terça-feira, 2 de agosto de 2011

A MALDIÇÃO E O PODER

A notícia da morte de seu irmão mudou para sempre sua vida. Jonas era o queridinho do seu pai. Estava sendo preparado desde a infância para ser presidente da República. Um desejo acalentado pelo pai que não pôde se realizar por razões que todos conhecem. Josias era um boa vida desmedido. Fazia tudo que não podia ser feito em sociedade.
Mantinha relações fora do casamento que todos, absolutamente todos, conheciam. Sua mãe, coitada, nunca teve condições de reagir contra aquilo. Sempre silenciou alegando a sua fé no Criador e em todos os santos possíveis e imagináveis. Eles devolveriam seu marido a caminho da virtude. Josias não se importava com as orações de Rosa. Queria mais era viver e aproveitar a vida. Por isso se deitava com mulheres de toda natureza, inclusive casadas, gerando a indignação dos maridos. Mas não passavam disso. Ele comprava a todos. Tinha dinheiro, era rico e temido. Financiava candidaturas governamentais, deputados, senadores, todos comiam na sua mão.
Jonas estava se preparando para disputar o governo do estado. No segundo mandato como deputado federal, recebeu do pai a determinação. A família tinha que chegar ao palácio. Como Josias estava impedido pelas manchas indeléveis em sua biografia (namorador compulsivo, corrupto declarado), preparou-se o filho mais velho. Os demais teriam que se juntar em torno da figura do irmão, um sujeito boa praça, formado em direito e que nunca havia exercido a profissão. Dedicara-se ao projeto do pai, que o queria político, que o queria no governo. Pode até ser que um dia chegue na presidência, mas por enquanto vamos focar no governo estadual, eram palavras sempre ditas por Josias nas reuniões familiares, que aconteciam todo sábado e domingo. Mas saibam todos: a presidência é o nosso grande objetivo. Um dia chegaremos lá.
Nestes dias a mansão dos Fernandes se enchia de gente de toda espécie. Parentes próximos e distantes, amigos, empregados graduados das empresas de Josias, e os filhos, geralmente em silêncio, para ouvir as peripécias do patriarca, que nunca perdia a oportunidade de contar como fizera fortuna. Fora impulsionado pelo Milagre Brasileiro, nos anos setenta, programa de ações da ditadura militar que possibilitou considerável volume de investimentos e melhoria de vida para a população em geral. Muitas obras de grande porte foram realizadas em todo o país. Muita gente esperta ganhou dinheiro com superfaturamento em obras e serviços. Josias entre eles.
Josipio nunca imaginava que algum dia estaria nos planos do seu velho para tornar-se uma pessoa influente. E tudo aconteceu muito rapidamente. O irmão mais velho, que era um exemplo para ele, estava voltando de Brasília no jatinho particular da família. A aeronave caiu numa área de rochedos no Planalto Central. Havia, além do deputado, piloto, co-piloto e uma secretária parlamentar. Todos morreram. O corpo de Jonas foi encontrado em frangalhos. A imprensa sensacionalista adorou relatar esta situação dolorosa. Ficou dias e dias martelando na mesma história. O sofrimento da família ampliou-se com a cobertura cruel. Josias ficou dois dias trancado em seu quarto. Nem a mulher conseguia acesso a ele. As más línguas diziam que ele não estava sofrendo com a morte do filho mais velho. Estava apenas redirecionando seu planejamento. Tanto que imediatamente após a quadragésima oitava hora ele saiu da alcova e foi direto para a sala onde todos faziam vigília. Ali mesmo fez o anúncio que mudaria para sempre a vida de Josipio. Ele seria indicado candidato a governador pelo partido da oposição.

O governador era um fraco. Seu candidato ainda mais débil. Sobretudo pela idade. Não haveria condições de ganhar da vitalidade de Josipio. Era um homem jovem, bonito, recentemente casado, namorador como o pai. Sua mulher sofria tanto quanto sua própria mãe por causa das inúmeras mulheres que haviam dividido o leito com Josipio. Havia apenas um problema. As dores nas costas. Era um homem marcado pelo sofrimento. Já nascera com aquele mal. Não havia cura. Os médicos desenganaram cedo. Disseram para ele que teria de conviver com a dor até o fim dos seus dias. Os remédios haviam garantido suporte até uma certa idade. Mas depois já não faziam mais o efeito desejado. E então ele mergulhou de cabeça num mundo de maldição e delírio.
As drogas se tornaram companheiras inseparáveis porque ajudavam a aliviar as dores. Era visto em público cada vez menos. Formara-se com dificuldade em sociologia, uma formação que não o ajudaria em absolutamente nada. Não fosse filho do famoso e maldito empresário Josias Fernandes nunca seria ninguém, não conseguiria emprego, não teria ascensão. O pai montou uma faculdade particular e o colocou como diretor. Menos mal para ele. Mas nunca disso passaria disso (diretor de faculdade particular).
Após o sepultamento do irmão todos se dirigiram para a sede do partido e Josipio foi anunciado como candidato ao governo. O governador Anastácio Maldanez apareceu no noticiário para comentar a indicação. Disse que respeitava seus opositores mas julgava acintoso a colocação de uma candidatura oposicionista logo depois da morte do jovem deputado Jonas Fernandes. Que se dane. Filho de uma puta. Josias esbravejou a plenos pulmões. Cuide de seu poleiro. Nós temos como decidir nosso próprio destino. Seus correligionários não falaram nada. Ele os proibiu de dizer qualquer coisa.
O candidato do governo era um velho político. Fora candidato em diversas oportunidades anteriores. Elegera-se sucessivamente para a prefeitura de sua cidade, para a Assembleia Legislativa, Câmara Federal, governara o estado na época da ditadura, por indicação dos militares, ganhara vaga no Senado na sequência e agora voltava para a planície, quase ao término do mandato, para disputar o executivo estadual por eleição direta. Imaginava-se que não haveria páreo para ele até o lançamento do deputado Jonas. No entanto, agora, Josias estava morto. Quem poderia combater o velho guerreiro a altura de sua liderança? O desgraçado do Josias, a quem ajudava muito em seus tempos como governador biônico, voltara-se contra ele novamente e lançara a candidatura de outro filho, com muito mais apelo, por causa da morte do seu varão. Seria uma disputa e tanto, pensou ele, na sacada de seu apartamento, vislumbrando a belíssima paisagem proporcionada pelo rio caudaloso que corta a cidade ao meio. Uma eleição para ninguém botar defeito.

Em comício de abertura na capital o candidato da oposição mostrou-se tímido, o que manteve acesa a chama do velho político de situação, defensor de todos os governos. Seus oponentes não souberam mexer com as peças no tabuleiro. Colocaram um jovem imaturo apenas para saciar o desejo de um empresário ganancioso que não conseguira se viabilizar candidato mas que queria chegar ao poder a qualquer custo através dos filhos. Morto o mais velho, apelava agora para o segundo na linha de sucessão familiar. Josipio se esforçava, mas seu discurso era muito professoral, precisava tomar aulas de postura, de uso correto das palavras. As pessoas comuns jamais entenderiam o que era exultante. Pois foi exatamente isso que ele disse em seu pronunciamento no bairro Marquês. Estou exultante com a indicação do meu partido e profundamente agradecido pelo apoio de meu pai. Filho de uma égua. Aprenda com os profissionais.
Florestan Baldolino arrasou em seus comícios iniciais. Também fez uma excelente aparição nos primeiros programas eleitorais gratuitos para a televisão. Nessa altura, seu adversário já estava mais ou menos encaminhado. Os publicitários haviam se revezado no sentido de oferecer a ele um rumo que não destoasse tanto da formação média do eleitorado. Tinha que falar mais perto do que podia ser entendido pelo cidadão médio. E assim aconteceu.
Josipio começou com meros quatro pontos percentuais, enquanto Florestan passava dos cinquenta. O opositor avançou consideravelmente. Tanto que nas primeiras três semanas de campanha já estava com mais de quinze pontos e uma tendência de crescimento que animava a oposição mas que apenas fazia cócegas em Florestan. Eles serão massacrados nas urnas.
Marcou-se o primeiro debate entre os diversos candidatos. Eram oito ao todo. Somente dois estavam disputando efetivamente. Nessa altura Florestan já via Josipio como adversário a ser levado a sério. Estava passando dos vinte e cinco por cento da preferência do eleitorado, enquanto ele despencava pelas tabelas. Os eleitores queriam alguém jovem no comando do estado. Um político novo na acepção literal do termo. Novo na idade e também novo no fazer política. Alguém que nunca antes participara de uma campanha. Passava a ideia de que não tinha vícios, de que estava de fora do sistema e por isso podia combater os desmandos do passado e instituir, quem sabe, uma nova ordem política.
Florestan apelou ao dono da televisão, um empresário corrupto que lhe devia muitos favores. De nada adiantou. O debate havia sido marcado exatamente com objetivo de favorecê-lo. Já havia sido comunicado à Justiça Eleitoral. Se desmarcasse pagaria uma multa muito pesada. O governador disse que pagaria a multa. O empresário aceitou a proposta. Recebeu uma ligação de Josias alta hora da madrugada. O que está pensando que está fazendo, seu louco? Desmarcar o debate?! Se fizer isso levo ao conhecimento público aquela sua gravação com a loira do banheiro. Está lembrado? O dono da tevê recuou e manteve o debate.
O senador estava suando em bicas. Falava sobre o Milagre Brasileiro, de como o governo militar tinha sido importante para o país. Não houve tortura. Isso é uma mentira deslavada da esquerda. O que houve foi uma luta política aguerrida entre o governo e a oposição, manietada pela esquerda, que fez as vezes de terrorismo. Dezenas foram mortos na tentativa de se implantar no Brasil uma ditadura do proletariado. Falava sobre a contribuição do seu partido para a redemocratização do país, não por que o governo militar não servisse mais, mas porque a população queria ter o direito de escolher o seu presidente. Participei decisivamente, junto ao Congresso Nacional, das articulações que permitiram a volta da eleição direta. Sou um democrata convicto. Um defensor dos mais legítimos direitos da sociedade. Sentia pelos olhares mais próximos de que seu discurso não estava agradando. Havia algo de muito ultrapassado nele.
Josipio, de seu lado, falava em esperança, num estado novo, num país novo. Formado por jovens capazes de promover mudanças efetivas, ampliar as oportunidades de emprego e renda. Realizar grandes obras estruturantes, tirar as pequenas cidades do atraso em que se encontram, fortalecer as parcerias com a capital para gerar mais qualidade de vida. O rosto jovial, transpirando energia, a fala sincronizada com o gestual. Essa gente está há muito tempo no poder. Já deu a contribuição que devia. Sua permanência não é benéfica para o estado nem para a população. Atende apenas ao jogo das vaidades pessoais. Estamos falando de renovação verdadeira. De um momento inteiramente novo. De um governo participativo.
Florestan rebate. Como o senhor pode representar o novo se não tem sequer uma identidade própria!? Diga-nos: por que foi escolhido candidato? De fato, jogou abaixo da cintura. Era uma tática desesperada que certamente não contou com aprovação dos seus marqueteiros. Eles nem sabiam que ele apelaria para aquela baixaria. Josipio estava na disputa porque o irmão mais velho morrera. Era uma estratégia oportunista do seu pai, no entanto o eleitor ainda se compadecia da dor da família pela perda de um ente querido. Florestan perdeu pontos. Perdeu a liderança. Estava a caminho de perder a eleição. Então ele teve uma ideia. Era sua última cartada.

Na manhã seguinte, Josias foi convidado a comparecer a mansão de Florestan. Ficava a poucas quadras de sua própria residência, mas não seria nada interessante ser visto entrando no bunker de seu rival. Afinal, a imprensa poderia fazer uma interpretação negativa para Josipio. Mesmo assim ele foi. Pediu emprestado o carro de um amigo e adentrou os jardins da luxuosa residência do senador por volta de dez e meia da manhã. Os dois se encontraram na beira da piscina. Quem os visse certamente diria que estavam muito desconfortáveis na presença um do outro. Por que me chamou até aqui?, questionou Josias. Precisamos ter uma conversa muito séria, disse o outro. Nem imagino o que possamos ter para conversar, retrucou o empresário.
Florestan serviu-se de uma dose de licor. Ofereceu ao outro, que recusou. Vamos direto ao ponto, exigiu Josias. Então o senador disse: há duas semanas um amigo meu esteve numa casa de tolerância na zona sul. Você sabe. Aquela famosa messalina. Jovens bonitas, sensuais, trajando roupas íntimas, passeando entre os presentes seminuas, homens endinheiros, excitados. De repente, sexo no meio do salão, dentro da piscina. O lugar se transforma numa bacanal.
Onde quer chegar com essa conversa mole?
Quero chegar exatamente aqui, neste lugar, para que possamos tomar uma decisão muito importante. Uma decisão que vai afetar os rumos do estado.
Diga. Fale agora ou cale-se para sempre. Estou quase de saída.
Ao invés de falar, Florestan pegou um envelope volumoso e o repassou ao seu interlocutor. O que é isso? Josias abriu e deparou-se com fotos de Josipio fazendo parte de uma orgia. Corpos jovens, sarados, mulheres de beleza divinal. Você é mesmo um escroto, Florestan. O que pensa conseguir com isso?
A história se repente, não, Josias?
O empresário lembrou-se de si próprio, há alguns anos, como candidato favorito ao governo do estado. Na época, Florestan era governador biônico e estava deixando o cargo. Indicou para sucedê-lo o fazendário Anastácio Maldanez. a disputa seguiu firme até um certo ponto. De repente, Josias se viu obrigado a tomar uma decisão muito importante. Fora flagrado por asseclas de Florestan saindo da residência de uma de suas muitas amantes num bairro da zona sul. Uma mulher de origem simples mas que Josias mantinha com todo conforto. Você é o mesmo bandido de sempre, Florestan, foi tudo o que conseguiu dizer. O senador retrucou: parece que você conseguiu ensinar muito bem os seus rebentos, meu caro. Outro envelope jogado sobre a mesa. Neste caso, o outro filho, o que falecera, o deputado em Brasília, igualmente participando de uma orgia. O senador tinha preparado tudo. A família Fernandes adorava uma esbórnia.
Josias não se conteve. Levantou-se e esmurrou fortemente o senador. Um dos seguranças avançou de arma em punho pronto para imobilizar o empresário. Florestan fez um gesto sinalizando que não seria preciso. O interlocutor estava de saída. Era um problema entre eles. Um problema entre antigos rivais, homens que se detestavam mutuamente praticamente desde a mais tenra idade. Filho de uma égua, você não perde por esperar, falou Josias, irado. O senador disse apenas: a candidatura de seu filho deve ser retirada imediatamente. Ele é doente, não é? O problema na coluna. Alegue publicamente que ele não tem condições de tocar a campanha. Convença o partido a indicar outro nome. Se isso não ocorrer nas próximas vinte e quatro horas estas fotos irão parar na internet. E aí vira farra, você sabe como é. Não existe limites na rede mundial de computadores. O céu é o limite. O inferno também. E gargalhou demoradamente enquanto Josias Fernandes se afastava de cabeça baixa. O drama se repetia.
Em casa, Rosa o recebeu delicadamente. A mulher aprendera a conviver com o marido apesar de tudo. Ela sabia de todas as suas safadezas. Sofria muito também pelo fato dos filhos homens terem herdado o comportamento cafajeste do pai no tratamento com as mulheres. Josipio era casado e tinha filhos. Sua mulher, Marluce, também conhecia seus desvios sexuais. Muitas vezes ele tentara, entre quatro paredes, sodomiza-la. Ela nunca aceitou. Mais dia menos dia você me dará seu traseiro, ele dizia, sorridente. A mulher afirmava que isso nunca iria acontecer. Traseiro não ficou para se dar. Tem apenas uma função, ela dizia. Pois fique sabendo que se você não saciar meus desejos sexuais irei buscar esse prazer com outras mulheres. Não era, pois, segredo para nenhuma das mulheres da família Fernandes a traição constante dos seus maridos.

Josipio não renunciou à candidatura. O pai sequer o informou do ocorrido. Pelo contrário. Decidiu agir de acordo com seu próprio código de conduta. Subornou um dos assessores de Florestan Baldolino com dinheiro suficiente para comprar uma caminhonete e obteve fotos e negativos. Ato contínuo, telefonou para o rival e disse, ironicamente: bom dia, meu caro, estou ligando para informar-lhe que meu filho não vai renunciar. E também para dizer que tente divulgar as fotos. E desligou. Gargalhando.
Josipio foi eleito governador com sessenta por cento dos votos válidos. Ganhou em quase todos os mais de duzentos municípios do estado. Florestan ficou em segundo e conseguiu vitória em quatro ou cinco municípios considerados “currais eleitorais” dos políticos da extinta Arena, partido de sustentação, na época, ao governo militar. Na festa da vitória, Josias Fernandes fez um discurso de exaltação à memória do seu irmão. Ele é que deveria estar aqui, neste momento, festejando a conquista do governo do estado. Também agradeceu ao empenho do pai, sem o qual não seria possível a sua ascensão política. Destacou sua influência sobre a família. Meu nome e os de todos os meus irmãos começam com a letra J em homenagem ao seu nome. Agradeceu aos eleitores e disse que iria fazer um governo de rupturas com os esquemas do passado.