domingo, 2 de maio de 2010

CONTO DA PROVÍNCIA


A província estava em pé de guerra naquele ano de 1849. Tudo porque o imperador havia desprezado os pleitos dos líderes locais visando a nomeação de Caio Lourenço pra presidência. O nomeado foi um jovem pernambucano Adonis Boaventura, que além de ser muito novo ainda por cima era solteiro e tinha tinha fama de progressista. Os chefes políticos detestavam a palavra progresso e tudo o que podia significar, porque isso implicava em retirá-los da zona de conforto em que viviam.
O moço era uma espécie de lunático que havia conquistado definitivamente as atenções do imperador. Pedro II era por demais sensível à inteligência humana. Mantinha correspondência regular com os intelectuais do mundo inteiro e do Brasil em particular. Aceitava com parcimônia os ataques do deputado José de Alencar na tribuna do Congresso Nacional pelo simples fato de que o admirava como escritor. Crescera lendo suas histórias em forma de novelas cujos capítulos eram publicados nos jornais do Rio de Janeiro.
Gostava de ficar ouvindo por tempo indeterminado as projeções do bacharel em direito Adonis Boaventura sobre planejamento administrativo. Dizia que as cidades devem ser construídas de acordo com um planejamento prévio em que a área residencial deve ficar distante do setor administrativo; em que o setor hospitalar deve ocupar um determinado espaço enquanto que o polo educacional deve estar situado em outro; e assim por diante.
Na verdade, Adonis era um visionário em pleno século 19. Suas ideias seriam aplicadas com vigor dali a algumas décadas, mas por enquanto ele pretendia transformar a distante província do Piauí do Piauí numa espécie de laboratório, construindo no lugar a primeira capital planejada do Império. A obra ainda não tinha nome mas o governador era muito simpático ao projeto porque há tempos que se debruçava sobre uma forma de levar o desenvolvimento para os lugares mais distantes da gigantesca nação brasileira.
“Tem certeza de que levará adiante o teu projeto de construir a nova capital do Piauí?”, questiona o imperador, enquanto degustam camarões ao alho e óleo acompanhados de um delicioso vinho do Porto.
“Claro que sim, Sua Alteza, quanto a isso não tem com que se preocupar. Estou pronto para a missão”, declara Adonis, ufanista em relação ao ídolo de olhos azuis e altura desmedida. Na prática, Pedro II era um europeu aprisionado nos trópicos e sofria por demais com as implicações do calor. Havia negros para o abanarem com longas plumas de pavão o tempo inteiro.
A conversa prossegue. O bacharel prevê um território cortado de norte a sul e de leste a oeste por ferrovias, barcaças singrando os rios – transportando gente e riquezas, portos em toda a costa recebendo os eflúvios de desenvolvimento das nações do mundo inteiro. O progresso é uma conquista irreversível da civilização, diz ele. O imperador concorda enquanto fixa a pintura a óleo com a imagem de seu avô, Dom João VI, que pensava o contrário e queria manter o Brasil sob os grilhões de Portugal.
Adonis deitava falação sobre uma tal de segunda onda. Segundo ele, a primeira ocorrera há muitos séculos, quando o homem aprendeu a plantar e criar animais para se alimentar. Deixou de ser nômade e fixou moradia, criando núcleos habitacionais que mais tarde seriam chamados de cidades. A segunda viera com a revolução industrial inglesa, ocorrida no século anterior, e que estava a pouco e pouco mudando a feição da economia mundial. Os homens deixaram de ser escravos e passaram ser remunerados pelo trabalho desempenhado – assim podia ganhar salários e com isso consumir os produtos da indústria nascente.
Os maiorais da província fizeram cara feia na sua chegada e de tudo procederam no objetivo de indispô-lo com a população. Colocaram nele o apelido de “fedelho”, espalharam que era um garanhão e que logo causaria problema para os pais de família – que guardassem suas donzelas a sete-chaves porque aquele moço era um perigo para o recatamento local. Deram, porém, com os burros nágua. O jovem presidente se mostrou respeitador ao extremo e de pronto não se interessou por nenhum moçoila, embora muitas delas suspirassem ante sua passagem, sempre acompanhado de numeroso séquito. Dentre os integrantes, muitos dos que o apedrejavam pelas costas.
Constatou, após um breve espaço de tempo, que o local era impróprio para garantir o desenvolvimento pretendido. A capital da província era distante de tudo, fincada no meio do sertão de dentro. Em redor, apenas a caatinga – muita secura e um sol de rachar a maior parte do ano.
Tratou do assunto com alguns deputados provinciais e foi advertido por um deles que levasse a coisa com jeito pois estava na mira do cacique da província, que era o poderoso ex-presidente Arcano Maldonado – começara a vida como vaqueiro mas não havia medida para sua ganância de poder; e assim chegou a presidente da província, cargo que exerceu por mais de vinte anos, tendo sido destituído por Sua Alteza em virtude dos numerosos crimes de que foi autor.
O deputado Fidelis de Macedo também era jornalista, editor do jornal “O Piauí” e profundo admirador do novo presidente. Na verdade, de tanto denunciar os desmandos dos seus antecessores, caíra em desgraça com os mandatários do lugar e buscava um lugar ao sol.
Adonis o acolheu. “Ajude-me. Coloque notícias em seu jornal que levem o povo a defender a causa mudancista.” E assim Fidelis procedeu. Semanalmente, que era a periodicidade da publicação, saíam matérias e comentários sobre a importância de se transferir a capital. Novamente os grandes do lugar o hostilizaram. Agora, diziam, não haveria mais espaço para ele – não tardava por esperar; bastava que caísse o “fedelho” para que ele fosse expulso de Oeiras com um pé na bunda.

***

Os homens andavam todos armados. Guardavam suas pistolas em coldres de couro de boi que mantinham atadas à cinta. Outros preferiam rifles de cano comprido com os quais podiam abater alguns índios das tribos remanescentes. Eram poucas, contavam-se nos dedos, mas ainda havia delas que não tinham desmoronado completamente ante o absurdo da campanha de aniquilação empreendida pelos colonizadores desde séculos antes.
“O senhor deve andar armado, presidente”, orientou Fidelis.
“Na Corte, esta prática foi abolida há muito”, disse Adonis Boaventura.
Estavam andando pelas ruas movimentadas do centro. Um grupo de pequenos criadores se queixou ao presidente de que não havia estradas para transportarem seus animais para outros centros. Tinham fechado negócios com a Bahia, Pernambuco e até com o Maranhão, mas os custos de locomoção eram altíssimos. Inúmeros bichos se perdiam na jornada.
“Marchem comigo em apoio à causa mudancista, pretendo levar a capital para um outro lugar, em que possamos manter contato com as demais províncias brasileiras e até com outras nações do mundo”, falou ele, ao fim da improvisada audiência, na qual foi obrigado a experimentar, ali mesmo, no meio da rua, de uma talagada de cachaça produzinda em alambique da região. Ficou meio tonto e teve que ser amparado até a sombra de uma enorme figueira, provocando comentários entre os rústicos homens de que seria, na verdade, um maricas, um “macho e fêmea”.
Adonis foi cortejado por muitas mulheres, algumas delas casadas, mas não deu trégua para nenhuma delas. Ainda não era tempo de se envolver com mulher nenhuma, mesmo que fosse apenas por aventura, porque passava a maior parte do tempo debruçado sobre mapas escritos; além de conceder audiências a líderes políticos queixosos de que a transferência da capital não daria certo.
Foram dias de muita tensão. Aqui e ali, Fidelis o conduzia por entre as sombras da noite para uma conhecida casa de diversões, a apenas algumas léguas de distância. Os guardas eram mantidos à certa distância porque se tratava de lugar violento, embora frequentado pelos grandes da província, mas que vez por outra trocavam tiros até se matarem pelo amor de alguma caboclinha dentre as mais formosas.
Numa dessas visitas foi reconhecido por um coronel de araque, que possuía título comprado por ser fazendeiro muito rico, dono de centenas de escravos e milhares de cabeças de gado, um dos maiores seguidores de Arcano Maldonado e ele próprio detentor de mandato eletivo na Assembleia Provincial.
“Ora, ora, se não é o fedelho Adonis, que nos quer tirar do sossego para se lançar, conosco, numa aventura suicida!?”, ironizou Carmelo Botocudo, com nada menos que cinco mandatos parlamentares e ao longo de todo esse tempo nenhum projeto em favor da coletividade.
Ocorre que Adonis admitia muitas provocações. Com algumas, ficava irritado, chegando ao cúmulo de pensar em partir para cima de seus detratores. Ser chamado de “fedelho” era algo que o tirava do sério.
“Espero que vossa excelência se retrate, pois que não aceito provocações, sobretudo em estando num ambiente de lazer e descontração”, disse o presidente. “Estamos aqui para nos divertir, portanto fique do seu lado que fico do meu.”
O deputado cresceu para cima do presidente.
“Lá, em teu palácio, pode ser o presidente da província, mas aqui mando eu”, falou, em tom desafiador, e colocou a mão sobre o cabo do revólver.
Os presentes trataram de se ocultarem atrás de mesas e do balcão; outros preferiram sair do recinto de uma vez que não estavam ali para comer bala.
“Com o que então insiste com a provocação?!”
Nesse momento, vários homens da Guarda Provincial cercaram o deputado Botocudo, que encarou Adonis e disse duramente: “Não pense que o fato de ser o queridinho do imperador poderá livrá-lo de cumprir o seu destino”, ao que o presidente indagou: “E qual seria o meu destino, na sua concepção?”
“Certamente não será aquele que imagina. Lembre-se de que enfrentamos e expulsamos Fidié e toda a canalha portuguesa, de que fomos decisivos pra conquista da independência e que já vivemos tempo demais pra aceitar imposição de quem quer que seja.”
Nos dias que se seguiram, os debates foram intensos no plenário da Assembleia. Os deputados da oposição ainda eram maioria porque predominava o sentimento de repúdio à figura do jovem presidente, principalmente depois que descobriram sua verdadeira intenção, que era fazer do Piauí espécie de laboratório para seu projeto de arquitetura urbana. Fidelis teve muito trabalho tanto na tribuna quanto no jornal mas cumpriu muito bem o seu papel e ganhou lugar de confiança no conceito do presidente, tornando-se seu principal assessor e conselheiro para assuntos políticos.
Muita gente se aproximou pra dizer-lhe que ele corria perigo de vida acompanhando-se com o presidente, porém Fidelis resistiu e permaneceu onde estava, palmilhando apoio de outros parlamentares, passo a passo, porque apesar de estarmos em regime imperial, a província era muito distante e sempre valia a lei do mais forte. Os deputados votavam de acordo com a orientação dos caciques locais, dentre eles Arcano Maldonado, porque a ele muito deviam em razão do seu longo período como chefe do governo provincial.
Fidelis desmonta do cavalo de um salto e coloca o animal diante da residência presidencial. Dirige-se com passos largos para o gabinete de sua excelência para transmitir-lhe informação urgente. Adonis está imerso em leitura e cálculos quando autoriza a entrada de seu fiel escudeiro. “O que temos como novidade?”, indaga. Fidelis: “Estou aqui para trazer-lhe um convite. O ex-presidente Maldonado o chama em sua fazenda. Quer um dedo de prosa com vossência.”
Parecia temeroso em transmitir o recado. Não se dava a tal com frequência, entretanto na condição de articulador imaginou que seria de bom alvitre se conseguissem um entendimento com o Visconde da Guabiraba. A denominação da nobreza se dava em honra ao lugar em que nascera. “E vosmecê, o que pensa disso?”, questiona Adonis. Estava a alguns passos apenas de deflagrar o processo de transferência. Já tinha até o local, para o qual se dirigiria em alguns dias, na companhia, é claro, do amigo Fidelis, de guardas confiáveis e bem armados, todos que vieram com ele do Rio, e de algumas quengas que havia encomendado à Madame Nora, com quem mantinha estreita ligação.
Diante do poderoso fazendeiro, manteve altivez. Era presidente, tinha garantias legais para tomar a decisão que julgasse conveniente no melhor interesse da província.
“Chamei-o aqui para tentar sensibilizar vossa excelência. Sabe que temos empreendido grande luta por este lugar, conquistas que foram difíceis, muitos pagaram com a vida. Conhece a história da nossa independência?”
“Sim. Como não? Li muito sobre o assunto antes de aceitar a incumbência que me foi conferida por Sua Alteza Imperial.”
“Então deve saber que Oeiras é das mais antigas povoações brasileiras. Era rota de passagem no começo do período colonial. Prosperou com dificuldade até tornar-se decisiva na conquista da liberdade ante os portugueses. Este velho que agora está diante de vossência emprestou o próprio sangue em sacrifício patriótico e está vivo por um milagre do Criador. Temos aqui nossas repartições, nossos funcionários públicos, a central de coleta dos nossos impostos, todos se encaminham para cá. É verdade que estamos distantes de tudo e de todos. Mas não resta dúvida que estamos geograficamente bem posicionados e algumas obras de infraestrutura bastariam para melhorar nossa ligação com o restante da província e da nação. Vê que nossa produção na agricultura é fraca, que também não somos grandes criadores. O que fazemos é política e vivemos em torno dela. Transferir a capital para outro lugar seria o mesmo que nos estrangular, que nos condenar à morte por inanição.”
Pra um ex-vaqueiro até que falava bem o danado, pensou Adonis Boaventura, mas estava decidido e entendeu de não dar ouvidos aos argumentos do velho. Disse para ele que pensaria com carinho no diálogo e oportunamente o procuraria para um desfecho em torno do delicado tema. Não procurou e nem aceitou mais convites de Maldonado.
Notou que a fazenda era como uma fortaleza, repleta de marginais armados até os dentes e com os quais o poderoso homem poderia fazer frente às tropas legais. Tinha que arredar-se dali o quanto antes, fundar uma cidade e proteger-se o quanto melhor porque sem dúvida haveria reação de maior gravidade. Que, a propósito, não tardaram de acontecer.

***

Estava andando do palácio do governo em direção à coletoria para se entender com o coordenador sobre a arrecadação da semana e que destino seria dado aos recursos. Pretendia também agendar um deslocamento para a região conhecida como Chapada do Corisco, situada na margem do caudaloso rio Parnaíba, já bem perto do encontro com o rio Poty. O lugar era recomendado pelo mestre de obras Severiano Gaudêncio, cidadão modesto e muito trabalhador a quem se confiava os serviços de construção e reforma dos prédios públicos e obras diversas.
Súbito, dois homens passam a cavalo em disparada. Um deles está de pistola na mão e mira em direção ao presidente. O guarda que estava mais próximo joga-se na frente da autoridade e recebe o tiro em cheio no peito morrendo de imediato. O outro guarda consegue sacar sua arma e atira contra o pistoleiro, que recebe a bala no ombro e cai no solo empoeirado da rua principal. Pessoas correm de um lado para outro em busca de proteção. O outro elemento foge na maior carreira que seu animal podia empreender. É o próprio presidente que cuida em persegui-lo valendo-se para tanto do cavalo cujo cavaleiro estava, naquele exato instante, tendo o coração trespassado pela espada afiada de um dos homens da guarda provincial.
O outro ainda se vira e dispara contra o presidente, que segue adiante na perseguição até alcançá-lo meia légua depois, em plena mata, saltando sobre o pistoleiro e caindo sobre ele. A luta que se seguiu foi encarniçada, pois o homem já não tinha bala em sua arma de fogo porém contava com uma adaga amolada por demais. Investiu contra Adonis, que tinha pouca prática de luta corporal, contudo o pouco que sabia foi suficiente para tomar a arma do elemento e imobilizá-lo em questão de alguns golpes apenas.

***

Naquela mesma tarde, o ex-presidente Arcano Maldonado recebeu em sua residência um decreto do atual presidente, determinando sua prisão domiciliar e informando que não seria imediatamente transferido para presídio de segurança por conta da idade avançada. O deputado Carmelo Botocudo teve o mandato suspenso sob acusação de conspiração contra o governo provincial, o que significava também crime de lesa-majestade, tendo em vista ser o presidente indicado diretamente pelo imperador. Atentar contra ele era o mesmo que atentar contra Pedro II. Maldonado resignou-se, não tinha mais idade para tal enfrentamento, mas se aquele fedelho tivesse aparecido por aqui alguns anos antes, seguramente se veria com ele. Botocudo, entretanto, não teve a mesma atitude. A princípio, ficou irado. Depois, fingiu acalmar-se e foi até a camarinha. Familiares escutaram o único disparo e acorreram para a alcova em que o deputado jazia com uma bala enfiada na cabeça. Matara-se por não suportar a vergonha de ser derrotado politicamente por um “fedelho” que sequer tinha origem política.

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