domingo, 16 de maio de 2010

ASSOMBRAÇÃO



Lázaro e Policarpo eram amigos. Um dia, eles se desentenderam. Parece que havia uma intriga anterior. Haviam discutido por causa de uma garota. Mas isso todos sabem apenas de ouvir dizer. Foi briga feia. Coisa feia é dois homens brigando. Você já viu dois homens brigando de verdade?! Pois então sabe do que estou falando... Eles haviam discutido num cabaré da cidade. Era de sexta pra sábado, na feira dos bichos. Começaram a beber muito cedo, logo depois do apurado, tu sabe. Eles vêm do interior trazendo aqueles bichinhos pra negociar, é galinha, capote, carneiro, bode... depois pegam parte do dinheiro, ou até mesmo o dinheiro todo, e vão gastar nas mesas de jogo ou nos quartos das raparigas. Então, Lázaro e Policarpo se conheciam de muito tempo, desde rapazes, e sempre se deram muito bem, mas nessa noite a coisa esquentou.

A garota se insinuou para os dois. É verdade, ela deu bola pros dois e depois ficou jogando um contra o outro. É jogo de rapariga pra ganhar mais dinheiro, fica fazendo esse tipo de coisa. Aí eles dois discutiram e andaram trocando uns socos, mas chegou a turma do “deixa-disso” e apartou. Cada um foi pra seu lado. Anos mais tarde, os dois voltaram a se encontrar, desta vez na construção de uma estrada no interior do Pará, naqueles tempos de Juscelino...

A briga agora foi numa mesa de jogo. Desta vez não houve quem apartasse. Lázaro e Policarpo se atracaram e o pau comeu!! Eles estavam armados, cada qual com a sua faca, e ficaram naquela confusão pela madrugada adentro. Na beira do rio Amazonas, Lázaro deu um golpe terrível em Policarpo, bem em cima da clavícula, que abriu o camarada de alto a baixo. Foi morte certa, doída, demorada. Policarpo caiu na água e ficou gritando até se perder na escuridão daquelas águas barrentas. Lázaro conseguiu fugir, o corpo do rival nunca foi encontrado.

Ele veio se esconder em Altos. Na propriedade de um compadre seu por nome Elias, no lugar Segurança, bem aqui pertinho, coisa de 3 km da cidade. Sabe onde fica? Pois é. Ele ficou escondido lá foi tempo, esperando algum chamado da Justiça, mas nunca veio e então ele ficou mais tranquilo. Certo dia, bem um ano depois, ele disse para o compadre que queria dar uma volta pela propriedade, armar uma espera, caçar uma pacas, alguns veados, quem sabe... Elias o advertiu de que ainda era muito cedo, a família do morto estava desconfiando da demora, não tinha notícias e isso sempre traz muita aflição. Além do mais, nunca se sabe, pode ser que eles soubessem da verdade e tivessem apenas esperando a ocasião certa pra agir.

Ele tava angustiado, queria sair de dentro de casa, já não aguentava mais aquele isolamento, as paredes pareciam sufocá-lo. Elias, vendo que nada poderia fazer, achou por bem deixar o compadre dar essa volta e liberou pra ele uma espingarda e munição. Lázaro foi pro mato, armou a rede na copa de uma árvore bem alta e ficou esperando, pertinho de um olho d’água. Era ali que os bichos vinham beber à noite. Passou muito tempo acordado, até que o sono bateu. Começou a sonhar com coisa ruim, visagem, essas coisas. De repente, acordou sobressaltado, havia um barulho esquisito nas folhagens lá embaixo. Pegou a arma e apontou em direção ao olho d’água, no entanto não deu tempo de nada. Quando ele menos espera lá vem subindo aquele negro pequeno, com um saco grande amarrado na cintura. O negro partiu pra ele e o agarrou pelo meio, querendo colocá-lo dentro do saco...

Isso mesmo, pelo menos foi o que ele contou depois... O tal do negro, que era ligeiro que só vendo, queria porque queria colocar ele dentro do saco. Lázaro deixou a espingarda cair, então puxou do facão e ficou se defendendo. Mas o negro parecia o cão e vinha pra cima dele o tempo todo, parecia não sentir os golpes ou então se desviava com uma rapidez impressionante. De longe Elias ouviu os gritos, acordou a vizinhança e partiram todos em defesa do Lázaro. Quando chegaram na espera, encontraram o coitado atacando o vazio com o facão e gritando “me acudam, me acudam, é o Policarpo que mandou me buscar”.

Depois, ficou num estado deplorável, nem parecia aquele homenzarrão disposto que ele foi um dia. Foi internado num sanatário em Teresina e lá permaneceu por muitos anos até sua morte definitiva.

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