domingo, 25 de abril de 2010

MATADORES




Foi apanhado de surpresa pela chegada de Nildomar.
“O que foi?!”, perguntou.
“Tem uma parada pra gente. Topa?”
“O que é?”
“A gente tem que apagar um figurão.”
“Quanto?”
“Dez mil reais. Cinco mil agora, cinco mil depois do serviço.”
“Quem é o contratante?”
“Ele está esperando a gente lá perto da estação. Dá pra conversar agora?”
“Pera um minuto, vou avisar Maria das Mercês.”
Abraçou a mulher, afagou as crianças pequenas e saiu em companhia do parceiro.
Andaram rápido pela rua de terra batida e cortada por um imenso esgoto a céu aberto.
“Prefeito filho da puta, não manda botar nem calçamento”, reclamou, irado com a administração municipal.
Nildomar complementou:
“Fica calmo. Teus dias de angústia estão chegando ao fim, Boião. Vamos sair da lama... Literalmente.”
“O que é literalmente?”
Ficou pensando na burrice do amigo. Mas não fez nenhum comentário.
Mesmo imbecil, Boião era um sujeito útil na hora de apertar o gatilho.
O esquema funciona em função dos dois; Nildomar intermedia, Boião puxa o gatilho – desde muito tempo que é assim.
“Tu não me respondeu o que é literalmente”, insistiu Boião.
“Literalmente é quando uma coisa tem tudo a ver.”
Boião calou. Não havia entendido nada mesmo.
Andaram em silêncio até a estação ferroviária, onde um carro parado abrigava um homem solitário. Barbudo, tinha um boné encobrindo os olhos. Para não ser reconhecido, pensou Boião.
“Aqui está o homem”, informou Nildomar.
O barbudo dentro do carro puxou uma maleta, abriu a tampa e exibiu o dinheiro: cinco mil em notas de cinqüenta e cem reais.
Boião nunca tinha visto tanto dinheiro. “E então, quem é o morto?”, perguntou, extasiado.

O prefeito Caio Marreiros abriu a porta de casa de manhã bem cedo e se deparou com a multidão.
Todo dia era a mesma coisa – aquele mundaréu de gente pobre, esfomeada, que vinha pedir de um tudo.
“Me dê um quilo de arroz pra matar a fome dos meninos lá em casa...”
“Me dê uma carrada de piçarra pra mode botar na rua. Quando chove, não queira saber...”
“Me dê um emprego pra meu menino mais novo. O bichinho passou dois anos em São Paulo e não arranjou nada. Está desempregado do mesmo jeito que foi...”
“Me dê...”
“Me dê...”
“Me dê...”
Caio Marreiros já não aguentava tantos “medês”. E o pior: podia dar tudo o que estavam pedindo, no dia seguinte estariam todos na porta do mesmo jeito; isso para não dizer que continuariam chamando-o de crápula e ladrão na próxima esquina diariamente.
Maria de Fátima passou por ele apressada, deu-lhe um beijo no rosto e disse que estava atrasada para um compromisso no Serviço Social do Município.
“Reunião com um pessoal de Teresina, Serviço Social do Estado, verba para o programa de idosos”, disse – depois, entrou no carro e partiu.
Caio atendeu alguns pedidos com autorizações assinadas em pedaços de papel e dirigidas aos comerciantes da cidade. Muitas daquelas ordens voltariam sem cumprimento, tinha convicação, tendo em vista o alto índice de inadimplência da prefeitura.
No fim da fila, aproxima-se o sujeito gordo, baixo, de fala mansa. Fica parado em frente à mesinha montada na calçada da porta lateral.
Estavam agora apenas os dois.
“E o senhor, o que deseja?”, indagou o prefeito Caio Marreiros.
Boião pensou: é agora ou nunca!
Fez menção de puxar a arma. Meteu a mão dentro do cós da bermuda e segurou no cano do revólver calibre 38.
De repente, uma jovem saiu de dentro da casa com o telefone sem fio. “É para o senhor, seu Caio”, disse Rosa, a empregada, entregando o aparelho ao prefeito.
Caio pediu licença ao pedinte e afastou-se alguns metros para falar com quem quer que fosse que estivesse do outro lado da linha.
Boião escutava perfeitamente quando ele dizia: “Mas eu mandei mil reais na semana passada. Mês passado ele me pediu pra pagar a conta do posto de gasolina. Lá se vão mais mil e quinhentos. O que é que esse cara quer que eu faça?” Ficou escutando algum tempo, depois concluiu: “Pois manda ele ir à merda. Isso mesmo, à merda. Prefeitura não é cofre de político falido.”
E desligou, voltando ao Boião ansioso.
“Sim, e o senhor, o que é mesmo? Seja rápido que estou com pressa”, disse.
“Piçarra...”, disse o matador. “Quero uma carrada de piçarra”.
Caio assinou a ordem. “Procure o Sr. Teixeira, na oficina da prefeitura. Agora, é bom que seja logo, porque a piçarreira tá secando e depois só vai ter pra dezembro...”
Entregou o papel ao homem, que, antes de sair, olhou para Rosa, que permanecia na porta, de pé, com o aparelho sem fio na mão.

“E aí, o que foi que deu?”
“Porra nenhuma. Na hora que eu ia apagar o escroto, apareceu uma rapariga e eu dei pra trás.”
Nildomar estava visivelmente irritado.
“Tu lembra que a gente já pegou cinco mil do cara. Pois ele pegou emprestado de outro cara pra pagar a gente. A gente agora tem que fazer o serviço de qualquer jeito, senão nós é que dança.”
Boião fez uma expressão séria, assentiu com a cabeça e disse: “Fica frio, Nildomar, a gente apaga o cara logo, logo...”

O homem barbudo, agora sem boné, estava sendo muito pressionado pelos agiotas a quem pedira dinheiro emprestado para financiar o alto custo da sua política clientelista.
Ele mantinha votos de cabresto através de tratamentos médicos conseguidos em hospitais públicos e privados de Teresina à custa de subornos pagos aos médicos.
Quando o dinheiro estava no fim, recorria aos agiotas. Elegera-se vice na chapa de Caio Marreiros imaginando que as coisas iriam melhorar, que finalmente sairia do atoleiro e que poderia honrar todos os seus débitos.
O salafrário, ao contrário, fizera ouvidos de mouco aos seus pleitos desesperados por ajuda financeira. De vez em quando mandava uma merreca – mil reais, mil e quinhentos, duzentos, quinhentos, pouca coisa, não dava nem para o combustível do transporte que levava e trazia diariamente a população assistida da cidadezinha até a capital.
“Calma, pessoal, é só mais alguns dias. Acho que é coisa de três dias no máximo.”
O brutamontes que estava diante dele tinha mais ou menos dois metros de altura e um bíceps de fazer inveja a qualquer Lou Ferrigno. “O patrão quer o dinheiro em uma semana. De outra forma...”
Entrou em parafuso. Se os homens não fizessem o serviço logo, se mataria – era o único jeito.
Os agiotas eram insensíveis. Podiam querer fazer algo contra sua família.

Zona rural de São João da Serra, município na região Norte do Estado. O prefeito Caio Marreiros comprara uma fazendinha para onde pretendia se transferir assim que encerrasse o mandato.
Queria viver de criar gado e passar um tempo sem fazer nada, muito menos política.
Elegera-se prefeito por acaso – melhor dizendo, quase por acaso; tinha a oratória vibrante e, como vereador, exercera a função de líder do prefeito na Câmara.
O ex-prefeito tentara lançar a candidatura de um médico, mas o médico se recusara; tinha passado num concurso público no Rio de Janeiro.
O esquema ficou sem nome. Caio, como vereador e líder, ameaçou romper caso não fosse o candidato.
Fizera muitos inimigos ao longo daqueles três anos e meio defendendo o chefe do Executivo. Tinha que ser recompensado.
A recompensa veio através de uma vitória apertada, em que enfrentou poderoso esquema empresarial. A máquina da prefeitura foi largamente utilizada para garantir-lhe a vitória, mas ele assumira o compromisso de honrar as dívidas do antecessor, na verdade seu grande benfeitor.
Agora, estava pressionado por todos os lados: o ex-prefeito queria dinheiro para se manter sem trabalhar; o vice-prefeito queria usar a prefeitura para manter a política clientelista ao extremo; os vereadores queriam carro, casa, açude e energia nas propriedades – benefício do povo mesmo que era bom... que se dane!
Resolveu mandar todo mundo para a puta que pariu e construir seu próprio pé de meia.
Naquela tarde, vinha na Kombi juntamente com seu compadre Alaor.
Não prestou a menor atenção ao passar pelo ponteão sobre o riacho da Luzia Homem; havia, logo na subida, dois homens numa moto.
Um deles, se tivesse olhado, ao menos olhado, teria percebido: era o mesmo gordo baixinho que há alguns dias estivera na sua casa pedindo uma carrada de piçarra.
Mas ele não olhou, não prestou atenção, pagaria um preço alto demais.

Lucas Marreiros vinha de Teresina. Mantinha velocidade de 70 km/h.
Gostava de andar devagar. Tinha todo o tempo do mundo.
De súbito, uma cabine dupla de cor verde atravessou na frente do seu Fiat Uno e o trancou bem próximo da cidadezinha onde o irmão era prefeito e onde ele exercia a espinhosa função de tesoureiro.
Dois homens armados desceram e apontaram direto para sua cabeça.
“Passa o dinheiro.”
“Não tenho dinheiro. Pelo amor de Deus...”
“Passa os talonários de cheque. Passa agora!”
O sujeito parecia decidido em puxar o gatilho, enquanto o outro supervisionava a estrada. “Anda, anda logo...”
Lucas pegou a maleta no banco traseiro e entregou ao assaltante. O indivíduo não queria nada mais do que os talões de cheque.
Descartou a maleta jogando-a sobre o rosto de Lucas Marreiros. A pancada abriu-lhe um corte na fronte.

No dia 16/3/96, um grupo de mil e quinhentos trabalhadores rurais ocupou o prédio da prefeitura, na avenida principal.
O prefeito e seus secretários foram mantidos como reféns durante praticamente todo o dia.
Foram liberados à tarde com a intervenção do COE – Comando de Operações Especiais, grupo de elite da Polícia Militar.
No meio da multidão, Boião se preparava para enfiar-lhe uma faca: seria rápido e, entre tanta gente, ninguém daria fé do autor.
Sairia apressado e quando dessem conta o prefeito teria se esvaído em sangue.
Porém, não houve oportunidade. Em nenhum momento, ele conseguiu chegar a menos que oito metros de Sua Excelência.
O homem tinha sua própria segurança e não descuidou. Caio Marreiros sabia da sua impopularidade. Qualquer descuido, numa situação daquelas, poderia ser fatal.

Ao chegar em casa, já no fim da tarde e desfeita a aglomeração de manifestantes em frente à prefeitura e à residência oficial, concedeu entrevista a uma emissora de TV da capital.
“O exercício do poder é inglório”, declarou. “A gente bem que gostaria de fazer, mas o dinheiro é curto, existem muitas obrigações. Folha de pagamento, obrigações sociais, retenções do governo federal, dívidas de gestões anteriores. Quando os recursos chegam já vêm quase que totalmente comprometidos. O que sobra é muito pouco, mas a população não entende.”
“E o que o senhor pretende fazer, prefeito?”
“Sinceramente?”
“Claro, seja sincero. O que o senhor pretende fazer?”
“Renunciar ao mandato.”
Naquela tarde, ao chegar, recebera a notícia do cerco contra o irmão, que pedira exoneração do cargo. Nomeara a esposa interinamente até que alguém, convocado, tivesse coragem suficiente para assumir.

O homem barbudo, novamente sem boné, recebeu em total desespero a informação de que, mais uma vez, os elementos que contratara para eliminar o prefeito tinham falhado.
Sua única esperança era assumir a prefeitura; tomaria conta do dinheiro, pagaria os agiotas e faria seu pé de meia.
Mas tudo estava indo por água abaixo.
Foi até a sala, olhou a mulher, que estava de costas para ele, sentada diante da televisão (passava uma novela). No chão, ao lado da mãe, o filho menor, brincando com bonequinhos e carrinhos de plástico. No sofá, a filha maior, adolescente, deitada e ressonando tranqüilamente.
Passou para a cozinha, foi até a despesa, pegou uma corda, subiu na mesma de jantar e enrolou a corda na cumeeira; em seguida, fez um laço e passou em volta do pescoço.
Apertou com força e quando se preparava para pular o menino entra na cozinha e grita: “Mamãe, mamãe, ajuda aqui, pelo amor de Deus...”
A família acorreu, a esposa grudou-se nas pernas do marido, a filha gritava pelo socorro dos vizinhos, verdadeira multidão acorreu à residência humilde situada na periferia na periferia.
“Não sei como é que um vice-prefeito mora numa choupana dessas”, comentou um dos vizinhos, um bancário da Caixa Econômica.

Numa pescaria, em companhia de compadre Alaor.
“O Tobias Alves tem batido pesado na tua administração, compadre”, diz Alaor.
“Aquele é um filho da puta, compadre Alaor. Eu fiz tudo por aquele homem. A mulher dele tava doente, eu dei transporte e paguei internação, paguei até a cirurgia. Hoje, o sujeito fala mal de mim em todo canto.”
“Falar mesmo ele não fala”, rebateu Alaor, “mas bota o povo pra falar.”
“Dá no mesmo, compadre.”
“E o Dr. Lucena?”
“O que é que tem?”
“Como é que está o relacionamento?”
“Por mim, tudo bem, mas ele quer dinheiro pra campanha, e dinheiro eu não tenho.”
“O homem é candidato forte, compadre, e não podemos esquecer que foi ele quem lhe colocou na prefeitura.”
“Eu sei, compadre, mas a coisa tá preta. Não tem dinheiro pra nada, nem que eu queira.”

9/4/96.
Na residência do jornalista Tobias Alves, o Dr. José Lucena desabafa:
“Eu sentei no banco dos réus para eleger o Caio. Peguei dinheiro emprestado em nome da prefeitura e coloquei na campanha dele. Senão, o desgraçado perderia a eleição. Êta infeliz ruim de voto! Nunca vi. Já ganhei e perdi muitas eleições, mas igual àquela eu nunca vi.”
“E o que o senhor pretende fazer?”
“Fazer? Sei lá, esperar. Deus que se encarregue dele.”
“O Caio mudou muito, doutor, eu sempre disse, depois que ele assumiu, que o poder traz a ilusão da eternidade.”
“Mas ele não é eterno, Tobias, tenha certeza disso. Eterno, só Deus.”
“E o vice-prefeito, como é que está com ele?”
“Soube que também está puto. Mas aquele é outro que só pensa no próprio umbigo.”

10/4/96.
Festa na fazenda do vereador Leôncio Vaz. O obeso delegado Matusalém se aproxima da primeira-dama Maria da Graça e diz:
“Dona Graça, tenho uma notícia desagradável para a senhora.”
Ela não gostava nem um pouco do tipo. Falava-se horrores daquele sujeito.
“Diga”, falou, simplesmente.
“O Ozanã tá contratando pistoleiro pra matar seu marido.”
“O Ozanã, mas por quê? O Caio sempre o tratou tão bem...”
“O homem está desesperado, mulher, e com desespero de homem não se brinca.”
Maria de Fátima agradeceu o aviso de Matusalém e procurou o marido no meio da multidão. Passou perto de Boião e Nildomar, que à altura estavam seguindo todos os passos de Caio Marreiros. Esperavam a melhor hora para apagar o sujeito, a quem só se referiam como “defunto” ou “finado”.
“O delegado me disse que o Ozanã está atrás de um pistoleiro pra te matar.”
Caio ficou arrepiado, mas o arrepio passou logo. Queria mais era curtir os efeitos etílicos do whisky de boa qualidade adquirido com os recursos da “viúva” para inaugurar a energia elétrica puxada até a fazenda do vereador Leôncio Vaz numa extensão de 16 km.
“Isso é besteira...”, e continuou na farra.

No dia seguinte, bem cedo, ligou para Ozanã e perguntou que história era aquela.
O vice-prefeito estremeceu, mas negou tudo e disse que Matusalém estava ficando era doido. “Nós somos amigos, todo mundo sabe da minha consideração por vossa pessoa”, complementou.
No mesmo dia, Caio mandou um cheque de três mil reais para o vice-prefeito, dinheiro, é claro, insuficiente para atender as suas necessidades.

11/4/96.
Nildomar e Boião tomaram dois litros de mangueira antes de executar o serviço.
Nildomar ficou no portão puxando assunto com o vigia Francisco Mendes, um velho de setenta e poucos que não vigiava nem a si próprio.
Os dois haviam esperado o segurança sair; o prefeito ficara sozinho em casa, contando apenas com a proteção do vigia.
Boião entrou, bateu palmas, um carro buzinou no portão – a filha mais velha do prefeito estava retornando da universidade.
Caio, só de bermudas e sem camisa, veio atendeu ao chamado com a intenção de voltar imediatamente para continuar assistindo o Jornal Nacional.
“Prefeito, e a piçarra?”
“Que piçarra?”
“A piçarra que lhe pedi...”
“Acho difícil ter piçarra ainda, mas fale amanhã de manhã com o Teixeira, pode ser que ele dê um jeito. Agora, me dê licença...”
E deu as costas ao assassino. O elemento puxou o revólver, a filha viu a cena e gritou: “Pelo amor de Deus, não mate meu pai...”
Boião puxou o gatilho. Caio se virou para ele. Tentou avançar. Tarde demais.
O revólver demorou para detonar, mas na terceira tentativa a bala saiu fumegante e atingiu o prefeito entre o olho e o nariz.
Outro disparo. Agora no centro da testa.
Um terceiro tiro. No pescoço, sobre a jugular.
Caio Marreiros tombou sem vida.
Marina, a filha, correu em prantos para amparar o corpo inerte sobre a calçada fria.
Boião, embriagado, tentou correr, escorregou, caiu, levantou; Nildomar veio ao seu encontro, ajudou-o, os dois saíram correndo, passando por Chico Mendes aos empurrões, derrubaram o ancião na sarjeta fétida da avenida e seguiram até a moto parada na esquina, com o motor ligado.

Ozanã Silveira assumiu a Prefeitura por apenas quatro meses.
Fez uma gestão tumultuada em que não honrou sequer os salários dos servidores.
Foi apontado, pelo Ministério Público, como mandante da morte do prefeito Caio Marreiros, mas apesar disso permanece em liberdade até hoje.
Nildomar e Gordino saíram de Cidade Alta para continuar a vida de crimes no vizinho Estado do Ceará.

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