
O crime contra o policial civil Lourenço Carrios, ocorrido em 8 de agosto de 1989, em Parnaíba, a 356 quilômetros de Teresina, foi atribuído aos soldados Merval Guilhermino de Almeida Neto e Procópio do Nascimento e Silva, tidos como matadores a serviço do famigerado coronel da Polícia Militar Elias Amarantino da Conceição. Carrios era natural da espanha. Amarantino foi acusado de autoria intelectual, porém nunca foi levado ao Tribunal do Júri como tal. Nem ele nem ninguém.
As cenas de filme policial que resultaram na morte do policial civil na cidade de Parnaíba ainda estão bem vivas na mente de todos aqueles que tiveram o desprazer de testemunhá-las. O jovem era bonito, tinha bom papo e conquistava muitas mulheres. Teve a infelicidade de ganhar o coração de uma filha do coronel. Teve a infelicidade de que ela se apaixonasse perdidamente por ele. Teve a infelicidade de não se apaixonar perdidamente por ela. O coronel o caçou como se caça um animal selvagem.
O policial galanteador foi perseguido nas ruas, vários matadores em seu encalço enquanto , no carro, à pequena distância, um homem de bigode a tudo assistindo, com olhos malignos recobertos por óculos escuros provavelmente de marca Ray Ban. Os bandidos fardados estão neste momento sem farda. Trajam vestes civis. Estão à paisana para servir ao mandante. Para matar em seu nome. O policial tenta reagir. Está armado também. E consegue revidar alguns tiros. Mas seus agressores são muitos, vêm de todas as direções.
As pessoas se atiram ao chão, carros param bruscamente, o pipocar dos tiros é ouvido a vários quarteirões na cidade litorânea. A morte ronda alguém, todos têm certeza quando avistam a figura tenebrosa dentro do carro de luxo, a tudo olhando impassível, como se estivesse realmente diante de uma tela de cinema – o filme por ele patrocinado, com sequências reais e tiros que matam de verdade. Ele conduz as filmagens imaginárias como um diretor europeu faria, de forma requintada, silenciosa, ao contrário daqueles que, aos berros, ditam as normas no set de filmagens.
O policial é abatido na calçada de uma movimenta avenida parnaibana. Seus matadores aproximam-se, ele está perfurado tal peneira. Um deles, negro, baixo, gordo, cara de mau, curva-se calmamente, aproxima o revólver da cabeça da vítima em agonia e dá o tiro de misericórdia. O elemento no carro pisa suavemente no acelerador, passa devagar, encara o morto para ter certeza de que está morto mesmo, faz sinal de positivo para seus cães de caça e em seguida acelera bruscamente e se retira da cena do crime.
Todos se retiram, outros policiais chegam, chega o delegado. Ninguém, absolutamente ninguém, tem coragem de testemunhar. Os que a tudo assistiram sentem-se coagidos pela presença, nos arredores, dos vira-latas a serviço do chefão. Eles estão ali para dizer, sem pronunciar uma única sílaba, que todos devem silenciar. Circundam os curiosos, fazem gestos que amedrontam, o indicador se movimentando como que a puxar o gatilho de um revólver.
Ninguém testemunha, não naquele momento. Melhor calar e sobreviver. O policial já está morto. Muitos morreram antes dele, muitos morreriam depois. Os dias de impunidade daqueles assassinos, contudo, chegariam ao fim. Nem tão em breve, mas chegariam. Pelo menos era o que todos esperavam.

Nenhum comentário:
Postar um comentário