
CAPÍTULO 1
Os covardes morrem muitas vezes antes da própria morte. Leu isso inúmeras vezes na sua adolescência cercada de livros por todos os lados. E até hoje ainda costuma se perguntar por que escolheu o caminho do crime quando poderia ter sido médico, advogado ou professor universitário. O valente experimenta o gosto da morte apenas uma vez, afirma Shakespeare.
O mercador de almas sabe exatamente quando tudo começou e tem quase certeza de que deveria ter seguido outro rumo. Mas agora é tarde demais para mudar. Agora ele tem que cumprir seu destino. Tem que cumprir seus contratos de vida e de morte. E não pode se preocupar com divagações sobre covardia e valentia sobretudo quando se trata de um enunciado feito na época do Renascimento.
A humanidade mudou muito de lá para cá. Os conceitos se transformaram completamente. De tudo o que foi antes, o homem conserva apenas o instinto selvagem, o gosto pelo poder, o triunfo diante da eliminação do outro, o estranho prazer em tomar para si um atributo que deveria ser apenas divino.
O alvo está sentado diante da piscina. Tem diante dele um cálice de vinho tinto e um prato com queijo fresco e azeitonas bem maduras como é de seu gosto.
A piscina de águas límpidas se estende por uma área considerável e está cercada de guarda-sois e espreguiçadeiras.
Teve o cuidado de verificar antes se havia alguém em casa e constatou que a enorme mansão conta apenas com a presença de alguns serviçais que se encontram em aposentos bem distantes, empenhados em suas exaustivas tarefas diárias. Não teve tempo de observar se há membros da família mas isso não importa mais porque agora o homem está olhando para ele e para a pistola com silenciador em sua mão esquerda.
Seu olhar transmite uma tranquilidade que não deveria como se Jonas tivesse plena aceitação da tragédia, renunciando ao mundo material, renunciando aos amigos, aos familiares, às pessoas que ama e à própria vida surpreendentemente calmo.
Gargamel, era assim que o chamavam, aproximou-se devagar. Não costumava encarar suas vítimas. Não costumava olhar dentro de seus olhos como agora.
"Quanto estão te pagando?", pergunta Jonas.
"Por quê, gostaria de cobrir a oferta?", questiona o matador.
"Quem sabe?!"
"Sabe que não posso fazer isso."
Jonas balançou a cabeça afirmativamente. Sim, ele sabe. Matadores não podem negociar duas vezes o mesmo contrato sob pena de serem eliminados do mercado ou mandados para o outro mundo sem aviso prévio.
"Tenho mulher e filho. Muitas pessoas dependem de mim."
"Todos continuarão vivendo."
"O que acontecerá com minha família? Meu filho..."
"Se depender de mim, absolutamente nada. Eles poderão viver felizes o resto dos seus dias."
"Felizes?! Acha mesmo que poderão ser felizes com o que está para acontecer aqui e agora?"
"Claro que não. Mas tentarão, posso garantir."
Dizendo isso, levantou a automática rapidamente e atirou uma única vez. A bala, certeira, penetrou o centro da testa de sua enésima vítima. Eram tantas que ele nem sabia dizer.
O homem bonito fechou os olhos azuis de profundidade desconcertamente para nunca mais reabri-los e seu corpo sarado despejou-se sobre a mesa. O sangue num filete escorreu por sobre o queijo coalho e as azeitonas umedecidas em calda própria.
A garrafa de Bourbon espatifou-se no chão. Manteve a arma em punho, aproximou-se da vítima bem devagar e checou a pulsação em sua jugular. Não havia nenhuma dúvida sobre a falência daquele corpo e então ele deixou a área andando apressado.
Em mais alguns instantes os empregados viriam atraídos pelo barulho da garrafa e certamente dariam o alarme. Na passagem por um corredor estreito, deparou-se com a criança que vinha saltitante, muito feliz, decerto com alguma novidade para contar ao pai, quem sabe mostrar o novo brinquedo.
O menino tinha os mesmos olhos azuis do homem morto a apenas alguns metros dali e os dois se cruzaram rapidamente. Os olhos do menino deram com os seus e por segundos sustentaram sua versão fugitivo sem medo algum.
Seguiram caminhos contrários e ao saltar o gradeado na frente da mansão pôde escutar os gritos da criança chamando pelo pai inerte, como se quisesse despertá-lo daquele sono que não era sono e cuja comprovação estava encravada na testa em forma de um projétil de pouco mais de cinco centímetros mas com grande poder destrutivo.
O dia está amanhecendo. Gargamel anda apressado, na medida do que lhe é possível, pelas ruas do bairro chique. Os movimentos são prejudicados pelo aleijão na perna que ele tenta compensar com o uso da bengala.
Sabe que dali a pouco o local estará infestado de policiais e que as autoridades não descansarão para colocar as mãos no assassino do famoso empresário. Pensa no menino. Naquela expressão de desafio e coragem. Naqueles instantes em que se confrontaram psicologicamente. Talvez a criança soubesse.
Pensa em si mesmo, na sua infância, num instante parecido com aquele, quando finalmente soube o que seu próprio pai fazia para ganhar a vida. Faz muito tempo. Tinha apenas oito anos. O pai costumava sair de madrugada e só reaparecia vários dias depois.
Parecia cansado e faminto, olheiras acentuadas, como se uma parte da sua existência tivesse evaporado naquela ausência. Houve oportunidades em que demorava mais a tornar para casa. Sempre quis saber qual a profissão do pai. A mãe dizia que era representante comercial.
Certa vez demorou mais de mês para retornar e quando voltou parecia bem mais magro e abatido, a palidez efetiva e um braço na tipoia. De outra vez o machado era na perna e então o pai ficou vários meses em casa, não saindo nem mesmo à porta da rua, parecendo esconder-se de alguém ou de todos.
Os ossos da perna estavam quebrados em vários lugares e ele contou uma história de que sofrera acidente de carro na rodovia. A mãe aceitou. Ele não. Gargamel queria saber por que o pai se feria tanto se era apenas um representante comercial.
Decidiu que não queria seguir a mesma profissão. Tinha pavor de machucados. Evitava jogar bola, banhos de rio ou disputas com outros garotos da sua idade. Preferia a relação com os livros. Passava a maior parte do tempo devorando-os. Eram centenas quando tinha apenas dez anos de idade.
Parecia maduro demais para tão pouco tempo de vida. A mãe imaginou que ele seria médico. O pai dizia que seria advogado. Seus avós maternos achavam que ele devia seguir profissão de engenheiro. Um amigo de infância a quem ajudava com as tarefas escolares disse que Gargamel tinha jeito de professor universitário.
Seu destino, porém, foi traçado num único instante e em desprezo a tudo que viveu até ali. O pai acordou como sempre de madrugada. Estava aparentemente recuperado, quase não se notava a sequela do ferimento na perna.
Tomou banho, olhou novamente o recorte de jornal, preparou a maleta, beijou a mulher, foi até seu quarto e o beijou também imaginando que estava mergulhado em sono profundo. Não estava e tão logo o pai saiu ele seguiu em seu encalço.
Foram vários quilômetros de carro porque quando chegaram ao destino o sol já estava alto no céu. Era uma espécie de fazenda e o homem estava campeando sozinho montado em um belíssimo cavalo de raça. O pai correu até ficar bem perto e estar frente a frente com aquele sujeito que parecia muito rico.
Não houve conversa alguma entre os dois. O matador levantou a pistola e atirou no peito do outro, que desabou pesadamente do animal. O cavalo se assustou mas não correu, parecia ligado ao dono de tal modo que ficou circulando em torno do cadáver enquanto o assassino se distanciava da cena até deparar-se com o filho a uma centena de metros dali.
O menino estava impassível, não conseguia sequer mexer um músculo da face e também não acreditava no que tinha visto. Seu pai era um homicida, um daqueles pistoleiros sem nome e sem rosto que costumam aparecer em manchetes de jornal. Não fez nenhuma reclamação. Pareceu conformado ao ver o filho ali.
Era como se esperasse por aquilo a vida toda. Daquele momento em diante a profissão de seu pai tornou-se um segredo de ambos. Ele disse para a mãe ao completar quinze anos que iria ser representante comercial.
A mãe o repreendeu. "Por que estudar tanto se vai seguir uma profissão que não carece de tanto estudo? E além do mais tu disse que não queria..."
"Mudei de ideia, mãe."
Mudou mesmo. O pai foi morto numa emboscada policial quatro anos depois. Não sem antes lhe passar muitos ensinamentos sobre a pistolagem. Matou pela primeira vez aos vinte anos. Seguiu matando pelos próximos dez anos.
Ao completar trinta anos havia acumulado uma pequena fortuna. Nessa época sua mãe contraiu um câncer que a levaria em menos de dois meses. Sofreu intensamente com as perdas.
Os pais eram quase exclusivamente seus únicos companheiros. Tinha alguns relacionamentos mas de afetividade apenas relativa. Gostava muito mais de estar a sós com seus livros, que agora já eram milhares, ou então fazendo planos ao lado da mãe que era tão jovem e bela.
Isolou-se completamente do mundo e de todos até conhecer Mirela. Viu-a pela primeira vez ao cumprir um contrato no interior de Minas. Era pouco mais que uma adolescente e parecia muito infeliz quando a encontrou.
Vivia com um fazendeiro rico e que a mantinha como escrava. Tinha pago por ela aos pais que eram muito pobres. Forçava-a ao sexo quase que diariamente. Forçava-a a fazer sexo oral em seu gigantesco pênis quase que diariamente e depois a penetrava brutalemente como fosse um animal selvagem.
Ela não mais reclamava porque qualquer sinal de descontentamento era motivo para ser espancada. Foi assim que a encontrou, com os olhos roxos, o rosto inchado, a expressão duramente marcada pela tristeza. Teve trabalho para tirá-la dali.
O fazendeiro não era a vítima que teria de matar. Teria de matar um filho dele que também estuprava Mirela frequentemente sem o conhecimento do pai. Era um desses playboys safados que vivem na capital e estudam em faculdade particular. Que passam as noites bebendo e se drogando para depois dirigir em alta velocidade pelas ruas colocando em risco a vida dos outros.
Gargamel fora contratado por um médico para vingar a morte da esposa. A mulher fora vítima de atropelamento nas primeiras horas do dia ao atravessar a rua do estacionamento para o local de trabalho. O desgraçado vinha em alta velocidade completamente bêbado e drogado e a colheu em cheio.
O elemento foi preso e autuado em flagrante porque depois daquilo não conseguiu nem ligar a ignição do carro de tão completamente maluco que estava. Mas não lhe aconteceu absolutamente nada porque era filho de um camarada muito rico que pagou fiança e fez acordo com o delegado para dar sumiço no inquérito.
Gargamel queria matá-lo silenciosamente. Penetrou em seu quarto de madrugada e cobriu sua cabeça com o travesseiro pressionando bastante ao ponto de sufocá-lo e neutralizar qualquer possível reação. Em seguida, deu-lhe várias estocadas de punhal no estômago, tomando o cuidado de girar a lâmina por dentro para triturar-lhe os órgãos e zerar qualquer possibilidade de sobrevivência.
O sujeito esperneou bastante e chamou a atenção dos capangas da enorme casa onde estava escondido. Um dos seguranças apareceu na porta de arma em punho e disparou contra Gargamel, que saltou para debaixo da cama e o atingiu num dos pés.
O capanga desabou e recebeu o próximo tiro na cabeça. Mais dois homens surgiram no corredor e houve intensa troca de tiros. A fumaça das deflagrações encheu o ambiente e facilitou o trabalho do assassino que estava bastante acostumado com aquele cheiro acre e com todo aquele comprometimento de visão.
Avançou rapidamente e enfiou o cano da pistola na barriga de um deles disparando apenas uma vez. O outro veio por trás e tentou golpeá-lo com o cano do revólver mas Gargamel sabia que não podia se envolver em briga corporal.
O indivíduo era bem mais alto e forte e podia facilmente vencê-lo no confronto físico. Ele simplesmente se esquivou da pancada e virou-se atirando contra o oponente atingindo-o em cheio no coração. Mirela estava parada ao pé da escada.
"Leve-me com você."
Foram felizes por algum tempo apenas. Comprou uma propriedade em localidade rural, passou a viver totalmente em função da mulher. Até aquele momento fatídico em que a casa foi invadida por pistoleiros que haviam seguido seu encalço por vários anos até encontrá-lo.
Ele foi atingido na perna mas conseguiu fugir. Mirela pagou com a vida. Gargamel não descansou enquanto não vingou a morte da mulher amada. Anda agora com uso de uma bengala. É justo que o menino queira vingar a morte do pai.
Chega ao hotel, toma banho e deita para descansar. Liga a tevê e não consegue se concentrar na programação. Mas houve quando o apresentador fala sobre a execução de Jonas, conhecido empresário do setor de mineração.
Tinha ficado rico com exportação de pedras preciosas extraídas na região de Gilbués, sul do Piauí. Uma das maiores fortunas do estado. Preparou-se para a espera que seria longa e dormiu pesadamente sem qualquer sonho.
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CAPÍTULO 2
Saulo cresceu obcecado pelo desejo de reencontrar o assassino de seu pai. Tinha plena certeza de que o destino os colocaria de novo cara a cara e nesse momento ele estaria preparado. Não seria apenas um menino rico e minado que se preocupava com brinquedos caros e programas animados de televisão. Um menino criado em berço de ouro e que tinha pelo pai um amor tão especial que provoca ciúme tremendo na mãe.
Ava muitas vezes o recrimonava por demonstrar maior amor por Jonas do que por ela, afinal era a sua mãe e os filhos costumam amar mais as suas mães. Com Saulo era diferente. Ele ganhava alguma coisa nova e corria a mostrar para Jonas.
Foi assim naquele dia quando dirigiu-se à área da piscina onde o pai costumava tomar vinho ouvindo música clássica. Foi assim que ele cruzou no corredor lateral de sua própria casa com o homem que tirou a vida de seu pai, aquele homem perfeito que para ele era a própria encarnação da divindade.
Saulo sofreu muito desde então. Tornou-se arredio, poucos amigos, poucas palavras, muitos pensamentos de ódio, revolta pela incapacidade em correr atrás daquele maldito e no mesmo instante tirar-lhe também a vida com todo o sofrimento que pudesse lhe causar.
Os anos passaram. O ódio só fez aumentar em intensidade. Ficava horas em frente à piscina olhando para aquele lugar em que seu fora morto. Imaginava as possibilidades de fuga do homicida. Por onde, afinal, teria entrado? Por que escolhera aquela hora? Por que nada fizera contra ele? Por que matara seu pai?
Jorge, o amigo de escola, o questiona. "Parece sempre muito pensativo."
"Não é nada."
Contou-lhe algum tempo depois. "Tenho um plano de vingança elaborado em minha mente."
Parecia um daqueles homens de filmes de gângsteres falando.
"Vingança?! Contra quem?"
"O homem que matou meu pai."
Jorge conhecia essa parte da história. Sabia também, há muito, que Saulo estivera a apenas alguns passos do homicida. Era uma história que se repetia dezenas de vezes todos os anos e foram muitos desde então. Na escola, no futebol, nas danceterias. Saulo era um menino agressivo e que brigava por qualquer motivo. Apenas Jorge parecia entender suas razões. Apenas Jorge não implicava com ele.
Numa tarde, em disputa de futebol de salão no bairro nobre em que moravam, um dos garotos entrou um pouco mais firme contra Saulo, que avançava com a bola a ponto de marcar um gol. Desarmado, Saulo não se conformou e partiu para a briga. Chutou o outro jogador na barriga, forçando-o a se curvar para a frente. Esmurrou-o no rosto e depois o chutou novamente na barriga. Finalmente deu-lhe um murro com força redobrada sobre a nunca quase pondo-o a nocaute.
O torneio foi suspenso, Ava foi chamada pela coordenação do evento, houve ameaça de revide por parte dos colegas maiores do menino agredido. Saulo os desafiou também, Jorge retirou-o dali bem rápido porque imaginou que o amigo podia ser trucidado pela turba enlouquecida.
Todos já o odiavam porque ele era rico e bem nutrido e tinha todas as coisas com que a maioria jamais sonharia. Em casa, a mãe indignada reclama. "Por que toda essa violência?"
Ele fica em silêncio.
Ela prossegue. "Nada disso trará seu pai de volta. Bater nos outros, ficar de mal com o mundo, nada disso faz sentido algum."
Persiste em silêncio.
Ela o abraça ternamente.
"Meu pequeno... eu entendo."
Chora abraçada ao filho. Ele está impassível. Não chora. Não há espaço para lágrimas em sua vida. Em sua imaturidade de então imagina que homens de verdade não choram. Talvez não. Mas sofrem, e muito, com a ausência de alguém amado. Um pai, um irmão, a mãe, os amigos.
"Existem muitas pessoas com quem você pode compartilhar sua angústia. Pode se abrir comigo. Sei que jamais serei como Jonas, que você jamais sentirá por mim o que um dia sentiu por ele. Mas pode ficar tranquilo ao meu lado. Estarei sempre contigo, tenha a certeza."
Estaria mesmo. Ava nunca o deixaria sozinho. Apesar das incompreensões do mundo ela o entendia muito bem. Conhecia todos os seus motivos. Os aparentes e aqueles que ninguém seria capaz de imaginar. Ava e Jorge. E agora também Samara.
Era linda, de cabelos castanhos e lisos, olhos verdes e brilhantes como pérolas oceânicas, uma beldade em forma de gente. Os dois sempre se conheceram, brincaram juntos, mas na adolescência ficaram mais próximos. Estudavam juntos e ela foi quem se aproximou dele. Gostava de seu jeito calado, de sua introspecção persistente, de sua total indiferente ao resto do mundo, exceto em relação a ela e ao amigo Jorge.
Formavam um trio quase que inseparável. A não ser por Saulo, que estava sempre por ali mas parecia estar distante, em outro mundo, submerso em conjecturas, talvez imaginando que um dia chegaria a oportunidade em estar de novo diante do seu maior inimigo e também do seu maior pesadelo.
"Tenho medo", ela diz.
"De quê?!"
"Você me causa apreensão e medo."
"Não tem razão de ser. Sou assim mesmo. Você sabe. Sempre fui assim."
Jorge emenda. "Ele vive num mundo paralelo. Num universo de bangue-bangue. Em que pessoas andam armadas na rua, com revólveres em coldres e carrões de luxo voando de um lado a outro. Como se juntasse metrópole e terra de ninguém. O Velho Oeste americano dos filmes de cinema em meio ao luxo das cidades modernas. Pessoas que se matam e se trucidam por nada..."
Nessas horas, Saulo voltava a ficar calado demoradamente.
Em sua festa de dezesseis anos ele e Samara começaram a namorar. Os pais dela ficaram alegres com a novidade embora todos achassem que eram ambos muito novos para um relacionamento sério. Jorge ficou enciumado porque tinha uma pontinha de afeição pela garota mas admitiu que Saulo precisava realmente de uma companhia doce como a de Samara bem mais que ele. Era um bruto em estado permanente e que precisava ser domado.
Ficou excitado ao ler nos jornais a notícia de que a polícia havia prendido um famoso coronel da polícia que durante duas décadas chefiara o crime organizado no estado. Foram dezenas de assassinatos e um tanto mais de casos de chantagem e extorsão contra empresários e políticos. O chefão mandava em todos - na polícia, no judiciário, no ministério público, nos políticos, em todos, enfim.
Chaplin disse uma vez: "Não é o poder que acaba. É o tempo que passa."
Seu tempo havia passado. Outros esquemas haviam surgido, bem mais fortes e organizados que o dele, e por isso ele fora colocado de lado, jogado numa cela para apodrecer pelo resto dos seus dias.
Parecia cena de um filme de Hollywood. O mandatário do sindicato das sombras desce de um avião em pleno aeroporto da capital. O delegado de polícia segue em direção a ele e dá voz de prisão. Uma câmera, de perto, capta a emoção do seu rosto, o ódio incontido que sente e naquele momento nada pode dizer.
Parece que a mensagem nada significa para ele. Como de vezes anteriores, os homens da política queriam apenas pregar uma peça na sociedade, fingindo desfazer-de dele, mas homens como ele não podiam jamais ser colocados de lado. Mas então o tempo passou e sua força se evaporou completamente.
"Você me ama de verdade?", ela pergunta.
Estão numa danceteria. A música bate-estaca estimula seus corpos ao movimento tresloucado intensificado pelas luzes coloridas que partem do teto emanadas de bolas gigantescas. Falam aos gritos.
"Claro que amo. Por que duvida?"
"Parece estranho que nunca me diga isso a não ser quando lhe pergunto."
Ele cala e continua dançando. Jorge está próximo com sua parceira - mais uma de suas parcerias. Nunca se fixa em garota alguma. Está sempre ao lado de seu amigo encrenqueiro e cujo comportamento é repudiado por quase todos. Voltam para a mesa.
Percebe que um sujeito está de olho em Samara. O cara olha direto para ela e não parece nem um pouco preocupado com sua presença ali. Está claramente tentando paquerar sua namorada. Parte na direção do sujeito e dá-lhe um murro sem rodeios. O camarada entende a agressão e tenta revidar mas é contido por um chute que o atinge em cheio no meio das pernas. A dor intensa o obriga a se dobrar ao meio e assim Saulo pode aplicar seu golpe de piedade, um soco com força redobrada no alto da nuca que o leva a nocaute.
Samara pensa em terminar o namoro mas não consegue ficar muito tempo longe dele.
"Não consigo imaginar minha vida longe da sua."
Ele gostaria de ser como ela, de sentir o que ela sente, de entregar-se apaixonadamente a um relacionamento imaturo e marcado pelos sobressalto da sua própria indiferença.
"Por que não acaba com isso?", sugere Jorge.
"Do que está falando?"
"Samara. Ela gosta de você demais da conta. Não é justo que continue agindo assim. Parece um louco em guerra constante contra o mundo."
Silencia.
"Louco!?", explode. "Está me chamando de louco, seu filho da puta?"
Avança contra Jorge. O amigo recua. Ele para. Como se fosse um autômato, sabe que nada pode fazer contra aquele ser humano em particular. Um chip em sua mente avisa. Trata-se de um amigo.
Jorge some por semanas. Não atende suas ligações. Recusa-se a recebê-lo em casa. Não fala com ele na escola, senta-se distante. Samara os reconcilia. Sempre Samara.
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CAPÍTULO 3
Aos dezoito anos entrou para o exército sob protestos de sua mãe. Ava disse que ela não precisaria servir, não havia nenhuma obrigatoriedade para ele, não para ele. Mas ele queria, precisava. O exército seria para ele um aprendizado indispensável em sua jornada obcessiva de ódio e vingança.
Numa de suas primeiras missões foi mandado para o batalhão de selva na Amazônia. Deveria juntamente com seu grupo patrulhar a fronteira pelo rio para impedir a entrada de traficantes. Trocou tiros e matou bandidos.
Tinha certeza que eram bandidos porque não se renderam diante do aviso de chegada da troca e começaram a atirar contra os soldados. Eram bandidos porque foi encontrado com eles um grande carregamento de cocaína que deveria entrar em território brasileiro por Manaus e dali seguir direto para os grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, seguindo depois para Estados Unidos e Europa.
Teve consciência de matando aqueles homens ajudou a salvar muitas vidas.
Samara não queria que ele entrasse para as Forças Armadas. Julgava-o frágil emocionalmente. Julgara-o mal. Ele era sólido como uma rocha. Provou isso em operações de alto risco. Era também muito atirado e por diversas vezes correu risco de vida.
Como na Colômbia. Em Bogotá, uma tarde quente, entrou na capital disfarçado juntamente com um numeroso grupo de companheiros, soldados como ele, selecionados entre os melhores atiradores para uma ação de infiltração em favela no encalço de um poderoso narcotraficante.
Dominguez era uma espécie de fantasma. Todos diziam da sua existência mas poucos o tinham visto pessoalmente. Nem mesmo seus comparsas davam plena certeza de que ele era um ser de carne e osso. Na favela, o grupo se dispersou em busca de informações sobre o elemento.
Não podiam dar na cara. Teriam que parecer com drogados em busca de cocaína. Teriam que parecer com representantes de compradores, traficantes brasileiros em busca de droga boa e barata.
Numa birosca no meio do aglomerado de barracos imundos é reconhecido por um rapazola com quem se defrontara na selva, um dos fugitivos da operação que resultara na eliminação de onze traficantes. Mas havia doze deles em campo. Um conseguira fugir. Estava ali, agora, diante dele, apontando-lhe seu dedo sujo e gritando aos outros.
"É um canalha de farda verde. Exército brasileño. Exército brasileño..."
Logo os disparos começaram em sua direção. Sacou a pistola e revidou. As balas zuniam em redor de sua cabeça, roçando seu corpo com zumbido fatídico. Abrigou-se atrás do balcão tosco mas logo percebeu que ali não era um bom lugar para permanecer escondido porque as balas perfuravam a madeira frágil encravando-se na parede do fundo.
Rolou pelo chão e conseguiu sair por trás do barraco, dando num descampado que os residentes locais utilizavam para jogar peladas no fim da tarde. Inclusive, já havia alguns deles e todos eram comparsas naquele mundo de perdição e maldade. Deixou quatro bandidos no caminho da fuga e manteve o ritmo na medida do possível até que se viu cercado e sem nenhuma chance de escapar com vida daquele inferno de calor e moscas que voavam junto com balas de todos os calibres.
Os elementos gritavam e atiravam. Os elementos gritavam e apitavam. Os apitos marcavam sua localização como se ele estivesse deixando pedacinhos de pão para encontrar o caminho de volta tal que lera na história de Joãozinho e Maria. Foi salvo pelo gongo.
Os companheiros se aglutinaram sob o comando dos federais e deram guarida à sua fuga. Saíram cantando pneus de Bogotá e somente depois de algum tempo é que ficaram sabendo que Saulo matara o traficante Dominguez durante a fuga pelos labirintos da favela. Um deles, daqueles meninos famélicos, era o poderoso traficante de quem se falava.
Um deles, daqueles infelizes vivendo ali, naquele inferno em vida, era considerado um dos maiores abastecedores do mercado de drogas da América Latina.
Fora ele, Saulo, quem o abatera com um único tiro, certeiro, no peito, que o arremessou contra a parede de madeira do barracão repleto de outras pessoas infelizes.
Voltou para casa ao fim do serviço militar. Um delegado da Polícia Federal que o conhecera em campo recomenda que ele entre para o curso de direito e que faça concurso para a Polícia Federal.
“Policial federal?!”
“Sim, dona Ava.”
A mãe entende seus motivos.
“Por que não consegue esquecer?”
Samara sabe que ele levará sua obsessão até o fim. Estuda direito, entra para a Polícia Federal, sempre determinado a encontrar o assassino de seu pai. Não queria prendê-lo. Queria matá-lo. Sente que ele continua a existir. Não queria submetê-lo ao estado de direito. Queria eliminá-lo fisicamente, jogar uma pá de terra sobre seu rosto, encher seu corpo de balas e pancadas e somente depois ficaria sossegado completamente, poderia dormir sem lembrar nunca mais daqueles olhos sanguinários, frios, crueis, do homem com quem cruzara naquele corredor lateral de sua casa, logo depois da morte de seu pai sem que ele, menino, ainda soubesse da tragédia que o esperava a poucos metros dali.
***
Houve inúmeros registros na mídia. Recortes de jornal que guarda espalhados por seu quarto. Crimes escolhidos a dedo e que no seu entender trazem a marca do assassino de seu pai. Talvez a principal delas seja a discrição. Ele observa e fecha os olhos.
Sua mente divaga em busca de respostas. Em busca de compreender o que se passa. Como federal tem acesso a documentos privilegiados e usa todo o seu tempo livre na investigação que recompõe retalhos do seu próprio passado.
O disparo único e certeiro palmilhado como uma doença tanto tempo depois e sempre em direção ao futuro. Até que haja um confronto, até que haja um enfrentamento final. Para um deles, pelo menos.
As digitais do matador estão impressas na história de Saulo. Ele não se contenta apenas em saber disso. Quer mais e muito mais. Fica conhecendo a fundo casos de outros meninos e meninas que ficaram sem os pais.
Em Parnaíba, um empresário dono de revenda de automóveis é morto no banheiro da churrascaria em que se encontrava com amigos. O matador se retira sem deixar vestígios. Um homem se recorda de ter visto elemento andando de bengala nas imediações. Andava devagar e amparado pelas sombras da noite.
Em Picos, um conhecido oficial da polícia é assassinado enquanto fazia sexo com uma garota de programa em um motel de beira de estrada. O motorista de um ônibus afirma que apanhou um homem a alguns quilômetros do local do crime. Ele andava mancando de forma acentuada. Não havia nenhuma referência à bengala mas o motorista lembra de que o manco tinha olhos estranhos, uma forma assustadora de encarar, como um desafio ou convite para a fatalidade. Era ele, não tinha dúvida. Jamais esqueceria aqueles olhos malditos.
Em Teresina, um prefeito de cidade do interior ficou jogando sinuca com amigos até alta madrugada num bar chinfrim da zona sul. Decidiu ir embora por volta das duas da matina. O corpo foi encontrado ao volante a apenas dois quarteirões do local. Estava parado num semáforo quando o matador o alcançou. O homem da bengala esteve mais cedo no boteco e parece que tomou uma dose de cachaça que foi paga por um dos presentes. Segundo relatos, foi a única pessoa estranha ao meio que andou por ali naquela noite e todos se lembram dele porque andava com dificuldade e amparado numa espécie de muleta.
“Onde você quer chegar?”, era Samara que havia entrado sem avisar.
“Não sabia que estava aí.”
Ela sorri e o beija na boca.
“Há quanto tempo guarda esses recortes?”
“Muito tempo. Desde quando era criança. Logo depois que mataram meu pai. Tomei gosto pela leitura de notícias de crimes e passei a colecionar algumas delas. Apenas as que me interessam. Quem sabe um dia decida escrever um conto, um romance policial, quem sabe...”
“Por que acha que pode vencê-lo?”
“Do que está falando?!”
“Do homem que matou seu pai. Por que acha que pode derrotá-lo? Ele é um assassino profissional, deve ter matado dezenas de pessoas... Não creio que todo o seu treinamento na Polícia Federal ou a experiência de combate no Exército possa resolver alguma coisa quando se trata de um homem que certamente chega sem avisar...”
“Por que não mudamos de assunto?”
Ele fecha a pasta de recortes, abraça a namorada e a beija de forma ardente.
***
Dedicou-se com maior intensidade ainda aos treinamentos físicos. Frequentou a academia até se tornar um sujeito musculoso e ágil. Frequentou o estande de tiros até se tornar um exímio atirador. Frequentou a escola de artes marciais até se tornar um lutador temido.
Para ele, tudo sempre fora apenas uma questão de tempo. O confronto iria acontecer quando menos esperasse. Talvez bem antes do que imaginava.
***
Certa noite, ao vasculhar coisas de seu pai no sótão ele descobriu um bilhete escrito há muito tempo pelo pai de Samara. Miguel era amigo de sua família há mais tempo do que sua existência ou da jovem namorada. Ele e seu pai praticamente iniciaram juntos na atividade profissional e embora nunca tenham estabelecido sociedade dedicavam-se praticamente ao mesmo ramo, a mineração.
Seu pai, Jonas, explorava diamantes no município de Gilbués, extremo sul do Piauí. Miguel, o amigo, era explorador de madeira na região dos Cerrados. Eram atividades rentáveis porém marcadas quase sempre pela clandestinidade.
No bilhete, Miguel avisava: "É preciso que tome cuidado. Soube de tudo que pretendem fazer. Querem removê-lo do caminho a qualquer custo. Eles chegaram a contratar um pistoleiro famoso, um assassino profissional, gente que mata sem piedade. Não acho que deva insistir na pressão contra Caruso."
Caruso era o nome do contratante. Foi ao encontro de Miguel ainda de madrugada. Não teria paciência para suportar as horas até o amanhecer do dia. O empresário estava dormindo quando ouviu o toque insistente da campainha. Pelo monitor na beirada da cama divisou a câmera focada na imagem nervosa de Saulo.
"O que é?...", a esposa perguntou.
"Fique tranquila. É apenas Saulo."
"Deus meu. Esse menino não dorme!"
***
Miguel senta num banco do jardim florido.
"Sente-se."
"Não. Obrigado. Estou bem de pé."
"Tudo bem. O que posso fazer por você?"
"Quem é Caruso?"
Sentiu quando Miguel estremeceu. Uma luz tênue iluminava o espaço em que se encontravam. Vinha do poste, ao longe, na rua.
Respirou fundo. "O que quer saber sobre ele?"
"Por que ele queria a morte de meu pai?"
Uma longa história. Jonas era audacioso nos negócios. Não conhecia limites quando o assunto era ganhar dinheiro. O governo proibiu a exploração de diamantes em Gilbués. A mineração estava provocando danos irreparáveis ao meio ambiente. A desertificação sem precedentes tocou o sino ambiental das autoridades.
Ele manteve a exploração mas não tinha como escoar o minério extraído da região. Encontrou rota de passagem distante dos olhos da fiscalização por terras de Caruso, um rico fazendeiro da área. Propôs compra. O homem recusou. Propôs aluguel temporário. Nova recusa.
Descobriu que eram terras griladas. Que Caruso não detinha propriedade legítima sobre elas. Ameaçou denunciá-lo ao instituto de terras. Houve alteração de ânimos. Os dois se agrediram fisicamente. Caruso levou a pior. Jonas recuou no negócio de diamantes mas não sem antes entregar seu oponente para os homens da lei. Possesso, Caruso decidiu ir à forra e contratou um matador para executar sua vingança.
Jonas era esperto e escapou da primeira emboscada feita num hotel em Brasília. O fazendeiro então contratou o melhor de todos os assassinos da época, um indivíduo conhecido como "o mercador de almas".
Voltamos ao presente.
"Por que nunca relatou isso para as autoridades?"
"Está louco?! Eu não posso colocar minha família em risco."
"Meu pai está morto."
"Faz muito tempo."
"Vocês eram amigos. Isso não significa nada pra ti?"
"Você está vivo. Sua mãe está viva."
Esmurrou Miguel com violência. O empresário foi ao chão. Não tinha como lutar contra aquela montanha de músculos e habilidade marcial.
"Pai?!"
Era Samara, que vinha ao encontro de ambos. Estava vestida numa camisola de seda e com cabelos despenteados, porém se mantinha inalteradamente linda. Saulo simplesmente virou as costas e saiu andando em direção à rua. Miguel levantou-se amparado pela filha.
"O que aconteceu aqui? Por que estavam conversando a esta hora da madrugada?"
"É melhor entrar, filha."
"O que Saulo estava fazendo aqui?"
"Seu namorado não está nada bem, Samara. Sinceramente, entendo que ele deve procurar um tratamento médico. Se ele ao menos nos ouvisse..."
///
CAPÍTULO 4
Caruso escuta aquela voz atrás de si e não consegue acreditar. Em sua mente, antes de virar-se, ressurge a imagem de Jonas. Um homem destinado a grandes conquistas. Mas avistou-se apenas com um sujeito que de fato se parecia com o outro, porém numa versão bem mais jovem.
"O que deseja?"
"Saber sobre Jonas."
"Tenho pouco a dizer sobre ele. E para quem diria?"
"Deve ter muito. Você decidiu o destino dele."
"Quem é você?"
"Importa-se em saber ou quer apenas conhecer o nome da sua próxima vítima?"
"Como chegou até mim?"
"Sabe do que estou falando. Não desisto fácil. Você determinou a eliminação física de Jonas. Procuro pelo homem que o matou."
O empresário levantou-se com dificuldade. Idade avançada. Os passos eram lerdos. Caminhou até um armário próximo. O jovem ficou atento, ele podia sacar uma arma. O velho, contudo, serviu-se apenas de uma dose de uísque.
"Aceita?"
"Obrigado. Não bebo."
"Por que procura informações sobre Jonas? É alguma espécie de parente?"
"Sou filho dele."
A frase ecoou mais do que o normal, enchendo o ambiente com uma carga extremamente negativa.
"Filho dele?!"
"Sim. Do homem que você mandou matar. Conheço a história."
O velho percebeu que todos os seus pesadelos em todos aqueles anos estavam se configurando.
"Está aqui para vingar seu pai?"
"Quero saber quem o matou."
"O que pretende com isso?"
"Tenho o direito de saber. Além do mais, será problema meu."
O velho caminhou de volta para sua cadeira em estilo gótico.
"Ele não pode ser encontrado."
Saulo aproximou-se determinado.
"Caruso, quero que saiba que não vim para conversar."
"Seria capaz de fazer mal a um idoso?"
"Sou capaz de matá-lo. Tenha certeza disso. Faz vinte anos. O tempo não passou para mim. Ele é, até hoje, a figura mais importante da minha vida."
Tomou o restante do uísque de um único gole.
"Mercador de almas."
"O quê?!"
"Mercador de almas. Ele é um mercador de almas."
"Um matador..."
"Sim. Um encomendador de defuntos."
A jornada prosseguiu com a revelação de que o assassino costumava frequentar um antigo espaço boêmio na Lapa.
***
O voo até o Rio foi tenso. Levava consigo um retrato falado do indivíduo cuja imagem não lhe saía do pensamento.
Faz muito calor no seu desembarque. A cidade está envolta numa redoma de expectativa crua para ele. Engole seco ao pisar em chão fluminense e segue apressado para um hotel nas proximidades do aeroporto, onde se instala.
Dali, toma um táxi até a zona de guerra. Será uma guerra. A noite cai, luzes que se acendem, centenas de milhares de carros de pessoas que voltam para casa, o barulho das buzinas, o centro vai ficando deserto de pessoas civilizadas. E então surgem os notívagos, os loucos, os delirantes, as mulheres da cidade, algumas belas e jovens, outras velhas e nem tão belas; em seu encalço, os cafetões violentos, gente que controla tráfico e prostituição.
Os esgotos da cidade maravilhosa vomitam seus dejetos humanos. Saulo segue a pé, após descer do carro alguns quarteirões antes, e segue de olhares e ouvidos atentos. Os sentidos estão em alerta.
Carrega consigo a arma - sem o distintivo, por via das dúvidas. O lugar cheira a coisa antiga. As paredes estão sujas e algumas rachadas. Alguns dos ambientes remontam ainda aos anos 40 e 50 quando tiveram grande significado para a vida noturna da cidade.
Pensa em como será quando finalmente estiver frente a frente com o matador. Está nervoso como nunca quando entra no velho cabaré. Ainda há mulheres, mas todas de olhar perdido, parecendo famélicas diante de um cafetão sem possibilidades.
Atrás do balcão, um sujeito duela com o imponderável e se anima quando avista o primeiro cliente da noite adentrar o recinto. Saulo se dirige diretamente a ele e pergunta por Marcão. O homem atrás do balcão fica assustado ao ouvir a pronúncia daquele nome.
Trata-se de um traficante barato e sem honra alguma. Mata por qualquer besteira e tem olhos e ouvidos em todo lugar por ali.
"O que deseja com ele?"
"Coisa minha.
"Não tenho autoridade para dizer onde ele se encontra."
O cafetão se levanta de onde está e vem até o encontro dos dois.
"O que é, Joaquim?"
"Esse moço está à procura de Marcão."
"Pode dizer."
"O senhor é Marcão?"
"Não. Mas diga."
Tira o retrato falado do bolso da jaqueta. Mostra-o ao cafetão.
"Conhece este sujeito?"
O cafetão olha por alguns segundos. Parece desinteressado.
"E se eu conhecer?"
"Gostaria de encontrá-lo."
Olha para Saulo de alto a baixo.
"Posso saber o que deseja com ele?"
"Já disse para teu amigo aqui e repito: é coisa pessoal."
"É estranho que venha em meu bar sem dizer quem é e queira saber informações dos meus amigos sem que eu ao menos possa conhecer do que se trata."
"Este homem tem uma dívida comigo. De muitos anos. Estou em busca dele desde Teresina, no Piauí."
O cafetão soltou uma estrondosa gargalhada.
"Veio de tão longe por nada, garoto."
"O que quer dizer?!"
"Ele não quer dizer nada..."
A voz era forte. Era firme. Voz de comando. Na entrada, o indivíduo estava cercado de elementos armados, todos parecendo menores de idade, exceto o líder, que não trazia arma nenhuma.
"Marcão", pronunciou o sujeito do balcão; estava gaguejando ao completar: "... este camarada aqui quer falar contigo."
O cafetão se adianta.
Uma mulher se aproxima dele e recebe uma bofetada.
Cai. Ele passa adiante, por sobre seu corpo no chão, enquanto ela se retorce e passa as costas da mão sobre o lábio que sangra.
"Já estou cuidando dele."
Marcão não lhe dá atenção, passa direto e vai até Saulo.
Fica bem perto dele e o mede com os olhos em tom desafiador.
"Me conhece de algum lugar?"
O clima parece tenso agora. Saulo não emite qualquer sinal de temor. Está tranquilo e não é apenas aparentemente.
"Fui informado de que poderia me ajudar."
"Informado por quem?"
O cabo da pistola exposto no cós da calça. Pronta para sacar e usar.
"Caruso. Conhece?"
Marcão pareceu transtornado ao ouvir aquele nome.
"Caruso?!"
"Sim. Ele mesmo."
"Caruso? Do Piauí?!"
"Exatamente."
Sorriu.
"É isso mesmo. Tu veio de lá. Do Piauí..."
Os dois agora estão sentados diante de uma garrafa de uísque de qualidade duvidosa.
"Toma comigo?"
"Desculpe. Não bebo."
"Sem problema. Mas diga-me, em que posso ajudá-lo?"
"Preciso que me ajude a encontrar um homem."
"Deve ser alguém muito difícil de ser encontrado. Caso contrário, Caruso jamais lhe daria indicações minhas."
Mostrou-lhe o retrato falado.
"Conhece?"
"Sim. Conheço."
O coração de Saulo bateu mais forte.
"Ajude-me."
"Primeiro, preciso saber por que deseja encontrá-lo."
"Temos uma conta antiga a ajustar. Ele matou meu pai."
Marcão começou a rir. Saulo pensou que as pessoas ali gostavam muito de rir.
Olha para a mulher que acabara de levar uma bofetada. Ela está sorrindo para ele.
"De que está rindo?", perguntou ao traficante.
"Tu dizer que ele matou teu pai. Esse camarada aqui, meu jovem, matou muitos pais, muitos filhos e muitas mães também. Ele matou mais gente do que tu pode imaginar. É um camarada perigoso e sinceramente se eu fosse tu não me metia com ele."
“Não se preocupe. Estou preparado.”
Somente nesse momento Marcão percebeu que Saulo estava armado. Seus capangas se aproximaram para revistar o policial mas o bandido fez um gesto de que não precisava.
“Veio de muito longe. Posso te garantir: ele não está no Rio.”
Disse mais. Disse que Gargamel era um homem que não gostava de ser encontrado. Havia decidido se aposentar há alguns anos. No entanto desafetos o perseguiram e mataram a sua mulher, forçando-o a voltar ao crime.
Gargamel era encontrado apenas quando queria. As pessoas colocavam aviso em classificado de jornal. Toda semana ele comprava e lia os anúncios.
Quando havia algo para ele então ele mesmo é que se encaminhava até seu contratante. Chegava sempre sem avisar. Saía também sem nada dizer. Apesar da deficiência por causa de tiros que pegou na perna é uma figura ágil. Atua principalmente de noite porque assim pode contar com as sombras a protegê-lo.
“Soube notícias dele no Rio de Grande do Norte. Numa cidade chamada Carnaubais. Não sei direito onde fica. Sei apenas que ele está vivendo por lá. Vive sozinho, escondido sempre. Muda sempre. Talvez já tenha até mudado novamente. Não tenho nada com isso. Não tenho nada com esse teu problema aí. Mas tu me procurou a mando do Caruso. Tenho um débito grande com ele. Foi ele quem me livrou da cadeia e me deu condição de estabelecer meu ponto aqui no Rio. Sendo assim, vou te indicar alguém que talvez te ajude. Mas é em Natal. E aí de lá tu te vira. Pode ser assim?”
“Melhor não poderia.”
///
CAPÍTULO 5
"Onde você está? Por que não dá notícias?"
"Prefiro que seja assim."
"Recebi uma ligação da superintendência. Estão procurando por ti há vários dias."
"Estou numa investigação sigilosa."
"Por que seus superiores não sabem?"
"Mãe, isso é problema meu e da Polícia Federal. A senhora não tem que ficar me telefonando sempre."
"Sou sua mãe. Estou preocupada..."
"Sei, sou seu filho e lhe devo satisfações. Tudo bem. Podemos desligar agora?"
"Jorge gostaria de falar contigo."
"Depois ligo com ele."
"Acho que é urgente. Parece meio assustado."
"Deixe que resolvo com ele. Fique com Deus. Beijos."
Desligou. Seguiu apressado em direção ao ponto de táxi.
As ruas do Rio eram sempre perigosas, principalmente naquela hora da noite. As sombras podiam de repente se transformar em seres transtornados e muito perigosos.
Estava a apenas um quarteirão e meio de onde queria chegar quando foi atacado por dois brutamontes. Os dois caíram sobre ele vindo diretamente de uma reentrância no muro, protegidos pela fraca iluminação da ruela.
Uma senhora vinha em sentido contrário e tratou de atravessar a rua. Dois garotos, provavelmente universitários voltando para casa, também presenciaram o ataque e optaram por dar meia volta volver.
Saulo se defendeu como pôde e como sabia. O primeiro deles o atacou com um murro em cheio no rosto. O outro aproveitou o instante de sua queda para chutá-lo com toda a força no peito.
Sentiu o ar sumir de seus pulmões e abriu a boca em busca de oxigênio. As agressões continuaram. Pareciam determinados a neutralizá-lo em definitivo.
Não sabe por que mas pensou que aquilo não era um simples assalto. Um simples assalto! Não há assaltos simples no Rio. Todos são mortíferos. Rolou na calçada e caiu no asfalto fumegante devido ao choque com o clima frio daquela quase madrugada.
Desferiu, ainda deitado, um chute na virilha de um dos seus oponentes. O camarada gritou mais pelo susto e recolheu-se protegendo os testículos. O outro disse alguma coisa como "Ah, ele não quer morrer..." e então sacou um canivete miudo, prosseguindo em sua ameaça com afirmação de que "... mas vai morrer assim mesmo."
Tentou estocá-lo no rosto e recebeu um pontapé violento na testa que o deixou meio grogue. Saulo conseguiu levantar-se cambaleante e recebeu um novo soco, desta feita sobre a nuca, ficando tonto e quase desabando novamente.
O sujeito do canivete aproveitou a deixa para enfiar-lhe a peça nas costas. O corte não foi profundo mas causou muita dor.
Um carro passava pela rua naquele momento, o motorista parecendo atraído pela curiosidade, porém ao perceber que se tratava de enfrentamento pisou fundo no acelerador e partiu cantando pneus. Ninguém ousaria fazer nada por ele.
Dali por diante foram muitos socos e estocadas e ele quase perdia a consciência quando decidiu partir para o gesto extremo. Não se deve investir contra as impossibilidades. Seria impossível, naquelas condições de surpresa e território, vencer o duelo corporal, então apelou para a arma que trazia num coldre preso ao tornozelo.
Atirou na cabeça do negro maior, que tombou como imenso fardo bem ao seu lado. O do canivete vacilou alguns segundos e logo pensou em correr, mas já era tarde.
Recebeu o projétil na coxa direita e emitiu um urro incondizente com o seu tamanho.
***
O negro estava ensanguentado e amarradado a uma cadeira no centro de um cubículo, provavelmente o quarto de algum hotel vagabundo na antiga zona do mangue.
"O que querem comigo? Quem mandou vocês?"
O sujeito ficou em silêncio.
Saulo apertou o ferimento. Ele tentou gritar mas foi contido por um violento murro no alto da cabeça que praticamente o desacordou.
"Não quero gemidos. Quero nomes e significados."
"Vai te foder", foi tudo o que o elemento disse.
Saulo apertou novamente o ferimento, desta vez colocando mais força. O indivíduo estava amarrado com as mãos para trás e a perna esquerda também presa.
"A bala está aí dentro. Vai gangrenar e sem dúvida será preciso amputar. Tem certeza de que pretende continuar com esse joguinho de silêncio?", indagou o policial, olhando firme para seu gigantesco oponente.
"Já disse: vai te foder...!!"
Saulo levantou-se e andou calmamente pelo recinto. Poderia acender um cigarro mas não fuma. Poderia tomar uma dose de rum mas não bebe.
Poderia matar o marginal apenas com músculos e agressividade extremada. Porém não era nenhum assassino.
"O que está pensando em fazer?"
Silêncio.
Prossegue. "Acha mesmo que vai conseguir escapar com vida se não me der as respostas que estou buscando?"
"Não sei de porra nenhuma. Tudo o que sei é que quando sair daqui vou comer teu fígado, depois vou arrancar teus braços e pernas, por fim vou te colocar no microondas de frente para o Cristo Redentor. Sacou?!"
"Saquei", respondeu -- e deu-lhe novamente um vibrante soco na cabeça, por trás.
"Covarde", urrou o outro.
"Eu, covarde!?... Tu e aquele outro macaco me atacam de surpresa, no meio da noite, numa rua escura e se escondendo nas sombras, depois eu é que sou covarde... Não vem com essa, meu, e anda logo, desembucha..."
Dizendo isto, Saulo apanhou uma valise que estava embaixo da cama e colocou-a sobre o colchão. Dentro havia uma série de instrumentos cirúrgicos que foram cuidadosamente dispostos em frente ao assaltante que começou a tremer e abrir os olhos diante do que estava por acontecer.
***
Saulo pediu apoio a alguns colegas da superintendência da Polícia Federal na capital fluminense. No dia seguinte estava voando em direção a Natal. No avião, abriu o jornal e deparou-se com a notícia: "Dois corpos foram encontrados na madrugada de ontem completamente desfigurados. Um deles foi morto com tiro de pistola sete meia cinco. O outro recebeu uma bala na perna e apuração em andamento indica que tenha sido torturado em seguida. O cadáver teve três dedos da mão direita arrancados. Também arrancaram-lhe alguns dentes que somente a perícia, após exames necessários, poderá precisar. Os elementos eram antigos conhecidos da polícia. Eles tinham passagens por roubo, tráfico e consumo de drogas e até por homicídio. O delegado responsável acredita que tenham sido mortos por gangue de rivais em luta pelo controle de pontos de venda."
Filho da puta, pensou Saulo, poderia ter aberto o jogo, teria salvo a própria vida, teria evitado toda aquela agonia.
***
O retrato do filho da puta no jornal o incomoda profundamente. Lembra-se dele quando era criança. Gorducho e covarde. Agora estava ali, como deputado federal, herdeiro da tradição política de sua família, possível candidato a governador por um partido de esquerda. Tem coisas que só acontecem no Piauí, costuma dizer um conhecido jornalista. Uma delas é latifundiário fazer carreira política como esquerdista e todo mundo aceitar com a maior naturalidade. A família daquele cretino era dona de um conglomerado de empreendimentos e ele não passava de um janota. Nunca fez esforço na vida. Nem nos estudos. Apresentava um diploma que podia ser falso. Qualquer dia iria investigar e descobrir a verdade. Um rival, sem dúvida, porque o deputado Jardel Benevides andava fazendo comentários a seu respeito. Insinuações na mídia. De que a Polícia Federal tinha matadores em seus quadros. Tinha bandidos em seu meio. De alguma forma ele conhecia suas andanças pelo submundo. Sabia que ele matara alguns homens em Teresina e outros estados em busca de informações sobre o paradeiro do assassino de seu pai. Como?! Uma boa pergunta. Anotar para descobrir mais tarde.
***
Jorge está ansioso. Anda de lado para outro, no passeio central da avenida Frei Serafim, próximo à Igreja de São Benedito. Olha os carros que passam velozmente. Espera pelo amigo. Checa as horas. Pensa que Saulo não chega nunca. Irrita-se e continua andando. Decide sentar-se, não consegue a tranquilidade esperada. De repente, a voz conhecida. O amigo, ao seu lado.
“O que houve, por que tamanho nervosismo?”
“Puta que pariu. Por que demorou tanto?”
“Sabe de onde eu vim, Jorge, para atender seu chamado? Estava numa operação no...”
“Não quero saber de operação nenhuma. Você precisa saber e tomar providências.”
“Do que está falando, afinal?”
“Cara, Samara está correndo perigo.”
“Do que está falando?”
“Cara, recebi uma visita estranha na escola. Um cara de feições indígenas chegou procurando por mim ontem de manhã. O vigia disse que eu estava na sala de aula. Ele fez questão de esperar. Disse que me esperaria na sala dos professores. Parecia um sujeito amistoso, por isso não houve obstáculo.”
Saulo ficou interessado na história. Jorge prossegue:
“O cara entrou e foi direto para a sala dos professores, ligou a televisão e sentou. Ficou esperando por uns quarenta minutos. Quando cheguei, ele estava de papo com uma professora amiga, a Ângela, lembra dela? (Saulo fez que sim com a cabeça. Jorge continuou a narrativa). Foi ela quem me disse: esse moço quer falar contigo. Apertou minha mãe, disse que era particular e fomos andar no pátio da escola. Havia muitos alunos, era o intervalo, mas não estavam muito interessados em nós. Apenas os professores ficaram interessados em saber o que aquele estranho queria comigo.”
“Era um índio, de fato?”
“Não. Quer dizer, não sei. O indivíduo era uma espécie de peruano, boliviano, esse povo de ascendência indígena, isso eu posso afirmar, de certeza, por causa do sotaque forte. Ele falava um português misturado e me disse que estava fazendo alguns negócios no Piauí. Veio para Teresina tratar sobre um carregamento de qualquer coisa que não quis me falar, mas eu entendi de imediato que se tratava de droga, um traficante, sem dúvida. Não sei se um grande ou médio, mas um traficante.”
“Você não acha que está exagerando na dose? O que um traficante de drogas poderia querer contigo?!”
“Pois aí é que entra você. O cara falou que faz parte de uma organização internacional e muito rica. Há muito tempo que o pessoal procura por um sujeito que fazia parte do exército e que depois entrou para a Polícia Federal. Um camarada que entrou em território colombiano, certa feita, em uma operação de identificação e assassinato de um dos seus hermanos. Por todo esse tempo eles procuraram até chegar em Teresina, até chegar em você, Saulo. Eles sabem quem é você, onde mora, quem são seus familiares, seus amigos, sua namorada. Conhecem toda a sua trajetória.”
Estava tremendo. Os carros passando, buzinas, frenagens.
“O que eles querem comigo?!!”
“Vingança, Saulo, eles querem se vingar de ti. O sujeito me falou que o acerto de contas está próximo e que você não perde por esperar. Disse mais: que você é o único alvo deles e que nenhum dos seus amigos ou familiares será importunado, a não ser que...”
“A não ser o quê?!”
“... que não consigam chegar até você. Esta é a dificuldade que ele manifestou, porque você é policial e está sempre em missão, principalmente fora do estado. Mas que será apenas uma questão de tempo até te encontrarem. Saulo, eles sabem o nome de tua mãe, sabem que é tua namorada e conhecem teu melhor amigo... eles vieram a mim através deste elemento porque sabem que eu faria a ameaça deles chegar até você.”
Sentou e ficou pensativo. Apenas alguns minutos.
“Deixou alguma indicação de onde possa encontrá-lo?”
“Um hotel no bairro Tabuleta.”
Respirou fundo.
“Pode me dizer os detalhes.”
“O que pretende fazer?”
“O que acha?”
“Não vai ao encontro dele, vai!? É gente da pesada, Saulo, são traficantes, matadores. Estão no teu encalço. Vai ao encontro dele?!”
“Certamente.”
Estacionou a dois quarteirões de distância do pequeno hotel. Fez o trajeto a pé, não sem antes checar a munição da arma. Enfiou a pistola no cós da calça e andou apressadamente.
O porteiro parecia meio sonolento ao atendê-lo. Um estabelecimento mixuruca, por sinal.
“Procuro um homem chamado Ernesto. Está no 101. Pode chamar para mim?”
Não havia interfone. O empregado subiu os lances da escada com a maior preguiça. Saulo ficou em guarda, fingindo olhar um jornal de dois dias atrás. Minutos depois o porteiro retornou com a informação de que deveria esperar um pouco mais. Seu Ernesto estava descendo.
Pareceu amável, na primeira impressão. Mas não gosta de se deixar levar por impressões iniciais.
“Quem é o senhor e por que procurou meu amigo?”
O homem demonstrou espanto com a sua indagação.
“Por que não deveria procurar? Gostaria de falar com o senhor, mas não conseguimos contato inicialmente. Então apelamos para seu amigo Jorge; amigo de infância, não é mesmo?”
“Quem são seus amigos, o que vocês querem de mim?”
Falava mansamente. Não se deixou em momento algum trair pela apreensão.
“Você sabe muito bem. Nós viemos para matá-lo.”
“Por que me avisar, então?”
“Por uma razão muito simples. Porque você é um homem muito rico, tem uma herança gigantesca, sua família detém o controle sobre exploração e exportação de pedras preciosas. Por que não haveria de avisá-lo?”
Saulo entendeu que estava diante de um chantagista. Um pistoleiro, seguramente, mas um chantagista, que preferia extorquir as suas vítimas. Não se sabe se o pagamento era salvo conduto temporário ou permanente.
“O senhor quer dinheiro, é isso?”
Sorriu. Saulo percebeu que ele tinha um dente de ouro.
“Agora estamos falando a mesma linguagem.”
Decidiu fazer o jogo do bandido.
“De quanto precisa?”
“Podemos começar com o dobro. Eu ganharia 50 mil reais pela sua eliminação.”
“Quer dizer que 100 mil resolve a parada?”, questionou Saulo, pensando na mãe, em Samara, em Jorge. Na segurança das pessoas que lhe eram caras. Se pagasse, poderia ganhar algum tempo, ampliar o nível de proteção em torno deles. Isso, é claro, se o pistoleiro à sua frente não tivesse, ainda, avisando os comparsas.
“Quem mais sabe que o senhor me encontrou em Teresina?”
“Eu e um amigo, um camarada de confiança. Está comigo em qualquer empreitada. Já ouviu falar naquela música de Roberto Carlos, ‘você, meu amigo de fé, meu irmão, camarada...’? Pois estou falando desse cara. Confio inteiramente nele. O senhor me paga, tiro a minha parte, dou a parte dele e estamos conversados. Ficará tranquilo por mais alguns anos, até que os meus contratantes contratem outros profissionais. Quero apenas lhe dizer uma coisa – essa gente não desiste. O senhor deveria se mudar do Piauí já que chegamos tão perto.”
“Sabe que poderia prendê-lo aqui e agora, não sabe?”
“Claro que sei. Mas sei também que o senhor não faria isso porque não tem nada a ganhar. Meu camarada está nos observando neste momento, o senhor não sabe onde ele está, não conhece a sua fisionomia, mas ele conhece o senhor e sabe de tudo o que é necessário para cumprir a empreitada. Depende de como ficaremos nesse entendimento.”
Calculou prós e contras da situação. Neste meio tempo, o empregado da recepção ofereceu-lhes um cafezinho. Decidiu não aceitar. Já vira companheiros pegarem no sono em situações de alto risco por conta de cafezinhos “batizados”.
“Obrigado.”
Ernesto aceitou. Tomou o café lentamente. Tinha todo o tempo do mundo e estava no controle da situação.
“Tudo bem. Como faço para lhe entregar o dinheiro?”
O homem repassou as coordenadas. Ele ouviu atentamente. Nunca imaginou que teria de negociar com bandidos. Mas, naquele momento, era o jeito. Não tinha outra alternativa. Primeiro, precisava cumprir a sua missão, encontrar o assassino de seu pai. Não podia se preocupar com qualquer outra coisa. Em seguida, partiria no encalço daqueles traficantes desgraçados que ousavam ameaçá-lo e aos seus.
“Garanto que não terá mais notícias minhas. Quanto aos meus contratantes, é o que lhe disse antes, o senhor está apenas ganhando tempo e ajudando um pobre homem a mudar de vida. Sabe? Cansei desta profissão maldita, tirar a vida das pessoas, matar pais e mães de família. Pode crer, não é coisa digna de um ser humano com a minha estatura. Faço apenas porque não sei fazer outra coisa.”
“Poupe-me do seu falso moralismo. Homens como você não tem dignidade alguma.”
///
CAPÍTULO 6
Noite. Praça Da Costa e Silva, no chamado centro velho de Teresina.
Havia pouca gente na praça naquela hora. Apenas alguns vagabundos e maconheiros.
Um homem caminha tranquilamente entre eles.
Parece fazer parte do cenário. Não se importa quando um dos elementos noturnos lhe pede um cigarro.
Diz apenas que não tem. Olha para o indivíduo visivelmente drogado. O viciado sai caminhando apressadamente. Sente medo daquele olhar.
O sujeito para no meio da praça. Parece esperar alguém.
Tem aparência de índio, o olhar mal encarado, nenhum daqueles farrapos humanos se dispõe em pagar para ver. Uma pessoa normal seria rapidamente abordada, eles lhes tomariam os pertences e sairiam em disparada. Poderiam até espancar, mas aquele homem tinha alguma coisa de violenta demais. Não era para se mexer com ele.
Ernesto ficou parado ao lado de um poste. Acima dele, a lâmpada apagada. Em toda a praça, a escuridão.
O lugar é evitado pelos trabalhadores e estudantes que preferem passar ao largo mas nunca por dentro.
Do lado de fora, por todo o dia, há intensa movimentação por causa de paradas de ônibus ali existentes.
Mas naquela hora somente os seres marginalizados – viciados em drogas.
Na avenida Maranhão, os carros passam apressados, evitam parar no sinal vermelho que existe no cruzamento com a avenida José dos Santos e Silva.
Naquela hora da noite, pouco depois das dez, é perigoso. A abordagem pode se transformar num assalto, que pode se transformar em morte.
A alguns metros dali, descendo por trás do prédio da Cepisa, Saulo identifica o cúmplice de Ernesto.
O homem está na espreita, preparado para alguma eventualidade.
Os dois apostam alto, apostam a própria vida – contra ele, Saulo, e também contra a organização para a qual trabalham. Nunca mais teriam sossego.
O policial está disposto a lhes dar o descanso merecido.
O sentinela não percebe a aproximação de Saulo. O policial anda rápido e sem fazer barulho, anos de treinamento. Está vestindo roupas de cor preta. Surpreende-o por trás, atraca-se violentamente ao seu pescoço com a intenção de quebrá-lo.
Os dois caem. O bandido se debate em desespero. Falta-lhe oxigênio, os sentidos entorpecem. Ele sabe que se desmaiar não terá mais nenhuma chance de tornar à consciência.
Saulo não lhe dá chance. Aperta cada vez mais. O estrangulamento foi aprendido em operações na selva ainda nos tempos de militar. Cada passo foi dado no sentido de enfrentar um bandido especificamente. Não aquele, mas Gargamel, o matador de seu pai, o homem sem face que se transformara no pesadelo de toda a sua vida.
O sujeito para de se debater. Saulo respira profundamente. Parece cansado pelo esforço tremendo. O sujeito era muito forte e estava armado até os dentes. Recolhe a pistola e o revólver e nota que o sujeito tem ainda uma faca consigo.
Caminha decidido em direção a Ernesto. Os passos suaves que em nada condizem com seu tipo físico avantajado – anos de academia. Nada inútil, mas sempre uma preparação constante.
“Estou aqui”, aparece, da escuridão, arma em punho.
O homem recua. “O que faz com esta arma? Onde está o dinheiro?”
“Acha mesmo que te daria dinheiro, seu imbecil? Pensa que está lidando com um vagabundo? Não sou como tu...”
Dispara duas vezes, à queima roupa.
Os tiros ecoam na escuridão da noite.
Drogados saem de suas tocas e correm em todas as direções.
De repente, a praça, que parecia deserta, se torna superpovoada por aqueles elementos notívagos, homens e mulheres, todos parecendo muito jovens. Estão atarantados.
Ernesto cai e ainda tem tempo para dizer: “Outros virão depois de mim.”
Saulo responde: “Eu sei.”
O traficante morre.
O policial trata de sair dali o mais rapidamente possível.
As roupas ajudam a camuflá-lo. A poucos metros dali, uma bicicleta.
Ele monta sobre ela e sai pedalando em direção à Prainha. Mais à frente, uma Pampa está estacionada na margem do rio Parnaíba.
Ele desmonta e guarda a bicicleta na carroceria. Em seguida, caminha para bem perto da margem, apanha uma pedra grande e amarra a pistola com a qual executara Ernesto. Joga-a na água. A arma submerge em meio a borbulhas.
No dia seguinte, Jorge entra angustiado no quarto do amigo. Eram pouco mais de sete da manhã.
“O que houve?”, pergunta Saulo, assustado.
“Isso.”
Joga o jornal sobre a cama.
Na primeira página, a foto de Ernesto, extraída de sua carteira de identidade. Aparece também a foto de outro homem.
Ao lado, a foto da cena do crime, os dois corpos.
A impresa trata como acerto de contas entre traficantes.
Estranha apenas a origem de uma das vítimas: peruano.
Por que alguém viera de tão longe para traficar drogas em Teresina?
A polícia afirma que está no encalço do matador e já tem até um suspeito.
Trata-se de elemento que chefia o tráfico de drogas na região norte da cidade.
A identidade será omitida por enquanto para não prejudicar as investigações.
“O que tem a me dizer?”
“Não sei do que está falando! O que tenho a ver com isso?!”
“Tu sabe sim do que estou falando. Esse cara estava bem vivo ontem. Foi ele quem me procurou na escola. Foi ele quem fez ameaças contra tua família e teus amigos. Foi com ele que tu se encontrou de tarde. Você o matou, Saulo!?”
Sentou-se na cama.
“Puta que pariu. É foda acordar desse jeito. Acho que você está perturbado, Jorge, e está me perturbando. Por que diabos eu mataria um cara desses? Sou um policial, está lembrado? Combato criminosos...”
Jorge vai até a janela e a escancara. O sol entra retumbante e cega momentaneamente os dois.
“Você está se transformando num pesadelo. Por quê? Pensa que isso vai trazer teu pai de volta?”
Levanta-se abruptamente da cama. Avança sobre o amigo. Agarra-o pela gola da camisa e o suspende com força.
“Não fale assim comigo, seu bosta, respeite a memória do meu pai.”
Jorge o encara em silêncio. O olhar está cheio de medo.
Saulo percebe que foi longe demais. Solta-o, pede desculpas. Jorge olha para o amigo e sai sem dizer nenhuma palavra. Sente que Saulo está cada vez mais perturbado.
Ava percebe que Jorge não está bem. “O que houve?”, pergunta. Olha para o quarto do filho. Jorge continua andando e sai da casa. Ela vai até Saulo. “O que houve com Jorge?”
Percebe o jornal em cima da cama. A manchete. As fotos dos homens mortos.
“Mundo cão”, comenta. “Tudo isso no centro da cidade!”
Só então Saulo se dá conta de que está nu.
///
CAPÍTULO 7
No campus da Universidade Federal do Piauí, tanto tempo depois, relembra passagem importante de sua adolescência – a preparação intelectual, determinante para seu projeto de vida, que também está se transformando em sua perdição.
A solidão o perturba profundamente, coisa que não acontecia antes.
Ele agora parece sentir a falta de Samara, de Jorge, de seus amigos de infância, dos colegas de escola e de faculdade.
Na época, estava sempre distante, próximo apenas de alguns, mas isolado da maioria – por vontade própria.
Ele olha e percebe que Samara está caminhando em sua direção. Ela ainda não o viu mas ele sabe que ela sempre faz aquele caminho e por isso se posiciona bem em sua passagem. Quer fazer-lhe uma surpresa.
De repente, um rapaz surge em meio aos demais e anda de encontro a ela. Os dois se abraçam, trocam beijinhos nas faces.
Saulo fica observando a cena e sente estremecer por dentro. Não tem ideia de que sentimento seja aquele, mas suspeita de que seja ciúme, coisa que ele nunca havia sentido antes, quando Samara parecia existir apenas para ele, em redor do seu mundo.
Os dois caminham abraçados, talvez sejam amigos, quem sabe algo mais.
Ele não suporta aquela situação. Vai, decidido, em direção à mulher que ama, sua namorada, por quem brigou muito na adolescência.
Relembra a passagem em que esmurrou um sujeito que estava olhando demais para a garota numa festa da faculdade.
Houve muitas cenas assim. Ele sabia do amor que sentia por Samara, mas nunca tinha percebido ciúme nesta relação. Ciúme está misturado com o medo em perder a pessoa amada.
“Olá, Samara.”
Ela fica assustada em vê-lo. Sabe do que ele é capaz. Apresenta Sérgio.
“Meu colega. Estuda medicina.”
“... E você, sociologia”, ele emenda. “Pagam alguma disciplina juntos? Parecem muito amigos.”
O jovem fica perturbado com a situação. “Algum problema?”, questiona.
“Não, Sérgio, nada demais”, ela fala. “Este é Saulo, meu... namorado.”
Hesita alguns instantes para pronunciar a palavra “namorado”. Aquilo deixa Saulo mais perturbado ainda.
“Tem certeza, Samara?”, Sérgio insiste.
“Claro que tem, seu verme, não percebe que está sendo demais?”, afirma Saulo, de forma agressiva. “Vai procurar tua turma antes que eu te mostre o caminho.”
Sérgio o encara desafiadoramente. Samara intervém. A coisa pode se complicar.
“Tudo bem, Sérgio, depois falo contigo.”
Sérgio sai mas ainda diz, entredentes: “Brutamontes.”
“Está andando com esse tipo de cara agora?”
Ela caminha em direção ao carro. “Nunca andei com nenhum tipo de cara. Sérgio é meu amigo.”
“Amigo?! Quantas vezes ele foi em sua casa, quem de sua família o conhece, por que eu só o conheci agora, quando te peguei desprevenida com ele? Que amigo é esse?!”
“É força de expressão. Colega de universidade. Estuda medicina, eu o conheci no restaurante universitário...”
O policial interrompe a namorada: “... e então ele ficou de conversinha contigo, te cantando talvez...”
Chega próximo ao carro, aperta o controle para destravar as portas. Volta para Saulo e pergunta: “Tem certeza de que você está bem?”
“E por que não deveria estar. Venho para a faculdade fazer uma surpresa para minha namorada e a encontro abraçada com um sujeito que nunca vi mais gordo. Como acha que eu deveria me sentir?”
Ela o encara, decidida. “Eu ia mesmo te procurar. Sabe, naquela madrugada em que agrediu meu pai, depois passou um tempo sumido e reaparece agora... Sinto ter que lhe dizer. Não quero mais nada contigo. Não posso namorar com um homem que usa de sua força física e de suas técnicas de lutas para agredir um cidadão pacato, um pai de família, em sua própria residência. E ainda mais quando este cidadão é pai de sua namorada. Ia te ligar e pedir para nunca mais me procurar.”
Entra no carro, liga-o e finaliza, novamente o encarando: “E o Sérgio está dando, sim, em cima de mim. E saiba que estou amolecendo bastante em relação a ele...”
Parte. Saulo fica parado, sem saber o que fazer. Sérgio está olhando a alguns metros dali. Dá com a mão para Samara. Ela para o carro, ele entra, os dois saem.
O policial sente o chão faltar sob seus pés.
///
CAPÍTULO 8
Decide partir em busca do matador. Estava adiando demais aquele encontro, agora que sabia onde poderia encontrá-lo. Ele está numa cidadezinha chamada Carnaubais, nos cafundós do Rio Grande do Norte. Está situada a 240 km da capital.
Tudo o que sabe sobre a cidade é que foi emancipada em 1963 e que em 1974 enfrentou uma grande enchente. A área urbana foi totalmente devastada pela fúria das águas.
Centenas de mortos. Toda a população ficou desabrigada. A cidade foi reconstruída com ajuda dos governos estadual e federal. Um povo valente, pelo que pôde perceber.
Pouco mais de 9 mil habitantes. Uma cidade pequena. O comércio é incipiente. Vale-se da produção local e qualquer produto de melhor qualidade tem que ser adquirido na capital, Natal.
Numa casinha, no subúrbio mais distante, o homem parece inquieto. Sabe que a qualquer momento receberá a visita de alguma autoridade. Afinal, alguém com a sua atividade não passa despercebido por muito tempo.
Sabe que tem de mudar de lugar. Tem que sair dali o quanto antes. A pressão é muito grande. Sempre olha as notícias de jornais que relatam os seus crimes.
Vive de matar pessoas. Tem tirado a vida de muita gente ao longo do tempo. Não escolhe cara, quem manda é o dinheiro.
O contratante paga, ele obedece. Gosta de olhar demoradamente para a foto da sua vítima. Os olhos lhe dizem algo que costuma decifrar de forma bem pessoal.
Vive em Carnaubais há mais tempo do que de hábito. Geralmente não fica mais do que alguns meses numa mesma cidade. Geralmente muda de cidade e também de estado. Mas também geralmente gosta de permanecer no Nordeste.
Já esteve na região sudeste do país. Morou em São Paulo por alguns anos. Mas por lá a coisa é bem diferente. Os matadores não têm honra nenhuma. Mata-se por qualquer besteira.
Ele, não. Mata por dinheiro. Mata por uma motivação forte de quem contrata. Ninguém manda eliminar ninguém se não houver um motivo bem forte. Esta é a sua lógica pessoal.
Em São Paulo as pessoas matam por controle de pontos de venda e consumo de drogas. Para ele, o matador profissional, as drogas são um câncer da humanidade. Matam muito mais gente e rapidamente do que pistoleiros que ganham a vida tirando a vida dos outros.
Na casa, poucos móveis. Uma mesa para as refeições, televisão para as notícias, aqui e ali algum filme de ação. Gosta especialmente dos filmes estrelados por Mel Gibson e Bruce Willys. Tem um DVD que comprou para poder assistir aos filmes dos seus astros preferidos.
A morte sempre ronda. Mas é preciso inspiração para matar. Não se pode fazer de qualquer jeito. Tem apenas uma certeza – todos iremos morrer um dia. Ele apenas antecipa essa data.
O matador sente o peso dos anos. Caminha em direção ao mercado público. Fim de tarde. Vai comprar um fígado bovino para a janta. Adora comer fígado de boi, mas tem que ser pouco depois de abatido.
Em Carnaubais os animais são mortos em abatedouros clandestinos, geralmente no terreiro de alguma fazenda ou sítio. É o que se chama de carne da moite – por duas razões: a primeira porque é vendida sem o conhecimento das autoridades sanitárias, que não têm condições de fazer a fiscalização devido ao modelo da própria economia local; segundo, porque é envolvida em folhas existentes nos derredores logo depois do abate.
Andando pelo centro ele nota uma movimentação estranha. Percebe que tem alguma coisa errada nas pessoas, como se ele pudesse sentir a presença de um elemento estranho ao ambiente da urbe incivilizada. Alguém mais sempre era demais, até porque Carnaubais nunca recebe a presença de turistas, a não ser estudiosos, acadêmicos dos cursos de história ou sociologia, que vêm para fazer trabalhos sobre a tragédia de 1974.
A população demonstrou uma capacidade de resistência e superação muito grande. Mas isso era comum em se tratando da população nordestina. Quem foi que disse que o nordestino é antes de tudo um forte? Pois acertou em cheio, pensa, ao se dirigir ao marchante Aloísio, que o atende como de costume.
“Fígado, seu Joaquim?”
Foi assim que se apresentara ao chegar. Um homem sozinho, sem família, aposentado do governo federal, vivendo apenas deste rendimento e que de vez em quando passava algum tempo fora da cidade. Dizia aos poucos com quem conversava – o marchante, o homem da barbearia, alguns vizinhos – que era para visitar parentes.
Acabara de chegar de mais uma empreitada. Fora até Pernambuco matar um político do interior, um prefeito que estava dando trabalho aos antigos aliados.
Fernando Pinheiro ou simplesmente Dinho era um médico bastante conceituado em seu município, mas não tinha condição nenhuma de se candidatar a prefeito. Foi vereador por dois mandatos e estava desistindo da política.
No entanto, um dia antes de discursar anunciando sua decisão, recebeu a visita de coronel Florêncio Ramos, um elemento notadamente cruel e muito temido na região, que controlava a política local com mão de ferro.
Nenhum gestor municipal era eleito sem o seu consentimento. O médico foi agraciado com a escolha do coronel para ser o prefeito.
Meses depois de empossado, decidiu mudar completamente o perfil da política municipal e lançou uma pesada ofensiva contra o coronelismo. Demitiu todos os assessores contratados por indicação do coronel Florêncio e passou a recrutar aliados entre os antigos adversários.
Foi a gota d’água. O coronel publicou um anúncio no jornal convocando Gargamel, que já lhe prestara vários serviços antes.
Mandou também fazer pichações na cidade com os dizeres:
DINHO PINHEIRO
SÓ PENSA EM DINHEIRO
DINHO PINHEIRO
DISCÍPULO DE JUDAS
PREFEITO DINHO
TRAÍRA DO CORONEL
O pistoleiro se apresentou, porém não foi recebido por Florêncio. O coronel estava na capital passando por um sério tratamento de saúde. O golpe recebido do prefeito Dinho Pinheiro lhe trouxera palpitações. Devido à idade, os filhos o mandaram para Recife.
Na cidadezinha pernambucana, o matador recebeu as instruções de um dos capatazes de Florêncio. O homem a ser eliminado era ninguém menos que o prefeito.
Passou a fotografia do cabra para Joaquim, que a olhou demoradamente procurando, como sempre, decifrar a mensagem em seus olhos.
O olhar de um homem que está para morrer sempre diz muita coisa, mesmo que seja apenas na fotografia, afirma para o capataz. O sujeito fica assustado com a expressão do matador.
O prefeito está jantando com a família e alguns correligionários numa churrascaria da cidade quando recebe a visita de um sujeito que se identifica como seu eleitor. O garçom fala que o camarada está do lado de fora e gostaria de dar uma palavrinha.
Dinho afirma que vai porque sabe que em cidade do interior esse tipo de contato com eleitores não pode ser recusado sob pena de ser chamado de arrogante. Um comentário desse tipo se espalha com fogo em palheiro.
O homem que o espera está do outro lado da rua, numa parte mais escura. A iluminação pública sempre o calcanhar de aquiles de todos os gestores municipais.
“Aqui, seu prefeito.”
Ele atravessa a rua. A mulher o chama e mostra o telefone celular. Ele faz sinal para que espere um instante. Aproxima-se do homem. Estranho nunca tê-lo visto.
“Pois não?!”
“Meu nome é Joaquim”, diz o sujeito, falando baixo. “Estou aqui para lhe trazer um recado do coronel Florêncio.”
Puxa o revólver e dispara secamente. Uma, duas, três vezes. O quarto tiro é na cabeça.
Na churrascaria, gritos. Uma agitação incomum toma conta da pequena cidade. O matador anda calmamente em direção ao fim da rua, num ponto ainda mais escuro.
Ele não tem pressa. Sabe que a polícia não tem condição nenhuma de combatê-lo, quando mais de prendê-lo. Em poucas horas estará bem longe dali. É um profissional, mata com elegância e não para sair correndo logo depois do crime. Os outros que corram atrás dele.
Um sujeito a cavalo o espera no local combinado, um ponto ermo nos limites da área urbana. Diante dele, a estrada de chão segue para a zona da mata.
“Aqui está o pagamento.”
O capataz puxa o revólver e aponta em sua direção mas tudo o que consegue é ouvir dois estampidos e ato contínuo a queimação na boca do estômago. Cai do cavalo com a boca cheia de sangue e vê o seu algoz se aproximar.
“Cadê meu dinheiro, seu filho de uma rapariga?!”
O capataz procura a respiração, agoniado, estremece e fecha os olhos. Está morto.
Monta no cavalo do outro e vai em direção ao lugar onde deixara o carro escondido. Uma localidade rural bem distante, extremando com o município vizinho. Dali pegaria a estrada federal e seguiria de volta para o Rio Grande do Norte. Um dia e meio de viagem para pensar no dinheiro perdido e tentar compreender por que o coronel fizera aquilo com ele. Também podia ser coisa do capataz.
Mas logo afastou a ideia da cabeça. Dificilmente um empregado de Florêncio Ramos faria uma coisa daquelas por iniciativa própria. A não ser que não tivesse amor à vida.
Voltando ao tempo presente, no mercado, paga o fígado e antes de voltar para casa vai até a barbearia do seu Neco. O homem conversa que perde o fôlego.
Está contando para uns espectadores diante do estabelecimento: “Ouvi dizer que por causa desse negócio de Aids vão proibir a gente de trabalhar com navalha. Quero ver quem mexe comigo. Em 40 anos de profissão nunca cortei o rosto de ninguém. Quero ver...” Percebe a aproximação do pistoleiro. “Olá, seu Joaquim, há quanto tempo. Estava de viagem novamente?”
“Sim, estive visitando uns parentes no sul. Alguma novidade por aqui?”
“Não, nenhuma. Quer dizer, não que eu saiba.”
Se Neco não sabia era porque novidade não havia.
Voltou para casa. Andando pela rua de chão batido ficou pensando que a vida traz surpresas desagradáveis. Contratara um crime, tivera que praticar dois. Um deles para defender a própria vida. O coronel devia estar puto da vida com tudo aquilo.
Não havia calçamento na rua porque o bairro era distante do centro. As casas, em sua maioria, eram pobres. Eleitores que moram em lugares como esse não precisam ser convencidos com trabalho. Os políticos os compram com algumas migalhas apenas.
Coronel cachorro, vai me pagar, pensou em voz alta. Um vizinho passava por perto e ouviu. “Algum problema, seu Joaquim?”
Ele pareceu acordar de um transe. “Não. Nada demais. Reclamando da carestia. Os preços deixam a gente agoniado. E o governo ainda tem coragem de dizer que não existe inflação. Tudo pelos olhos da cara desse jeito...”
Entrou na casinha. Os conhecidos na cidade costumam perguntar por que ele não mora num lugar melhor, numa casa melhor. Por que insiste em viver num bairro tão afastado e sem estrutura alguma? Razões que a própria razão desconhece, ele responde, meio filósofo.
Acende a luz e já vai se encaminhando para a cozinha a fim de preparar o fígado recém-adquirido quando se depara com a figura em pé no canto esquerdo de quem entra.
Está desarmado. Não costuma usar armas quando vai às compras. Mas o jovem está prevenido, embora esteja com as mãos livres. A pistola ou o revólver deve estar enfiado no cós da calça. Debaixo da camisa não há volume.
“Você não é Gargamel”, pronuncia baixo. Parece indignado com a descoberta.
“O que está dizendo?! Como entrou em minha casa?!”
“Você não é Gargamel”, repete o jovem. “Quem é você?”
O interrogador parece desolado. Triste em descobrir que andara tanto por nada.
Joaquim vai andando de costas em direção ao armário. Seu revólver está guardado na primeira gaveta.
“Pare onde está. Se der mais um passo detono sua cabeça. Não pense que tenho prazer em matar vagabundo. Mas se for preciso, não hesitarei.”
“Por que não respeita minha idade? Quem é você e o que está fazendo dentro de minha casa?”
Saulo caminha em sua direção e o agarra pela gola da camisa, em seguida o empurra contra a parede. O homem cai derrubando uma cadeira.
“Por que está se passando por ele? Você não é Gargamel.”
Havia folheado os jornais sobre a mesa, especialmente os classificados. Em todos, círculos feitos de caneta em torno de mensagens que citavam Gargamel.
Num deles: CORONEL FLORÊNCIO, PERNAMBUCO, LIGAR URGENTE PARA...
Saulo prossegue: “Você está se passando por Gargamel. Está pegando os contratos dele. Por que está fazendo isso? Sabe que é um risco grande demais.”
“Sou um aposentado do serviço federal. Não sei do que está falando...”
“Sabe sim. É um pistoleiro cretino. Vive de matar, de destruir famílias. E não pense que vai sair impune disso. Mas eu quero entender por que está se passando por Gargamel mesmo sabendo que pode ser encontrado e morto por ele. Está querendo se matar, é isso?”
Joaquim finge tranquilizar-se. “Por que não senta para conversarmos civilizadamente? Por que não me diz seu nome e assim podemos nos entender? Parece saber muita coisa sobre mim...”
O policial o interrompe: “Vai me dizer que não tem nada com isso? Vai me dizer que não se chama Joaquim Fraga, pistoleiro de aluguel, natural de Campo Maior, de onde fugiu em 1969 por ter tirado a vida de sua mulher e do amante dela? Transformou-se num assassino frio, que foi preso em duas oportunidades distintas, em 1975 e 1989. Nas duas, sofreu condenações. E nas duas conseguiu fugir com ajuda de carcereiros a quem subornou com produto dos seus crimes. É um homem rico?”
Joaquim fica perplexo com tudo aquilo que está sendo dito por Saulo.
“Como sabe tanto sobre mim?”
“Levante-se. Sente-se aqui.”
Saulo o seguro pelo braço, tentando ajudá-lo a se erguer, ele o afasta e diz que não precisa de ajuda. “Não sou nenhum vovô...”
“É verdade, mas já está passado dos anos. Já matou políticos, juízes, promotores e até padres. Um cangaceiro da pior estirpe. Aliás, todos vocês, matadores profissionais, pertencem à escória da humanidade. Alguém deveria prendê-los todos de uma vez e até aqueles que ainda estão por nascer e colocá-los num caldeirão fervente.”
“O que quer saber?”
“Por que está se passando por Gargamel? Por que está pegando os contratos dele? Mais: onde posso encontrá-lo?”
Batidas frenéticas na porta. Um vizinho preocupado.
Saulo vai para detrás da porta. Faz sinal para o matador abri-la. Joaquim se levanta e cumpre a ordem.
Uma senhora de meia idade entrega um prato de sopa para Joaquim. “Trouxe para o senhor.” É uma viúva que mora ao lado. A mulher gosta de agradá-lo com esse tipo de coisa. Talvez o esteja cortejando na tentativa de fugir da solidão. Na hora certa ele não vai dispensá-lo. De fato, era também um solitário. “Obrigado, dona Graça.” Ela se despede decepcionada. Esperava um convite para entrar.
Joaquim fecha a porta e coloca o prato de sopa quente em cima da mesa.
“Pode comer enquanto conversamos”, afirma Saulo.
“Não. Muito obrigado. Comprei um fígado para o jantar.”
“Deveria ter dito muito obrigado para a mulher. Sua amiga? Ela sabe que você é um assassino covarde?”
Saulo tinha ódio verdadeiro aos matadores de aluguel. Muitos já haviam tombado mediante sua ação como policial. Nunca contou conversa com esse tipo de gente. Inquérito não vale a pena. Haverá sempre um advogado disposto a defender o bandido e encontrará brechas na lei para colocá-lo em liberdade. Novamente nas ruas, novamente matando. Por que perder tempo com essa ralé?
“Vai me matar?”
“Por que interessa saber?”
“É a minha vida...”
“E quanto às vidas que tirou? Avisou às suas vítimas o que pretendia fazer?”
Silêncio. Joaquim baixou a cabeça. Amaldiçoou o instante em que havia colocado o revólver na gaveta para ir ao mercado. Deveria tê-lo levado na baínha atada a perna. Mas de repente lembrou-se de que tinha uma pequena lâmina oculta no salto de sua bota. Tinha que dar um jeito de se abaixar e então estaria novamente por cima. O fedelho não perdia por esperar.
“O que diriam as pessoas simples deste lugar se soubessem que convivem com um matador cretino? Um homem que rouba vidas e também a identidade dos outros?”
“O que tem com Gargamel? Por que não posso me passar por ele?”
“Gargamel é minha presa e você me fez perder tempo fingindo-se. Vim de muito longe em busca de um bandido graúdo e encontro um bosta como você.”
“Não me chame de bosta, seu viado!”
Saulo avançou contra ele e deu-lhe um murro na cara. Joaquim caiu, mas antes que pudesse dobrar-se para tentar alcançar o pequeno punhal foi levantado pelos cabelos e ganhou outro soco ainda mais potente. Sentiu a vista turva e o sangue quente escorrer-lhe dos lábios cortados pela força da agressão.
O policial ainda deu-lhe um chute nas costelas e outro na cabeça antes de se virar para sair. Enquanto andava, dizia: “Não sou um homem justo com assassinos. Mas vou te dar uma chance de mudar de vida. Vá-se embora de Carnaubais até o amanhecer do dia, caso contrário a polícia amanhecerá em sua porta. Bandidos não merecem esse tipo de tratamento, mas digamos que faço isso porque não é quem eu pensava que fosse.”
Joaquim conseguiu despreender o punhal e o arremessou com força contra as costas de Saulo. No último instante, o policial percebeu o deslocamento do ar causado pelo objeto pérfuro e cortante, rodopiou e abaixou-se. A lâmina ainda o atingiu de raspão na altura do ombro. Ele sacou a pistola sete meia cinco com silenciador e desferiu dois tiros certeiros contra Joaquim. Um dos disparos o atingiu em cheio no coração. O bandido estava morto antes mesmo de tocar o chão.
Saulo abriu a mochila e de dentro retirou alguns jornais antigos que contavam histórias de crimes praticados pelo bandido morto e de suas prisões e condenações. Colocou-os sobre a mesa e partiu.
Quando alguém o encontrasse saberia que fora em vida um elemento da pior espécie. Certamente fora merecedor da morte que tivera.
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CAPÍTULO 9
Naquela manhã chegou bem cedo à superintendência da Polícia Federal. Estava em débito com a instituição devido a suas ausências prolongadas. Os superiores estavam reclamando de seus constantes desaparecimentos e não coneguiam encontrar nenhuma investigação que justificasse.
O superintendente mandou chamá-lo em sua sala. Queria falar com ele sobre a situação. Precisavam encontrar uma solução, caso contrário seria obrigado a mandar instaurar um procedimento investigatório contra ele.
“Soube que foi ao Rio de Janeiro”, comentou o chefe, antes mesmo de oferecer-lhe assento.
“Sim. Estive no Rio. Aproveitei uma carona.”
“Posso saber por que motivo foi ao Rio?”
“Fui numa sexta-feira. Voltei no sábado. Não houve prejuízo ao trabalho.”
“Claro que houve prejuízo. Houve prejuízo, sim. O senhor poderia ter sido escalado para alguma operação no final de semana. Mas ninguém consegue simplesmente encontrá-lo quando quer se esconder da gente. Nisso é muito habilidoso.”
Permaneceu em silêncio. O chefe continuou: “Você tem muitas habilidade, Saulo, no entanto é preciso que entenda: essas habilidades têm que ser usadas em favor da Polícia Federal, que é no momento a sua empregadora. O senhor tem compromisso com o serviço público. Ou então está empregando suas habilidades em situações de ordem particular. Procede?”
Ainda o silêncio. O chefe mantém-se no ataque: “Soube também que o senhor esteve no Rio Grande do Norte. É alguma fixação por lugares cujos nomes iniciam com Rio?...”
Sorriu levemente. “Desculpe, senhor.”
“Não se desculpe. Não sorria também. Estou falando muito sério. Este é um assunto da maior importância. Não posso permitir que um dos meus melhores agentes fique perambulando pelo país como se não tivesse nada a fazer. Preciso que reafirme seu compromisso com a instituição. Preciso que fique conosco e trabalhe contra o crime.”
Levantou-se. Ofereceu-lhe cafezinho. Saulo recusou. “Obrigado.”
“Sente-se”, diz Eduardo Cortez, o superintendente. Em seguida, prosseguiu: “Sei que passou por uma situação de muita dificuldade na sua infância. Tomei conhecimento de que chegou a estar frente a frente com o assassino do seu pai. Mas era apenas uma criança. Tinha oito anos de idade. O que podia ter feito? Deve erguer as mãos para o céu e agradecer por estar vivo, por sua mãe ter sido poupada, alguns desses matadores não poupam nem criança. Matam todo mundo e depois ficam impunes.”
“Nossa obrigação é encontrá-los e puni-los.”
“O que quer dizer com isso?!! Temos encontrado e punido muitos bandidos.”
“O assassino de meu pai está à solta mesmo depois de tanto tempo. Nunca soube que ele foi preso em qualquer tempo ou lugar.”
“Imagino que esteja querendo fazer justiça com as próprias mãos. Está na captura desse elemento? Teve alguma informação que leve a sua captura e a está escondendo de nós? Sabe que não pode fazer isso sozinho, não sabe? Sabe que devemos ser comunicados sobre tudo o que nossos agentes têm conhecimento. Então por que não se abre comigo? Estou lhe oferecendo a minha compreensão. Já poderia tê-lo transferido apenas por causa dos seus deslocamentos constantes sem comunicação com a chefia.”
“Sinto muito, Eduardo, não tenho nada pra te dizer.”
“Tudo bem.”
Levantou-se e não deu seguimento ao diálogo. Passou-lhe uma missão de alta periculosidade.
A inteligência da PF havia encurralado um traficante perigoso na cidade de Parnaíba. Devia seguir com a equipe naquela noite para amanhecer o dia na porta da casa do bandido.
Ele conta com um verdadeiro arsenal em sua casa. Trata-se de uma mansão localizada na estrada para Pedra do Sal. Há homens armados e prontos para reagir.
“Quantos iremos?”
“Doze agentes e dois delegados. É o bastante. Teremos apoio da Polícia Militar e também da Civil. Acho que teremos uns 30 homens envolvidos.”
A viagem foi de carro. Três blazers com homens e munição pesada. Os cerca de 350 km até a cidade litorânea foram percorridos em três horas e meia.
Ao longo do trajeto, as cidades imersas no silêncio da noite e parte da madrugada. Chegaram em Parnaíba por volta das duas horas e se comunicaram com a delegacia local da PF.
Foram informados de que deveriam seguir direto para o local da campana onde já havia outros policiais na espreita. Tudo estava sendo armado de modo que antes do amanhecer um deles tocasse a campainha e quando o portão se abrisse todos os demais invadiriam. Contavam com mandado judicial.
O sujeito se chamava Régis Arvoredo. Era jovem ainda, talvez tivesse uns 35 anos, mas desde cedo trabalhava com tráfico de entorpecentes.
Fora aos grandes centros produtores na Colômbia e Bolívia e fizera compromisso direto com os barões da cocaína. Recebia deles o produto que vinha pela costa até chegar em Parnaíba e Tutóia, no lado maranhense.
Os braços do Delta eram aproveitados como esconderijo para a droga, colocada em barcos de passeio insuspeitos e depois estocada em casebres de pescadores nas ilhotas que formam uma das mais belas paisagens naturais do mundo.
A polícia chegara até ele por conta de uma defecção em seu bando. O traidor o ajudara a montar o esquema e se sentira ferido porque o antigo chefe lhe tomara a mulher.
No depoimento, consta que ele estava em viagem para a Colômbia, em busca de novos contratos, e fez o percurso de ida de avião. Na volta, viajou de navio, trazendo a droga consigo, em disfarce, como se fossem roupas e perfumaria.
Foram quatro meses entre a ida e a volta. Quando chegou em Parnaíba, a mulher estava diferente. Não quis fazer sexo com ele. Disse que estava se sentindo doente.
Foi dormir. Estava cansado. Porém notou que ela arrumou-se nervosamente e saiu de carro. Mesmo esgotado decidiu segui-la.
A mulher estacionou na praça da Graça e entrou em outro carro. Teve condições de reconhecer Arvoredo.
Os dois foram para um motel na saída para Buriti dos Lopes. Malditos. Estavam fodendo enquanto ele estava arriscando a vida para transportar coca da melhor qualidade para engordar exatamente os negócios de Arvoredo.
Pensou em acabar com a folia na base da bala. Mas entendeu que isso não seria possível. Seria morto como um animal se fizesse isso. O crime não perdoa.
Régis Arvoredo era casado com uma médica teresinense. Era louco pela esposa e estava saindo com sua mulher apenas porque era um safado. Não sabia resistir a um rabo de saia, o desgraçado, e comia até mesmo as mulheres de seus amigos e empregados.
Não perdeu tempo com planejamento. Chegou em casa, tomou um banho gelado, esperou a mulher retornar e meteu-lhe uma bala na cabeça sem qualquer diálogo prévio. Em seguida, ligou para a polícia e disse que tinha muita coisa para dizer sobre o tráfico de drogas na região litorânea.
Saulo desceu da blazer e perguntou quem estava no comando. Um colega apontou o delegado pançudo empenhado em derrubar um xícara grande de café. Soprava o líquido fumegante e ficava irritado ao notar que ainda estava quente.
“Tudo bem por aqui, delegado?”
“Tudo bem. Faltam algumas horas para a ação. Está preparado?”
“Totalmente.”
As horas se passaram lentamente. Por volta das cinco e meia da matina um agente se encaminhou ao portão principal. Policiais militares cercaram todo o perímetro da mansão.
Os civis formaram numa segunda linha para fazer resistência estratégica em caso de artilharia pesada. Os federais se organizaram na parte frontal do imóvel.
O agente tocou a campainha. O barulho ecoou por vários segundos devido principalmente ao silência que reinava naquele momento.
Um sujeito sonolento veio abrir. Estava armado, mas trazia o rifle dependurado no pescoço. “Que porra é essa?”
“O senhor queira por favor jogar sua arma no chão e levantar os braços. Somos da Polícia Federal e o senhor está preso.”
O homem ficou espantado e não teve condição de reagir.
Os federais adentraram o recinto. Os jardins foram ocupados rapidamente. A porta da casa estava trancada, mas um sujeito que parecia ser o jardineiro não colocou resistência para abri-la. “Seu patrão está em casa?”, perguntou o delegado. “Sim, senhor, ele está.”
Régis Arvoredo disparou alguns tiros antes de ser algemado. Estava sem sono, a mulher gritando ao seu lado, crianças chorando em quartos próximos. “Cuidado com meus filhos, seus desgraçados”, ele gritou.
“Onde está a droga, seu maldito?”
“Que droga?!! Não tem droga nenhuma.”
Arvoredo não mantinha vida social em Parnaíba. Raramente era visto na cidade.
Geralmente viajava para Fortaleza ou São Paulo. Andava sempre em jatinhos particulares. Apresentava-se como empresário, porém ninguém conhecia nenhuma empresa de sua propriedade.
Façanha, o delegado, determinou que todos que estavam na casa fossem levados para a delegacia e autuados na forma da lei. Arvoredo deveria permanecer na cadeia pelo menos até o seu retorno.
“Sei que algum advogado filho da puta vai aparecer para soltá-lo. Mas enquanto isso não acontece deixem-no guardado para quando eu voltar. Quero ter uma conversinha com ele.”
Passou apressado por Saulo. “Você, vem comigo, e vocês também.” Três agentes federais o seguiram. Entraram num carro sem identificação e partiram para mais adiante por uma estrada de chão.
O trajeto parecia uma cratera lunar. A caminhonete saltava entre depressões e passava por pequenas veredas que talvez nunca antes tivessem sido devassadas por veículos de quatro rodas.
“O lugar é ali.”
Apontou uma casinha de palha no meio de lugar nenhum.
“É ali que o famigerado esconde parte da droga que essa turma desgraçada consome. Vamos pra cima deles sem pena”, ordenou.
Saulo avançou e deu ordem de prisão a quem estivesse no interior do casebre. O dia estava amanhecendo. Os primeiros raios de sol despontavam no horizonte.
De dentro, dois tiros foram disparados. Os homens não se entregariam tão facilmente.
Seguiu-se um tiroteio intenso. Os policiais revidaram. Os marginais também tinham muito poder de fogo.
Um dos agentes perguntou a Façanha se não era melhor pedir reforço. Ele disse que não. “Vamos dar conta desses infelizes nós mesmos. Esperemos apenas que eles esgotem a própria munição. Ninguém virá em socorro deles. Pelo menos, assim espero.”
Menos de uma hora depois os elementos jogaram as armas e saíram de braços para cima. Dentro da choupana miserável havia aproximadamente 50 quilos de cocaína e dois homens mortos. Entre os policiais, um ferido: Saulo.
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CAPÍTULO 10
Ser ferido em ação era tudo que Saulo podia querer naquele momento. Estava precisando desesperadamente de um tempo para si mesmo, para sua própria vida, vez que dedicada praticamente toda a sua existência a perseguir o homem que matou seu pai, desde a preparação na infância e adolescência, até a escolha de uma carreira policial. Tudo se encaminhava sempre para aquele momento distante dos seus primeiros anos, quando, de uma hora para outra, lhe foi roubada a pessoa mais importante de sua vida.
Fora longe demais com tudo aquilo. Tinha consciência disso. Podia facilmente ser confundido com o próprio bandido. Ele, um policial federal, um jovem criado segundo as melhores condições da época. Sempre estudando em excelentes colégios, com curso de graduação feito na universidade pública, ao contrário de muitos, que optaram pela facilidade do acesso ao ensino superior propiciado pelas faculdades particulares. Não é sem razão que muitas estão recebendo notas reprovativas do Ministério da Educação. Estão colocando nas ruas graduados sem nenhuma capacidade, aprovados na base da menor exigência, embora se possa dizer, acerca delas, que possuem uma estrutura. Professores, laboratórios, materiais de qualidade inquestionável.
Precisa urgentemente começar a pensar em sua vida amorosa, em seus amigos, em estabelecer um divisor de águas. Não pensa, é claro, em desistir da perseguidor ao assassino conhecido apenas como Gargamel. Pelo contrário. Mas de repente a sua própria vida está lhe escapando por entre os dedos. Na relação com Samara, na amizade com Jorge. Seu melhor amigo, diga-se de passagem. Melhor dizendo: seu único amigo. Jorge foi o único que restou depois de toda a tempestade que foi a sua infância e adolescência, sempre brigando e espancando quem se metesse em seu caminho.
Como naquela tarde em que ainda eram apenas garotos e foram para uma excursão em Piracuruca, onde está o Parque Nacional de Sete Cidades. O colégio particular em que estudavam o ginásio (ensino fundamental maior da época) os levou para o passeio. Pretendiam associar o conhecimento teórico passado em sala de aula com a contemplação da natureza ao vivo. Assim, os estudantes podiam aprender melhor sobre os assuntos que lhes eram repassados. Um dos meninos do grupo, que estudava em outra sala de aula, resolveu meter-se a engraçadinho com Jorge, empurrando-o de cima de uma pedra. Tudo aconteceu por causa de uma garota, a irmã do outro garoto, de quem Jorge estava se aproximando bastante. O menino esperou um pequeno descuido dos professores e do próprio Jorge e deu-lhe um empurrão violento de uma altura de mais de três metros. Por pouco Jorge não quebra a perna, mesmo assim ficou bastante lesionado.
Saulo o perseguiu por entre as rochas e ao alcançá-lo aplicou-lhe uma violenta surra. O menino ainda tentou reagir, fazendo-se de valente. Apanhou uma pedra e a jogou contra Saulo, que avançou rapidamente e desferiu-lhe um murro no queixo, derrubando-o. Ao levantar-se, o outro pegou um galho e partiu contra o oponente, no entanto Saulo, mesmo naquela idade, já estava maturado em enfrentamentos físicos. Desarmou novamente o rival e bateu-lhe na altura do estômago. O menino se dobrou com lágrimas nos olhos e gritou alto tentando chamar atenção para aquele local ermo no meio dos rochedos seculares. De nada adiantou. Saulo esperou que ele caísse e aplicou-lhe alguns chutes, apenas um dos quais na cabeça, porque sabia das implicações de um golpe naquele lugar. Vira num vídeo adquirido na internet que golpes na cabeça podiam ser fatais ou deixar lesões muito graves. Não queria matar ninguém. Muito menos deixá-lo lesionado seriamente.
Voltou para o grupo como se nada tivesse ocorrido, mas um dos professores responsáveis notou e procurou pelo outro menino, que se chamava Jardel e era da família Benevides, que detinha controle sobre um conglomerado de empresas em vários setores da economia piauiense – eletrodomésticos, empresas de ônibus, frigoríficos e tinham participação até na política. O pai de Jardel era deputado federal e estava preparando o filho para sucedê-lo.
Quem diria?! Um fedelho com aquelas atitudes covardes podia se transformar até, um dia, em governador do estado. Por enquanto era apenas um projeto. Mas quem sabe?! O futuro sempre nos reserva muitas surpresas. O fato é que Saulo e Jorge foram suspensos numa atitude bastante injusta por parte da direção da escola. Mas não se pode esperar outro tipo de procedimentos de certos empresários. Eles protegem sempre o mais forte. Naquele momento, Jardel era mais forte, enquanto que Saulo era apenas o herdeiro menor de um empresário assassinado em situação nunca esclarecida até então.
Seu comportamento, segundo a direção da escola, era digno de pena e isso foi comunicado para sua mãe. Ava, ao receber a notificação, ficou muito triste, mas tinha certeza de que aquele comportamento do filho iria passar quando ele estivesse na fase adolescente ou adulta. Não seria violento para sempre, assim ela imaginava. Quanto a Jorge, a escola mandou para seus pais um comunicado dizendo que ele andava sempre na péssima companhia de Saulo e aquela seria a última advertência depois de tantas já enviadas sobre confusões em que os dois se metiam. Da próxima vez seriam afastados da escola.
***
Tocou a campanha. Jorge veio atender. Estava apreensivo. “E então, como estão as coisas?”, pergunta. “Mais ou menos... preciso falar contigo”, diz Saulo. “Quer entrar?”, nova indagação de Jorge. “Podemos andar um pouco?”
Saíram caminhando pelas ruas do bairro. Faziam exercício enquanto dialogavam.
“Estou preocupado, Jorge.”
“Você, preocupado?! Com o quê, mesmo?!”
“Samara.”
“O que tem Samara?”
“Ela está saindo com um cara.”
“Como assim?!”
“Um cara da faculdade. Um almofadinha estudante de medicina. Acho que está ficando com ele.”
“Você quer dizer: se encontrando com outro?!”
“Sim. Isso mesmo. Se encontrando e transando.”
“Duvido muito.”
“Não duvide. Ela mesma me disse que não quer mais nada comigo. Que eu sou um cara violento demais e que só penso em agredir os outros...”
“Mas também, o que você queria, depois de bater no pai dela?!”
“Ele mereceu, aquele velho escroto.”
“Claro, Saulo, claro... pra ti, todo mundo merece apanhar, todo mundo está em dívida contigo... o mundo inteiro deve se curvar diante de ti e receber umas porradas... estou enganado? Claro que não, você é violento e não tem como negar isso. Sua garota também não tem nenhuma obrigação de conviver com um sujeito assim, se é que me entende.”
Saulo parou e o encarou. Dois jovens passavam numa bicicleta. Os dois manifestaram uma atitude suspeita. Foram até a esquina próxima e ficaram parados alguns instantes.
“Por favor, Jorge...”
“O que foi, cara?! Vai me bater também, de novo? Vai arrebentar meu nariz como fez com o pai de Samara? Está vendo? Você só pensa em agredir os outros. Não consegue controlar essa bestialidade. Daqui a pouco vou descobrir que já até matou alguém, quem sabe?, em nome desse projeto de vingança que nunca vai acabar... ninguém sabe, Saulo, ninguém sabe quem matou teu pai. É um mistério que vai ficar para sempre. Essa história de Gargamel é uma coisa que não existe. Esse cara é um fantasma, não percebe, uma coisa que está te consumindo e te afastando das pessoas. Sei não, mas acho sinceramente que está ficando louco.”
Saulo cerrou os punhos. A qualquer momento podia explodir. Jorge sabia disso e tratou de recuar estrategicamente.
“Está dizendo isso porque sabe que é meu amigo, sabe que não vou...”
“Não vai o quê?!”, Jorge parecia desafiador, mas sempre mantendo uma distância considerável. Já vira o amigo em ação em diversas oportunidades desde a infância. Era um cão de briga. Não podia ser derrotado naquele tempo nem por caras maiores. Imagine agora que era policial e recebera treinamento de luta. Uma máquina mortífera. Baixou o tom de voz e disse: “Não tenho medo de você. Só acho que alguém tem que te dizer o que precisa ouvir.”
Levantou os braços e se aproximou do amigo.
“Tudo bem. Desculpe. Não quis te assustar. É que tenho medo de perder Samara, tenho medo de perder sua amizade.”
Parecia prestes a desabar em prantos. Mas Saulo nunca havia chorado. Pelo menos não diante de outra pessoa.
Continuou: “Sei que esse sentimento de ódio já me consumiu há muito tempo. Não tenho mais nenhuma outra razão para viver. Porém preciso recuperar a minha existência. Preciso reencontrar-me como ser humano, uma pessoa capaz de se relacionar normalmente com a sua namorada, de manter um convívio pacífico com as outras pessoas, sejam ou não da minha idade. Mas você sabe que isso é quase impossível a essa altura do campeonato.”
“O que pretende fazer então?”, indagou Jorge.
“Pretendo insistir em me transformar numa pessoa do bem. Sei que estou perdendo a minha humanidade. Sei que estou me transformando naquela pessoa a quem procuro desde o dia em que meu pai foi morto. Sou um bandido, Jorge, um bandido...”
“O que quer dizer com isso?”
“Isso mesmo que você está ouvindo. Um bandido. Tirei a vida de outras pessoas. Claro que eram todos marginais. Mas eram seres humanos. Não sou o estado, não sou o judiciário para julgar ninguém. Não temos pena de morte em nosso país. Mesmo assim tirei a vida de muita gente.”
Jorge procurou uma calçada próxima, um pouco mais alta, para se sentar. Respirou fundo. Não estava entendendo quase nada do que lhe estava sendo colocado naquele momento. Saulo, um assassino. Era isso mesmo que estava sendo dito pelo próprio?
“Está me dizendo que...?!”
“Sim. Mais cedo ou mais tarde você iria saber por outras pessoas. Talvez pela mídia. Essas coisas deixam rastros. Tenho sido cuidado até agora. Mas a qualquer momento vai explodir. Posso sentir a merda toda sobre minha cabeça. Ninguém é tão agressivo quanto eu sou em tempo integral. Na Federal já estão ligando as coisas...”
“Por favor, Saulo, pare com isso. Está me assustando. Quer dizer que já matou... pessoas?!!”
“Claro que sim. Pessoas. Seres humanos como nós. Como nós, não. Diferentes, porque eram todos maus elementos: traficantes de drogas, estupradores, assassinos profissionais. Um rastro de sangue.”
“Esse ferimento em seu ombro...”
“Isso não. Isso foi em ação legal da Polícia Federal. Mas já tive enfrentamentos muito pesados com elementos do submundo do crime. Estou vivo por obra e graça de Deus e por minha própria agressividade. Já deveria estar morto. Talvez seja isso que estou buscando. A minha própria morte.”
Sentou ao lado do amigo. Jorge levantou-se.
A alguns metros, os dois jovens colocam a bicicleta de lado e caminham decididos em direção aos amigos. Cada um carrega um pequeno canivete de bolso já devidamente armados para a investida.
“É um assalto”, diz um deles, nervosamente, encostando o punhal nas costas de Jorge.
Saulo não percebera a movimentação. Ficou irritado consigo mesmo por não ter interpretado a atitude suspeita dos rapazes quando eles passaram devagar minutos antes e pararam na esquina.
O outro se aproximou de Saulo, que encarou Jorge e disse: “Está vendo?! Depois dizem que procuro confusão. Estou apenas conversando contigo e esses dois deliquentes de merda aparecem do nada para tentar nos fazer mal.”
“Passa a grana, filho de um corno”, afirma o que está mais perto de Saulo. “Vamos logo, senão te furo e te deito aqui mesmo...”
Saulo: “Tem certeza, garoto? Não quer mudar de ideia?”
“Anda logo, seu viado...”
Filho de corno e viado. Era demais para Saulo. Aplicou um chute no meio da pernas do menino. O outro teve tempo de dar uma estocada nas costas de Jorge, que caiu, mas logo Saulo estava em cima dele, tomando-lhe o canivete e aplicando um murro sobre a cabeça. Mesmo com um dos braços enfaixados, dominou rapidamente os dois meninos e jogou os canivetes no esgoto. Um deles saiu correndo, o outro foi agarrado pela gola da camisa e jogado novamente ao chão. Saulo pisou sobre suas costas e sacou a pistola. O adolescente ficou se tremendo todo pensando que iria ser alvejado. “Pelo amor de Deus, não me mate...” Ao contrário disso, Saulo ligou para a delegacia mais próxima, notificou a ocorrência e pediu o envio de uma viatura. Identificou-se como policial federal e disse que estaria esperando ao lado do delinquente.
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CAPÍTULO 11
“O crime organizado está na própria polícia. Não apenas na polícia militar, mas também na civil e na federal. Sabemos de policiais que estão fazendo justiça com as próprias mãos. Precisamos combater isso. Esses caras não podem continuar tendo poder sobre a vida e a morte das pessoas. Chega de coronéis travestidos de assassinos, de chantagistas, não podemos continuar vivendo nesse estado de medo. Chega de policiais federais com cara de anjo e que aproveitam sua condição privilegiada para espalhar um rastro de sangue e morte...”
O discurso estava sendo feito pelo deputado federal Jardel Benevides, que apesar de pertencer a uma família tradicional do estado, havia construído sua carreira política num partido de esquerda, o Partido Humanista. Seu pai fora deputado estadual, federal e senador da República. Fora vice-governador do estado, governador tampão e construíra uma fortuna com base no dinheiro público. Diz-se que empreiteiras contribuíam para sua caixinha de campanha em todos os mandatos que exerceu. Ele detinha um controle muito grande sobre as atividades políticas do estado e mesmo quando estava em mandatos parlamentares conseguia garantir liberação de faturas das empresas de construção civil, que, em troca, contribuíam com sua movimentação eleitoral.
Jardel Benevides era o herdeiro político de Boanerges Benevides, agora aposentado da atividade política, no entanto se mantendo sempre em constante movimentação empresarial. O filho o estava representando na política e muito bem. Fora eleito, inicialmente, como vereador. Depois, deputado estadual. Sempre pela oposição. Estava agora na Câmara Federal. E conseguira construir um excelente nome, sempre atuando em defesa dos direitos humanos. Aparecia agora, faltando pouco mais de um ano para as eleições estaduais, como possível candidato a senador. Mas havia gente na agremiação defendendo que ele fosse candidato a governador.
Na sua chegada a Teresina, procedente de Brasília, naquela sexta-feira, havia muitos jornalistas no aeroporto Petrônio Portella, todos à espera dos senadores e deputados federais para entrevistas que iriam encher as páginas do jornalismo declaratório no final de semana. Jardel era o preferido entre todos porque era sempre solícito aos repórteres, em qualquer situação, e falava sorridente como se no mundo não existisse nenhum problema. Para ele, todos estávamos vivendo em um mar de rosas e não se conseguia entender como é que podia existir um opositor tão conformado. Não fazia críticas ao governo, pelo contrário, tinha sempre uma palavra de consentimento para políticas que eram consideradas condenáveis até pelos seus companheiros de partido. Um partido radical, de oposição brutal, que via defeito em tudo. Mas com Jardel era diferente.
No entanto, agora ele partia com tudo para cima do crime organizado. Havia uma grande mobilização de instituições contra os desmandos praticados pelo grupo liderado pelo coronel Narciso e sua detenção era apenas uma questão de tempo. Ele sabia disso. Agora podia falar contra Narciso com tranquilidade. Havia uma centena de gravações comprometedoras em relação ao coronel. Ele iria para a cadeia e Jardel certamente lucracia politicamente com isso. Estava sabendo aproveitar como poucos aquele momento.
“Não podemos continuar vivendo sob o império do medo. Muitos prefeitos foram assassinados nos últimos anos. Pedimos justiça em nome de suas mulheres, de seus filhos, de suas famílias. O coronel tem que ir para a cadeia. Mas não apenas ele. Também os seus comparsas, os seus capangas, os seus financiadores. O Piauí é maior que essa gente, que esses criminosos. Por isso, estou levando este debate para a comissão de direitos humanos da Câmara Federal. Vamos fazer uma cruzada cívica pelos bandidos de farda. Mas vamos avançar também contra os bandidos nas outras instituições, inclusive federais...”
Saulo sabia perfeitamente a quem ele estava se referindo. Jardel nutria por ele uma grande inimizade desde os tempos da mais tenra adolescência. Eram, aliás, apenas garotos recentemente entrados na puberdade quando se dera o confronto em Sete Cidades. Os dois nunca mais se entenderam e Jardel jurou que um dia ainda iria se desforrar dele. Estava aproveitando agora, na condição de deputado federal, vez que suas palavras não podiam sofrer questionamentos judiciais. É o que se chama de imunidade parlamentar. Para ser processado, precisa-se de autorização do parlamento. Ademais, estava fazendo apenas insinuações, mas que gradativamente aumentariam depois que o bando de Narciso Santos fosse para a cadeia.
Saulo não tinha nada com tudo aquilo. Em duas ou três ocasiões livrara o mundo da presença desagradável de elementos ligados ao grupo do coronel. Mas nunca batera de frente com ele. Sabia por Sun-Tzu que não era possível abrir várias frentes de batalha se o objetivo fosse a vitória. Quem procede assim, está buscando a derrota. Ele tinha um único propósito: encontrar o matador de seu pai e por isso em certa ocasião estivera com o coronel, pedindo-lhe ajuda para encontrar Gargamel. Sabia que Narciso era um matador covarde, que comandava uma espécie de sindicato do crime, com presença nas polícias civil e militar. E que muitos praticavam crimes em seu nome. Mas era uma possibilidade concreta. Ele podia saber onde estava Gargamel. Narciso Santos sorriu e disse que Saulo era muito novo para carregar tanto ódio consigo. Podia fazer alguma coisa por ele se notasse que era um canalha. Mas não naquela situação. “Você é muito jovem. Não está completamente controlado pelo ódio. Deve buscar um outro caminho para você. Esse que está trilhando vai levá-lo fatalmente para o crime. Pode transformá-lo num bandido. Não imagino que seja isso que queira para sua vida. Conheci seu pai. Era um homem de bem que cometeu erros na vida. Não mereceu o destino que teve. Gargamel é um escroque da pior qualidade. Nem mesmo uma pessoa como eu quer conversa com ele. Vá por mim, largue disso e dedique-se à sua carreira. Sua mãe não merece esse destino que está buscando para si e para os seus familiares.”
Foi a única vez em que tiveram uma conversa particular. Na outra vez em que se aproximou do oficial, Saulo estava cumprindo mandado de busca e apreensão contra um escritório mantido pelo coronel no centro de Teresina. Computadores, máquinas de escrever elétricas, pastas com documentos, fotos comprometedoras de autoridades políticas. Não o encontrou pessoalmente. Apenas alguns serviçais que não ofereceram qualquer resistência. Narciso não estava no Piauí. A polícia recebeu informações de que ele estava em São Paulo fazendo um tratamento médico. Tudo conversa fiada. O homem podia estar por ali mesmo, nos arredores do escritório, escondido em algum hotel vagabundo, ou então em algum sítio nas cercanias da capital, protegido por algum empresário corrupto.
“Não podemos pensar que o coronel Narciso Santos é o único culpado de todos esses crimes. Ele tem que ser condenado e preso, mas outros que o seguem também. Os seus patrocinadores. Empresários e políticos corruptos que se amparam nas ações criminosas deste senhor. Aliás, nem diria senhor, mas todos me conhecem, sabem que não usaria palavras ofensivas contra ele nem contra ninguém. Minha luta é contra a corrupção e contra o crime organizado. Deve ser uma luta de todos nós.”
Saulo desligou a tevê e ficou andando em círculos. Estava profundamente irritado com as palavras de Jardel. Pegou as chaves do carro e se preparava para sair. Iria ao encontro dele. Nem que fosse em seu próprio apartamento. Tinha que tirar a limpo essa história de que policiais federais estavam a serviço do crime organizado. Quando já estava saindo, deparou-se na sala com a presença de Samara. Estava conversando com sua mãe.
“Samara?! O que faz aqui?!”
Ela pareceu surpresa em vê-lo.
“Não sabia que você estava aqui. Vim falar com sua mãe.”
“Não sabia? Como assim?! Eu moro aqui. Era natural que me encontrasse. Ou não?”
A mãe intercedeu: “Samara veio nos convidar para sua festa de aniversário, Saulo.”
Ele olhou demoradamente para a ex-namorada.
“Samara tem me evitado nas últimas semanas, mãe, não tenho motivo nenhum para ir ao seu aniversário. Melhor que ela convide um tal de Sérgio, não é mesmo, Samara?”
E saiu.
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CAPÍTULO 12
O deputado Jardel Benevides estava numa churrascaria da zona leste cercado de correligionários e aduladores quando foi encontrado por Saulo. O policial desceu do seu carro particular, um Golf novinho em folha, e caminhou em direção ao parlamentar.
“Discursando para essa gente também, deputado?”, perguntou, antes de qualquer cumprimento.
“Ora, ora, se não é o nosso valente defensor da legalidade...”, ironizou Jardel. “O grande delegado Saulo. Folgo em vê-lo. Por que não se senta para degustar um churrasco conosco?”
Sentou-se e pediu uma dose de uísque.
“Tem certeza de que vai beber, delegado, não está em serviço?”
“Não”, mostrou o braço na tipóia. “Estou licenciado. Ferido em combate. Enfrentando bandidos. Traficantes de drogas, grandes financiadores de campanhas eleitorais.”
O deputado sorriu. “Não conheço nenhum político que tenha sua campanha financiada por traficantes em nosso estado.”
Saulo o encarou. “Tem certeza, deputado?”
Os demais ocupantes da mesa repleta estavam conversando entre si e pararam de repente ao ouvir a insinuação de Saulo. Conheciam muito bem aquele policial. Sua fama era de destemido e muito violento.
O garçom trouxe o uísque. O deputado comentou: “Para mim, bebida alcoólica corta o efeito de qualquer medicamento que se esteja tomando.”
“Deixe que cuido de minha vida. E não se preocupe com a conta do uísque. Quem paga minha bebida sou eu.”
Os seguranças do deputado se aproximaram. Saulo os encarou detidamente. Nas condições em que estava não teria condições de enfrentá-los. No máximo poderia dar cabo de um molenga cínico como Jardel. “Claro, claro, não tenho nenhuma preocupação quanto a isso. Mas por que está aqui, o que pretende comigo?”, disse o parlamentar.
“Apenas tentando entender suas insinuações. Fala do coronel Narciso porque sabe que ele está acuado. Nunca o enfrentou antes. Entendo sua média com a opinião pública. Soube que vai ser candidato a governador. O que não entendo é porque atacar assim a Polícia Federal. Fomos nós que fizemos toda a investigação que vai finalmente esse filho da puta na cadeia. Enquanto isso, você afirma que a Federal está cheia de bandidos da mesma marca de Narciso Santos. Não acha perigoso esse tipo de afirmação sem prova?”
Uma garota muito bonita se aproximou, tirando a atenção do deputado. Jardel se virou totalmente para ela e abraçou com força. Beijou-a no rosto mas denotou que gostaria de tê-la beijado na boca. Os assessores sabiam que tratava-se de mais uma garota de programa com quem Jardel se relacionava costumeiramente. Todos mantinha sigilo sobre o assunto. O deputado era bem casado e gostava de manter as aparências. Na política, esse tipo de coisa é fundamental. Aparências.
Voltou-se novamente para o delegado. “Meu caro Saulo, que tal se conversássemos outra hora? Agora, terei outras ocupações. Quanto ao que disse, tenho dito e ninguém tira. Sou um deputado federal, protegido pela prerrogativa do mandato. Essa garantia é exatamente para poder dizer coisas que pessoas comuns não podem dizer ou não têm coragem para tanto. Passe bem.” Levantou-se e saiu andando apressado em direção à caminhonete estacionada a poucos metros. A garota já se encontrava no interior do veículo.
Saulo pensou que poderia segui-lo e fotografar sua entrada e saída de algum motel para o qual seguramente estaria se dirigindo naquele momento com a bonita garota. Como ele disse mesmo que era o nome dela? Não disse. Então, Saulo perguntou a um dos presentes: “Como é o nome daquela moça que saiu com o doutor Jardel?” A mulher estrou a curiosidade e também o questionou: “Por que quer saber?” Ele disse: “Parece que conheço o pai dela. Será que ela se chama Wanda e é filha do doutor Lucídio?”, ao que a mulher falou: “Não, está enganado. Ela não se chama Wanda e nem é filha do doutor Lucídio. Ela se chama Gorete e não conheço o pai dela. Presta serviços ao deputado.”
Tinha certeza de já tê-la visto em algum lugar.
***
Tarde da noite. Saulo está parado sob uma árvore frondosa em frente à casa de Samara. Sente vontade de vê-la, de abraçá-la, de tê-la de novo ao seu lado. Mas isso está cada vez mais difícil de acontecer devido aos últimos acontecimentos.
Vê um carro dobrar na esquina. Os faróis lhe chamam a atenção. O veículo estaciona diante da casa de sua namorada. Dentro, ela própria e o estudante de medicina Sérgio. Os dois parecem muitos felizes, porque sorriem enquanto ele diz alguma coisa. Deve ser um cara muito engraçado, contador de piadas, coisa que ele, Saulo, nunca seria. Sua alma vivia em constante amargura. Não consegue entender por que depois de tanto tempo ainda cultua esse desejo terrível por encontrar o assassino de seu pai.
Samara parece estar se despedindo. Sérgio se aproxima e a beija. Na boca. Apenas um toque, de leve, mas o suficiente para deixar Saulo muito irado. Ele se aproxima do carro e abre a porta, puxando Sérgio pela gola da camisa e o derrubando no asfalto. “O que é isso?!!”, questiona o estudante. Saulo olha para Samara intensamente sem dizer uma palavra. Ela está assustada. “O que está fazendo, seu louco?!!”
Corre para amparar Sérgio. O jovem se levanta e avança contra Saulo, mas é detido com um soco de direita na face e antes que pudesse se recobrar recebe um chute no estômago, suficiente para levá-lo ao chão. “Desgraçado, deixe-me em paz”, diz Samara, transtornada. Saulo para de repente. Entende que está sendo demais ali. Entende que suas atitudes não o levarão a lugar algum. Não com Samara. Parece acordar de um transe. “Desculpe-me”, diz, baixinho. Olha para a mulher amada e recua, primeiro lentamente, depois apressadamente, até sair em disparada pela rua mal iluminada.
Samara se ajoelha ao lado de Sérgio. “Você está bem?”, pergunta. Ele diz que sim com um aceno de cabeça e indaga: “Não seria melhor se a gente fosse até a polícia? Precisamos fazer alguma coisa contra esse cara...ele está se tornando incontrolável.” Ela diz que não. “Tenho medo de que ele se torne ainda mais violento. Você sabe, ele é policial, delegado federal. Seria aberta uma investigação, poderia resultar em punição e talvez ele se torne ainda mais agressivo.”
Sérgio se levanta novamente e a leva até o portão. Os pais da garota já saem em direção ao casal. Outros moradores da vizinhança também se aproximam. Tinham escutado o barulho da discussão e alguns até presenciaram a agressão contra Sérgio. “Algum assaltante?!” Samara responde que provavelmente, entanto Sérgio o havia colocado para correr. Seu coração está apertado porque ama Saulo com toda a força do seu ser.
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CAPÍTULO 13
Cortez o chama em sua sala na sede da superintendência. Parece irritado ao telefone. Saulo entra tentando aparentar tranquilidade. “Sei que está de licença médica”, começa Cortez. “Mas precisamos conversar. Muito seriamente.”
Coloca alguns recortes de jornal sobre a mesa. “Tenho certeza de que ouviu falar no assassinato de dois elementos há umas semanas no centro de Teresina.” Saulo se lembra muito bem. Ele sabe perfeitamente do que o chefe está falando.
“Ouvi falar muito sobre isso. Os jornais trataram sobre o caso. Os programas policiais também. Mas não tenho detalhes. Não mais do que foi dito pela imprensa.”
“O caso veio parar em nossas mãos. Sabe como é... a polícia civil está sem estrutura, há muitos crimes para serem investigados. Imagino que entende a situação.”
“Claro que entendo. Eles querem nossa ajuda.”
“Não. Eles querem que fiquemos inteiramente responsáveis pelo caso.”
“E o senhor? O que acha?”
“Por mim, tudo bem, temos muita coisa para investigar. Mas esse crime me interessa em particular.”
Saulo continua aparentando tranquilamente. Interiormente está curioso. Até onde vai o conhecimento de Cortez sobre o duplo homicídio daqueles dois bandidos?
“Como assim?”
“Um desses caras era boliviano, chileno, ainda não sei ao certo, mas tenho quase certeza de que ele tinha envolvimento com cartel de drogas aqui da América do Sul. Estava a serviço de alguém e em busca de alguém? Estava trabalhando para implantar algum ponto de distribuição aqui em Teresina? O que um cara desses estava fazendo por aqui?”
“Entendo suas preocupações...”
“Então. Foi por isso que te chamei aqui. Gostaria que assumisse esse caso. Que tomasse de conta dessa investigação.”
“Sabe que não posso assumir imediatamente.”
“Evidente que sim. Precisa ficar bom desse braço. Mas tão logo fique bom, quero que assuma o caso e descubra a razão da presença destes sujeitos por aqui.”
“Combinado”, disse Saulo, e ia retirar-se quando Cortez o chamou novamente: “Espere um pouco, não terminei ainda.”
Sentou-se de novo. O chefe prossegue:
“Tem duas coisas ainda que gostaria de falar contigo. Uma delas é sobre um tal de Sérgio, estudante de medicina da Universidade Federal...”
“O que tem esse cara?”, não consegue disfaçar sua irritação ao ouvir a pronúncia do nome do rival.
“Conheço você faz tempo. Admiro sua determinação. É um jovem rico, poderia viver às custas da empresa de sua família. Mas optou por ser policial e respeito suas razões. Mas não pode, Saulo, de modo algum, agredir pessoas na rua por causa de qualquer dor de cotovelo que seja. Precisa entender que não está acima da lei. É um delegado federal, um homem que tem de se fazer respeitar, de dar o exemplo.”
Ouviu a tudo em silêncio. Cortez manteve o discurso por mais alguns minutos. Quando finalmente terminou, Saulo fez a indagação: “E o outro assunto?”
“Deputado Jardel Benevides.”
“O que tem esse cretino?”
“Recebi reclamações de que você anda importunando ele.”
Rebateu: “Não procede.”
“Muita gente disse ter visto você afrontá-lo numa churrascaria da cidade enquanto ele almoçava com assessores.”
“Não procede”, insiste.
“Peço que tome cuidado. Esse cara pode ser governador do estado. Ficar contra ele pode ser muito ruim politicamente para nós...”
“Principalmente para você.”
“O que disse?!”
“Nada. Eu não disse nada...”
“Você falou alguma coisa entredentes.”
“Você está ouvindo demais, Cortez, eu não falei porra nenhuma. Estou só pegando cagaço, lembra?”
Cortez levantou-se. “Muito bem. Estamos conversados por hoje. Apresente-se para o caso na hora em que tirar esse gesso. O inquérito da civil vai estar em cima de sua mesa. Utilize os meios que achar necessário. Quero a verdade sobre o caso.”
***
Ao chegar em casa, depara-se com Miguel. O pai de Samara está indignado. Conversa com Ava. Certamente sobre ela. A mãe fica espantada ao vê-lo chegar. Conhece o temperamento explosivo do filho.
Saulo beija a mãe e fica parado diante de Miguel. Os dois não se cumprimentam, mas se encaram com uma certa agressividade. “O que está fazendo em minha casa?”, indaga.
Miguel responde objetivamente: “Precisamos conversar, meu rapaz, esta situação não pode continuar como está.”
“Do que está falando?”
“Você mesmo. Não pode continuar fazendo essas coisas.”
Ava olha em silêncio.
“Não estou fazendo coisa nenhuma.”
“Está sim. Está fazendo muitas coisas erradas. E sabe muito bem do que estou falando. Que me agrida, que agrida os bandidos com quem lida na sua polícia. Mas não pode ficar perseguindo minha filha. Ela não é mais sua namorada. Não pode agredir os rapazes com quem ela conversa na porta de casa. É um direito dela e você não tem nada com isso.”
Sua vontade, naquele momento, era de estourar a cara de Miguel com um soco. O homem que havia silenciado sobre a morte de seu pai.
A mãe intercede. “Meu filho, o que está acontecendo?”
“Desculpe, mãe, não sei do que esse senhor está falando.”
“Esse senhor?! Por que está falando assim de Miguel. Ele é nosso amigo. Era amigo de seu pai. O melhor amigo de...”
“Por favor, mãe, não fale assim. A senhora não conhece nada deste homem.”
“Como assim?!! O que está querendo dizer?!”
“Ele sabe quem encomendou a morte de meu pai e por quê. Ele devia ter contado às autoridades na época e não o fez. Agora vem aqui, em nossa casa, se fazer de rogado, se fingir de amigo.”
Miguel o interrompe. “Saulo, pare com isso. Sabe que não é verdade. Eu nunca pude fazer nada. Nem agora nem antes. Seu pai conhecia os riscos do empreendimento.”
Ava não consegue pronunciar nenhuma palavra por vários minutos. Está perplexa diante do que ouve.
“Você podia sim. Podia ter denunciado Caruso. Podia ter denunciado Gargamel. Mas optou pelo silêncio para manter sua vidinha de aparências. De falsidade para conosco. Meu pai está morto por causa dessa gente e você, que se diz o seu grande amigo, simplesmente não fez nada para punir os seus matadores.”
Miguel explode. “Seu menino mimado e cretino. Sabe que eu não posso enfrentar matadores. Sabe que eu preciso preservar a minha família. Seu pai apostou e perdeu. Isso já faz tanto tempo que não vale mais a pena. O que ganhará com essa loucura, com essa busca frenética? Você já conhece a verdade. Contente-se com ela e fique vivo.”
Novamente a vontade louca de esmurrar Miguel. Conteve-se. Não o faria uma terceira vez. Ava diz: “Miguel. O que está dizendo?! Não consigo entender...”
“Desculpe, Ava, sinceramente, desculpe. Não sei onde estava com a cabeça quando disse essas coisas. Seu filho está louco e está me enlouquecendo. Vim apenas para conversarmos e termina nisso. Lamento muito.”
Retira-se. Ava cai em prantos sobre o sofá. Para ela, aquelas palavras trouxeram uma avalanche de lembranças trágicas. O marido morto. Ela e o filho, sozinhos no mundo. Uma mulher sozinha para tocar a empresa deixada pelo marido. Não tinha qualquer experiência no campo empresarial. Mas fez das “tripas, coração” e conseguiu. Também conseguiu criar o filho, encaminhar os seus estudos, formado em direito, delegado federal. Um possesso diante dela que agora estava caminhando de um lado para o outro, indeciso entre abraçá-la e partir no encalço de Miguel para aplicar-lhe uma violenta surra.
Os dois ficaram se olhando demoradamente e então se abraçaram.
CONTINUA...

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