O deputado/secretário costuma entrar por uma porta lateral. O salão cheio de gente, a dona sempre o atende com discrição. É uma amiga de muitos anos.
“Está feliz?”
“Muito.”
“Por que tanta felicidade?”
“Hoje devo receber a visita de um amigo... vem de Salvador.”
“Sei. Amizade colorida?”
“Amizade colorida. Vai passar o final de semana comigo. Já temos um caso antigo.”
Ele faz o contorno da bunda. Cera quente. Marinez tem a mão suave.
Coloca a cera e repuxa com firmeza, mas sem agredir a sua pele macia.
“Pelo visto, hoje vai rolar muita alegria.”
“Com certeza.”
Ele sorri.
15:00.
Humberto chama Clodoaldo. O assistente vem rapidamente. Permanece no gabinete apenas informalmente. Na prática, estava licenciado por motivo de candidatura.
O expediente havia encerrado às 13:00, mas o deputado costuma esticar. Exerce o cargo de secretário de estado das Cidades. Indicação dele próprio dado a sua ligação com o governador.
“Quero que vá ao aeroporto.”
“Pois não, secretário.”
“Vai chegar um amigo. Ele desembarca pelas 15:30. Quero que o apanhe e o traga diretamente para cá.”
Clodoaldo sempre foi um assessor dedicado. Nunca cometeu nenhuma indisciplina.
“Pode deixar, doutor Humberto.”
Humberto Balbo está no segundo mandato de deputado estadual. Antes fora vereador numa cidadezinha da região norte onde sua família mantém relativa influência política.
Fora eleito, é claro, com a força do dinheiro. Seus avós são fazendeiros, muito ricos, e não deixariam de atender mais aquele mimo do netinho querido.
Comenta-se, nos bastidores da política piauiense, que sua homossexualidade nunca agradou ao velho avô, um homem rude, do campo e que detesta esse tipo de inclinação.
Mas sua avó adora. Ela sempre quis ter uma netinha e seus filhos nunca lhe deram esta satisfação. Todos os netos são homens. Quer dizer, quase todos.
15:15.
Serve-se de uma dose de uísque. Chama para perto de si a secretária Joanara.
“O Clodoaldo deve chegar em instantes”, ele disse.
“Ele está dentro da hora.”
“Um camarada decente, Joanara.”
“Sem dúvida, secretário.”
“Por isso vou torná-lo vereador em São José da Caatinga.”
“Claro. Vai sim. Ele merece.”
Passa das quatro horas e nada. Humberto está visivelmente aborrecido. Olha o relógio. Já está na terceira dose de John Walker Blake Label.
“Filho da puta. Onde estão esses filhos da puta?!!”
“Calma, doutor Humberto. Devem estar presos no trânsito.”
“Trânsito, Joanara, numa sexta-feira, quatro da tarde. Nem na China, minha filha.”
“O que quer que eu faça?”
“Ligue-me com o aeroporto, a companhia aérea...”
Ligou. Foi informado de que o voo chegara normalmente. Nenhum problema.
Chamou o motorista. “Será que aquele imbecil entendeu mal? Será que entendeu que deveria levar o Roberto para o apartamento?”
Por via das dúvidas, ligou para seu apartamento. Nada. A empregada disse que não chegara ninguém.
Tomou a iniciativa de ligar para o apartamento de Clodoaldo. O telefone chamou e ninguém atendeu.
Resolveu que iria pessoalmente. Clodoaldo deve ter se lembrado de alguma coisa importante em casa ou então estaria com algum problema.
No caminho, ficou pensando mil coisas. O veículo de Clodoaldo pode ter sido abordado por assaltantes. Seu assessor e namorado podiam ter sido sequestrados. Quem sabe?!
Teresina está se tornando uma cidade violenta. Todos sabem que o problema não é apenas de repressão. Tem uma raiz social profunda.
São muitas décadas de exclusão. Privilégios da elite. Desprezo para os menos favorecidos.
A cidade incha em favelas que se espalham por toda a periferia. Uma imensa população desocupada.
Jovens que não têm o que fazer. Não ganham dinheiro regularmente. Fazem bicos ou assaltam. A maioria, para se drogar.
Tomou outra dose de uísque e procurou afugentar aqueles pensamentos.
O motorista ficou esperando na portaria. Ele subiu pelo elevador. Tinha a chave do apê de Clodoaldo.
Foi surpreendido pela cena chocante: seu assessor especial sendo enrabado pelo seu namorado.
Roberto estava comendo Clodoaldo. “Filhos de uma puta”, gritou, e saiu gritando pelo prédio inteiro. “Traição. Traição...”
Ao chegar na portaria e ver o motorista, simulou um desmaio. Cena de filme pastelão. Quase caiu feio porque o empregado não tinha a agilidade necessária.
“Covardes. Filhos da puta. Traidores. Vou foder com eles. Prometo que não ficará pedra sobre pedra.”
O porteiro trouxe um copo de água com açúçar. Ele mandou o homenzinho ir tomar naquele lugar e saiu andando com firmeza.
Foi direto ao presidente do partido. “Não quero mais que esse cretino do Clodoaldo seja candidato a vereador. A candidatura dele está vetada por mim. Vetada, entendeu.”
Tonico Boroco, político das antigas, também deputado estadual e presidente regional do Partido Humanista Democrático Brasileiro, respondeu que não podia fazer mais nada.
“Secretário, lamento informar que não posso ajudá-lo. A candidatura foi aprovada em convenção e registrada na Justiça Eleitoral. Agora, só se ele morrer.”
“O quê?!! O que está me dizendo?!...”
“Isso mesmo que o senhor ouviu. Não posso fazer mais nada pelo senhor...”
Foi em casa. Apanhou uma pistola carregada de balas.
“Vou fazer justiça com as próprias mãos.”
O motorista pediu calma. “Por que o senhor não toma um banho de piscina?”
“Cala a boca, seu covarde, quer que eu lhe meta uma bala na cabeça também?”
O homem ficou em silêncio. Continuou a fazer apenas o seu trabalho.
Humberto chegou de novo no apartamento de Clodoaldo. Nem ele nem Roberto se encontravam.
O porteiro informou que haviam saído de carro e levaram malas consigo.
Humberto sentou no meio-fio com a pistola na mão. Estava desolado.
Foi assim que uma patrulha da polícia militar o encontrou. Um policial o abordou.
“Senhor, largue esta arma.”
O outro policial estava dando apoio e apontava uma arma para ele.
“Você sabe com quem está falando?”
“Sei sim, senhor, mas estou cumprindo meu dever. O senhor largue essa arma e me acompanhe até a delegacia.”
Humberto olhou melhor para ele. Era um PM jovem e muito bonito.
Decidiu largar a arma. O jovem recolheu a pistola e perguntou se ele poderia acompanhar a viatura até a delegacia mais próxima. Precisariam lavrar um auto de apreensão da arma. Questão de praxe.
“Sem dúvida, meu caro. Como é que você se chama mesmo?”
O policial pareceu notar uma certa malícia na voz e no olhar do deputado/secretário.
sexta-feira, 9 de março de 2012
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