quarta-feira, 28 de abril de 2010

CURVA DA RAPOSA



1974, primeira vez que ouvi falar sobre a curva da Raposa, riacho situado a cerca de 18 quilômetros da cidade de Altos, na BR-343. Era um domingo à tarde, não lembro o dia nem o mês. As pessoas estavam assustadas ao dizer que uma Kombi tombara na curva, com oito pessoas a bordo. Todas morreram. Uma família inteira...
Eu tinha seis anos. Consegui chegar ao local na carroceria do carro de um amigo, Soares. Ele era hóspede da pensão de minha mãe, dona Fátima. Fui escondido. Ele se deu conta da minha presença apenas quando chegamos e nos deparamos com a tragédia.
Vi corpos despedaçados e muito sangue espalhado no asfalto -- a pista quente o deixara fétido. Havia dezenas de curiosos e chegando mais gente a todo instante.
Passei vários dias impressionado com a cena dantesca. Nunca vira tanto sangue em minha vida. Minha experiência no assunto se limitava aos filmes em preto e branco que assistia na tevê, nos quais sequer havia simulação. Os personagens eram atingidos por balas que não abriam buracos em seus corpos.

***

1987, domingo, 7 de junho – 15h20. O jovem pega escondido a chave do carro de seu pai e convida o melhor amigo para irem aos festejos de Campo Maior. A curva fatídica não os deixa seguir em frente. O condutor morre na hora. Seu passageiro escapa com ferimentos graves.

***

1989, sábado, 20 de maio, 3h10 – madrugada. O tesoureiro da prefeitura volta para a cidade depois de uma prolongada farra na cidade vizinha. Diz-se que utiliza o dinheiro da municipalidade para financiar suas festinhas particulares – em bares, churrascarias e cabarés. O rei dos bordéis está acompanhado de uma prostituta caríssima e anda no carro emprestado de um vereador do esquema. À altura da curva, perde o controle da direção e passa direto, indo dar nos rochedos à margem do rio. Escapa com vida, porém profundamente escoriado. A preocupação do vereador é com o seu carro, “quem lhe ressarciria os prejuízos?” A prefeitura paga, diz o tesoureiro, e cumpre a promessa antes mesmo de deixar o hospital.

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1992, conheci Gustavo Brandão, adepto de uma seita japonesa. Ele me contou sobre a teoria dos espíritos errantes. Segundo Camilo, as pessoas que morrem de acidente não cumpriram o seu tempo de permanência na Terra. Assim, seus espíritos ficam vagando às escuras, no local onde pereceram, até que se complete o período. Enquanto vagam, a escuridão os perturba e eles tentam desesperadamente se agarrar a outros espíritos, não distinguindo entre os que estão vivos ou mortos. Eles os agarram e os puxam para si. Por isso ocorrem muitos acidentes e mortes num mesmo local.

***

1993, quinta-feira, 19 de novembro -- Parnaíba, 345 quilômetros ao Norte de Teresina. O sargento da Polícia Militar Evandro Menezes não contava com a fatalidade em seu caminho. Partiu em direção à capital por volta das duas horas da madrugada. Levaria um detento para cumprir pena na Casa de Custódia. Esperava chegar ao destino nas primeiras da manhã. Na curva da Raposa, o carro colide com a amurada da ponte. Dos três passageiros, um único sobrevivente. O caronista diz que o motorista gritou e buzinou antes de virar para a esquerda para evitar o atropelamento. “Havia alguém na pista que só ele viu”, relata.

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1993, último dia do ano -- alta madrugada. O caminhoneiro Wilson Caminha transporta sua carga de produtos agrícolas do Ceará para Teresina. Ao passar pela curva, jura ter visto alguém pular da amurada para a pista, atravessando vagarosamente em frente ao caminhão -- como se buscasse a morte. Ele conseguiu desviar, mas o caminhão tombou. Vivo e aflito, Wilson procura pelo causador do acidente, mas não vê ninguém. Não há viv'alma no local. “Sim, eu acredito em espíritos errantes”, diz ele, ao repórter.

EXECUÇÃO BRUTAL


O crime contra o policial civil Lourenço Carrios, ocorrido em 8 de agosto de 1989, em Parnaíba, a 356 quilômetros de Teresina, foi atribuído aos soldados Merval Guilhermino de Almeida Neto e Procópio do Nascimento e Silva, tidos como matadores a serviço do famigerado coronel da Polícia Militar Elias Amarantino da Conceição. Carrios era natural da espanha. Amarantino foi acusado de autoria intelectual, porém nunca foi levado ao Tribunal do Júri como tal. Nem ele nem ninguém.

As cenas de filme policial que resultaram na morte do policial civil na cidade de Parnaíba ainda estão bem vivas na mente de todos aqueles que tiveram o desprazer de testemunhá-las. O jovem era bonito, tinha bom papo e conquistava muitas mulheres. Teve a infelicidade de ganhar o coração de uma filha do coronel. Teve a infelicidade de que ela se apaixonasse perdidamente por ele. Teve a infelicidade de não se apaixonar perdidamente por ela. O coronel o caçou como se caça um animal selvagem.

O policial galanteador foi perseguido nas ruas, vários matadores em seu encalço enquanto , no carro, à pequena distância, um homem de bigode a tudo assistindo, com olhos malignos recobertos por óculos escuros provavelmente de marca Ray Ban. Os bandidos fardados estão neste momento sem farda. Trajam vestes civis. Estão à paisana para servir ao mandante. Para matar em seu nome. O policial tenta reagir. Está armado também. E consegue revidar alguns tiros. Mas seus agressores são muitos, vêm de todas as direções.

As pessoas se atiram ao chão, carros param bruscamente, o pipocar dos tiros é ouvido a vários quarteirões na cidade litorânea. A morte ronda alguém, todos têm certeza quando avistam a figura tenebrosa dentro do carro de luxo, a tudo olhando impassível, como se estivesse realmente diante de uma tela de cinema – o filme por ele patrocinado, com sequências reais e tiros que matam de verdade. Ele conduz as filmagens imaginárias como um diretor europeu faria, de forma requintada, silenciosa, ao contrário daqueles que, aos berros, ditam as normas no set de filmagens.

O policial é abatido na calçada de uma movimenta avenida parnaibana. Seus matadores aproximam-se, ele está perfurado tal peneira. Um deles, negro, baixo, gordo, cara de mau, curva-se calmamente, aproxima o revólver da cabeça da vítima em agonia e dá o tiro de misericórdia. O elemento no carro pisa suavemente no acelerador, passa devagar, encara o morto para ter certeza de que está morto mesmo, faz sinal de positivo para seus cães de caça e em seguida acelera bruscamente e se retira da cena do crime.

Todos se retiram, outros policiais chegam, chega o delegado. Ninguém, absolutamente ninguém, tem coragem de testemunhar. Os que a tudo assistiram sentem-se coagidos pela presença, nos arredores, dos vira-latas a serviço do chefão. Eles estão ali para dizer, sem pronunciar uma única sílaba, que todos devem silenciar. Circundam os curiosos, fazem gestos que amedrontam, o indicador se movimentando como que a puxar o gatilho de um revólver.

Ninguém testemunha, não naquele momento. Melhor calar e sobreviver. O policial já está morto. Muitos morreram antes dele, muitos morreriam depois. Os dias de impunidade daqueles assassinos, contudo, chegariam ao fim. Nem tão em breve, mas chegariam. Pelo menos era o que todos esperavam.

MARQUINHOS CAPETA E O POLÍGONO DA MACONHA


Em 22 anos de profissão, o jornalista Túlio Bragança já enfrentou muitas situações de perigo, como quando ficou no meio do fogo cruzado entre a polícia e o bandido Zaratustra Yáscara Douglas, fuzilado em Timon no começo de 92. Em setembro de 99, Túlio e o fotógrafo Jordão Passos foram designados para produzir uma reportagem sobre o renascimento do cangaço na região conhecida como Polígono da Seca, entre os estados do Piauí, Bahia e Pernambuco. Este, sem dúvida, foi o momento mais arriscado de toda a sua carreira.

Ali, numa área de aproximadamente 50 mil hectares, cerca de 5 mil agricultores vivem exclusivamente do plantio da maconha, erva alucinógena que é comercializada depois nos próprios estados nordestinos e para outras regiões do Brasil e até para o exterior. Na reportagem, os dois profissionais teriam que entrevistar agricultores e suas famílias e fotografar os vastos campos cultivados com a droga.

Ao saírem do Piauí pelo município de Dom Inocêncio, a 700 quilômetros de Teresina, os dois notaram que havia um carro seguindo a reportagem. Em vários momentos, a viagem se mostrou extremamente dolorosa para Túlio Bragança. “O sofrimento humano me perturba demais. Nunca me acostumei com isso, com a condição subumana a que as pessoas são relegadas no sertão do Piauí”, acentua. Segundo ele, ao chegarem num povoado conhecido como “Recanto Feliz” se depararam com um cidadão de cócoras em frente a um buraco de mais ou menos 30 centímetros de diâmetro.

“Ele estava segurando a ponta de um cordão. Na outra extremidade, dentro do buraco estreito e fundo, um litro. Estava apanhando água para beber”, relata o jornalista. “É dessa forma que eles conseguem água. Dom Inocêncio é o município piauiense com menor incidência de chuvas, ao mesmo tempo em que possui a maior dimensão territorial contínua do estado. Fiquei profundamente sensibilizado com a cena”.

Em “Recanto Feliz”, o jornalista começou a tomar notas, enquanto o companheiro deu início à sequência de fotos. Prosseguiram viagem e já no estado da Bahia notaram novamente o carro que os seguia, um Palio Weekend de cor verde. De um lado e outro da extensa rodovia, carcaças de animais de vários tamanhos. Havia também muita carniça, animais mortos recentemente e cujos corpos eram vorazmente atacados pelos urubus. As placas de sinalização eram totalmente perfuradas de balas, uma espécie de advertência para os delatores.

Depois de andaram mais de 300 quilômetros, finalmente chegaram num restaurante de beira de estrada, onde se alimentaram e obtiveram informações sobre as plantações de maconha. A mulher do restaurante, dona Lurdes, advertiu que deveriam tomar cuidado. “Os bandidos aqui não perdoam”, disse ela. “Viram as placas?”

O jornalista quis saber se alguém já havia sido morto por trair os traficantes. “Muitos”, ela respondeu. “Quantos?”, Túlio insistiu. Dona Lurdes silenciou diante da entrada, no recinto, de dois elementos estranhos. Usavam óculos escuros desproporcionais e traziam armas expostas na cintura. Túlio E Jordão trataram de seguir viagem. Algum tempo depois encontraram as primeiras plantações de maconha. “O cheiro da planta é inconfundível, o formato das folhas também. Não tive dúvida. Era canabis mesmo”, diz o jornalista, que tentou entrevistar vários agricultores sem sucesso. Nenhum deles queria se comprometer.

Sem avisar, o Palio Weekend estacionou repentinamente ao lado do veículo da reportagem e os dois sujeitos mal encarados desceram. Os revólveres agora não estavam mais na cintura. “Estavam literalmente com o dedo no gatilho”, lembra Jordão. Em pouquíssimo tempo a dupla de repórteres entendeu que estava sob o poder da quadrilha de Marquinhos Capeta, um perigoso traficante de drogas que já invadira quartel da polícia para resgatar comparsas e fora tema do programa “Linha Direta”, da Rede Globo de Televisão. Estava sendo chamado, na época, de “o novo Lampião”.

Depois de percorrerem uma longa estrada de chão, Túlio Bragança entendeu que o destino deles poderia ser trágico. “Eles não nos vendaram os olhos. Seria muito difícil escaparmos com vida, pensei na hora, porque conhecíamos perfeitamente o caminho do esconderino. Mas eu estava duplamente enganado. Era impossível nos guiarmos no meio de tanta desolação, mato rasteiro e seco, carcaças de animais e cruzes na beira do caminho. Parecia que estávamos andando em círculos”, rememora Bragança.

Andaram mais ou menos uns 60 quilômetros pelo meio da caatinga, até chegarem a uma cabana no meio do nada. Em redor da rústica habitação, um fosso completamente seco. No fundo, estacas de ponta afiada e serpentes venenosas. “Eles colocaram uma ponte de madeira para o carro atravessar”, afirma Jordão Passos. Ainda hoje ele não consegue esconder a aflição. A ponte foi retirada tão logo o veículo completou a passagem. Logo depois, uma cerca de espinhos, atrás da qual havia dezenas de homens fortemente armados. “Os caras tinham pistolas automáticas e fuzis israelenses, em pleno sertão”, pontua Túlio Bragança.

Os dois foram levados à presença do próprio Marcos Emiliano, mais conhecido como Marquinhos Capeta, que tratou logo de enumerar os assassinatos que havia cometido em sua vida. O bandido disse aos jornalistas que tinha apenas 26 anos de idade, mas tinha matado mais gente do que podia lembrar. Os jornalistas não se intimidaram e mantiveram a versão inicial — a matéria teria uma conotação geral. Não havia nenhuma especificidade sobre o plantio e tráfico de drogas. Ao fim de algumas horas de intensa pressão, Marquinhos finalmente cedeu e ofereceu sua hospitalidade aos profissionais de imprensa. Atrás da casinha havia um barreiro que acumulava água da chuva, posteriormente bombeada para uma gigantesca caixa d’água que os abastecia. “A prosperidade no meio da miséria”, gargalhou o bandido.

Túlio e Jordão serviram-se de um churrasco de carneiro e cerveja gelada. “Ele tinha um motor e um freezer. Era um verdadeiro ‘bunker’ naquele deserto”, afirma Bragança. No meio da farra, Marquinhos manifestou suas verdadeiras intenções. “Vocês podiam fazer uma biografia deste amigo de vocês, desmistificar essa idéia de que sou um bandido sangüinário, um matador impiedoso. É claro que matei muita gente, muitas mortes apenas para mostrar minha força, mas sabe como é... São ossos do ofício”, falou Capeta, tranqüilamente, como se estivesse relembrando episódios coloridos de sua infância e adolescência.

“Gravamos com ele uma entrevista de mais ou menos duas horas, em que ele relatou façanhas incríveis, acredito que a maior parte da história seja verdadeira. Muitas histórias eu ouvira pela televisão ou vira nos jornais, mas apenas superficialmente e a partir de versões de testemunhas”, relata Túlio Bragança, acrescentando que “mesmo assim não conseguia afastar o temor, quanto mais ele falava, se empolgava, mais eu imaginava que não teríamos nenhuma chance. Com o avançar das horas, fui ficando cada vez mais assustado, até que tomei a decisão de me embriagar (força um sorriso). Assim, não veríamos quando ‘a hora’ chegasse.”

Em redor da fogueira cercada de bandidos e abastecida de muito churrasco e cerveja, os dois comeram e beberam até pegar no sono ali mesmo. As primeiras luzes do alvorecer encontraram Túlio e Jordão despertando lentamente, com a boca amarga e a cabeça pesando uma tonelada (talvez mais). “Vamos”, disse uma voz, acima deles. Ergueram a vista simultaneamente e depararam-se com a figura mal encarada de óculos escuros e portando uma pistola 7,65mm e um revólver calibre 38. É agora, pensou Jordão. O elemento prosseguiu: “Marcos disse que é pra levar vocês até Casa Nova e de lá vocês devem seguir caminho para Pernambuco e depois para o Piauí. Mas não voltem por aqui.”

Marquinhos Capeta havia desaparecido. Churrasqueira e freezer também não mais se encontravam ali. Havia apenas as cinzas da fogueira. Os dois foram levados até o carro, de onde seguiram viagem mais que depressa. Tudo que queriam era sair daquele lugar, agradecendo a Deus por escaparem com vida. Meses depois tomaram conhecimento pela mídia nacional de que Marcos Emiliano, o Marquinhos Capeta, havia sido fuzilado num confronto com a polícia. Vários integrantes do bando também foram mortos. O plantio e tráfico de droga, contudo, permanecem intactos no Polígono da Maconha.

domingo, 25 de abril de 2010

MATADORES




Foi apanhado de surpresa pela chegada de Nildomar.
“O que foi?!”, perguntou.
“Tem uma parada pra gente. Topa?”
“O que é?”
“A gente tem que apagar um figurão.”
“Quanto?”
“Dez mil reais. Cinco mil agora, cinco mil depois do serviço.”
“Quem é o contratante?”
“Ele está esperando a gente lá perto da estação. Dá pra conversar agora?”
“Pera um minuto, vou avisar Maria das Mercês.”
Abraçou a mulher, afagou as crianças pequenas e saiu em companhia do parceiro.
Andaram rápido pela rua de terra batida e cortada por um imenso esgoto a céu aberto.
“Prefeito filho da puta, não manda botar nem calçamento”, reclamou, irado com a administração municipal.
Nildomar complementou:
“Fica calmo. Teus dias de angústia estão chegando ao fim, Boião. Vamos sair da lama... Literalmente.”
“O que é literalmente?”
Ficou pensando na burrice do amigo. Mas não fez nenhum comentário.
Mesmo imbecil, Boião era um sujeito útil na hora de apertar o gatilho.
O esquema funciona em função dos dois; Nildomar intermedia, Boião puxa o gatilho – desde muito tempo que é assim.
“Tu não me respondeu o que é literalmente”, insistiu Boião.
“Literalmente é quando uma coisa tem tudo a ver.”
Boião calou. Não havia entendido nada mesmo.
Andaram em silêncio até a estação ferroviária, onde um carro parado abrigava um homem solitário. Barbudo, tinha um boné encobrindo os olhos. Para não ser reconhecido, pensou Boião.
“Aqui está o homem”, informou Nildomar.
O barbudo dentro do carro puxou uma maleta, abriu a tampa e exibiu o dinheiro: cinco mil em notas de cinqüenta e cem reais.
Boião nunca tinha visto tanto dinheiro. “E então, quem é o morto?”, perguntou, extasiado.

O prefeito Caio Marreiros abriu a porta de casa de manhã bem cedo e se deparou com a multidão.
Todo dia era a mesma coisa – aquele mundaréu de gente pobre, esfomeada, que vinha pedir de um tudo.
“Me dê um quilo de arroz pra matar a fome dos meninos lá em casa...”
“Me dê uma carrada de piçarra pra mode botar na rua. Quando chove, não queira saber...”
“Me dê um emprego pra meu menino mais novo. O bichinho passou dois anos em São Paulo e não arranjou nada. Está desempregado do mesmo jeito que foi...”
“Me dê...”
“Me dê...”
“Me dê...”
Caio Marreiros já não aguentava tantos “medês”. E o pior: podia dar tudo o que estavam pedindo, no dia seguinte estariam todos na porta do mesmo jeito; isso para não dizer que continuariam chamando-o de crápula e ladrão na próxima esquina diariamente.
Maria de Fátima passou por ele apressada, deu-lhe um beijo no rosto e disse que estava atrasada para um compromisso no Serviço Social do Município.
“Reunião com um pessoal de Teresina, Serviço Social do Estado, verba para o programa de idosos”, disse – depois, entrou no carro e partiu.
Caio atendeu alguns pedidos com autorizações assinadas em pedaços de papel e dirigidas aos comerciantes da cidade. Muitas daquelas ordens voltariam sem cumprimento, tinha convicação, tendo em vista o alto índice de inadimplência da prefeitura.
No fim da fila, aproxima-se o sujeito gordo, baixo, de fala mansa. Fica parado em frente à mesinha montada na calçada da porta lateral.
Estavam agora apenas os dois.
“E o senhor, o que deseja?”, indagou o prefeito Caio Marreiros.
Boião pensou: é agora ou nunca!
Fez menção de puxar a arma. Meteu a mão dentro do cós da bermuda e segurou no cano do revólver calibre 38.
De repente, uma jovem saiu de dentro da casa com o telefone sem fio. “É para o senhor, seu Caio”, disse Rosa, a empregada, entregando o aparelho ao prefeito.
Caio pediu licença ao pedinte e afastou-se alguns metros para falar com quem quer que fosse que estivesse do outro lado da linha.
Boião escutava perfeitamente quando ele dizia: “Mas eu mandei mil reais na semana passada. Mês passado ele me pediu pra pagar a conta do posto de gasolina. Lá se vão mais mil e quinhentos. O que é que esse cara quer que eu faça?” Ficou escutando algum tempo, depois concluiu: “Pois manda ele ir à merda. Isso mesmo, à merda. Prefeitura não é cofre de político falido.”
E desligou, voltando ao Boião ansioso.
“Sim, e o senhor, o que é mesmo? Seja rápido que estou com pressa”, disse.
“Piçarra...”, disse o matador. “Quero uma carrada de piçarra”.
Caio assinou a ordem. “Procure o Sr. Teixeira, na oficina da prefeitura. Agora, é bom que seja logo, porque a piçarreira tá secando e depois só vai ter pra dezembro...”
Entregou o papel ao homem, que, antes de sair, olhou para Rosa, que permanecia na porta, de pé, com o aparelho sem fio na mão.

“E aí, o que foi que deu?”
“Porra nenhuma. Na hora que eu ia apagar o escroto, apareceu uma rapariga e eu dei pra trás.”
Nildomar estava visivelmente irritado.
“Tu lembra que a gente já pegou cinco mil do cara. Pois ele pegou emprestado de outro cara pra pagar a gente. A gente agora tem que fazer o serviço de qualquer jeito, senão nós é que dança.”
Boião fez uma expressão séria, assentiu com a cabeça e disse: “Fica frio, Nildomar, a gente apaga o cara logo, logo...”

O homem barbudo, agora sem boné, estava sendo muito pressionado pelos agiotas a quem pedira dinheiro emprestado para financiar o alto custo da sua política clientelista.
Ele mantinha votos de cabresto através de tratamentos médicos conseguidos em hospitais públicos e privados de Teresina à custa de subornos pagos aos médicos.
Quando o dinheiro estava no fim, recorria aos agiotas. Elegera-se vice na chapa de Caio Marreiros imaginando que as coisas iriam melhorar, que finalmente sairia do atoleiro e que poderia honrar todos os seus débitos.
O salafrário, ao contrário, fizera ouvidos de mouco aos seus pleitos desesperados por ajuda financeira. De vez em quando mandava uma merreca – mil reais, mil e quinhentos, duzentos, quinhentos, pouca coisa, não dava nem para o combustível do transporte que levava e trazia diariamente a população assistida da cidadezinha até a capital.
“Calma, pessoal, é só mais alguns dias. Acho que é coisa de três dias no máximo.”
O brutamontes que estava diante dele tinha mais ou menos dois metros de altura e um bíceps de fazer inveja a qualquer Lou Ferrigno. “O patrão quer o dinheiro em uma semana. De outra forma...”
Entrou em parafuso. Se os homens não fizessem o serviço logo, se mataria – era o único jeito.
Os agiotas eram insensíveis. Podiam querer fazer algo contra sua família.

Zona rural de São João da Serra, município na região Norte do Estado. O prefeito Caio Marreiros comprara uma fazendinha para onde pretendia se transferir assim que encerrasse o mandato.
Queria viver de criar gado e passar um tempo sem fazer nada, muito menos política.
Elegera-se prefeito por acaso – melhor dizendo, quase por acaso; tinha a oratória vibrante e, como vereador, exercera a função de líder do prefeito na Câmara.
O ex-prefeito tentara lançar a candidatura de um médico, mas o médico se recusara; tinha passado num concurso público no Rio de Janeiro.
O esquema ficou sem nome. Caio, como vereador e líder, ameaçou romper caso não fosse o candidato.
Fizera muitos inimigos ao longo daqueles três anos e meio defendendo o chefe do Executivo. Tinha que ser recompensado.
A recompensa veio através de uma vitória apertada, em que enfrentou poderoso esquema empresarial. A máquina da prefeitura foi largamente utilizada para garantir-lhe a vitória, mas ele assumira o compromisso de honrar as dívidas do antecessor, na verdade seu grande benfeitor.
Agora, estava pressionado por todos os lados: o ex-prefeito queria dinheiro para se manter sem trabalhar; o vice-prefeito queria usar a prefeitura para manter a política clientelista ao extremo; os vereadores queriam carro, casa, açude e energia nas propriedades – benefício do povo mesmo que era bom... que se dane!
Resolveu mandar todo mundo para a puta que pariu e construir seu próprio pé de meia.
Naquela tarde, vinha na Kombi juntamente com seu compadre Alaor.
Não prestou a menor atenção ao passar pelo ponteão sobre o riacho da Luzia Homem; havia, logo na subida, dois homens numa moto.
Um deles, se tivesse olhado, ao menos olhado, teria percebido: era o mesmo gordo baixinho que há alguns dias estivera na sua casa pedindo uma carrada de piçarra.
Mas ele não olhou, não prestou atenção, pagaria um preço alto demais.

Lucas Marreiros vinha de Teresina. Mantinha velocidade de 70 km/h.
Gostava de andar devagar. Tinha todo o tempo do mundo.
De súbito, uma cabine dupla de cor verde atravessou na frente do seu Fiat Uno e o trancou bem próximo da cidadezinha onde o irmão era prefeito e onde ele exercia a espinhosa função de tesoureiro.
Dois homens armados desceram e apontaram direto para sua cabeça.
“Passa o dinheiro.”
“Não tenho dinheiro. Pelo amor de Deus...”
“Passa os talonários de cheque. Passa agora!”
O sujeito parecia decidido em puxar o gatilho, enquanto o outro supervisionava a estrada. “Anda, anda logo...”
Lucas pegou a maleta no banco traseiro e entregou ao assaltante. O indivíduo não queria nada mais do que os talões de cheque.
Descartou a maleta jogando-a sobre o rosto de Lucas Marreiros. A pancada abriu-lhe um corte na fronte.

No dia 16/3/96, um grupo de mil e quinhentos trabalhadores rurais ocupou o prédio da prefeitura, na avenida principal.
O prefeito e seus secretários foram mantidos como reféns durante praticamente todo o dia.
Foram liberados à tarde com a intervenção do COE – Comando de Operações Especiais, grupo de elite da Polícia Militar.
No meio da multidão, Boião se preparava para enfiar-lhe uma faca: seria rápido e, entre tanta gente, ninguém daria fé do autor.
Sairia apressado e quando dessem conta o prefeito teria se esvaído em sangue.
Porém, não houve oportunidade. Em nenhum momento, ele conseguiu chegar a menos que oito metros de Sua Excelência.
O homem tinha sua própria segurança e não descuidou. Caio Marreiros sabia da sua impopularidade. Qualquer descuido, numa situação daquelas, poderia ser fatal.

Ao chegar em casa, já no fim da tarde e desfeita a aglomeração de manifestantes em frente à prefeitura e à residência oficial, concedeu entrevista a uma emissora de TV da capital.
“O exercício do poder é inglório”, declarou. “A gente bem que gostaria de fazer, mas o dinheiro é curto, existem muitas obrigações. Folha de pagamento, obrigações sociais, retenções do governo federal, dívidas de gestões anteriores. Quando os recursos chegam já vêm quase que totalmente comprometidos. O que sobra é muito pouco, mas a população não entende.”
“E o que o senhor pretende fazer, prefeito?”
“Sinceramente?”
“Claro, seja sincero. O que o senhor pretende fazer?”
“Renunciar ao mandato.”
Naquela tarde, ao chegar, recebera a notícia do cerco contra o irmão, que pedira exoneração do cargo. Nomeara a esposa interinamente até que alguém, convocado, tivesse coragem suficiente para assumir.

O homem barbudo, novamente sem boné, recebeu em total desespero a informação de que, mais uma vez, os elementos que contratara para eliminar o prefeito tinham falhado.
Sua única esperança era assumir a prefeitura; tomaria conta do dinheiro, pagaria os agiotas e faria seu pé de meia.
Mas tudo estava indo por água abaixo.
Foi até a sala, olhou a mulher, que estava de costas para ele, sentada diante da televisão (passava uma novela). No chão, ao lado da mãe, o filho menor, brincando com bonequinhos e carrinhos de plástico. No sofá, a filha maior, adolescente, deitada e ressonando tranqüilamente.
Passou para a cozinha, foi até a despesa, pegou uma corda, subiu na mesma de jantar e enrolou a corda na cumeeira; em seguida, fez um laço e passou em volta do pescoço.
Apertou com força e quando se preparava para pular o menino entra na cozinha e grita: “Mamãe, mamãe, ajuda aqui, pelo amor de Deus...”
A família acorreu, a esposa grudou-se nas pernas do marido, a filha gritava pelo socorro dos vizinhos, verdadeira multidão acorreu à residência humilde situada na periferia na periferia.
“Não sei como é que um vice-prefeito mora numa choupana dessas”, comentou um dos vizinhos, um bancário da Caixa Econômica.

Numa pescaria, em companhia de compadre Alaor.
“O Tobias Alves tem batido pesado na tua administração, compadre”, diz Alaor.
“Aquele é um filho da puta, compadre Alaor. Eu fiz tudo por aquele homem. A mulher dele tava doente, eu dei transporte e paguei internação, paguei até a cirurgia. Hoje, o sujeito fala mal de mim em todo canto.”
“Falar mesmo ele não fala”, rebateu Alaor, “mas bota o povo pra falar.”
“Dá no mesmo, compadre.”
“E o Dr. Lucena?”
“O que é que tem?”
“Como é que está o relacionamento?”
“Por mim, tudo bem, mas ele quer dinheiro pra campanha, e dinheiro eu não tenho.”
“O homem é candidato forte, compadre, e não podemos esquecer que foi ele quem lhe colocou na prefeitura.”
“Eu sei, compadre, mas a coisa tá preta. Não tem dinheiro pra nada, nem que eu queira.”

9/4/96.
Na residência do jornalista Tobias Alves, o Dr. José Lucena desabafa:
“Eu sentei no banco dos réus para eleger o Caio. Peguei dinheiro emprestado em nome da prefeitura e coloquei na campanha dele. Senão, o desgraçado perderia a eleição. Êta infeliz ruim de voto! Nunca vi. Já ganhei e perdi muitas eleições, mas igual àquela eu nunca vi.”
“E o que o senhor pretende fazer?”
“Fazer? Sei lá, esperar. Deus que se encarregue dele.”
“O Caio mudou muito, doutor, eu sempre disse, depois que ele assumiu, que o poder traz a ilusão da eternidade.”
“Mas ele não é eterno, Tobias, tenha certeza disso. Eterno, só Deus.”
“E o vice-prefeito, como é que está com ele?”
“Soube que também está puto. Mas aquele é outro que só pensa no próprio umbigo.”

10/4/96.
Festa na fazenda do vereador Leôncio Vaz. O obeso delegado Matusalém se aproxima da primeira-dama Maria da Graça e diz:
“Dona Graça, tenho uma notícia desagradável para a senhora.”
Ela não gostava nem um pouco do tipo. Falava-se horrores daquele sujeito.
“Diga”, falou, simplesmente.
“O Ozanã tá contratando pistoleiro pra matar seu marido.”
“O Ozanã, mas por quê? O Caio sempre o tratou tão bem...”
“O homem está desesperado, mulher, e com desespero de homem não se brinca.”
Maria de Fátima agradeceu o aviso de Matusalém e procurou o marido no meio da multidão. Passou perto de Boião e Nildomar, que à altura estavam seguindo todos os passos de Caio Marreiros. Esperavam a melhor hora para apagar o sujeito, a quem só se referiam como “defunto” ou “finado”.
“O delegado me disse que o Ozanã está atrás de um pistoleiro pra te matar.”
Caio ficou arrepiado, mas o arrepio passou logo. Queria mais era curtir os efeitos etílicos do whisky de boa qualidade adquirido com os recursos da “viúva” para inaugurar a energia elétrica puxada até a fazenda do vereador Leôncio Vaz numa extensão de 16 km.
“Isso é besteira...”, e continuou na farra.

No dia seguinte, bem cedo, ligou para Ozanã e perguntou que história era aquela.
O vice-prefeito estremeceu, mas negou tudo e disse que Matusalém estava ficando era doido. “Nós somos amigos, todo mundo sabe da minha consideração por vossa pessoa”, complementou.
No mesmo dia, Caio mandou um cheque de três mil reais para o vice-prefeito, dinheiro, é claro, insuficiente para atender as suas necessidades.

11/4/96.
Nildomar e Boião tomaram dois litros de mangueira antes de executar o serviço.
Nildomar ficou no portão puxando assunto com o vigia Francisco Mendes, um velho de setenta e poucos que não vigiava nem a si próprio.
Os dois haviam esperado o segurança sair; o prefeito ficara sozinho em casa, contando apenas com a proteção do vigia.
Boião entrou, bateu palmas, um carro buzinou no portão – a filha mais velha do prefeito estava retornando da universidade.
Caio, só de bermudas e sem camisa, veio atendeu ao chamado com a intenção de voltar imediatamente para continuar assistindo o Jornal Nacional.
“Prefeito, e a piçarra?”
“Que piçarra?”
“A piçarra que lhe pedi...”
“Acho difícil ter piçarra ainda, mas fale amanhã de manhã com o Teixeira, pode ser que ele dê um jeito. Agora, me dê licença...”
E deu as costas ao assassino. O elemento puxou o revólver, a filha viu a cena e gritou: “Pelo amor de Deus, não mate meu pai...”
Boião puxou o gatilho. Caio se virou para ele. Tentou avançar. Tarde demais.
O revólver demorou para detonar, mas na terceira tentativa a bala saiu fumegante e atingiu o prefeito entre o olho e o nariz.
Outro disparo. Agora no centro da testa.
Um terceiro tiro. No pescoço, sobre a jugular.
Caio Marreiros tombou sem vida.
Marina, a filha, correu em prantos para amparar o corpo inerte sobre a calçada fria.
Boião, embriagado, tentou correr, escorregou, caiu, levantou; Nildomar veio ao seu encontro, ajudou-o, os dois saíram correndo, passando por Chico Mendes aos empurrões, derrubaram o ancião na sarjeta fétida da avenida e seguiram até a moto parada na esquina, com o motor ligado.

Ozanã Silveira assumiu a Prefeitura por apenas quatro meses.
Fez uma gestão tumultuada em que não honrou sequer os salários dos servidores.
Foi apontado, pelo Ministério Público, como mandante da morte do prefeito Caio Marreiros, mas apesar disso permanece em liberdade até hoje.
Nildomar e Gordino saíram de Cidade Alta para continuar a vida de crimes no vizinho Estado do Ceará.