terça-feira, 6 de março de 2012

Os brutos não se amam

O ano era 1984. Havia em todo o país uma grande movimentação em torno da campanha pelas diretas já. A população queria votar para presidente. O governo militar queria manter o voto indireto. No Congresso Nacional, um jovem deputado chamado Dante de Oliveira apresentou uma proposta de emenda prevendo a realização de eleições diretas para a presidência. O povo se mobilizou para defender o seu direito em escolher o governante máximo da nação.
Em Teresina, vários comícios foram programados para diversos pontos da cidade. Praças públicas, em que se podia reunir milhares de pessoas em torno do palanque. Os políticos que lideravam o movimento em nosso estado eram Alberto Silva, Wall Ferraz, Chagas Rodrigues, Deoclécio Dantas, Tomaz Teixeira, Francisco Figueiredo, Fernando Mendes, dentre inúmeros outros. Eles se apresentavam como perseguidos da ditadura e defensores da redemocratização.
Naquela noite fui parar no meio de um destes comícios. Na praça do Marquês, zona norte da capital. Milhares se aglomeravam no espaço amplo e arborizado. Gente de todos os recantos de Teresina e de várias cidades do estado. Gente trepada em árvores para se nivelar aos oradores no palanque. Vendedores ambulantes ganhando dinheiro com a movimentação cívica nacional. Eu, um adolescente motivado pelo desejo de multidão. De repente, alguma garota interessante podia aparecer.
Nem tanto. Quem apareceu foram meus desafetos. Liderados pelo temível Jonatas, um evangélico valentão que colocava toda a rapaziada do bairro para correr. Ele só andava acompanhado de meia dúzia de delinquentes juvenis. Pessoas do seu naipe. Religiosos e agressivos. Como é que pode?! E o pior é que o cara estava a fim de me pegar porque havia tirado uma onda com sua garota, Samira, uma jovenzinha linda e sensual de apenas 15 anos que se apegara a mim e que, tenho certeza, gostaria muito de estar em minha companhia naquele momento.
Mas nem todos os nossos desejos podem se realizar. Pelo menos não de uma vez. O deputado e jornalista Deoclécio Dantas estava discursando no exato instante em que Jonatas e seu bando se aproximou de mim. Eu estava tomando uma caipirinha. Ele foi se chegando rapidamente. “Estava mesmo querendo falar contigo”, disse. Olhei para ele surpreso. “Falar comigo?! Falar o quê?!”, eu falei. “Tu sabe muito bem. Tô querendo falar de Samira. Soube que tu anda de braço com ela no bairro”, enfatizou, em tom ameaçador. “E o que tu tem a ver com isso?”, nunca fui de me intimidar com olhar e tom ameaçadores de quem quer que seja. Já apanhara muito por causa disso.
O orador dizia que o Brasil queria ser livre, que sua população queria escolher o presidente e que não aguentava mais a presença incômoda daquela ditadura sem serventia e que estava levando o país ao buraco. Segundo ele, a dívida externa estava se tornando impagável porque os militares não tinham capacidade para gerenciar os destinos da nação. O povão aplaudia alegremente. Era realmente uma festa. Mas para mim, diante daqueles bandoleiros juvenis, não havia festa nenhuma. Jonatas falou com um dos seus seguidores: “Pelo visto vamos ter que acertar as contas logo é hoje com esse daí”, e apontou para mim debochativamente.
Não esperei pela segunda afirmação. Dei-lhe um murro no meio da cara e um chute entre as pernas. Ele se curvou de dor e caiu rolando pelo chão. As mãos agarradas aos testículos e gritando muito. Seus camaradas foram apanhados de surpresa e não souberam o que fazer por alguns segundos. Aproveitei aquela breve indecisão deles e dei no pé. Corri pela Alameda Parnaíba, uma avenida que já fora muito bonita em outros tempos, com árvores frondosas de ambos os lados, mas que agora estava sufocada pela fumaça dos veículos poluidores.
Corri com tudo que era possível. e aproveitando a força da gravidade, em direção ao rio Parnaíba. Se, em todo caso, não conseguisse um lugar para me esconder, me jogaria em suas águas barrentas e nadaria até a outra margem. Isso, é claro, se não me afogasse. Mas esta era uma hipótese remota. Sou um excelente nadador. Jonatas se recobrou lentamente e ordenou aos seguidores que me pegassem de qualquer jeito. “Peguem este filho da puta.” Os oradores nem perceberam o pequeno tumulto que se formou naquele instante no meio da multidão. A polícia foi chamada, mas quando chegou eu já havia corrido e estava sendo perseguido por Jonatas e seus acompanhantes.
Caramba. Dificilmente conseguiria me livrar destes infelizes. Em número de sete. Em alguns pontos, a avenida se tornava escura. As lâmpadas dos postes eram obstaculizadas pelas árvores frondosas. Pés de acácia, dezenas deles, em toda a extensão da alameda, praticamente. Eu aproveitava a escuridão para ganhar terreno. Eles se dividiram em dois grupos. Continuei correndo. Tinha tomado algumas doses de caipirinha. Talvez por isso tenha tido coragem para atacar aquele mal elemento.
O cemitério São José. Muros altos. Subi nos galhos de uma árvore. Saltei para dentro. Silêncio absoluto. Escuridão absoluta. Do lado de fora, alguns carros que passam. Vozes distantes. Talvez nas casas próximas. Do outro lado da avenida. Melhor, alameda. Ao longe, a voz de Chico Figueiredo, o radialista que ganhava votos contando piadas sobre os poderosos de plantão. Metendo a lenha na companhia de águas e na companhia de luz. Exigindo da prefeitura que tape os buracos nas ruas dos pobres. E dizendo que todo mundo tem o direito de comer bem e se vestir melhor, mas a inflação não deixa, a ditadura não deixa.
Tremo de medo. Nunca imaginei estar dentro de um cemitério à noite. Somente o medo de enfrentar Jonatas e seus capangas me forçaria a tomar uma atitude assim, entrar num campo santo sozinho. Pelo menos era o que eu pensava. Mas estava redondamente enganado. Sozinho eu não estava. E não estou me referindo aos cadáveres sob sete palmos. Não. Estou falando de um sujeito curvado sobre um túmulo. Ele carrega uma pá, que usa para retirar a terra ainda fofa. O infeliz deve ter sido enterrado naquela mesma tarde e já está sendo trazido de volta à superfício. Me aproximo discreta e silenciosamente. Fico atento aos seus movimentos. Ele abre a tampa do caixão com uma espécie de pé de cabra. Está tranquilo e de vez em quando toma um gole de cachaça, imagino.
Toda a operação demora pouco mais de uma hora. Em seguida, ele devolve o indivíduo à urna e finalmente ao solo onde, espera-se, continue a descansar em paz por toda a eternidade. O sujeito era um ladrão de cadáveres. Estava roubando os pertences do morto. Paletó, camisa, calças, sapatos e até meias. Revirou sua boca em busca de algum dente valioso, de ouro ou prata. Acho que não encontrou nada porque disse alguns palavrões e em seguida cuspiu sobre o morto. De repente, piso num galho seco. Ele olha na direção em que estou. Prendo a respiração, me abaixo. Fecho os olhos e espero o golpe de sua pá impiedosa. Mas ele não vem. Segue na direção contrária. Cumprimenta o vigilante e sai. Sigo atrás. Salto no muro que fica para o lado da avenida Miguel Rosa, já na confluência com a Maranhão. Ninguém em meu encalço. Parece que meus algozes se perderam de mim.
Sigo o ladrão de defuntos. Ele vai para o Mercado Velho. Junta-se a um grupo de outros notívagos, todos sujos, bêbados e desdentados. Um deles nota minha presença perto do botequim. “Ei, quem é esse menino?!”, exclama. Os outros ficam sem resposta. Pergunto se posso tomar uns goles. O ladrão me estende a garrafa e um copo sujo. Tomo sem vacilação. Confesso que estou nervoso a valer.
“O Zico não vale nada”, diz um deles.
“Por que não vale?! Vale sim.”
“Vale não”, emenda o mesmo. “Ele se vendeu para a Udinese. Abandonou o Flamengo. Virou as costas para a torcida.”
O ladrão de cemitério reclamou: “Já vai começar essa história de futebol. Quando começa não tem mais fim. E você, o que acha, guri?”
Está falando comigo. Guri sou eu.
“Queria que ele tivesse ficado. O cara joga demais e o time ganhou muitos títulos por causa dele.”
“Mas ele só pensa em dinheiro”, falou o primeiro. O cara realmente estava detestando o “Galinho de Quintino”.
De repente, a gritaria. “Olha ele lá!” Era Jonatas e seus delinquentes. Não haviam desistido de mim. Para minha infelicidade. “E agora, valentão?”, perguntou o chefe do bando, arrogante, como sempre. “E agora o quê?”, falei. “Não tenho nada para tratar contigo.” Ele não se conformava. “Não tem?! Como não tem?! Cabra safado. Espera só...” E avançou contra mim. Os seus companheiros me agarraram pelos braços e ele começou a me espancar bem ali, no meio dos bêbados, que ficaram rindo, a princípio, pensando, talvez, que se tratava de uma brincadeira. Mas logo entenderam que não era brincadeira alguma. Talvez por causa do sangue em meu rosto ou dos meus gritos de dor. Avançaram contra Jonatas e a turma dele com paus, pedras e tudo o mais que tinham à mão. Os caras me soltaram e saíram correndo. Meus novos amigos me ampararam e perguntaram se estava tudo bem comigo. “Claro que não. Estou moído, não estão vendo?”
Fui sentar no meio-fio, esperar o dia amanhecer. Olhei para o relógio. Ainda nem era meia-noite. Então vi um carro esporte sem capota se aproximar de mim. Pensei que era um daqueles sujeitos viados e velhos que ficam catando rapazinhos na noite da avenida Maranhão, exatamente ali, perto do Mercado Velho. Era Alanis, uma colega de escola, muito amiga de Samira. Fora ela que nos apresentara. “Ei, garoto, está perdido?”, pergunta, sorridente. Estava dirigindo e sozinha. “Quer carona.” Sorrio para ela. “Claro que sim.”
Subimos pela Alameda Parnaíba e passamos próximo ao comício das diretas. O senador Alberto Silva estava discursando. Anunciava a presença do deputado federal Ulysses Guimarães, presidente nacional do seu partido, que falaria dentro de mais alguns instantes. “O que houve contigo? Parece que andou brigando...”, perguntou ela. “Dei azar de me encontrar com o Jonatas bem aqui na praça. Não me contive e o agredi. Ele me perseguiu e me espancou. Mas é um covarde. Não tem coragem de me enfrentar sozinho.”
Não demoramos muito. Apenas o tempo de tomar uma caipirinha. Pouco gelo e muita cachaça. “Quer?”, ofereci para ela. Alanis recusou. Disse que aceitaria um refrigerante. Dei-lhe um guaraná. Falamos pouco no caminho de volta para o conjunto Saci, do outro lado da cidade.

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