude, do campo e que detesta esse tipo de inclinação.
Mas sua avó adora. Ela sempre quis ter uma netinha e seus filhos nunca lhe deram esta satisfação. Todos os netos são homens. Quer dizer, quase todos.

15:15.
Serve-se de uma dose de uísque. Chama para perto de si a secretária Joanara.
“O Clodoaldo deve chegar em instantes”, ele disse.
“Ele está dentro da hora.”
“Um camarada decente, Joanara.”
“Sem dúvida, secretário.”
“Por isso vou torná-lo vereador em São José da Caatinga.”
“Claro. Vai sim. Ele merece.”

Passa das quatro horas e nada. Humberto está visivelmente aborrecido. Olha o relógio. Já está na terceira dose de John Walker Blake Label.
“Filho da puta. Onde estão esses filhos da puta?!!”
“Calma, doutor Humberto. Devem estar presos no trânsito.”
“Trânsito, Joanara, numa sexta-feira, quatro da tarde. Nem na China, minha filha.”
“O que quer que eu faça?”
“Ligue-me com o aeroporto, a companhia aérea...”
Ligou. Foi informado de que o voo chegara normalmente. Nenhum problema.
Chamou o motorista. “Será que aquele imbecil entendeu mal? Será que entendeu que deveria levar o Roberto para o apartamento?”
Por via das dúvidas, ligou para seu apartamento. Nada. A empregada disse que não chegara ninguém.
Tomou a iniciativa de ligar para o apartamento de Clodoaldo. O telefone chamou e ninguém atendeu.
Resolveu que iria pessoalmente. Clodoaldo deve ter se lembrado de alguma coisa importante em casa ou então estaria com algum problema.

No caminho, ficou pensando mil coisas. O veículo de Clodoaldo pode ter sido abordado por assaltantes. Seu assessor e namorado podiam ter sido sequestrados. Quem sabe?!
Teresina está se tornando uma cidade violenta. Todos sabem que o problema não é apenas de repressão. Tem uma raiz social profunda.
São muitas décadas de exclusão. Privilégios da elite. Desprezo para os menos favorecidos.
A cidade incha em favelas que se espalham por toda a periferia. Uma imensa população desocupada.
Jovens que não têm o que fazer. Não ganham dinheiro regularmente. Fazem bicos ou assaltam. A maioria, para se drogar.
Tomou outra dose de uísque e procurou afugentar aqueles pensamentos.

O motorista ficou esperando na portaria. Ele subiu pelo elevador. Tinha a chave do apê de Clodoaldo.
Foi surpreendido pela cena chocante: seu assessor especial sendo enrabado pelo seu namorado.
Roberto estava comendo Clodoaldo. “Filhos de uma puta”, gritou, e saiu gritando pelo prédio inteiro. “Traição. Traição...”
Ao chegar na portaria e ver o motorista, simulou um desmaio. Cena de filme pastelão. Quase caiu feio porque o empregado não tinha a agilidade necessária.
“Covardes. Filhos da puta. Traidores. Vou foder com eles. Prometo que não ficará pedra sobre pedra.”
O porteiro trouxe um copo de água com açúçar. Ele mandou o homenzinho ir tomar naquele lugar e saiu andando com firmeza.

Foi direto ao presidente do partido. “Não quero mais que esse cretino do Clodoaldo seja candidato a vereador. A candidatura dele está vetada por mim. Vetada, entendeu.”
Tonico Boroco, político das antigas, também deputado estadual e presidente regional do Partido Humanista Democrático Brasileiro, respondeu que não podia fazer mais nada.
“Secretário, lamento informar que não posso ajudá-lo. A candidatura foi aprovada em convenção e registrada na Justiça Eleitoral. Agora, só se ele morrer.”
“O quê?!! O que está me dizendo?!...”
“Isso mesmo que o senhor ouviu. Não posso fazer mais nada pelo senhor...”

Foi em casa. Apanhou uma pistola carregada de balas.
“Vou fazer justiça com as próprias mãos.”
O motorista pediu calma. “Por que o senhor não toma um banho de piscina?”
“Cala a boca, seu covarde, quer que eu lhe meta uma bala na cabeça também?”
O homem ficou em silêncio. Continuou a fazer apenas o seu trabalho.
Humberto chegou de novo no apartamento de Clodoaldo. Nem ele nem Roberto se encontravam.
O porteiro informou que haviam saído de carro e levaram malas consigo.
Humberto sentou no meio-fio com a pistola na mão. Estava desolado.
Foi assim que uma patrulha da polícia militar o encontrou. Um policial o abordou.
“Senhor, largue esta arma.”
O outro policial estava dando apoio e apontava uma arma para ele.
“Você sabe com quem está falando?”
“Sei sim, senhor, mas estou cumprindo meu dever. O senhor largue essa arma e me acompanhe até a delegacia.”
Humberto olhou melhor para ele. Era um PM jovem e muito bonito.
Decidiu largar a arma. O jovem recolheu a pistola e perguntou se ele poderia acompanhar a viatura até a delegacia mais próxima. Precisariam lavrar um auto de apreensão da arma. Questão de praxe.
“Sem dúvida, meu caro. Como é que você se chama mesmo?”
O policial pareceu notar uma certa malícia na voz e no olhar do deputado/secretário.

quarta-feira, 7 de março de 2012

CÃES DE GUERRA

O diretor de jornalismo o procura com um brilho intenso nos olhos – está tramando alguma coisa, o jornalista logo vê. É o apresentador do telejornal, programa de maior audiência da emissora, e um dos mais respeitados profissionais do quadro de jornalistas da empresa, que conta ainda com um jornal, duas emissoras de rádio em FM, uma em AM e um portal de notícias em construção.
Precisamos dar uma resposta à altura pra esse pessoal do partido de oposição, diz o diretor. Eles têm batido muito no governo e em nós.
Ainda acho que deveríamos nos manter neutros. Esse alinhamento político já nos custou caro no passado, argumenta o jornalista.
De modo algum. O patrão quer engajamento total e vamos potencializar ainda mais os ataques contra a oposição. Esse candidato a governador não tem história, não tem postura. Não pode ser governador.
O jornalista sorri. Muito bem, diz, e como pretende fazer?
Vamos procurar alguma coisa contra ele. Vamos levantar um dossiê com as irregularidades cometidas por ele. O sujeito foi líder sindical, vereador e deputado, não é possível que nada haja que desabone a conduta dele.
Não sei. Acho difícil, argumenta o outro, mas o diretor está resoluto: Você poderia produzir esse dossiê. Temos que dar munição para o governador. A eleição está pau a pau!
A campanha começou com amplo favoritismo do candidato oficial, que assumira o governo há apenas alguns meses depois de destituir seu antecessor com base em denúncias de corrupção eleitoral.
O ex-governador perdeu o mandato mas não os direitos políticos e assim pôde fazer política abertamente. Candidatou-se ao Senado e decidiu colocar seu partido no apoio ao candidato da esquerda. Os dois foram adversários em épocas anteriores, mas agora o que importava era a vitória a qualquer custo. Daria tudo de si para colocar o jovem deputado federal no Palácio de Karnak.
O atual ocupante do palácio, titulado pelos adversários como príncipe da oligarquia, é a principal liderança isolada do Estado. Começa com vantagem de mais de 20 pontos percentuais sobre todos os demais candidatos reunidos. Mas o deputado socialista tem um discurso simples e agradável e tem muita disposição para caminhar e percorrer os caminhos e trilhas que levam ao coração do eleitorado. Em pouco tempo ele consegue se aproximar perigosamente do principal postulante.
Acende a luz amarela no comitê do candidato oficial. Ele em pessoa vai aos canais de tevê para anunciar medidas populistas e rasteiras. Concede descontos gigantescos aos empresários em débito com o Fisco. Cria um restaurante com alimentação de graça para os mais pobres. Institui um espaço de cidadania no antigo hortomercado da avenida João XXIII. Vai às áreas atingidas por alagamentos em função das recentes chuvas e lança um programa de moradias em sistema de mutirão com material cedido pelo governo e mão-de-obra dos beneficiários.
Os adversários apenas denunciam irregularidades. Milhares de contratações graciosas de cabos eleitorais. Distribuição de dinheiro público para caciques políticos da capital e do interior. Benefícios fiscais concedidos de maneira ilegal de modo a prejudicar as finanças públicas. Falta de planejamento estratégico.
O candidato oficial está comprando prefeitos, vereadores e lideranças políticas. Reúne em torno de sua candidatura todos os ricos do Estado – protesta o jovem e sorridente deputado. Apesar da denúncia, sua fala é humilde, transpira tranquilidade. Mas não se pode ganhar eleição sem o apoio popular e o povo está cansado do governo dos ricos e pelos ricos. Não é sem razão que este sempre foi um Estado rico de população empobrecida. Porque todas as riquezas são repartidas entre os donos do poder e do dinheiro.
O ex-governador e agora candidato ao Senado também ataca. Na tevê aparece com uma aura de santo e ao fundo uma imagem de São Francisco de Assis – “meu santo de devoção”. Nos palanques chama o governador de homossexual e a primeira-dama de macumbeira do Maranhão. Seus gritos histéricos ecoam pelos quatro candidatos: ele se diz injustiçado, que sempre trabalhou pelos menos favorecidos e lembra dos programas de alimentação aos famintos, da isenção nas contas de água e luz dos que não podiam pagar e faz novos ataques: O governador não tem postura de homem. Quer transformar o Estado num bacanal. As orgias em palácio varam a madrugada...
O chefe do Executivo não responde. Opta pelo silêncio em relação ao seu principal adversário. Prefere centrar esforços contra o candidato ao governo. Este, sim, é motivo de preocupação – os institutos de pesquisa traduzem seu crescimento em todos os segmentos do eleitorado. Ele agora deixou de ser um candidato de ocasião para constituir ameaça verdadeira ao seu propósito de permanecer no poder por mais quatro anos.
Os programas eleitorais do governador transmitem fragilidade no discurso. Ele apela para o denuncismo: o socialista não seria tão socialista assim. Pelo contrário – é um bem sucedido empresário do ramo de financiamento de imóveis; seria proveniente de uma rica família de fazendeiros da região Sul; manteria sociedade com esquemas de corrupção em Brasília.
Na TV Imprensa, a ordem era bater pesado contra o parlamentar. Em nenhuma hipótese ele poderia ser eleito. Num estúdio desativado para reformas, o diretor diz ao jornalista:
O debate que está previsto para a próxima semana deve ser imediatamente cancelado. O governador não tem nenhum interesse na sua realização.
Mas os critérios já foram acertados, a Justiça Eleitoral deu o “Ok”, os anúncios estão sendo veiculados e há muita expectativa na sociedade. Acho muito arriscado cancelar – protesta o outro.
Temos que cancelar. O palácio está em polvorosa com os índices das últimas pesquisas. Você precisa entender que nosso patrão pode perder negócios de milhões caso esse arrivista se eleja.
Muito bem. E como faremos?
É simples. Telefone para todos os candidatos e transmita que estamos cancelando por problemas técnicos. Não temos como acomodar os oito candidatos no estúdio...
No dia seguinte o esquerdista telefona ao apresentador para perguntar o porquê do cancelamento. O jornalista repete o que lhe foi orientado pelo diretor. O assessor de imprensa do candidato de oposição também quer saber a razão do cancelamento. O partido está indignado. A maioria do povo também se indigna. O jornalista tenta se salvar no turbilhão de acontecimentos que apontam para um descredenciamento moral da emissora.
Numa palestra para estudantes universitários o assessor de imprensa acusa o grupo Imprensa de conluio com o governo em detrimento do candidato da oposição e da legítima aspiração dos eleitores. É um grupo que não faz jornalismo com independência e conseqüente imparcialidade. Está desgraçadamento atrelado à direita liberal. Lamentável que em pleno século XXI ainda tenhamos que conviver com esse tipo de comportamento da nossa imprensa.
No debate realizado pela TV Globo o deputado repete a denúncia. E a reforça: este grupo engorda a olhos vistos às custas do erário. É o dinheiro das escolas, dos hospitais e dos servidores que financia a vida nababesca de seu proprietário, responsável por inúmeros crimes contra a ordem econômica.
Ele vai além: Estou recebendo aqui a informação de que na calada da noite o governo sacou a quantia de 50 milhões de reais do Banco do Estado e que este dinheiro será usado na compra de votos no interior. Foi despachado em malotes e aviões e chegará às mãos dos caciques políticos no dia antes da eleição.
O governador reclama. Diz que é tudo mentira e que mandará abrir uma sindicância para apurar a quebra de sigilo fiscal do banco oficial: Servidores públicos não podem se deixar dominar por suas paixões políticas, colocando em risco a credibilidade do Estado. Nosso banco é público e nenhum órgão da administração terá desvio de suas funções para beneficiar a minha candidatura. Repito: o governo é o governo e em momento algum deixaremos que haja o comprometimento da máquina pública.
Na véspera do pleito seis candidatos de oposição renunciam às suas postulações em favor do socialista. Fazem caminhada de mãos dadas na avenida Frei Serafim.
No dia das eleições os institutos de pesquisa apontam empate técnico entre os dois candidatos. As intenções de votos estão literalmente divididas – 50x50. Os governistas dizem que a parada está liqüidada. Investem tudo na reta final. O governador diz que a oposição pode “tirar o cabelinho da venta” – “porque esta eleição é nossa.”
Os oposicionistas não antecipam nenhuma comemoração. O candidato veste-se de vermelho juntamente com a esposa e seus correligionários e vai à urna de votação com excesso de modéstia. Ao sair da cabine e a pedido dos fotógrafos faz o V da vitória e sorri com aquele jeito excessivamente simples.
As ruas são tomadas por gente dos dois lados. A situação se veste de azul. Por baixo a camisa vermelha da oposição. Nosso coração é vermelho, repente eufóricos. Tudo indica que haverá segundo turno e a TV Imprensa afirma pontual: Haverá segundo turno.
À meia-noite daquela data o Tribunal Eleitoral afirma em mais um boletim parcial: A vitória do candidato de oposição é irreversível. No dia seguinte, a confirmação. Dos 223 municípios ele ganha em 220. O governador só consegue maioria em três. Na capital a diferença pró-contrários é de 140 mil votos. O deputado consegue 59 por cento dos votos contra 38 por cento atribuídos ao ocupante de Karnak. As ruas são invadidas pelos seguidores do vitorioso no que a imprensa chama de virada vermelha.
Na TV Imprensa, nada há a fazer. A desolação toma de conta dos diretores, em especial do diretor de jornalismo. Tenta se justificar ao patrão: Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. A emissora trabalhou 24 horas por dia, sete dias por semana para que tivéssemos um resultado diferente. As ações do governo foram potencializadas de todas as formas possíveis e imagináveis. Infelizmente...
O diretor-presidente manda suspender de imediato todas as atividades hostis contra o governador eleito. Sua única chance de continuar de pé é tentar um acordo. Mas eles vão querer algo em troca – insinua o sofrido diretor, no que o chefe determina prontamente: Leiloe qualquer coisa. Fique inteiramente à vontade para negociar.

terça-feira, 6 de março de 2012

Os brutos não se amam

O ano era 1984. Havia em todo o país uma grande movimentação em torno da campanha pelas diretas já. A população queria votar para presidente. O governo militar queria manter o voto indireto. No Congresso Nacional, um jovem deputado chamado Dante de Oliveira apresentou uma proposta de emenda prevendo a realização de eleições diretas para a presidência. O povo se mobilizou para defender o seu direito em escolher o governante máximo da nação.
Em Teresina, vários comícios foram programados para diversos pontos da cidade. Praças públicas, em que se podia reunir milhares de pessoas em torno do palanque. Os políticos que lideravam o movimento em nosso estado eram Alberto Silva, Wall Ferraz, Chagas Rodrigues, Deoclécio Dantas, Tomaz Teixeira, Francisco Figueiredo, Fernando Mendes, dentre inúmeros outros. Eles se apresentavam como perseguidos da ditadura e defensores da redemocratização.
Naquela noite fui parar no meio de um destes comícios. Na praça do Marquês, zona norte da capital. Milhares se aglomeravam no espaço amplo e arborizado. Gente de todos os recantos de Teresina e de várias cidades do estado. Gente trepada em árvores para se nivelar aos oradores no palanque. Vendedores ambulantes ganhando dinheiro com a movimentação cívica nacional. Eu, um adolescente motivado pelo desejo de multidão. De repente, alguma garota interessante podia aparecer.
Nem tanto. Quem apareceu foram meus desafetos. Liderados pelo temível Jonatas, um evangélico valentão que colocava toda a rapaziada do bairro para correr. Ele só andava acompanhado de meia dúzia de delinquentes juvenis. Pessoas do seu naipe. Religiosos e agressivos. Como é que pode?! E o pior é que o cara estava a fim de me pegar porque havia tirado uma onda com sua garota, Samira, uma jovenzinha linda e sensual de apenas 15 anos que se apegara a mim e que, tenho certeza, gostaria muito de estar em minha companhia naquele momento.
Mas nem todos os nossos desejos podem se realizar. Pelo menos não de uma vez. O deputado e jornalista Deoclécio Dantas estava discursando no exato instante em que Jonatas e seu bando se aproximou de mim. Eu estava tomando uma caipirinha. Ele foi se chegando rapidamente. “Estava mesmo querendo falar contigo”, disse. Olhei para ele surpreso. “Falar comigo?! Falar o quê?!”, eu falei. “Tu sabe muito bem. Tô querendo falar de Samira. Soube que tu anda de braço com ela no bairro”, enfatizou, em tom ameaçador. “E o que tu tem a ver com isso?”, nunca fui de me intimidar com olhar e tom ameaçadores de quem quer que seja. Já apanhara muito por causa disso.
O orador dizia que o Brasil queria ser livre, que sua população queria escolher o presidente e que não aguentava mais a presença incômoda daquela ditadura sem serventia e que estava levando o país ao buraco. Segundo ele, a dívida externa estava se tornando impagável porque os militares não tinham capacidade para gerenciar os destinos da nação. O povão aplaudia alegremente. Era realmente uma festa. Mas para mim, diante daqueles bandoleiros juvenis, não havia festa nenhuma. Jonatas falou com um dos seus seguidores: “Pelo visto vamos ter que acertar as contas logo é hoje com esse daí”, e apontou para mim debochativamente.
Não esperei pela segunda afirmação. Dei-lhe um murro no meio da cara e um chute entre as pernas. Ele se curvou de dor e caiu rolando pelo chão. As mãos agarradas aos testículos e gritando muito. Seus camaradas foram apanhados de surpresa e não souberam o que fazer por alguns segundos. Aproveitei aquela breve indecisão deles e dei no pé. Corri pela Alameda Parnaíba, uma avenida que já fora muito bonita em outros tempos, com árvores frondosas de ambos os lados, mas que agora estava sufocada pela fumaça dos veículos poluidores.
Corri com tudo que era possível. e aproveitando a força da gravidade, em direção ao rio Parnaíba. Se, em todo caso, não conseguisse um lugar para me esconder, me jogaria em suas águas barrentas e nadaria até a outra margem. Isso, é claro, se não me afogasse. Mas esta era uma hipótese remota. Sou um excelente nadador. Jonatas se recobrou lentamente e ordenou aos seguidores que me pegassem de qualquer jeito. “Peguem este filho da puta.” Os oradores nem perceberam o pequeno tumulto que se formou naquele instante no meio da multidão. A polícia foi chamada, mas quando chegou eu já havia corrido e estava sendo perseguido por Jonatas e seus acompanhantes.
Caramba. Dificilmente conseguiria me livrar destes infelizes. Em número de sete. Em alguns pontos, a avenida se tornava escura. As lâmpadas dos postes eram obstaculizadas pelas árvores frondosas. Pés de acácia, dezenas deles, em toda a extensão da alameda, praticamente. Eu aproveitava a escuridão para ganhar terreno. Eles se dividiram em dois grupos. Continuei correndo. Tinha tomado algumas doses de caipirinha. Talvez por isso tenha tido coragem para atacar aquele mal elemento.
O cemitério São José. Muros altos. Subi nos galhos de uma árvore. Saltei para dentro. Silêncio absoluto. Escuridão absoluta. Do lado de fora, alguns carros que passam. Vozes distantes. Talvez nas casas próximas. Do outro lado da avenida. Melhor, alameda. Ao longe, a voz de Chico Figueiredo, o radialista que ganhava votos contando piadas sobre os poderosos de plantão. Metendo a lenha na companhia de águas e na companhia de luz. Exigindo da prefeitura que tape os buracos nas ruas dos pobres. E dizendo que todo mundo tem o direito de comer bem e se vestir melhor, mas a inflação não deixa, a ditadura não deixa.
Tremo de medo. Nunca imaginei estar dentro de um cemitério à noite. Somente o medo de enfrentar Jonatas e seus capangas me forçaria a tomar uma atitude assim, entrar num campo santo sozinho. Pelo menos era o que eu pensava. Mas estava redondamente enganado. Sozinho eu não estava. E não estou me referindo aos cadáveres sob sete palmos. Não. Estou falando de um sujeito curvado sobre um túmulo. Ele carrega uma pá, que usa para retirar a terra ainda fofa. O infeliz deve ter sido enterrado naquela mesma tarde e já está sendo trazido de volta à superfício. Me aproximo discreta e silenciosamente. Fico atento aos seus movimentos. Ele abre a tampa do caixão com uma espécie de pé de cabra. Está tranquilo e de vez em quando toma um gole de cachaça, imagino.
Toda a operação demora pouco mais de uma hora. Em seguida, ele devolve o indivíduo à urna e finalmente ao solo onde, espera-se, continue a descansar em paz por toda a eternidade. O sujeito era um ladrão de cadáveres. Estava roubando os pertences do morto. Paletó, camisa, calças, sapatos e até meias. Revirou sua boca em busca de algum dente valioso, de ouro ou prata. Acho que não encontrou nada porque disse alguns palavrões e em seguida cuspiu sobre o morto. De repente, piso num galho seco. Ele olha na direção em que estou. Prendo a respiração, me abaixo. Fecho os olhos e espero o golpe de sua pá impiedosa. Mas ele não vem. Segue na direção contrária. Cumprimenta o vigilante e sai. Sigo atrás. Salto no muro que fica para o lado da avenida Miguel Rosa, já na confluência com a Maranhão. Ninguém em meu encalço. Parece que meus algozes se perderam de mim.
Sigo o ladrão de defuntos. Ele vai para o Mercado Velho. Junta-se a um grupo de outros notívagos, todos sujos, bêbados e desdentados. Um deles nota minha presença perto do botequim. “Ei, quem é esse menino?!”, exclama. Os outros ficam sem resposta. Pergunto se posso tomar uns goles. O ladrão me estende a garrafa e um copo sujo. Tomo sem vacilação. Confesso que estou nervoso a valer.
“O Zico não vale nada”, diz um deles.
“Por que não vale?! Vale sim.”
“Vale não”, emenda o mesmo. “Ele se vendeu para a Udinese. Abandonou o Flamengo. Virou as costas para a torcida.”
O ladrão de cemitério reclamou: “Já vai começar essa história de futebol. Quando começa não tem mais fim. E você, o que acha, guri?”
Está falando comigo. Guri sou eu.
“Queria que ele tivesse ficado. O cara joga demais e o time ganhou muitos títulos por causa dele.”
“Mas ele só pensa em dinheiro”, falou o primeiro. O cara realmente estava detestando o “Galinho de Quintino”.
De repente, a gritaria. “Olha ele lá!” Era Jonatas e seus delinquentes. Não haviam desistido de mim. Para minha infelicidade. “E agora, valentão?”, perguntou o chefe do bando, arrogante, como sempre. “E agora o quê?”, falei. “Não tenho nada para tratar contigo.” Ele não se conformava. “Não tem?! Como não tem?! Cabra safado. Espera só...” E avançou contra mim. Os seus companheiros me agarraram pelos braços e ele começou a me espancar bem ali, no meio dos bêbados, que ficaram rindo, a princípio, pensando, talvez, que se tratava de uma brincadeira. Mas logo entenderam que não era brincadeira alguma. Talvez por causa do sangue em meu rosto ou dos meus gritos de dor. Avançaram contra Jonatas e a turma dele com paus, pedras e tudo o mais que tinham à mão. Os caras me soltaram e saíram correndo. Meus novos amigos me ampararam e perguntaram se estava tudo bem comigo. “Claro que não. Estou moído, não estão vendo?”
Fui sentar no meio-fio, esperar o dia amanhecer. Olhei para o relógio. Ainda nem era meia-noite. Então vi um carro esporte sem capota se aproximar de mim. Pensei que era um daqueles sujeitos viados e velhos que ficam catando rapazinhos na noite da avenida Maranhão, exatamente ali, perto do Mercado Velho. Era Alanis, uma colega de escola, muito amiga de Samira. Fora ela que nos apresentara. “Ei, garoto, está perdido?”, pergunta, sorridente. Estava dirigindo e sozinha. “Quer carona.” Sorrio para ela. “Claro que sim.”
Subimos pela Alameda Parnaíba e passamos próximo ao comício das diretas. O senador Alberto Silva estava discursando. Anunciava a presença do deputado federal Ulysses Guimarães, presidente nacional do seu partido, que falaria dentro de mais alguns instantes. “O que houve contigo? Parece que andou brigando...”, perguntou ela. “Dei azar de me encontrar com o Jonatas bem aqui na praça. Não me contive e o agredi. Ele me perseguiu e me espancou. Mas é um covarde. Não tem coragem de me enfrentar sozinho.”
Não demoramos muito. Apenas o tempo de tomar uma caipirinha. Pouco gelo e muita cachaça. “Quer?”, ofereci para ela. Alanis recusou. Disse que aceitaria um refrigerante. Dei-lhe um guaraná. Falamos pouco no caminho de volta para o conjunto Saci, do outro lado da cidade.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Saraiva

Saraiva estava preocupado com os rumos da situação. Havia muita tensão pairando no ar. A qualquer momento poderia haver uma retaliação por parte dos opositores. Muita gente, em Oeiras, estava contra a mudança. Não queriam perder os privilégios.
Alencastre, secretário particular e amigo, manifestou sua preocupação ao presidente. “Eu, se fosse você, tomava precauções. Há muito falatório na rua”, advertiu.
“Que tipo de precauções?”, questionou Saraiva. “Tenho guarda pessoal, evito lugares frequentados pela oposição, situações que possam gerar confronto. Que outras precauções deveria tomar?”
As preocupações do amigo eram justificáveis. Saraiva era xingado publicamente em Oeiras por conta de sua decisão. Ninguém, absolutamente ninguém, manifestava posição favorável à mudança da capital. Mesmo aqueles que exerciam funções de prestígio no governo se mantinham calados. Havia agressões nas ruas contra aqueles que, por qualquer razão, falassem a favor da transferência. Os oeirenses e adjascentes estavam enfurecidos com a determinação do presidente. Estavam acostumados aos privilégios do poder.
No gabinete presidencial, as conversas giravam basicamente em torno da segurança de Saraiva. “O senhor não conhece este lugar. Aqui se mata por brincadeira”, disse Alencastre. “Estive pesquisando a história. O senhor sabe o que fizeram com os índios que habitavam esta região? Simplesmente os aniquilaram. Mataram todos. O senhor sabe o que isso significa? Genocídio. Tudo financiado com dinheiro do erário. E esse velho Visconde... Está velho, mas ainda tem muita influência. Contam horrores a respeito dele. Por isso, repito: tome cuidado, presidente, por favor”.
Consta que Alencastre, que além de secretário particular do presidente era pesquisador e jornalista, designou um dos mais preparados militares da província para guarnecer o excelentíssimo presidente. Tratava-se de Pedro Rodrigues Bragança, que apesar do sobrenome, nada tinha a ver com a família imperial. De todo modo, a simples pronúncia do seu nome inspirava respeito. Fora caçador de escravos e foragidos, homem de pontaria afinada. Estava na guarda imperial há muito tempo.
“O que acha de Sousa Martins?”, perguntou Alencastre.
“Nada”, respondeu Pedro Bragança. “É apenas um homem”.
“Deve fidelidade a alguém?”, prosseguiu Alencastre.
“Sim, senhor, ao presidente da província”, falou Pedro.
“Daria sua vida para proteger a vida do presidente?”, insistiu Alencastre.
“Pode ter certeza, senhor”, taxativo.
Pedro Bragança foi designado para a guarda pessoal do presidente. Recebeu orientação para não “desgrudar” de Saraiva. Não deveria perdê-lo de vista em momento algum.
“Que garantias terei, senhor?”, perguntou Pedro.
“Do que está falando?”, Alencastre.
“Em caso de ter que tirar a vida de alguém...”, ponderou.
Alencastre, que estava escrevendo alguma coisa em defesa da mudança da capital para a Chapada do Corisco, afirmou: “Todas as garantias. Quem atenta contra a vida do presidente da província não merece perdão”.
Foi orientado, contudo, a, se possível, preservar a vida dos possíveis agressores. “Precisamos saber, de fato, de onde partem as ofensivas... quem está por trás das hostilidades....”
E foi assim, que, numa das inúmeras viagens para a Chapada do Corisco, antes de efetivada a transferência, Pedro Bragança teve a oportunidade de mostrar toda a sua habilidade com uma ou mais armas. Tanto era bom de tiro quanto no manuseio da espada. Estava cavalgando próximo à carruagem presidencial quando esta foi atacada. Tiros, muita correria, gritos, alguns soldados foram atingidos mortalmente. Uma das rodas da carruagem foi danificada.
A emboscada fora bem arquitetada. Era um descampado. A comitiva presidencial foi atacada bem no meio da clareira. Os atiradores estavam escondidos entre as árvores.
Pedro Bragança saltou sobre a carruagem presidencial e gritou: “O senhor está bem, presidente?” Saraiva fez que “sim” balançando a cabeça. À essa altura, já estava de arma em punha. Pistola de único tiro. “O senhor sabe usar uma arma, presidente?”, perguntou-lhe Pedro.
“Sim, meu rapaz, se necessário...”
Os disparos continuavam. As balas vinham de vários pontos no meio da mata. Os clarões provocados pelos disparos formavam um imenso círculo em torno da carruagem emborcada. Os soldados restantes fizeram uma barreira humana. Os cavalos fugiram assustados com o intenso e mortal foguetório. Havia muitos cadáveres e sangue manchando o extenso capinzal da clareira.
“O que faremos?”, perguntou o presidente, assustado. “Resistiremos, senhor. Não devem ser mais que dez ou doze homens. Estão bem guarnecidos, é verdade, escondidos no meio da mata. Mas darei um jeito de forçá-los a mostrar a cara...”, respondeu Pedro, tranqüilamente.
Naquele momento, o presidente entendeu por que o Alencastre escolhera Pedro Rodrigues Bragança. Era o homem certo para as horas de aperreio. Daria a própria vida para cumprir sua missão. Um militar motivado e audacioso.
“Não saia daqui!”, ordenou ao presidente. Saraiva ficou imaginando se deveria obedecer à determinação do bravo Pedro. Pensou: “E se ele também estiver a serviço dos meus inimigos?”
Mas depois entendeu que Pedro poderia matá-lo ali mesmo, naquele momento, visto que estavam apenas os dois dentro da carruagem presidencial. O cocheiro fora mortalmente ferido na primeira descarga de tiros.
O presidente viu quando o militar, aproveitando um instante de trégua para a recarga das armas dos atacantes, saltou para fora do veículo tombando. Pedro atirou-se ao chão e gritou para os soldados: “Atirem na direção dos clarões. Procurem não desperdiçar munição”. Um dos homens da Guarda Presidencial disparou na direção determinada pelo líder. Ouviu-se um grito. Pedro sorriu.
“Muito bem, soldado. Menos um...”
E afastou-se do grupo arrastando-se pelo capinzal, rosto rente ao chão, dois arcabuzes a tiracolo, quatro pistolas com munição e dois sabres.
Pedro Bragança era um homem talhado para a guerra. Não era, de todo, um insensível. Servira com os fazendeiros-colonizadores que haviam expulsado o gentio bravo, habitante original das terras piauienses. Matara muitos índios e se arrependera por isso. Em seus sonhos, ouvia os gritos desesperados das mulheres, crianças e anciãos indefesos implorando pela própria vida. Renunciara à rotina militar. Fora chamado de volta para combater os Balaios. Mais uma causa perdida. Para ele, agora, os Balaios estavam com a razão. Por que lutar contra a razão? Ninguém era obrigado a alistar-se. Fora de livre e espontânea vontade.Tinha pesadelos por causa disso. Tinha, agora, uma chance de redimir-se com sua consciência. Saraiva parecia um bom homem. Lutaria pela vida de um bom homem, que poderia desenvolver a província.
Chegou ao ponto em que as árvores se erguem majestosas. Observou, de pronto, a presença de dois elementos. Trajavam gibões de couro. Eram caçadores de escravos. Embrenhavam-se na mata em busca de negros fugitivos. De vez em quando topavam empreitadas para assassinar alguém — geralmente a serviço de algum fazendeiro. Havia muitas mortes sem punição por aquelas bandas. Mas aquele era um ato e extrema ousadia. Quem, em sã consciência, poderia contratar a morte de um presidente da província, de um homem de confiança do imperador, de um admirável governante? Somente um louco faria tal coisa. Avançou sobre seus oponentes, que mal tiveram tempo de reagir. O primeiro foi atacado com um golpe de sabre, certeiro, sobre a omoplata. Emitiu um uivo e caiu, largando o arcabuz. O segundo, surpreso com a aparição do militar, estava municiando a arma. Largou-a e tentou puxar a espada. Sofreu perfuração mortal na barriga, do umbigo à altura do peito, que rasgou-lhe as entranhas. Não conseguiu gritar. Vomitou sangue ao cair, sem vida, com os olhos abertos fitando o nada.
De onde estava, Pedro posicionou-se. Agora, poderia oferecer resistência. Esperou um disparo. Atirou contra o clarão da espingarda. Escutou o grito e o baque de mais um corpo contra o chão. O gesto repetiu por quatro vezes mais, até que os atacantes resolveram bater em retirada. “E então, presidente?”, questionou, ao retornar para a carruagem. “Devemos voltar a Oeiras ou seguir viagem?” Saraiva pronunciou-se taxativo: “Seguir viagem. Não arredarei pé de minha decisão. Exceto por morte, farei a transferência da capital”. “Então” – falou Pedro – “vamos embora”. E seguiram viagem em direção à Vila Nova do Poti, que aguardava ansiosamente pelo momento de tornar-se a capital da província do Piauí.
Saraiva hospedou no casarão de seu amigo João do Rego Monteiro, o “Barão de Gurguéia”, sede de uma extensa propriedade cujas terras, em sua maioria, foram doadas para a construção da nova capital. Monteiro era um homem muito rico e extremamente bondoso. Abrigava retirantes e os ajudava da melhor forma possível. Dessa forma, conhecia muitas histórias daqueles que por ali passavam. E conhecia muitas histórias acerca dos homens que faziam acontecer.
“Quem é Pedro Rodrigues Bragança, Barão?”, questionou Saraiva, no primeiro desjejum após a chegada, que se deu vários dias após o confronto anteriormente relatado.
“Um matador profissional. Recrutado para missões de alto risco”, respondeu o Barão.
“É um militar engajado?”, insistiu Saraiva.
“Não sei responder, presidente. Sei apenas que revoltou-se contra seus superiores em duas oportunidades. Na primeira, já no fim das guerras indígenas; a segunda, por ocasião dos combates da Balaiada. Me parece que tem devaneios utópicos. É, na verdade, um idealista”.
Saraiva não conseguia esconder a sua apreensão. “É um homem confiável?”
O Barão não titubeou em dar-lhe resposta: “É melhor que o tenha ao seu lado. Pode ter certeza: daria a própria vida para garantir a sua. Se alguém matá-lo, presidente – e rogamos a Deus para que tal não ocorra – fique certo de que Pedro tombaria primeiro”.
“Como sabe tanto sobre tanta gente?”.
Monteiro caminhou até a janela. A firmeza dos passos fez ecoar o tablado do piso. Abriu a janela e apontou para o terreiro defronte ao casarão, onde dezenas de tendas se erguiam e onde havia muitas fogueiras espalhadas, com pessoas formando rodas de conversas e preparando alimentos ao ar livre.
“Quem são, senhor Barão?”, perguntou o presidente.
“Viajantes, senhor presidente. Peregrinos. Gente de todos os recantos da província e até de outros lugares que acorrem para a fertilidade dos nossos vales. Passaram dias por aí, estudando, conhecendo melhor o lugar. Alguns chegam famintos, quase mortos de fome. Dou-lhes bebida, alimento, em troca de muito diálogo. É assim que fico sabendo das coisas, senhor presidente”.
“Então, deve sabe quem mandou aqueles homens me atacarem”.
“Não, presidente, ainda não sei. Mas saberei em breve. Fique tranqüilo. Peço apenas que tome as precauções necessárias. E não se preocupe. Com Pedro Bragança ao seu lado, o senhor sobreviverá”.
Saraiva sorriu para disfarçar o nervosismo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Maio de 1986

O clima é de expectativa para a Copa do Mundo. Zico está machucado e pode não jogar. De qualquer modo, Telê Santana garantiu a convocação. Quer contar ao menos com a possibilidade de tê-lo na equipe. Se, no México, ele apresentar condições de jogo, certamente será escalado. Meu amigo Tulio está bastante animado. Só pensa em futebol. Eu, de outro, tenho minha cabeça voltada para outras situações. Sexo, por exemplo. Penso muito em mulheres. Em como conquistá-las, trazê-las para os meus braços. Adoro fazer isso aos finais de semana. Frequento boates, danceterias e praças, sempre sozinho, porque sei que a qualquer momento pode pintar uma conquista.
Noite dessas corri o maior risco. Fui ao Parque Piauí e conheci uma morena na praça central do bairro. Ela me deu bola e começamos a caminhar lado a lado. Ofereci-lhe carona em minha bicicleta. Pra onde mesmo?, ela perguntou. Pra onde você quiser, eu disse, audacioso, como sempre. A garota, muito bonita, fez que sim e montou na garupa. Descemos pela avenida Henry Wall e seguimos em direção a um pequeno motel que ficava no bairro Tabuleta, a alguns quilômetros dali.
Antes que chegássemos ao balão, no entanto, um sujeito nos atalhou. Vinha numa moto, parecia afobado. O que está fazendo na rua a esta hora?, ele a questionou. Ela saltou, eu parei, nesta ordem. Por que está me seguindo? Já disse que não quero mais nada contigo. O sujeito estava muito enfezado. Não quer o quê, sua mudana?!! E deu-lhe a maior tapona na cara. A jovem balançou e caiu. Tentei conter o sujeito, mas ele ainda deu-lhe mais duas pancadas. Ela estava no chão e não podia se defender. Armei-me com um pedaço de pau e o ataquei por trás.
Alguns curiosos se chegaram para ver a cena de luta ao ar livre. Ele ficou grogue mas se defendeu com um chute que me atingiu em cheio na barriga. Caí com uma dor desgraçada. Ele então esqueceu a mulher e avançou sobre mim. Ela se aproveitou da situação e saiu correndo. O que tu tem a ver com isso, seu pivete?! Pivete, eu!? Levantei-me. Foi um confronto dos diabos. Felizmente a briga foi apartada pelos curiosos. Eu estava, é claro, levando a pior.
O cara tinha duas vezes a minha musculatura. Sou um levantador de copos e meus braços servem apenas para abraçar belas garotas. Montei em minha bicicleta e pedalei apressadamente para longe dali. Tive tempo de passar pela garota que andava assustada no lado oposto da avenida. Fiz de conta que não a vi e fui direto para casa.
Outra noite eu peguei uma mulher na avenida principal do Sacy e saímos andando para uma área escura próxima ao Distrito Industrial. Estávamos no maior amasso quando de repente apareceu um sujeito mal encarado. A poucos metros de nós havia um poste com a luz acesa. Puxei a garota para debaixo do poste. Ele nos acompanhou e disse que estava precisando falar com ela.
A sujeita falou que não tinha mais nada para falar com ele. Fiquei puto da vida. Estava pegando só menina comprometida. E o que é pior: com esses caras da pesada. Não disse nada para nenhum dos dois. Fiquei encolhido no meu canto. O cara enfatizou que não queria violência. Queria apenas pegar sua garota e sair dali numa boa. Não estava nem com raiva de mim porque não cheguei, segundo ele, a consumar a posse do corpo de sua amada.
Filho da puta. Tinha razão. O jeito era ir para casa. Mais uma noite sem ninguém. Na solidão do meu quarto, peguei uma revista de mulher e estava pensando em me masturbar quando deparei-me com um aviso. Uma mulher do Rio de Janeiro, casada, estava procurando jovens dispostos a manter relacionamento sem compromisso.
Estava disposta a viajar para qualquer lugar do país a fim de satisfazer seu desejo e também de custear a passagem de quem se dispusesse em atendê-la. Achei melhor combinar para ela vir a Teresina, até porque o marido também vinha junto. Trocamos correspondências e ela perguntou se eu tinha algum amigo que pudesse ir junto no dia do encontro. Falei de Tulio e ela disse que estava tudo bem. Falei com ele e recebi a mesma resposta.
Aguardamos então ansiosamente a chegada do casal, que se hospedou no Luxor Hotel do Piauí, em frente a Praça da Bandeira, no centro da capital. Ela se chamava Malu, ou pelo menos disse que se chamava assim, ele Zecarlos e também não fiz questão de saber se este era o seu nome verdadeiro. Estávamos na sala da suíte, que tinha várias repartições. Estava querendo ir para os “finalmente” quando Zecarlos convidou Tulio para irem até o quarto preparar uma bebida.
Desconfiei daquilo. Será que o cara era boiola? Bem, isso era problema do meu amigo que, não se pode negar, era chegado a um viado. Abracei Malu e ela me abraçou, nos beijamos ardentemente e transamos no sofá da sala. Zecarlos e Tulio voltaram bem a tempo de me pegar em pleno gozo. Ela também estava na maior sensação.
Então se deu a cena dantesca. Zecarlos ficou de cócoras e começou a chupar o pau de Tulio. Chupava fazendo muito barulho, uma sucção ansiosa, sofrida, e Tulio balançando a cintura, para a frente e para trás. De repente meu amigo ejaculou e não se sustentou em pé. Foi uma pequena queda, muito engraçada para todos. A putaria não terminou por ali.
Tomamos uísque com gelo e água de coco e conversamos sobre muitos assuntos. Os principais: sexo e futebol. Naquela tarde, dali a pouco, o Brasil iria estrear na Copa do México. Zico não estava no time principal, que contava com Sócrates e companhia limitada, praticamente a mesma formação da Copa anterior, na Espanha, quando fomos eliminados tragicamente pela Itália de Paolo Rossi.
Passava das duas da tarde quando Zecarlos disse que iria tomar um banho. Tulio o acompanhou. Eu e Malu fomos para a cama trepar novamente. Tínhamos combinado de nos encontrar novamente no dia seguinte, mas não queríamos perder nenhuma oportunidade. Ela me contou que o marido era de uma família muito rica, do Rio, e que não tinha muito tesão por mulher, nem mesmo por ela, por isso aceitava esse tipo de coisa, suruba, no dizer popular.
Estava em cima dela, subindo e descendo, naquele movimento gostoso que antecede o gozo quando senti aquela coisa dura tentando abrir caminho entre minhas nádegas em direção ao meu cu. Que porra é essa?!!, gritei. O marido de Malu estava excitadíssimo. Disse que não havia conseguido nada com o Tulio, queria foder também, e então estava tentando comigo. Que eu não me preocupasse. Dinheiro não era problema.
Peguei o abajur que estava sobre a mesinha ao lado da cama e o despedacei na cabeça daquele filho de uma égua. Está pensando o que, seu escroto, que sou viado?! Pois está muito enganado. Não sou baitola e não quero ninguém me comendo nem por todo o dinheiro do mundo. O corte foi profundo. Muito sangue começou a jorrar de sua testa. Ele ficou indignado. Pegou a extensão e ligou para a recepção. Quero comunicar que meu apartamento foi invadido por dois adolescentes mal encarados que estão ameaçando a mim e a minha esposa. Por favor, chamem a polícia, depressa.
Dei-lhe um murro para compensar a minha ira naquele momento. Peguei minhas roupas, gritei pelo Tulio, ele já estava saindo da banheira, enrolado apenas numa toalha. Falei para ele que a polícia estava a caminho, beijei Malu, voltei-me para Zecarlos e dei-lhe mais um chute entre as pernas, ele caiu gritando. Então partimos com roupas nas mãos, descemos pelas escadas, nos deparamos com outros hóspedes que ficaram boquiabertos, passamos pela portaria, estupor geral e conseguimos sair.
Ao chegarmos na praça da Bandeira, nos refugiamos no Teatro de Arena e então nos vestimos, sempre apressadamente. Eu já havia chamado aquele cretino de filho de uma rapariga centenas de vezes. Mas nada saciava a raiva que eu estava sentindo dele.
O que houve?, perguntou Tulio. Eu contei tudo o que se passou. Meu amigo também ficou puto da vida. Que cara mais escroque, meu, vamos voltar lá e arrebentar geral. De jeito nenhum, eu disse, apontando para a entrada do hotel. Um carro da polícia estava estacionando naquele exato momento. Eram quatro PM’s. Melhor a gente ir para casa. Vamos pegar o ônibus lá na Pedro II, porque o negócio por aqui tá sujo, eu propus e Tulio topou prontamente. No dia seguinte liguei para o hotel e pedi para falar com Malu. Ela atendeu e combinamos de nos encontrar. Zecarlos não a acompanhou.