quarta-feira, 7 de março de 2012

CÃES DE GUERRA

O diretor de jornalismo o procura com um brilho intenso nos olhos – está tramando alguma coisa, o jornalista logo vê. É o apresentador do telejornal, programa de maior audiência da emissora, e um dos mais respeitados profissionais do quadro de jornalistas da empresa, que conta ainda com um jornal, duas emissoras de rádio em FM, uma em AM e um portal de notícias em construção.
Precisamos dar uma resposta à altura pra esse pessoal do partido de oposição, diz o diretor. Eles têm batido muito no governo e em nós.
Ainda acho que deveríamos nos manter neutros. Esse alinhamento político já nos custou caro no passado, argumenta o jornalista.
De modo algum. O patrão quer engajamento total e vamos potencializar ainda mais os ataques contra a oposição. Esse candidato a governador não tem história, não tem postura. Não pode ser governador.
O jornalista sorri. Muito bem, diz, e como pretende fazer?
Vamos procurar alguma coisa contra ele. Vamos levantar um dossiê com as irregularidades cometidas por ele. O sujeito foi líder sindical, vereador e deputado, não é possível que nada haja que desabone a conduta dele.
Não sei. Acho difícil, argumenta o outro, mas o diretor está resoluto: Você poderia produzir esse dossiê. Temos que dar munição para o governador. A eleição está pau a pau!
A campanha começou com amplo favoritismo do candidato oficial, que assumira o governo há apenas alguns meses depois de destituir seu antecessor com base em denúncias de corrupção eleitoral.
O ex-governador perdeu o mandato mas não os direitos políticos e assim pôde fazer política abertamente. Candidatou-se ao Senado e decidiu colocar seu partido no apoio ao candidato da esquerda. Os dois foram adversários em épocas anteriores, mas agora o que importava era a vitória a qualquer custo. Daria tudo de si para colocar o jovem deputado federal no Palácio de Karnak.
O atual ocupante do palácio, titulado pelos adversários como príncipe da oligarquia, é a principal liderança isolada do Estado. Começa com vantagem de mais de 20 pontos percentuais sobre todos os demais candidatos reunidos. Mas o deputado socialista tem um discurso simples e agradável e tem muita disposição para caminhar e percorrer os caminhos e trilhas que levam ao coração do eleitorado. Em pouco tempo ele consegue se aproximar perigosamente do principal postulante.
Acende a luz amarela no comitê do candidato oficial. Ele em pessoa vai aos canais de tevê para anunciar medidas populistas e rasteiras. Concede descontos gigantescos aos empresários em débito com o Fisco. Cria um restaurante com alimentação de graça para os mais pobres. Institui um espaço de cidadania no antigo hortomercado da avenida João XXIII. Vai às áreas atingidas por alagamentos em função das recentes chuvas e lança um programa de moradias em sistema de mutirão com material cedido pelo governo e mão-de-obra dos beneficiários.
Os adversários apenas denunciam irregularidades. Milhares de contratações graciosas de cabos eleitorais. Distribuição de dinheiro público para caciques políticos da capital e do interior. Benefícios fiscais concedidos de maneira ilegal de modo a prejudicar as finanças públicas. Falta de planejamento estratégico.
O candidato oficial está comprando prefeitos, vereadores e lideranças políticas. Reúne em torno de sua candidatura todos os ricos do Estado – protesta o jovem e sorridente deputado. Apesar da denúncia, sua fala é humilde, transpira tranquilidade. Mas não se pode ganhar eleição sem o apoio popular e o povo está cansado do governo dos ricos e pelos ricos. Não é sem razão que este sempre foi um Estado rico de população empobrecida. Porque todas as riquezas são repartidas entre os donos do poder e do dinheiro.
O ex-governador e agora candidato ao Senado também ataca. Na tevê aparece com uma aura de santo e ao fundo uma imagem de São Francisco de Assis – “meu santo de devoção”. Nos palanques chama o governador de homossexual e a primeira-dama de macumbeira do Maranhão. Seus gritos histéricos ecoam pelos quatro candidatos: ele se diz injustiçado, que sempre trabalhou pelos menos favorecidos e lembra dos programas de alimentação aos famintos, da isenção nas contas de água e luz dos que não podiam pagar e faz novos ataques: O governador não tem postura de homem. Quer transformar o Estado num bacanal. As orgias em palácio varam a madrugada...
O chefe do Executivo não responde. Opta pelo silêncio em relação ao seu principal adversário. Prefere centrar esforços contra o candidato ao governo. Este, sim, é motivo de preocupação – os institutos de pesquisa traduzem seu crescimento em todos os segmentos do eleitorado. Ele agora deixou de ser um candidato de ocasião para constituir ameaça verdadeira ao seu propósito de permanecer no poder por mais quatro anos.
Os programas eleitorais do governador transmitem fragilidade no discurso. Ele apela para o denuncismo: o socialista não seria tão socialista assim. Pelo contrário – é um bem sucedido empresário do ramo de financiamento de imóveis; seria proveniente de uma rica família de fazendeiros da região Sul; manteria sociedade com esquemas de corrupção em Brasília.
Na TV Imprensa, a ordem era bater pesado contra o parlamentar. Em nenhuma hipótese ele poderia ser eleito. Num estúdio desativado para reformas, o diretor diz ao jornalista:
O debate que está previsto para a próxima semana deve ser imediatamente cancelado. O governador não tem nenhum interesse na sua realização.
Mas os critérios já foram acertados, a Justiça Eleitoral deu o “Ok”, os anúncios estão sendo veiculados e há muita expectativa na sociedade. Acho muito arriscado cancelar – protesta o outro.
Temos que cancelar. O palácio está em polvorosa com os índices das últimas pesquisas. Você precisa entender que nosso patrão pode perder negócios de milhões caso esse arrivista se eleja.
Muito bem. E como faremos?
É simples. Telefone para todos os candidatos e transmita que estamos cancelando por problemas técnicos. Não temos como acomodar os oito candidatos no estúdio...
No dia seguinte o esquerdista telefona ao apresentador para perguntar o porquê do cancelamento. O jornalista repete o que lhe foi orientado pelo diretor. O assessor de imprensa do candidato de oposição também quer saber a razão do cancelamento. O partido está indignado. A maioria do povo também se indigna. O jornalista tenta se salvar no turbilhão de acontecimentos que apontam para um descredenciamento moral da emissora.
Numa palestra para estudantes universitários o assessor de imprensa acusa o grupo Imprensa de conluio com o governo em detrimento do candidato da oposição e da legítima aspiração dos eleitores. É um grupo que não faz jornalismo com independência e conseqüente imparcialidade. Está desgraçadamento atrelado à direita liberal. Lamentável que em pleno século XXI ainda tenhamos que conviver com esse tipo de comportamento da nossa imprensa.
No debate realizado pela TV Globo o deputado repete a denúncia. E a reforça: este grupo engorda a olhos vistos às custas do erário. É o dinheiro das escolas, dos hospitais e dos servidores que financia a vida nababesca de seu proprietário, responsável por inúmeros crimes contra a ordem econômica.
Ele vai além: Estou recebendo aqui a informação de que na calada da noite o governo sacou a quantia de 50 milhões de reais do Banco do Estado e que este dinheiro será usado na compra de votos no interior. Foi despachado em malotes e aviões e chegará às mãos dos caciques políticos no dia antes da eleição.
O governador reclama. Diz que é tudo mentira e que mandará abrir uma sindicância para apurar a quebra de sigilo fiscal do banco oficial: Servidores públicos não podem se deixar dominar por suas paixões políticas, colocando em risco a credibilidade do Estado. Nosso banco é público e nenhum órgão da administração terá desvio de suas funções para beneficiar a minha candidatura. Repito: o governo é o governo e em momento algum deixaremos que haja o comprometimento da máquina pública.
Na véspera do pleito seis candidatos de oposição renunciam às suas postulações em favor do socialista. Fazem caminhada de mãos dadas na avenida Frei Serafim.
No dia das eleições os institutos de pesquisa apontam empate técnico entre os dois candidatos. As intenções de votos estão literalmente divididas – 50x50. Os governistas dizem que a parada está liqüidada. Investem tudo na reta final. O governador diz que a oposição pode “tirar o cabelinho da venta” – “porque esta eleição é nossa.”
Os oposicionistas não antecipam nenhuma comemoração. O candidato veste-se de vermelho juntamente com a esposa e seus correligionários e vai à urna de votação com excesso de modéstia. Ao sair da cabine e a pedido dos fotógrafos faz o V da vitória e sorri com aquele jeito excessivamente simples.
As ruas são tomadas por gente dos dois lados. A situação se veste de azul. Por baixo a camisa vermelha da oposição. Nosso coração é vermelho, repente eufóricos. Tudo indica que haverá segundo turno e a TV Imprensa afirma pontual: Haverá segundo turno.
À meia-noite daquela data o Tribunal Eleitoral afirma em mais um boletim parcial: A vitória do candidato de oposição é irreversível. No dia seguinte, a confirmação. Dos 223 municípios ele ganha em 220. O governador só consegue maioria em três. Na capital a diferença pró-contrários é de 140 mil votos. O deputado consegue 59 por cento dos votos contra 38 por cento atribuídos ao ocupante de Karnak. As ruas são invadidas pelos seguidores do vitorioso no que a imprensa chama de virada vermelha.
Na TV Imprensa, nada há a fazer. A desolação toma de conta dos diretores, em especial do diretor de jornalismo. Tenta se justificar ao patrão: Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. A emissora trabalhou 24 horas por dia, sete dias por semana para que tivéssemos um resultado diferente. As ações do governo foram potencializadas de todas as formas possíveis e imagináveis. Infelizmente...
O diretor-presidente manda suspender de imediato todas as atividades hostis contra o governador eleito. Sua única chance de continuar de pé é tentar um acordo. Mas eles vão querer algo em troca – insinua o sofrido diretor, no que o chefe determina prontamente: Leiloe qualquer coisa. Fique inteiramente à vontade para negociar.

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