quarta-feira, 28 de abril de 2010

CURVA DA RAPOSA



1974, primeira vez que ouvi falar sobre a curva da Raposa, riacho situado a cerca de 18 quilômetros da cidade de Altos, na BR-343. Era um domingo à tarde, não lembro o dia nem o mês. As pessoas estavam assustadas ao dizer que uma Kombi tombara na curva, com oito pessoas a bordo. Todas morreram. Uma família inteira...
Eu tinha seis anos. Consegui chegar ao local na carroceria do carro de um amigo, Soares. Ele era hóspede da pensão de minha mãe, dona Fátima. Fui escondido. Ele se deu conta da minha presença apenas quando chegamos e nos deparamos com a tragédia.
Vi corpos despedaçados e muito sangue espalhado no asfalto -- a pista quente o deixara fétido. Havia dezenas de curiosos e chegando mais gente a todo instante.
Passei vários dias impressionado com a cena dantesca. Nunca vira tanto sangue em minha vida. Minha experiência no assunto se limitava aos filmes em preto e branco que assistia na tevê, nos quais sequer havia simulação. Os personagens eram atingidos por balas que não abriam buracos em seus corpos.

***

1987, domingo, 7 de junho – 15h20. O jovem pega escondido a chave do carro de seu pai e convida o melhor amigo para irem aos festejos de Campo Maior. A curva fatídica não os deixa seguir em frente. O condutor morre na hora. Seu passageiro escapa com ferimentos graves.

***

1989, sábado, 20 de maio, 3h10 – madrugada. O tesoureiro da prefeitura volta para a cidade depois de uma prolongada farra na cidade vizinha. Diz-se que utiliza o dinheiro da municipalidade para financiar suas festinhas particulares – em bares, churrascarias e cabarés. O rei dos bordéis está acompanhado de uma prostituta caríssima e anda no carro emprestado de um vereador do esquema. À altura da curva, perde o controle da direção e passa direto, indo dar nos rochedos à margem do rio. Escapa com vida, porém profundamente escoriado. A preocupação do vereador é com o seu carro, “quem lhe ressarciria os prejuízos?” A prefeitura paga, diz o tesoureiro, e cumpre a promessa antes mesmo de deixar o hospital.

***

1992, conheci Gustavo Brandão, adepto de uma seita japonesa. Ele me contou sobre a teoria dos espíritos errantes. Segundo Camilo, as pessoas que morrem de acidente não cumpriram o seu tempo de permanência na Terra. Assim, seus espíritos ficam vagando às escuras, no local onde pereceram, até que se complete o período. Enquanto vagam, a escuridão os perturba e eles tentam desesperadamente se agarrar a outros espíritos, não distinguindo entre os que estão vivos ou mortos. Eles os agarram e os puxam para si. Por isso ocorrem muitos acidentes e mortes num mesmo local.

***

1993, quinta-feira, 19 de novembro -- Parnaíba, 345 quilômetros ao Norte de Teresina. O sargento da Polícia Militar Evandro Menezes não contava com a fatalidade em seu caminho. Partiu em direção à capital por volta das duas horas da madrugada. Levaria um detento para cumprir pena na Casa de Custódia. Esperava chegar ao destino nas primeiras da manhã. Na curva da Raposa, o carro colide com a amurada da ponte. Dos três passageiros, um único sobrevivente. O caronista diz que o motorista gritou e buzinou antes de virar para a esquerda para evitar o atropelamento. “Havia alguém na pista que só ele viu”, relata.

***

1993, último dia do ano -- alta madrugada. O caminhoneiro Wilson Caminha transporta sua carga de produtos agrícolas do Ceará para Teresina. Ao passar pela curva, jura ter visto alguém pular da amurada para a pista, atravessando vagarosamente em frente ao caminhão -- como se buscasse a morte. Ele conseguiu desviar, mas o caminhão tombou. Vivo e aflito, Wilson procura pelo causador do acidente, mas não vê ninguém. Não há viv'alma no local. “Sim, eu acredito em espíritos errantes”, diz ele, ao repórter.

Nenhum comentário:

Postar um comentário