quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Saraiva

Saraiva estava preocupado com os rumos da situação. Havia muita tensão pairando no ar. A qualquer momento poderia haver uma retaliação por parte dos opositores. Muita gente, em Oeiras, estava contra a mudança. Não queriam perder os privilégios.
Alencastre, secretário particular e amigo, manifestou sua preocupação ao presidente. “Eu, se fosse você, tomava precauções. Há muito falatório na rua”, advertiu.
“Que tipo de precauções?”, questionou Saraiva. “Tenho guarda pessoal, evito lugares frequentados pela oposição, situações que possam gerar confronto. Que outras precauções deveria tomar?”
As preocupações do amigo eram justificáveis. Saraiva era xingado publicamente em Oeiras por conta de sua decisão. Ninguém, absolutamente ninguém, manifestava posição favorável à mudança da capital. Mesmo aqueles que exerciam funções de prestígio no governo se mantinham calados. Havia agressões nas ruas contra aqueles que, por qualquer razão, falassem a favor da transferência. Os oeirenses e adjascentes estavam enfurecidos com a determinação do presidente. Estavam acostumados aos privilégios do poder.
No gabinete presidencial, as conversas giravam basicamente em torno da segurança de Saraiva. “O senhor não conhece este lugar. Aqui se mata por brincadeira”, disse Alencastre. “Estive pesquisando a história. O senhor sabe o que fizeram com os índios que habitavam esta região? Simplesmente os aniquilaram. Mataram todos. O senhor sabe o que isso significa? Genocídio. Tudo financiado com dinheiro do erário. E esse velho Visconde... Está velho, mas ainda tem muita influência. Contam horrores a respeito dele. Por isso, repito: tome cuidado, presidente, por favor”.
Consta que Alencastre, que além de secretário particular do presidente era pesquisador e jornalista, designou um dos mais preparados militares da província para guarnecer o excelentíssimo presidente. Tratava-se de Pedro Rodrigues Bragança, que apesar do sobrenome, nada tinha a ver com a família imperial. De todo modo, a simples pronúncia do seu nome inspirava respeito. Fora caçador de escravos e foragidos, homem de pontaria afinada. Estava na guarda imperial há muito tempo.
“O que acha de Sousa Martins?”, perguntou Alencastre.
“Nada”, respondeu Pedro Bragança. “É apenas um homem”.
“Deve fidelidade a alguém?”, prosseguiu Alencastre.
“Sim, senhor, ao presidente da província”, falou Pedro.
“Daria sua vida para proteger a vida do presidente?”, insistiu Alencastre.
“Pode ter certeza, senhor”, taxativo.
Pedro Bragança foi designado para a guarda pessoal do presidente. Recebeu orientação para não “desgrudar” de Saraiva. Não deveria perdê-lo de vista em momento algum.
“Que garantias terei, senhor?”, perguntou Pedro.
“Do que está falando?”, Alencastre.
“Em caso de ter que tirar a vida de alguém...”, ponderou.
Alencastre, que estava escrevendo alguma coisa em defesa da mudança da capital para a Chapada do Corisco, afirmou: “Todas as garantias. Quem atenta contra a vida do presidente da província não merece perdão”.
Foi orientado, contudo, a, se possível, preservar a vida dos possíveis agressores. “Precisamos saber, de fato, de onde partem as ofensivas... quem está por trás das hostilidades....”
E foi assim, que, numa das inúmeras viagens para a Chapada do Corisco, antes de efetivada a transferência, Pedro Bragança teve a oportunidade de mostrar toda a sua habilidade com uma ou mais armas. Tanto era bom de tiro quanto no manuseio da espada. Estava cavalgando próximo à carruagem presidencial quando esta foi atacada. Tiros, muita correria, gritos, alguns soldados foram atingidos mortalmente. Uma das rodas da carruagem foi danificada.
A emboscada fora bem arquitetada. Era um descampado. A comitiva presidencial foi atacada bem no meio da clareira. Os atiradores estavam escondidos entre as árvores.
Pedro Bragança saltou sobre a carruagem presidencial e gritou: “O senhor está bem, presidente?” Saraiva fez que “sim” balançando a cabeça. À essa altura, já estava de arma em punha. Pistola de único tiro. “O senhor sabe usar uma arma, presidente?”, perguntou-lhe Pedro.
“Sim, meu rapaz, se necessário...”
Os disparos continuavam. As balas vinham de vários pontos no meio da mata. Os clarões provocados pelos disparos formavam um imenso círculo em torno da carruagem emborcada. Os soldados restantes fizeram uma barreira humana. Os cavalos fugiram assustados com o intenso e mortal foguetório. Havia muitos cadáveres e sangue manchando o extenso capinzal da clareira.
“O que faremos?”, perguntou o presidente, assustado. “Resistiremos, senhor. Não devem ser mais que dez ou doze homens. Estão bem guarnecidos, é verdade, escondidos no meio da mata. Mas darei um jeito de forçá-los a mostrar a cara...”, respondeu Pedro, tranqüilamente.
Naquele momento, o presidente entendeu por que o Alencastre escolhera Pedro Rodrigues Bragança. Era o homem certo para as horas de aperreio. Daria a própria vida para cumprir sua missão. Um militar motivado e audacioso.
“Não saia daqui!”, ordenou ao presidente. Saraiva ficou imaginando se deveria obedecer à determinação do bravo Pedro. Pensou: “E se ele também estiver a serviço dos meus inimigos?”
Mas depois entendeu que Pedro poderia matá-lo ali mesmo, naquele momento, visto que estavam apenas os dois dentro da carruagem presidencial. O cocheiro fora mortalmente ferido na primeira descarga de tiros.
O presidente viu quando o militar, aproveitando um instante de trégua para a recarga das armas dos atacantes, saltou para fora do veículo tombando. Pedro atirou-se ao chão e gritou para os soldados: “Atirem na direção dos clarões. Procurem não desperdiçar munição”. Um dos homens da Guarda Presidencial disparou na direção determinada pelo líder. Ouviu-se um grito. Pedro sorriu.
“Muito bem, soldado. Menos um...”
E afastou-se do grupo arrastando-se pelo capinzal, rosto rente ao chão, dois arcabuzes a tiracolo, quatro pistolas com munição e dois sabres.
Pedro Bragança era um homem talhado para a guerra. Não era, de todo, um insensível. Servira com os fazendeiros-colonizadores que haviam expulsado o gentio bravo, habitante original das terras piauienses. Matara muitos índios e se arrependera por isso. Em seus sonhos, ouvia os gritos desesperados das mulheres, crianças e anciãos indefesos implorando pela própria vida. Renunciara à rotina militar. Fora chamado de volta para combater os Balaios. Mais uma causa perdida. Para ele, agora, os Balaios estavam com a razão. Por que lutar contra a razão? Ninguém era obrigado a alistar-se. Fora de livre e espontânea vontade.Tinha pesadelos por causa disso. Tinha, agora, uma chance de redimir-se com sua consciência. Saraiva parecia um bom homem. Lutaria pela vida de um bom homem, que poderia desenvolver a província.
Chegou ao ponto em que as árvores se erguem majestosas. Observou, de pronto, a presença de dois elementos. Trajavam gibões de couro. Eram caçadores de escravos. Embrenhavam-se na mata em busca de negros fugitivos. De vez em quando topavam empreitadas para assassinar alguém — geralmente a serviço de algum fazendeiro. Havia muitas mortes sem punição por aquelas bandas. Mas aquele era um ato e extrema ousadia. Quem, em sã consciência, poderia contratar a morte de um presidente da província, de um homem de confiança do imperador, de um admirável governante? Somente um louco faria tal coisa. Avançou sobre seus oponentes, que mal tiveram tempo de reagir. O primeiro foi atacado com um golpe de sabre, certeiro, sobre a omoplata. Emitiu um uivo e caiu, largando o arcabuz. O segundo, surpreso com a aparição do militar, estava municiando a arma. Largou-a e tentou puxar a espada. Sofreu perfuração mortal na barriga, do umbigo à altura do peito, que rasgou-lhe as entranhas. Não conseguiu gritar. Vomitou sangue ao cair, sem vida, com os olhos abertos fitando o nada.
De onde estava, Pedro posicionou-se. Agora, poderia oferecer resistência. Esperou um disparo. Atirou contra o clarão da espingarda. Escutou o grito e o baque de mais um corpo contra o chão. O gesto repetiu por quatro vezes mais, até que os atacantes resolveram bater em retirada. “E então, presidente?”, questionou, ao retornar para a carruagem. “Devemos voltar a Oeiras ou seguir viagem?” Saraiva pronunciou-se taxativo: “Seguir viagem. Não arredarei pé de minha decisão. Exceto por morte, farei a transferência da capital”. “Então” – falou Pedro – “vamos embora”. E seguiram viagem em direção à Vila Nova do Poti, que aguardava ansiosamente pelo momento de tornar-se a capital da província do Piauí.
Saraiva hospedou no casarão de seu amigo João do Rego Monteiro, o “Barão de Gurguéia”, sede de uma extensa propriedade cujas terras, em sua maioria, foram doadas para a construção da nova capital. Monteiro era um homem muito rico e extremamente bondoso. Abrigava retirantes e os ajudava da melhor forma possível. Dessa forma, conhecia muitas histórias daqueles que por ali passavam. E conhecia muitas histórias acerca dos homens que faziam acontecer.
“Quem é Pedro Rodrigues Bragança, Barão?”, questionou Saraiva, no primeiro desjejum após a chegada, que se deu vários dias após o confronto anteriormente relatado.
“Um matador profissional. Recrutado para missões de alto risco”, respondeu o Barão.
“É um militar engajado?”, insistiu Saraiva.
“Não sei responder, presidente. Sei apenas que revoltou-se contra seus superiores em duas oportunidades. Na primeira, já no fim das guerras indígenas; a segunda, por ocasião dos combates da Balaiada. Me parece que tem devaneios utópicos. É, na verdade, um idealista”.
Saraiva não conseguia esconder a sua apreensão. “É um homem confiável?”
O Barão não titubeou em dar-lhe resposta: “É melhor que o tenha ao seu lado. Pode ter certeza: daria a própria vida para garantir a sua. Se alguém matá-lo, presidente – e rogamos a Deus para que tal não ocorra – fique certo de que Pedro tombaria primeiro”.
“Como sabe tanto sobre tanta gente?”.
Monteiro caminhou até a janela. A firmeza dos passos fez ecoar o tablado do piso. Abriu a janela e apontou para o terreiro defronte ao casarão, onde dezenas de tendas se erguiam e onde havia muitas fogueiras espalhadas, com pessoas formando rodas de conversas e preparando alimentos ao ar livre.
“Quem são, senhor Barão?”, perguntou o presidente.
“Viajantes, senhor presidente. Peregrinos. Gente de todos os recantos da província e até de outros lugares que acorrem para a fertilidade dos nossos vales. Passaram dias por aí, estudando, conhecendo melhor o lugar. Alguns chegam famintos, quase mortos de fome. Dou-lhes bebida, alimento, em troca de muito diálogo. É assim que fico sabendo das coisas, senhor presidente”.
“Então, deve sabe quem mandou aqueles homens me atacarem”.
“Não, presidente, ainda não sei. Mas saberei em breve. Fique tranqüilo. Peço apenas que tome as precauções necessárias. E não se preocupe. Com Pedro Bragança ao seu lado, o senhor sobreviverá”.
Saraiva sorriu para disfarçar o nervosismo.