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Em 22 anos de profissão, o jornalista Túlio Bragança já enfrentou muitas situações de perigo, como quando ficou no meio do fogo cruzado entre a polícia e o bandido Zaratustra Yáscara Douglas, fuzilado em Timon no começo de 92. Em setembro de 99, Túlio e o fotógrafo Jordão Passos foram designados para produzir uma reportagem sobre o renascimento do cangaço na região conhecida como Polígono da Seca, entre os estados do Piauí, Bahia e Pernambuco. Este, sem dúvida, foi o momento mais arriscado de toda a sua carreira.
Ali, numa área de aproximadamente 50 mil hectares, cerca de 5 mil agricultores vivem exclusivamente do plantio da maconha, erva alucinógena que é comercializada depois nos próprios estados nordestinos e para outras regiões do Brasil e até para o exterior. Na reportagem, os dois profissionais teriam que entrevistar agricultores e suas famílias e fotografar os vastos campos cultivados com a droga.
Ao saírem do Piauí pelo município de Dom Inocêncio, a 700 quilômetros de Teresina, os dois notaram que havia um carro seguindo a reportagem. Em vários momentos, a viagem se mostrou extremamente dolorosa para Túlio Bragança. “O sofrimento humano me perturba demais. Nunca me acostumei com isso, com a condição subumana a que as pessoas são relegadas no sertão do Piauí”, acentua. Segundo ele, ao chegarem num povoado conhecido como “Recanto Feliz” se depararam com um cidadão de cócoras em frente a um buraco de mais ou menos 30 centímetros de diâmetro.
“Ele estava segurando a ponta de um cordão. Na outra extremidade, dentro do buraco estreito e fundo, um litro. Estava apanhando água para beber”, relata o jornalista. “É dessa forma que eles conseguem água. Dom Inocêncio é o município piauiense com menor incidência de chuvas, ao mesmo tempo em que possui a maior dimensão territorial contínua do estado. Fiquei profundamente sensibilizado com a cena”.
Em “Recanto Feliz”, o jornalista começou a tomar notas, enquanto o companheiro deu início à sequência de fotos. Prosseguiram viagem e já no estado da Bahia notaram novamente o carro que os seguia, um Palio Weekend de cor verde. De um lado e outro da extensa rodovia, carcaças de animais de vários tamanhos. Havia também muita carniça, animais mortos recentemente e cujos corpos eram vorazmente atacados pelos urubus. As placas de sinalização eram totalmente perfuradas de balas, uma espécie de advertência para os delatores.
Depois de andaram mais de 300 quilômetros, finalmente chegaram num restaurante de beira de estrada, onde se alimentaram e obtiveram informações sobre as plantações de maconha. A mulher do restaurante, dona Lurdes, advertiu que deveriam tomar cuidado. “Os bandidos aqui não perdoam”, disse ela. “Viram as placas?”
O jornalista quis saber se alguém já havia sido morto por trair os traficantes. “Muitos”, ela respondeu. “Quantos?”, Túlio insistiu. Dona Lurdes silenciou diante da entrada, no recinto, de dois elementos estranhos. Usavam óculos escuros desproporcionais e traziam armas expostas na cintura. Túlio E Jordão trataram de seguir viagem. Algum tempo depois encontraram as primeiras plantações de maconha. “O cheiro da planta é inconfundível, o formato das folhas também. Não tive dúvida. Era canabis mesmo”, diz o jornalista, que tentou entrevistar vários agricultores sem sucesso. Nenhum deles queria se comprometer.
Sem avisar, o Palio Weekend estacionou repentinamente ao lado do veículo da reportagem e os dois sujeitos mal encarados desceram. Os revólveres agora não estavam mais na cintura. “Estavam literalmente com o dedo no gatilho”, lembra Jordão. Em pouquíssimo tempo a dupla de repórteres entendeu que estava sob o poder da quadrilha de Marquinhos Capeta, um perigoso traficante de drogas que já invadira quartel da polícia para resgatar comparsas e fora tema do programa “Linha Direta”, da Rede Globo de Televisão. Estava sendo chamado, na época, de “o novo Lampião”.
Depois de percorrerem uma longa estrada de chão, Túlio Bragança entendeu que o destino deles poderia ser trágico. “Eles não nos vendaram os olhos. Seria muito difícil escaparmos com vida, pensei na hora, porque conhecíamos perfeitamente o caminho do esconderino. Mas eu estava duplamente enganado. Era impossível nos guiarmos no meio de tanta desolação, mato rasteiro e seco, carcaças de animais e cruzes na beira do caminho. Parecia que estávamos andando em círculos”, rememora Bragança.
Andaram mais ou menos uns 60 quilômetros pelo meio da caatinga, até chegarem a uma cabana no meio do nada. Em redor da rústica habitação, um fosso completamente seco. No fundo, estacas de ponta afiada e serpentes venenosas. “Eles colocaram uma ponte de madeira para o carro atravessar”, afirma Jordão Passos. Ainda hoje ele não consegue esconder a aflição. A ponte foi retirada tão logo o veículo completou a passagem. Logo depois, uma cerca de espinhos, atrás da qual havia dezenas de homens fortemente armados. “Os caras tinham pistolas automáticas e fuzis israelenses, em pleno sertão”, pontua Túlio Bragança.
Os dois foram levados à presença do próprio Marcos Emiliano, mais conhecido como Marquinhos Capeta, que tratou logo de enumerar os assassinatos que havia cometido em sua vida. O bandido disse aos jornalistas que tinha apenas 26 anos de idade, mas tinha matado mais gente do que podia lembrar. Os jornalistas não se intimidaram e mantiveram a versão inicial — a matéria teria uma conotação geral. Não havia nenhuma especificidade sobre o plantio e tráfico de drogas. Ao fim de algumas horas de intensa pressão, Marquinhos finalmente cedeu e ofereceu sua hospitalidade aos profissionais de imprensa. Atrás da casinha havia um barreiro que acumulava água da chuva, posteriormente bombeada para uma gigantesca caixa d’água que os abastecia. “A prosperidade no meio da miséria”, gargalhou o bandido.
Túlio e Jordão serviram-se de um churrasco de carneiro e cerveja gelada. “Ele tinha um motor e um freezer. Era um verdadeiro ‘bunker’ naquele deserto”, afirma Bragança. No meio da farra, Marquinhos manifestou suas verdadeiras intenções. “Vocês podiam fazer uma biografia deste amigo de vocês, desmistificar essa idéia de que sou um bandido sangüinário, um matador impiedoso. É claro que matei muita gente, muitas mortes apenas para mostrar minha força, mas sabe como é... São ossos do ofício”, falou Capeta, tranqüilamente, como se estivesse relembrando episódios coloridos de sua infância e adolescência.
“Gravamos com ele uma entrevista de mais ou menos duas horas, em que ele relatou façanhas incríveis, acredito que a maior parte da história seja verdadeira. Muitas histórias eu ouvira pela televisão ou vira nos jornais, mas apenas superficialmente e a partir de versões de testemunhas”, relata Túlio Bragança, acrescentando que “mesmo assim não conseguia afastar o temor, quanto mais ele falava, se empolgava, mais eu imaginava que não teríamos nenhuma chance. Com o avançar das horas, fui ficando cada vez mais assustado, até que tomei a decisão de me embriagar (força um sorriso). Assim, não veríamos quando ‘a hora’ chegasse.”
Em redor da fogueira cercada de bandidos e abastecida de muito churrasco e cerveja, os dois comeram e beberam até pegar no sono ali mesmo. As primeiras luzes do alvorecer encontraram Túlio e Jordão despertando lentamente, com a boca amarga e a cabeça pesando uma tonelada (talvez mais). “Vamos”, disse uma voz, acima deles. Ergueram a vista simultaneamente e depararam-se com a figura mal encarada de óculos escuros e portando uma pistola 7,65mm e um revólver calibre 38. É agora, pensou Jordão. O elemento prosseguiu: “Marcos disse que é pra levar vocês até Casa Nova e de lá vocês devem seguir caminho para Pernambuco e depois para o Piauí. Mas não voltem por aqui.”
Marquinhos Capeta havia desaparecido. Churrasqueira e freezer também não mais se encontravam ali. Havia apenas as cinzas da fogueira. Os dois foram levados até o carro, de onde seguiram viagem mais que depressa. Tudo que queriam era sair daquele lugar, agradecendo a Deus por escaparem com vida. Meses depois tomaram conhecimento pela mídia nacional de que Marcos Emiliano, o Marquinhos Capeta, havia sido fuzilado num confronto com a polícia. Vários integrantes do bando também foram mortos. O plantio e tráfico de droga, contudo, permanecem intactos no Polígono da Maconha.

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