sexta-feira, 9 de março de 2012

O SECRETÁRIO

O deputado/secretário costuma entrar por uma porta lateral. O salão cheio de gente, a dona sempre o atende com discrição. É uma amiga de muitos anos.
“Está feliz?”
“Muito.”
“Por que tanta felicidade?”
“Hoje devo receber a visita de um amigo... vem de Salvador.”
“Sei. Amizade colorida?”
“Amizade colorida. Vai passar o final de semana comigo. Já temos um caso antigo.”
Ele faz o contorno da bunda. Cera quente. Marinez tem a mão suave.
Coloca a cera e repuxa com firmeza, mas sem agredir a sua pele macia.
“Pelo visto, hoje vai rolar muita alegria.”
“Com certeza.”
Ele sorri.

15:00.
Humberto chama Clodoaldo. O assistente vem rapidamente. Permanece no gabinete apenas informalmente. Na prática, estava licenciado por motivo de candidatura.
O expediente havia encerrado às 13:00, mas o deputado costuma esticar. Exerce o cargo de secretário de estado das Cidades. Indicação dele próprio dado a sua ligação com o governador.
“Quero que vá ao aeroporto.”
“Pois não, secretário.”
“Vai chegar um amigo. Ele desembarca pelas 15:30. Quero que o apanhe e o traga diretamente para cá.”
Clodoaldo sempre foi um assessor dedicado. Nunca cometeu nenhuma indisciplina.
“Pode deixar, doutor Humberto.”

Humberto Balbo está no segundo mandato de deputado estadual. Antes fora vereador numa cidadezinha da região norte onde sua família mantém relativa influência política.
Fora eleito, é claro, com a força do dinheiro. Seus avós são fazendeiros, muito ricos, e não deixariam de atender mais aquele mimo do netinho querido.
Comenta-se, nos bastidores da política piauiense, que sua homossexualidade nunca agradou ao velho avô, um homem rude, do campo e que detesta esse tipo de inclinação.
Mas sua avó adora. Ela sempre quis ter uma netinha e seus filhos nunca lhe deram esta satisfação. Todos os netos são homens. Quer dizer, quase todos.

15:15.
Serve-se de uma dose de uísque. Chama para perto de si a secretária Joanara.
“O Clodoaldo deve chegar em instantes”, ele disse.
“Ele está dentro da hora.”
“Um camarada decente, Joanara.”
“Sem dúvida, secretário.”
“Por isso vou torná-lo vereador em São José da Caatinga.”
“Claro. Vai sim. Ele merece.”

Passa das quatro horas e nada. Humberto está visivelmente aborrecido. Olha o relógio. Já está na terceira dose de John Walker Blake Label.
“Filho da puta. Onde estão esses filhos da puta?!!”
“Calma, doutor Humberto. Devem estar presos no trânsito.”
“Trânsito, Joanara, numa sexta-feira, quatro da tarde. Nem na China, minha filha.”
“O que quer que eu faça?”
“Ligue-me com o aeroporto, a companhia aérea...”
Ligou. Foi informado de que o voo chegara normalmente. Nenhum problema.
Chamou o motorista. “Será que aquele imbecil entendeu mal? Será que entendeu que deveria levar o Roberto para o apartamento?”
Por via das dúvidas, ligou para seu apartamento. Nada. A empregada disse que não chegara ninguém.
Tomou a iniciativa de ligar para o apartamento de Clodoaldo. O telefone chamou e ninguém atendeu.
Resolveu que iria pessoalmente. Clodoaldo deve ter se lembrado de alguma coisa importante em casa ou então estaria com algum problema.

No caminho, ficou pensando mil coisas. O veículo de Clodoaldo pode ter sido abordado por assaltantes. Seu assessor e namorado podiam ter sido sequestrados. Quem sabe?!
Teresina está se tornando uma cidade violenta. Todos sabem que o problema não é apenas de repressão. Tem uma raiz social profunda.
São muitas décadas de exclusão. Privilégios da elite. Desprezo para os menos favorecidos.
A cidade incha em favelas que se espalham por toda a periferia. Uma imensa população desocupada.
Jovens que não têm o que fazer. Não ganham dinheiro regularmente. Fazem bicos ou assaltam. A maioria, para se drogar.
Tomou outra dose de uísque e procurou afugentar aqueles pensamentos.

O motorista ficou esperando na portaria. Ele subiu pelo elevador. Tinha a chave do apê de Clodoaldo.
Foi surpreendido pela cena chocante: seu assessor especial sendo enrabado pelo seu namorado.
Roberto estava comendo Clodoaldo. “Filhos de uma puta”, gritou, e saiu gritando pelo prédio inteiro. “Traição. Traição...”
Ao chegar na portaria e ver o motorista, simulou um desmaio. Cena de filme pastelão. Quase caiu feio porque o empregado não tinha a agilidade necessária.
“Covardes. Filhos da puta. Traidores. Vou foder com eles. Prometo que não ficará pedra sobre pedra.”
O porteiro trouxe um copo de água com açúçar. Ele mandou o homenzinho ir tomar naquele lugar e saiu andando com firmeza.

Foi direto ao presidente do partido. “Não quero mais que esse cretino do Clodoaldo seja candidato a vereador. A candidatura dele está vetada por mim. Vetada, entendeu.”
Tonico Boroco, político das antigas, também deputado estadual e presidente regional do Partido Humanista Democrático Brasileiro, respondeu que não podia fazer mais nada.
“Secretário, lamento informar que não posso ajudá-lo. A candidatura foi aprovada em convenção e registrada na Justiça Eleitoral. Agora, só se ele morrer.”
“O quê?!! O que está me dizendo?!...”
“Isso mesmo que o senhor ouviu. Não posso fazer mais nada pelo senhor...”

Foi em casa. Apanhou uma pistola carregada de balas.
“Vou fazer justiça com as próprias mãos.”
O motorista pediu calma. “Por que o senhor não toma um banho de piscina?”
“Cala a boca, seu covarde, quer que eu lhe meta uma bala na cabeça também?”
O homem ficou em silêncio. Continuou a fazer apenas o seu trabalho.
Humberto chegou de novo no apartamento de Clodoaldo. Nem ele nem Roberto se encontravam.
O porteiro informou que haviam saído de carro e levaram malas consigo.
Humberto sentou no meio-fio com a pistola na mão. Estava desolado.
Foi assim que uma patrulha da polícia militar o encontrou. Um policial o abordou.
“Senhor, largue esta arma.”
O outro policial estava dando apoio e apontava uma arma para ele.
“Você sabe com quem está falando?”
“Sei sim, senhor, mas estou cumprindo meu dever. O senhor largue essa arma e me acompanhe até a delegacia.”
Humberto olhou melhor para ele. Era um PM jovem e muito bonito.
Decidiu largar a arma. O jovem recolheu a pistola e perguntou se ele poderia acompanhar a viatura até a delegacia mais próxima. Precisariam lavrar um auto de apreensão da arma. Questão de praxe.
“Sem dúvida, meu caro. Como é que você se chama mesmo?”
O policial pareceu notar uma certa malícia na voz e no olhar do deputado/secretário.

quarta-feira, 7 de março de 2012

CÃES DE GUERRA

O diretor de jornalismo o procura com um brilho intenso nos olhos – está tramando alguma coisa, o jornalista logo vê. É o apresentador do telejornal, programa de maior audiência da emissora, e um dos mais respeitados profissionais do quadro de jornalistas da empresa, que conta ainda com um jornal, duas emissoras de rádio em FM, uma em AM e um portal de notícias em construção.
Precisamos dar uma resposta à altura pra esse pessoal do partido de oposição, diz o diretor. Eles têm batido muito no governo e em nós.
Ainda acho que deveríamos nos manter neutros. Esse alinhamento político já nos custou caro no passado, argumenta o jornalista.
De modo algum. O patrão quer engajamento total e vamos potencializar ainda mais os ataques contra a oposição. Esse candidato a governador não tem história, não tem postura. Não pode ser governador.
O jornalista sorri. Muito bem, diz, e como pretende fazer?
Vamos procurar alguma coisa contra ele. Vamos levantar um dossiê com as irregularidades cometidas por ele. O sujeito foi líder sindical, vereador e deputado, não é possível que nada haja que desabone a conduta dele.
Não sei. Acho difícil, argumenta o outro, mas o diretor está resoluto: Você poderia produzir esse dossiê. Temos que dar munição para o governador. A eleição está pau a pau!
A campanha começou com amplo favoritismo do candidato oficial, que assumira o governo há apenas alguns meses depois de destituir seu antecessor com base em denúncias de corrupção eleitoral.
O ex-governador perdeu o mandato mas não os direitos políticos e assim pôde fazer política abertamente. Candidatou-se ao Senado e decidiu colocar seu partido no apoio ao candidato da esquerda. Os dois foram adversários em épocas anteriores, mas agora o que importava era a vitória a qualquer custo. Daria tudo de si para colocar o jovem deputado federal no Palácio de Karnak.
O atual ocupante do palácio, titulado pelos adversários como príncipe da oligarquia, é a principal liderança isolada do Estado. Começa com vantagem de mais de 20 pontos percentuais sobre todos os demais candidatos reunidos. Mas o deputado socialista tem um discurso simples e agradável e tem muita disposição para caminhar e percorrer os caminhos e trilhas que levam ao coração do eleitorado. Em pouco tempo ele consegue se aproximar perigosamente do principal postulante.
Acende a luz amarela no comitê do candidato oficial. Ele em pessoa vai aos canais de tevê para anunciar medidas populistas e rasteiras. Concede descontos gigantescos aos empresários em débito com o Fisco. Cria um restaurante com alimentação de graça para os mais pobres. Institui um espaço de cidadania no antigo hortomercado da avenida João XXIII. Vai às áreas atingidas por alagamentos em função das recentes chuvas e lança um programa de moradias em sistema de mutirão com material cedido pelo governo e mão-de-obra dos beneficiários.
Os adversários apenas denunciam irregularidades. Milhares de contratações graciosas de cabos eleitorais. Distribuição de dinheiro público para caciques políticos da capital e do interior. Benefícios fiscais concedidos de maneira ilegal de modo a prejudicar as finanças públicas. Falta de planejamento estratégico.
O candidato oficial está comprando prefeitos, vereadores e lideranças políticas. Reúne em torno de sua candidatura todos os ricos do Estado – protesta o jovem e sorridente deputado. Apesar da denúncia, sua fala é humilde, transpira tranquilidade. Mas não se pode ganhar eleição sem o apoio popular e o povo está cansado do governo dos ricos e pelos ricos. Não é sem razão que este sempre foi um Estado rico de população empobrecida. Porque todas as riquezas são repartidas entre os donos do poder e do dinheiro.
O ex-governador e agora candidato ao Senado também ataca. Na tevê aparece com uma aura de santo e ao fundo uma imagem de São Francisco de Assis – “meu santo de devoção”. Nos palanques chama o governador de homossexual e a primeira-dama de macumbeira do Maranhão. Seus gritos histéricos ecoam pelos quatro candidatos: ele se diz injustiçado, que sempre trabalhou pelos menos favorecidos e lembra dos programas de alimentação aos famintos, da isenção nas contas de água e luz dos que não podiam pagar e faz novos ataques: O governador não tem postura de homem. Quer transformar o Estado num bacanal. As orgias em palácio varam a madrugada...
O chefe do Executivo não responde. Opta pelo silêncio em relação ao seu principal adversário. Prefere centrar esforços contra o candidato ao governo. Este, sim, é motivo de preocupação – os institutos de pesquisa traduzem seu crescimento em todos os segmentos do eleitorado. Ele agora deixou de ser um candidato de ocasião para constituir ameaça verdadeira ao seu propósito de permanecer no poder por mais quatro anos.
Os programas eleitorais do governador transmitem fragilidade no discurso. Ele apela para o denuncismo: o socialista não seria tão socialista assim. Pelo contrário – é um bem sucedido empresário do ramo de financiamento de imóveis; seria proveniente de uma rica família de fazendeiros da região Sul; manteria sociedade com esquemas de corrupção em Brasília.
Na TV Imprensa, a ordem era bater pesado contra o parlamentar. Em nenhuma hipótese ele poderia ser eleito. Num estúdio desativado para reformas, o diretor diz ao jornalista:
O debate que está previsto para a próxima semana deve ser imediatamente cancelado. O governador não tem nenhum interesse na sua realização.
Mas os critérios já foram acertados, a Justiça Eleitoral deu o “Ok”, os anúncios estão sendo veiculados e há muita expectativa na sociedade. Acho muito arriscado cancelar – protesta o outro.
Temos que cancelar. O palácio está em polvorosa com os índices das últimas pesquisas. Você precisa entender que nosso patrão pode perder negócios de milhões caso esse arrivista se eleja.
Muito bem. E como faremos?
É simples. Telefone para todos os candidatos e transmita que estamos cancelando por problemas técnicos. Não temos como acomodar os oito candidatos no estúdio...
No dia seguinte o esquerdista telefona ao apresentador para perguntar o porquê do cancelamento. O jornalista repete o que lhe foi orientado pelo diretor. O assessor de imprensa do candidato de oposição também quer saber a razão do cancelamento. O partido está indignado. A maioria do povo também se indigna. O jornalista tenta se salvar no turbilhão de acontecimentos que apontam para um descredenciamento moral da emissora.
Numa palestra para estudantes universitários o assessor de imprensa acusa o grupo Imprensa de conluio com o governo em detrimento do candidato da oposição e da legítima aspiração dos eleitores. É um grupo que não faz jornalismo com independência e conseqüente imparcialidade. Está desgraçadamento atrelado à direita liberal. Lamentável que em pleno século XXI ainda tenhamos que conviver com esse tipo de comportamento da nossa imprensa.
No debate realizado pela TV Globo o deputado repete a denúncia. E a reforça: este grupo engorda a olhos vistos às custas do erário. É o dinheiro das escolas, dos hospitais e dos servidores que financia a vida nababesca de seu proprietário, responsável por inúmeros crimes contra a ordem econômica.
Ele vai além: Estou recebendo aqui a informação de que na calada da noite o governo sacou a quantia de 50 milhões de reais do Banco do Estado e que este dinheiro será usado na compra de votos no interior. Foi despachado em malotes e aviões e chegará às mãos dos caciques políticos no dia antes da eleição.
O governador reclama. Diz que é tudo mentira e que mandará abrir uma sindicância para apurar a quebra de sigilo fiscal do banco oficial: Servidores públicos não podem se deixar dominar por suas paixões políticas, colocando em risco a credibilidade do Estado. Nosso banco é público e nenhum órgão da administração terá desvio de suas funções para beneficiar a minha candidatura. Repito: o governo é o governo e em momento algum deixaremos que haja o comprometimento da máquina pública.
Na véspera do pleito seis candidatos de oposição renunciam às suas postulações em favor do socialista. Fazem caminhada de mãos dadas na avenida Frei Serafim.
No dia das eleições os institutos de pesquisa apontam empate técnico entre os dois candidatos. As intenções de votos estão literalmente divididas – 50x50. Os governistas dizem que a parada está liqüidada. Investem tudo na reta final. O governador diz que a oposição pode “tirar o cabelinho da venta” – “porque esta eleição é nossa.”
Os oposicionistas não antecipam nenhuma comemoração. O candidato veste-se de vermelho juntamente com a esposa e seus correligionários e vai à urna de votação com excesso de modéstia. Ao sair da cabine e a pedido dos fotógrafos faz o V da vitória e sorri com aquele jeito excessivamente simples.
As ruas são tomadas por gente dos dois lados. A situação se veste de azul. Por baixo a camisa vermelha da oposição. Nosso coração é vermelho, repente eufóricos. Tudo indica que haverá segundo turno e a TV Imprensa afirma pontual: Haverá segundo turno.
À meia-noite daquela data o Tribunal Eleitoral afirma em mais um boletim parcial: A vitória do candidato de oposição é irreversível. No dia seguinte, a confirmação. Dos 223 municípios ele ganha em 220. O governador só consegue maioria em três. Na capital a diferença pró-contrários é de 140 mil votos. O deputado consegue 59 por cento dos votos contra 38 por cento atribuídos ao ocupante de Karnak. As ruas são invadidas pelos seguidores do vitorioso no que a imprensa chama de virada vermelha.
Na TV Imprensa, nada há a fazer. A desolação toma de conta dos diretores, em especial do diretor de jornalismo. Tenta se justificar ao patrão: Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. A emissora trabalhou 24 horas por dia, sete dias por semana para que tivéssemos um resultado diferente. As ações do governo foram potencializadas de todas as formas possíveis e imagináveis. Infelizmente...
O diretor-presidente manda suspender de imediato todas as atividades hostis contra o governador eleito. Sua única chance de continuar de pé é tentar um acordo. Mas eles vão querer algo em troca – insinua o sofrido diretor, no que o chefe determina prontamente: Leiloe qualquer coisa. Fique inteiramente à vontade para negociar.

terça-feira, 6 de março de 2012

Os brutos não se amam

O ano era 1984. Havia em todo o país uma grande movimentação em torno da campanha pelas diretas já. A população queria votar para presidente. O governo militar queria manter o voto indireto. No Congresso Nacional, um jovem deputado chamado Dante de Oliveira apresentou uma proposta de emenda prevendo a realização de eleições diretas para a presidência. O povo se mobilizou para defender o seu direito em escolher o governante máximo da nação.
Em Teresina, vários comícios foram programados para diversos pontos da cidade. Praças públicas, em que se podia reunir milhares de pessoas em torno do palanque. Os políticos que lideravam o movimento em nosso estado eram Alberto Silva, Wall Ferraz, Chagas Rodrigues, Deoclécio Dantas, Tomaz Teixeira, Francisco Figueiredo, Fernando Mendes, dentre inúmeros outros. Eles se apresentavam como perseguidos da ditadura e defensores da redemocratização.
Naquela noite fui parar no meio de um destes comícios. Na praça do Marquês, zona norte da capital. Milhares se aglomeravam no espaço amplo e arborizado. Gente de todos os recantos de Teresina e de várias cidades do estado. Gente trepada em árvores para se nivelar aos oradores no palanque. Vendedores ambulantes ganhando dinheiro com a movimentação cívica nacional. Eu, um adolescente motivado pelo desejo de multidão. De repente, alguma garota interessante podia aparecer.
Nem tanto. Quem apareceu foram meus desafetos. Liderados pelo temível Jonatas, um evangélico valentão que colocava toda a rapaziada do bairro para correr. Ele só andava acompanhado de meia dúzia de delinquentes juvenis. Pessoas do seu naipe. Religiosos e agressivos. Como é que pode?! E o pior é que o cara estava a fim de me pegar porque havia tirado uma onda com sua garota, Samira, uma jovenzinha linda e sensual de apenas 15 anos que se apegara a mim e que, tenho certeza, gostaria muito de estar em minha companhia naquele momento.
Mas nem todos os nossos desejos podem se realizar. Pelo menos não de uma vez. O deputado e jornalista Deoclécio Dantas estava discursando no exato instante em que Jonatas e seu bando se aproximou de mim. Eu estava tomando uma caipirinha. Ele foi se chegando rapidamente. “Estava mesmo querendo falar contigo”, disse. Olhei para ele surpreso. “Falar comigo?! Falar o quê?!”, eu falei. “Tu sabe muito bem. Tô querendo falar de Samira. Soube que tu anda de braço com ela no bairro”, enfatizou, em tom ameaçador. “E o que tu tem a ver com isso?”, nunca fui de me intimidar com olhar e tom ameaçadores de quem quer que seja. Já apanhara muito por causa disso.
O orador dizia que o Brasil queria ser livre, que sua população queria escolher o presidente e que não aguentava mais a presença incômoda daquela ditadura sem serventia e que estava levando o país ao buraco. Segundo ele, a dívida externa estava se tornando impagável porque os militares não tinham capacidade para gerenciar os destinos da nação. O povão aplaudia alegremente. Era realmente uma festa. Mas para mim, diante daqueles bandoleiros juvenis, não havia festa nenhuma. Jonatas falou com um dos seus seguidores: “Pelo visto vamos ter que acertar as contas logo é hoje com esse daí”, e apontou para mim debochativamente.
Não esperei pela segunda afirmação. Dei-lhe um murro no meio da cara e um chute entre as pernas. Ele se curvou de dor e caiu rolando pelo chão. As mãos agarradas aos testículos e gritando muito. Seus camaradas foram apanhados de surpresa e não souberam o que fazer por alguns segundos. Aproveitei aquela breve indecisão deles e dei no pé. Corri pela Alameda Parnaíba, uma avenida que já fora muito bonita em outros tempos, com árvores frondosas de ambos os lados, mas que agora estava sufocada pela fumaça dos veículos poluidores.
Corri com tudo que era possível. e aproveitando a força da gravidade, em direção ao rio Parnaíba. Se, em todo caso, não conseguisse um lugar para me esconder, me jogaria em suas águas barrentas e nadaria até a outra margem. Isso, é claro, se não me afogasse. Mas esta era uma hipótese remota. Sou um excelente nadador. Jonatas se recobrou lentamente e ordenou aos seguidores que me pegassem de qualquer jeito. “Peguem este filho da puta.” Os oradores nem perceberam o pequeno tumulto que se formou naquele instante no meio da multidão. A polícia foi chamada, mas quando chegou eu já havia corrido e estava sendo perseguido por Jonatas e seus acompanhantes.
Caramba. Dificilmente conseguiria me livrar destes infelizes. Em número de sete. Em alguns pontos, a avenida se tornava escura. As lâmpadas dos postes eram obstaculizadas pelas árvores frondosas. Pés de acácia, dezenas deles, em toda a extensão da alameda, praticamente. Eu aproveitava a escuridão para ganhar terreno. Eles se dividiram em dois grupos. Continuei correndo. Tinha tomado algumas doses de caipirinha. Talvez por isso tenha tido coragem para atacar aquele mal elemento.
O cemitério São José. Muros altos. Subi nos galhos de uma árvore. Saltei para dentro. Silêncio absoluto. Escuridão absoluta. Do lado de fora, alguns carros que passam. Vozes distantes. Talvez nas casas próximas. Do outro lado da avenida. Melhor, alameda. Ao longe, a voz de Chico Figueiredo, o radialista que ganhava votos contando piadas sobre os poderosos de plantão. Metendo a lenha na companhia de águas e na companhia de luz. Exigindo da prefeitura que tape os buracos nas ruas dos pobres. E dizendo que todo mundo tem o direito de comer bem e se vestir melhor, mas a inflação não deixa, a ditadura não deixa.
Tremo de medo. Nunca imaginei estar dentro de um cemitério à noite. Somente o medo de enfrentar Jonatas e seus capangas me forçaria a tomar uma atitude assim, entrar num campo santo sozinho. Pelo menos era o que eu pensava. Mas estava redondamente enganado. Sozinho eu não estava. E não estou me referindo aos cadáveres sob sete palmos. Não. Estou falando de um sujeito curvado sobre um túmulo. Ele carrega uma pá, que usa para retirar a terra ainda fofa. O infeliz deve ter sido enterrado naquela mesma tarde e já está sendo trazido de volta à superfício. Me aproximo discreta e silenciosamente. Fico atento aos seus movimentos. Ele abre a tampa do caixão com uma espécie de pé de cabra. Está tranquilo e de vez em quando toma um gole de cachaça, imagino.
Toda a operação demora pouco mais de uma hora. Em seguida, ele devolve o indivíduo à urna e finalmente ao solo onde, espera-se, continue a descansar em paz por toda a eternidade. O sujeito era um ladrão de cadáveres. Estava roubando os pertences do morto. Paletó, camisa, calças, sapatos e até meias. Revirou sua boca em busca de algum dente valioso, de ouro ou prata. Acho que não encontrou nada porque disse alguns palavrões e em seguida cuspiu sobre o morto. De repente, piso num galho seco. Ele olha na direção em que estou. Prendo a respiração, me abaixo. Fecho os olhos e espero o golpe de sua pá impiedosa. Mas ele não vem. Segue na direção contrária. Cumprimenta o vigilante e sai. Sigo atrás. Salto no muro que fica para o lado da avenida Miguel Rosa, já na confluência com a Maranhão. Ninguém em meu encalço. Parece que meus algozes se perderam de mim.
Sigo o ladrão de defuntos. Ele vai para o Mercado Velho. Junta-se a um grupo de outros notívagos, todos sujos, bêbados e desdentados. Um deles nota minha presença perto do botequim. “Ei, quem é esse menino?!”, exclama. Os outros ficam sem resposta. Pergunto se posso tomar uns goles. O ladrão me estende a garrafa e um copo sujo. Tomo sem vacilação. Confesso que estou nervoso a valer.
“O Zico não vale nada”, diz um deles.
“Por que não vale?! Vale sim.”
“Vale não”, emenda o mesmo. “Ele se vendeu para a Udinese. Abandonou o Flamengo. Virou as costas para a torcida.”
O ladrão de cemitério reclamou: “Já vai começar essa história de futebol. Quando começa não tem mais fim. E você, o que acha, guri?”
Está falando comigo. Guri sou eu.
“Queria que ele tivesse ficado. O cara joga demais e o time ganhou muitos títulos por causa dele.”
“Mas ele só pensa em dinheiro”, falou o primeiro. O cara realmente estava detestando o “Galinho de Quintino”.
De repente, a gritaria. “Olha ele lá!” Era Jonatas e seus delinquentes. Não haviam desistido de mim. Para minha infelicidade. “E agora, valentão?”, perguntou o chefe do bando, arrogante, como sempre. “E agora o quê?”, falei. “Não tenho nada para tratar contigo.” Ele não se conformava. “Não tem?! Como não tem?! Cabra safado. Espera só...” E avançou contra mim. Os seus companheiros me agarraram pelos braços e ele começou a me espancar bem ali, no meio dos bêbados, que ficaram rindo, a princípio, pensando, talvez, que se tratava de uma brincadeira. Mas logo entenderam que não era brincadeira alguma. Talvez por causa do sangue em meu rosto ou dos meus gritos de dor. Avançaram contra Jonatas e a turma dele com paus, pedras e tudo o mais que tinham à mão. Os caras me soltaram e saíram correndo. Meus novos amigos me ampararam e perguntaram se estava tudo bem comigo. “Claro que não. Estou moído, não estão vendo?”
Fui sentar no meio-fio, esperar o dia amanhecer. Olhei para o relógio. Ainda nem era meia-noite. Então vi um carro esporte sem capota se aproximar de mim. Pensei que era um daqueles sujeitos viados e velhos que ficam catando rapazinhos na noite da avenida Maranhão, exatamente ali, perto do Mercado Velho. Era Alanis, uma colega de escola, muito amiga de Samira. Fora ela que nos apresentara. “Ei, garoto, está perdido?”, pergunta, sorridente. Estava dirigindo e sozinha. “Quer carona.” Sorrio para ela. “Claro que sim.”
Subimos pela Alameda Parnaíba e passamos próximo ao comício das diretas. O senador Alberto Silva estava discursando. Anunciava a presença do deputado federal Ulysses Guimarães, presidente nacional do seu partido, que falaria dentro de mais alguns instantes. “O que houve contigo? Parece que andou brigando...”, perguntou ela. “Dei azar de me encontrar com o Jonatas bem aqui na praça. Não me contive e o agredi. Ele me perseguiu e me espancou. Mas é um covarde. Não tem coragem de me enfrentar sozinho.”
Não demoramos muito. Apenas o tempo de tomar uma caipirinha. Pouco gelo e muita cachaça. “Quer?”, ofereci para ela. Alanis recusou. Disse que aceitaria um refrigerante. Dei-lhe um guaraná. Falamos pouco no caminho de volta para o conjunto Saci, do outro lado da cidade.