domingo, 25 de dezembro de 2011

AMÁLIA

Ela nos salvou de todas as formas que se possa imaginar. A mim e ao meu irmão adotivo, Aldo. Nos pegou para criar quando ainda éramos bem pequenos e nos deu todo o conforto de um lar.
Amália nunca se casou. Nunca consegui entender o por quê. Sempre teve uma vida farta. Imaginava, quando criança, que ela não quisera dividir os bens herdados de seu pai, um conhecido general do exército, com um marido e uma família.
Arrependo-me por estes pensamentos. Ela sempre foi totalmente desapegada da própria riqueza que possuía. Prova disso é que adotou duas crianças nascidas de famílias completamente estranhas.
Entrou em minha vida quando eu tinha pouco mais de cinco anos. Meus pais haviam morrido num acidente de automóveis. Constatou-se que meus familiares não tinham condições de me criar e então fui mandado para um orfanato.
Naquele tempo, ela estava exatamente em busca de uma criança para adoção. Fui contemplado. Quanto a Aldo, apareceu na porta de casa alguns anos. Lembro claramente. Era uma noite invernosa em Teresina. Sempre chove muito neste período.
O bebê foi abandonado na calçada por volta de meia noite. Uma perversidade. Poderia ter sido devorado por cães vadios, e até por gatos. Poderia ter sido pisoteado por drogados e desocupados que andam a esmo pela madrugada.
Felizmente foi encontrado a tempo. Amália decidiu andar pelo jardim para suas reflexões costumeiras quando escutou o choro do menino.
Da janela do avião já posso ver a cidade de Teresina. Estamos nos aproximando rapidamente e em poucos minutos, imagino, estaremos pousando. Um dos momentos mais arriscados da aviação.
Sou piloto da aeronáutica. Estou sediado atualmente em Manaus. Faz algum tempo que não venho à capital piauiense. Talvez uns cinco ou seis anos. Amália tem reclamado bastante com isso. Acha que não ligo para ela. Mas ligo, sim. Falo com ela por telefone pelo menos uma vez por semana. É que a atividade militar realmente nos toma muito tempo e exige muita disciplina no cumprimento das obrigações.
Meu nome é Francisco. Mas todo mundo só me chama de Fefê. Deve ser por causa do sobrenome. Fernandes.
No desembarque, deparo com os olhos inchados de Aldo. Ele parece ter chorado bastante nas últimas horas. Está trêmulo, sinceramente amedrontado.
"Alguma notícia recente?", pergunto.
"Nenhuma", ele responde.
Lorena, sua esposa, me abraça carinhosamente. Temos nos tratado muito bem ao longo de todo este tempo em que estão casados. Seus pais não a queriam casada com Aldo porque ele era filho adotivo de uma mãe solteira. Coisa complicada de se entender. Mas no fim deu tudo certo. Estão juntos há doze anos.
No carro, a caminho de casa, ele me coloca a par dos detalhes.
"Ela estava no jardim por volta de nove da noite. Como de costume. Havíamos acabado de sair, eu e Lorena. Tudo indica que alguns dos bandidos saltaram o muro pelos fundos e outros chegaram pela frente. Não havia como ela fugir..."
"Quantos eram?"
"Pelo menos cinco."
"Puta que pariu. Cinco?!!"
"Exatamente. Havia um carro e uma moto envolvidos na operação. Tudo que estou lhe dizendo é por ouvir dizer. Os vizinhos, o vigia de uma residência próxima. Houve gritos da parte dela. Mamãe tentou se desvencilhar mas não foi possível. E então eles a levaram..."
Voltou a chorar intensamente. Aldo sempre a chamou de mãe. Eu, ao contrário, a tratava pelo nome. Não sei por quê.
"Tenha calma", eu disse, querendo controlar também o choro. Sou emotivo, apesar de militar. Na caserna, não se admitem homens chorões. Daí que tenho de me controlar sempre. Mas naquele momento foi impossível.
Abri a porta de casa e fui invadido por um turbilhão de lembranças. Toda a minha infância e adolescência fora vivida sob aquele teto repleto de felicidade e muita fartura. Nada nos faltou. Nunca.
No quintal, as mangueiras frondosas, os abacateiros, as laranjeiras. Um pomar sortido. Amália gostava de sentar sob essas árvores no fim da tarde para nos olhar enquanto brincávamos alegremente.
Uma vez, aos oito anos, caí e quebrei um braço. Foi um deus-nos-acuda para ela, que nos queria completamente intocáveis e sãos. Se fôssemos seus filhos naturais talvez o tratamento não fosse tão privilegiado.
Enquanto as lágrimas descem pelas minhas faces, fico imaginando que Amália é um anjo e que não merece de modo algum o tormento pelo qual está passando neste momento.
"Eles deixaram alguma mensagem?"
"Deixaram sim", adianta-se Lorena. Aldo estava na cozinha preparando um chá.
Mostrou-me. "A mulher estará em segurança e será devolvida inteira desde que paguem a quantia de quinhentos mil reais", diz o bilhete, escrito com recortes de jornais e revistas, à moda dos filmes. "A polícia não deve ser avisada. Caso contrário..." O cinema e a televisão ensinam muita coisa ruim.
Fui andar um pouco pelo jardim. Mais precisamente no lugar onde ela estava quando foi sequestrada. Procurava indícios, algum objeto. Havia apenas capim amassado.
O fato acontera na noite passada. Peguei o primeiro avião tão logo fui informado por Aldo.
Lorena estava ao meu lado. "Está muito bonito com essa farda de oficial. Capitão Fefê."
Fiz de conta que não era comigo. Eu e Lorena tivemos um pequeno relacionamento antes de ela começar a namorar com meu irmão. "A polícia foi avisada?"
"Ainda não", Aldo estava chegando com o chá. Sentamos em um dos muitos bancos espalhados por ali. "Estávamos esperando a sua chegada."
Liguei para um policial amigo de longas datas. "Emanoel? Sou eu, Francisco. Estou em Teresina, sim. Preciso que venha até minha casa. Ainda lembra o endereço?"
Em pouco mais de meia ele estava conosco e o colocamos a par dos detalhes.
"Por que não nos avisaram imediatamente?"
"Não acho que a polícia possa oferecer grande ajuda. Também, com essa estrutura... Mas acredito que você possa nos ajudar."
"Preciso ao menos notificar o delegado. Sabe como é. Dona Amália Fernandes é uma pessoa muito influente na sociedade. Rica, bem relacionada, financiadora de campanhas eleitorais. Sabe de uma coisa, Fefê? Vou ser sincero contigo. Eles pediram pouco dinheiro. Pouco demais para o tamanho da fortuna dela."
Fiquei tentado em dizer-lhes algumas palavras agressivas, mas Emanoel estava ali para nos ajudar. Não seria de bom alvitre.
Decidimos que alguém deveria ficar na casa para aguardar um possível telefonema dos bandidos. Nos filmes, eles sempre ligam.
Enquanto isso, saí com Emanoel à cata de informações. Primeiro, fomos na casa do vigia Luzinaldo dos Santos. Ele trabalhava numa casa próxima e durante algum tempo também trabalhou em nossa casa. Nesse tempo eu já estava servindo e não tive muito contato com ele.
Morava numa residência humilde da avenida Raul Lopes, na zona leste. Na beira do rio Poty. Breve seria engolida pelos edifícios de apartamentos.
"O senhor pode nos ajudar?", perguntei.
"Não vi nada."
"Tem certeza?", falou Emanoel.
"Por favor. Não me comprometa. Tenho família e uma condição pouca. Não posso me meter em confusão."
"Mas que tipo de confusão?!", eu quis saber. "Em que confusão o senhor pode se meter se apenas nos der alguma informação sobre o que aconteceu naquela noite. O senhor estava a poucos metros da ocorrência. Imagino que ainda estivesse acordado. Então não consigo entender..."
"Se os senhores me derem licença, gostaria de entrar agora."
A mulher e uns meninos sujos estavam do lado de dentro, encostados na porta e outros pelas janelas.
Saquei minha pistola e dei-lhe um tiro na coxa. Ele gritou e caiu. A mulher e os filhos entraram em pânico.
"Isso é para tu aprender, canalha, a respeitar autoridade."
Emanoel ficou sem saber o que fazer. Também sacou a arma e ficou olhando ao redor, para afastar a possível chegada de curiosos. "Está louco, rapaz?!!", questionou. "Estou sim", eu disse. "Faço qualquer coisa por ela. Se tiver que matar, pode ter certeza que matarei..."
O vigia estava assustado. Não conseguia dizer palavra. A mulher dele ficou ciscando em redor. Os meninos choravam e gritavam.
Peguei-a pelos ombros e disse com firmeza: "Senhora, saia daqui e leve seus filhos consigo. Vou ter uma conversinha com seu marido."
Dizendo isto, agarrei-o pela gola da camisa e o arrastei para o meio da pista. Alguns carros diminuíram a velocidade ao perceberem que eu estava armado. Mas nenhum deles parou.
"E agora, o que tem a me dizer?"
Ele falou rapidamente tudo o que sabia. Podia ter evitado a situação e o ferimento. Atirei apenas de raspão. Alguns curativos seriam suficientes. Deixei dinheiro com ele. A mulher me amaldiçoou. "Desgraçado... espero que alguém te meta uma bala na cabeça..."
Espero sinceramente que isso não aconteça. Preciso encontrar os homens que sequestraram minha mãe. Eles andavam num carro preto e numa moto de grande potência.
Chegando em casa, encontrei Aldo amargurado em companhia de Lorena. Ele estava muito abalado. Ainda bem que vim para controlar a situação. Caso contrário, o pior poderia acontecer. Ainda não estamos inteiramente livres, porque dispomos de poucas pistas.
"Há relatos de que na semana passada um carro preto teria se envolvido no assalto à residência de um figurão do Jóquei Clube. Os bandidos não foram localizados até agora. Nem o carro. Podem ser os mesmos", disse Emanoel, após ligar com um investigador amigo. Sobre a moto, nenhuma informação.
Um sujeito alto, loiro e bastante jovem, com a tatuagem de uma âncora verde nas costas da mão esquerda, aparece na sala. Está descontraído tomando uma cerveja. O mundo para ele não parece girar no mesmo compasso do nosso.
"Quem é?", perguntei.
"Meu irmão mais novo, Luiz", disse Lorena.
Lembrei-me dele. Uma peste quando pequeno.
Apertei sua mão. Não senti nenhuma firmeza no seu aperto.
"O que está fazendo aqui?"
"Relaxa, figura, estou aqui para apoiar minha irmanzinha. Ela também está passando por um momento difícil, pois gosta muito da velhota. Gente boa, pode crer."
Fiquei tentado a colocá-lo para fora de casa com uns safanões. Ainda por cima, tomando cerveja.
Aldo me disse: "Eles telefonaram."
Fiquei em alerta. "E o que disseram?"
Foi Lorena quem respondeu: "Que o dinheiro deve ser entregue numa única maleta, apenas em notas de cem reais e que o primeiro ponto de encontro deve ser no posto de combustíveis situado no cruzamento das avenidas Homero Castelo Branco e Dom Severino."
Ela me disse o nome. Anotei. "Algo mais?"
"Sim, Aldo deve ir sozinho. Se notarem alguma movimentação estranha, dona Amália é finada."
Entendi o recado. Montei um esquema com Emanoel, que acabara de atender uma ligação do seu chefe na delegacia. "O delegado Frazão está uma fera comigo. Quer saber que história é essa de dar cobertura para um militar que acaba de atirar contra um simples vigilante.."
"O que você disse para ele?"
"Que não estou te dando cobertura porra nenhuma. Disse para ele que não estava na cena da ocorrência e que só cheguei. Estou diligenciando em busca de detalhes sobre o caso."
Rimos. Continua esperto, o meu amigo.
No horário combinado, por volta de seis da tarde, Aldo parou o Santana Quantum de nossa mãe no local determinado pelos sequestradores. Estava visivelmente nervoso e suando muito.
Parei a moto do outro lado da avenida, numa pracinha simpática, e fiquei esperando como quem não quer nada. Fui até uma banca de revistas situada na esquina e de lá fiquei mirando a movimentação em torno do Santana. Esperamos por meia hora e nada aconteceu.
A noite já havia caído quando um motoqueiro se aproximou de Aldo. De onde eu estava não era possível saber o que estavam conversando. O cara se debruçou amistosamente sobre a janela do motorista, aberta, e disse alguma coisa para meu irmão. Ele continuava suando e balançou a cabeça positivamente.
Em seguida, deu a partida e seguiu pela Dom Severino em direção à avenida Presidente Kennedy. Esperei alguns segundos e comecei a segui-lo. Naquele momento já era intenso o trânsito de veículos na avenida. As pessoas estavam voltando do trabalho para casa. Os ônibus estavam lotados. As luzes nas fachadas das lojas começavam a ser acesas, dando um colorido todo especial àquela região de Teresina. Não era nada parecido com uma grande cidade, mas ao menos já era um começo.
O motoqueiro dobrou na Kennedy em direção ao zoo. Aldo o seguiu. Eu segui Aldo.
Parou num posto de gasolina em frente ao parque zoobotânico. Aldo continuou. Eu segui atrás de meu irmão. O que diabos estava acontecendo?
O trânsito apertou logo em seguida. Ficou muito difícil transitar entre os carros que estavam quase colados uns nos outros. Aldo avançou bastante e o perdi de vista. Demorou algum tempo até que eu pudesse continuar em frente. Mas de nada adiantou.
O carro estava parado no acostamento uns dois quilômetros adiante, quase na saída para União, quando a pista sofre um estreitamento brusco unindo-se à rodovia estadual. Aldo estava caído a poucos metros do carro. Retorcido em torno de si mesmo, como um feto gigantesco. Estava ensanguentado e tinha escoriações no corpo, a roupa rasgada.
Parei ao seu lado e gritei: "O que houve?"
"Eles... eles..."
Ficou sem ter condições de prosseguir. O rosto inchado, os olhos tomados pelo inchaço.
"O que eles fizeram contigo?"
"Disseram que não estão brincando em serviço. O dinheiro deve ser entregue amanhã como sem falta". Cuspiu um dente. Falava com dificuldade. Cheio de dores no abdome. "Desgraçados. Desgraçados. Devem ter notado que você estava por perto."
"De modo algum. Tenho certeza que não. Fiz tudo com a maior discrição."
No hospital, os médicos diagnosticaram após exames que Aldo tinha quatro costelas quebradas e o antebraço direito muito machucado. "Mas não quebrou."
Lorena me chamou num canto. "E agora, o que vamos fazer?"
Disse para ela secamente: "Não sei."
Saí do hospital, peguei a moto CB 400 e saí em direção ao centro. Fui até a casa de uma amiga. Daniele era uma espécie de mãe de santo. Mas eu não queria seus serviços profissionais. Tínhamos uma história inacabada juntos.
"Você?!!", ela exclamou, tão logo abri a porta.
"Eu mesmo. Como está? Posso entrar?"
Ela disse que estava bem e mandou que eu entrasse.
"Ainda está servindo na Amazônia?", perguntou.
"Sim. E você? Ainda trabalha como macumbeira?"
"Não sou macumbeira. Sou consultora espiritual. É diferente."
"Diferente porra nenhuma."
"Como sempre, um grosso de marca maior."
"Ainda está casada?"
"Não. Ernando me deixou há dois anos."
Abracei-a pela cintura com firmeza e encostei meus lábios nos seus. Disse para ela: "Sinto sua falta", ao que ela respondeu: "Não parece."
Beijamo-nos com ardência. Em seguida fomos para a cama.
Estava precisando disso para recobrar as energias.
"E sua mulher? Seus filhos?"
"Estão em Manaus. Todos muito bem, obrigado."
"Por que a trai?"
"Não acho que a esteja traindo. Trairia se fizesse amor com alguém de quem não gosto. Quanto a você, sabe que sempre fui muito louco por ti. Nosso caso nunca deu certo por conta de suas atividades... espirituais..."
"Foi aquela sua mãe perversa quem nos separou."
Eu a encarei. Daniele tinha ódio por Amália.
"É uma grande mulher."
"Eu também seria grande se tivesse toda aquela fortuna."
"Amália não é mulher rica."
"Mas recebeu uma grande herança do general."
"Quem mais sabe disso?"
"Eu e toda Teresina. Mas por que isso agora, depois de tanto tempo?"
Olhei firmemente em seus olhos: "Amália foi sequestrada. Os bandidos estão pedindo meio milhão pelo resgate."
Ela fez cara de espanto e assobiou. "Meio milhão?!!!"
"Exatamente. Meio milhão."
"E vocês, têm esse dinheiro todo?"
"Claro que temos. Ela possui muito mais que isso. Preocupa-me apenas o seu estado. Como a estão tratando. Nada mais que isso."
Deixei Daniele consciente de que ela não tinha nada com essa história sórdida. Sua raiva por Amália não a levaria tão longe. Continuaria enganando os trouxas que acreditam em sua conversa fiada de contato com o além. Quando eu estava saindo, ela me disse: "Tome cuidado. Estou vendo uma energia muito ruim em redor de você."
Sorri com escárnio. "Fala sério, Daniele."
Ela me beijou e perguntou quando eu voltaria. "Não sei", respondi secamente. "Mas foi muito bom estar com você." De fato, recuperei parte considerável do meu ânimo.
Passei em casa. Deparei-me com Luiz. "Você tem uma moto?", perguntei. Ele disse que sim.
"Poderia me emprestar?"
"E esta que você anda nela?"
"Pode ficar com ela por enquanto. Já está dando bandeira por causa de ontem."
Recebi um telefonema de Emanoel.
"Então? Algum avanço?", quis saber.
"Nenhum. E por aí?"
"Por aqui as coisas estão ficando difíceis. O caso já começa a chamar atenção. Alguns amigos e amigas de sua mãe têm ligado para a delegacia perguntando se já temos alguma pista do seu paradeiro. Estão desconfiados de que uma coisa muito grave aconteceu com ela. E é por isso que estou ligando."
"Insisto que as coisas devem ser mantidas em sigilo. Pelo menos até o final do dia de hoje. Até lá espero que consigamos restabelecer o contato com estes marginais e acabar logo com essa história."
Emanoel assentiu a contragosto. Luiz me levou até sua moto. Havia um sujeito passando uma flanela sobre o revestimento do tanque de combustível.
“Quem é este?...”
“Deixe-me apresentá-lo”, disse Luiz. “Este é Gualberto, um amigo da família.”
Gualberto se precipitou sobre mim. Estendeu-me a mão. Ele também tinha uma tatuagem. Apertei a contragosto. Não estou muito a fim de papo.
Por volta das duas da tarde começam a chegar alguns vizinhos curiosos e também familiares. Gente que estava ligando desde a manhã de ontem e que não conseguia falar com Amália. Estavam sendo informados apenas de que ela não podia atender no momento. Isso os deixava em dúvida. Vieram tirar a certeza.
“Quem é Gualberto?”, perguntei para Adalto.
Meu irmão disse que era um sujeito meio largado no mundo. Amigo de seu cunhado. De vez em quando aparecia aqui por casa. Nossa mãe o acolhia com carinho.
Sinceramente, não gosto dele. Guardei o sentimento para mim. Peguei a moto de Luiz e fui dar uma volta. Fui até o posto de combustíveis da zona leste onde Adalto foi abordado no dia anterior pelo motoqueiro. Perguntei a um dos frentistas.
“Conhece esta moto?”
Ele respondeu que sim. “Pertence ao Luiz Malaca.”
Agora mais essa. Luiz Malaca. “Ele aparece sempre por aqui?”
“Faz barulho com a turma aí na loja de conveniência sempre a partir de quinta-feira à noite.”
“Como assim?!!”, exclamei.
O frentista explicou: “Eles se reúnem entre quinta e domingo, toda semana. Bando de jovens arruaceiros. A gente não pode fazer nada. São ‘filhinhos de papai’. Alguns até maiores de idade. Bebem, se drogam e depois saem pelas ruas aprontando. Já ouviu falar numa tal de ‘roleta russa’?” Fiz que não balançando negativamente a cabeça. Ele prosseguiu: “O cara enche a fuça de álcool, pega o volante do carro, espera o sinal ficar vermelho e acelera. Se conseguir chegar ao outro lado inteiro ganha um prêmio. Como eles fazem isso durante a madrugada, na maioria das vezes conseguem chegar. Mas uma pequena parte se espatifa no cruzamento porque o sinal está aberto do outro lado. Pior para quem não tem nada com isso. Já vi famílias inteiras se prejudicarem, morrerem, por causa dessa irresponsabilidade.”
As autoridades piauienses, como sempre, não fazem nada.
Voltei para casa. Fui até a cozinha. Surpreendi Lorena conversando estranhamente com o Gualberto. Ele ficou assustado ao me ver. Saiu rapidamente.
“O que estavam falando? Alguma novidade?”
“Tem sim”, ela me disse chorando. “O Adalto vai te contar.”
Meu irmão falou que os bandidos haviam ligado novamente tão logo eu saí (esses desgraçados parecem saber quando me ausento). Falaram que o preço do resgate dobraria na manhã seguinte porque estava demorando a ser pago. E disseram também que Amália está com alguma reação alérgica. O bandido que falou com Aldo disse que a responsabilidade por qualquer problema com “a velha” (foi assim mesmo que ele se referiu a ela) seria da família.
“Tudo bem. Onde está o dinheiro?”
Aldo disse: “Está aqui, comigo.” E passou-me a maleta.
Ele me passou o ponto de encontro. Saí na moto de Luiz. “Pode deixar que vou resolver essa parada.”
Antes de sair, Aldo me parou. “Cuidado com o que vai fazer. Esta não é uma operação de guerra. Sei que você é um soldado. Foi treinado para lutar. Mas esta é uma luta diferente.”
Eu o encarei. “Amália é tão importante para mim quanto para você.”
O novo ponto de encontro era na zona sul. Cruzamento das avenidas Maranhão e Joaquim Ribeiro. Havia um sujeito numa moto. Ele ficou assustado ao me ver. Eu disse a senha combinada: “Os dias passam e a vida também”, e ele respondeu: “As horas voam, uma leve brisa no ar.” Parecia coisa de viado. Esses sequestrados eram mesmo uns filhos da puta.
Entreguei para ele a maleta com o dinheiro. “Onde está a mulher?”, perguntei secamente.
“Onde está o Aldo?”, ele falou.
“Isso não importa. O que importa é que o dinheiro está aí. Conte, rápido, e me entregue Amália.”
Em resposta ele acelerou a moto e partiu pela avenida Maranhão em direção à Prainha. Filho de uma quenga.
Um carro que estava parado na avenida Maranhão, perto da descida da ponte da Amizade, fez sinal para mim. O motorista desceu com as mãos para cima.
“Está armado?”, ele perguntou.
“O que foi combinado?”
“Que tu vinha sozinho e desarmado...”
“Então me revista.”
Ele me apalpou o corpo inteiro. Aproveitei para rapidamente olhar em redor. Notei que havia dois sujeitos em posição estranha no meio da praça Da Costa e Silva, muito escura. No meio dele, um bando de trombadinhas, alguns adormecidos na grama ressequida, outros entorpecidos pelo efeito de drogas pesadas, a exemplo do crack.
O cara disse: “Tu não vai conseguir levar ela de moto.”
No banco de trás do automóvel, um Del Rey muito antigo, Amália estava semiacordada. Imagino que a tenham dopado.
“Canalhas”, disse, descendo da moto, que joguei na calçada sem o menor cuidado.
O sujeito tratou de se encontrar com seus companheiros no meio da praça e caminharam apressados em direção a um carro que estava do outro lado. Foram embora chiando pneus. Estavam felizes porque endinheirados.
Entrei no carro e também acelerei. Levei-a direto para o Hospital de Urgência de Teresina. Estava sem se alimentar há quase dois dias. Os desgraçados estavam dando apenas água para ela.
Eles não perdem por esperar.

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