sábado, 22 de maio de 2010

ANÍSIA E OUTRAS MULHERES



Intimidade é intimidade. Nunca é bom falarmos com estranhos sobre nossas coisas pessoais, principalmente quando se trata de alguém como eu, que me conduzo quase sempre por caminhos tortuosos. Meu primeiro encontro com o álcool se deu depois de Anísia. Ela foi a primeira garota de quem gostei de verdade. Tinha alguns anos a mais que eu, mas eu não me importava porque ela era linda, loira, tinha olhos azuis e um corpo escultural.

Ela parecia estar em mim mesmo antes de eu conhecê-la, por isso quando a vi pela primeira vez fiquei fissurado. Era atendente numa loja do centro de Teresina. Estava com minha mãe comprando roupas para ela quando me deparei com aquele riso encantador. Ela nos tratava como clientes, porém passou a olhar para mim com um pouco mais de interesse, especialmente quando sentiu que eu já a olhava com um pouco mais de interesse.

Lembro-me que passei diante da loja com Gonzaga e Geno. Andávamos no carro de Gonzaga, um Chevette antigo que ele cultua como se fosse uma raridade. Tem um som possante e coloquei a música do Roupa Nova, Linda Demais, e então fiquei cantando diante da loja e chamando seu nome. Ela veio até mim e pediu que eu parasse com aquilo porque poderia dar problema com seu chefe. Parei de cantar mas não desisti de ficar esperando por ela.

Caminhamos juntos até a praça Rio Branco. Meus amigos partiram com destino a algum bar das imediações. Eu os encontraria depois. Mas isso não importava. Eu estava ao lado de Anísia e isso era tudo para mim naquele momento.

“Você é linda.”

“Não sabe dizer outra coisa.”

“Não.”

“O que quer de mim, afinal?”

“Você. Eu quero você.”

Sorriu. “Você é muito novo. Quantos anos tem?”

“Quatorze.”

Ela sorriu mais ainda, os dentes brancos, perfeita disposição. “Não faz sentido. Que menino maluco e danadinho! Sabe quantos anos tenho? Tenho 22. É isso mesmo. Sou adulta e não quero ser chamada de pedófila por aí.”

“Garanto que não será.”

“Como assim, garante?”

“Ninguém precisa ficar sabendo.”

Ficamos sentados um bom tempo no banco da praça. O comércio estava fechando suas portas. Havia muitos braçais carregando material de camelôs. O lugar estava esvaziando aos poucos. Em algum lugar que não conseguíamos identificar alguém estava escutando a música do Paralamas do Sucesso, Alagados.

“Queria entender vocês, homens, que mesmo novinhos são safados.”

“Peço que não me entenda dessa forma...”

“E deveria entendê-lo como? Ora, Juliano, percebe-se que você quer apenas sexo. Está encantado com a possibilidade de transar comigo.”

Ela podia até ter razão, mas eu sentia que era muito mais do que isso.

“Claro que você está enganada. Estou gostando mesmo de ti.’

“Como pode?! Me viu apenas uma vez, não sabe quem sou, de onde venho, o que faço na vida...”

“Epa, alto lá! O que faz na vida sei muito bem. É vendedora em loja do centro.”

Ela sorriu novamente aquele sorriso lindo. Nunca pensei que fosse me ligar tanto no sorriso de alguém.

Anísia cedeu aos meus argumentos e trocamos beijos calorosos ali mesmo, em meio a toda aquela movimentação de gente suada e barulhenta, enquanto ao longe Herbert Viana entoava sua canção...

“Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria...”


Meu pênis ficou todo úmido com uma substância preparatória ao coito. Confesso que fiquei tentado a tocar em suas partes íntimas, mas não queria estragar tudo, e ficamos apenas nos abraçando e beijando. De vez em quando ela me olhava, passava a mão em meus cabelos e dizia do quanto estava sendo louca por entregar-se daquela forma a uma criança.

“Mas beijo e abraço não é entrega total.”

Cheguei em casa em estado de júbilo. Fui imediatamente para o banheiro e toquei uma demorada punheta. Via Anísia inteiramente nua diante de mim, abrindo-me suas pernas e seus segredos, deixando-me entrar cada vez mais fundo naquela gruta de sabores inúmeros. Retive o gozo o quanto pude. Queria segurar em mim aquela sensação gostosa que acomete os sinceramente apaixonados.

“Quem é você que de repente encheu de luz o meu caminho...”

Nos encontramos várias outras vezes, sempre no final do expediente. No sábado, ela saía às 13h. Eu estava sempre lá, à sua espera, lamentando não ter nenhum dinheiro para levá-la a um bom restaurante. Tio Valdêncio me dizia que garotas gostam de bons restaurantes. Numa vez, ele me arranjou a grana e a convidei para irmos ao Comidas Típicas do Centro Artesanal. Comemos uma galinha ensopada com arroz de cenoura e uma salada no vapor. Que delícia!, ela repetia e passava a mão em meus cabelos. “Meu Deus, como você é lindo.”

Ficamos juntos por dois meses. Transamos na quinta semana. Ela me levou até o apartamento de uma amiga, ali mesmo no centro, disse que morava longe, na periferia e que seria muito desagradável apresentar-me aos pais como seu namorado. Eles não entenderiam por causa da minha pouca idade mas confessou que estava sentindo um negócio muito louco por mim, que poderia perfeitamente ser entendido como paixão e que ainda era muito cedo para falar de amor.

Fiquei embevecido com a tonalidade de sua pele branquíssima, parecia alguém vinda de outra região do planeta, uma nórdica, quem sabe, porque na TV os nórdicos sempre aparecem muito alvos e aquilo me deixou sem palavras. Fiquei beijando todo o seu por um tempo que para mim pareceram alguns segundos apenas mas que na contagem do relógio demorou bastante. Fiz sexo oral com ela sem nenhum constrangimento e em seguida ela também fez o mesmo comigo. Todas as preliminares foram cumpridas e ao atingir o clímax Anísia me perguntou onde eu aprendera todos aqueles truques.

“Sou um mestre nas artes do amor.”

Se ela soubesse... mas isso não vem ao caso agora...

“Jamais quero ter que dividi-lo com alguém. Quero que fique sempre ao meu lado. Promete, meu pequeno amado?”

Foi assim que ela passou a me chamar. Pequeno amado. Fazia planos para quando eu completasse 18 anos. Me levaria até sua casa, me apresentaria aos pais e aos demais familiares e finalmente assumiríamos nossa relação. Fiquei sonhando com aquilo e imaginando que ainda levaria muito tempo, porém quanto mais tempo melhor, porque aí teria como aproveitar o máximo daquela relação.

“Sou mais velha que você. Promete nunca me deixar?”

“São apenas oito anos. Por que todo esse drama?!”

“Tu é muito gostosinho, meu pequeno príncipe, as garotas ficam loucas por ti só de olhar e eu fico louca de medo de te perder. Promete, vai?...”
“Prometo. Serei teu pra toda vida.”

BONS AMANTES...

Os bons amantes têm que ler muita poesia, precisam estar sempre repletos de inspiração para dizer belas palavras para suas amadas e contar que elas sejam receptivas para tudo aquilo que dizem. Li um poema de Drummond em que ele afirma: “Nunca diga o santo nome do amor em vão.” Olhava para Anísia, lia para ela e dizia: “Eu te amo.” Ela me respondia com o mesmo olhar de encantamento e falava: “Eu também te amo.”

Dizemos muitos “eu te amo” ao longo daqueles poucos meses. Já bem perto do final ela passou a me cobrar ciúmes intensamente. Não podia me ver conversando com nenhuma garota que ficava logo querendo saber quem era, do que estávamos tratando e assim por diante. Quando uma colega me cumprimentava na rua, então, ela ficava fazendo questionamentos do tipo: “Quem é essa espevitada?”

Nada a ver, mas vá entender as mulheres!

Naquela tarde de sexta-feira havia muita animação na rua. Fui ao calçadão da Simplício Mendes esperar por ela, que sairia do trabalho às 18h. Fiquei por ali matutando num banco nada cômodo até que apareceram duas colegas da escola. Eram muito simpáticas e estavam retornando do cinema. Decidiram parar e conversar um pouco, trocar ideias sobre coisas de adolescentes, o filme que haviam assistido, roupas da moda, recomendaram até que eu usasse um brinco na orelha esquerda. Ficaria ainda mais bonito, me disseram.

Apesar de animado com a conversa, entendi que já estava se aproximando a hora fatal e que Anísia chegaria a qualquer momento. Não gostaria nada de me ver ali conversando com duas garotas!

Dito e feito. Ao nos ver, nem se aproximou. Estava a uns quarenta metros quando deu meia volta e seguiu em passo acelerado. Não pude alcançá-la porque havia machucado o pé numa partida de futebol naquela mesma tarde. Tentei apressar também mas não consegui, a dor era intensa, então eu chamava seu nome e ela fingia não me ouvir.
Quando cheguei ao ponto ela acabara de entrar no ônibus. Fiquei na calçada, olhando-a partir, totalmente desolado e sem saber o que fazer daquela noite, da minha vida.

Passei a noite em claro, em meu quarto, contando estrelas. Não tinha ânimo nem para ouvir música. No dia seguinte fui esperá-la. Não houve um término propriamente dito, mas eu entendi que nossa relação terminara ali, nem tanto por ela, nem tanto por mim. Havia algo maior que nós dois, talvez a idade, talvez a condição social. Anísia tinha vergonha de morar na periferia que ela insistia em chamar de “fundão”. “Você não vai gostar de conhecer ‘o fundão’”, ela me dizia. E eu respondia que onde ela estivesse era bom para mim. Sua existência já era suficiente para me completar. Estava muito romântico, pode crer, mas aquilo de nada adiantou.

Ficamos juntos pela última vez naquele sábado. Ela me apresentou uma amiga chamada Luciana, que nos acompanhou até a praça Pedro II.

“Por que fez aquilo?”

“Você me prometeu que nunca me trairia.”

“Mas eu não a traí.”

“Então quem eram aquelas espevitadas?!”

“São apenas conhecidas da escola. Não tenho nenhuma ligação maior com elas. Foi a primeira vez que falamos por mais de cinco minutos...”

Tentei argumentar de todas as formas. Estava irredutível. Parecia querer encontrar, a todo custo, um motivo para me dispensar.

Convidei-a para assistirmos a um filme. Ela aceitou com muita relutância. Entramos no cinema para ver Garota Dourada.

Ricardo Valente é um surfista muito louco. Ele é abandonado pela mulher e decide se mudar para o litoral. Lá, conhece Diana, a garota dourada, e se apaixona por ela. Só que ela já tem um pretendente. Trata-se do cruel Betinho, que faz de tudo para afastar Valente de seu caminho. Lógico que ele não consegue. No The End, o surfista fica com sua musa e são felizes para sempre.

“Pensei que estávamos vivendo um caso de amor único.”

“Não existe caso de amor único. Fico triste em te dizer.”

“Não sou mais seu pequeno amado?”

“Você será sempre meu pequeno amado. Mas aqui, ó...”, e apontou para sua a própria cabeça, completando: “Em minha mente. Minhas lembranças...”

Partiu me deixando com lágrimas nos olhos. Pediu-me que eu não a levasse ao ponto. Queria caminhar sozinha até lá.

Nunca descobri suas razões. Penso que ela tinha um noivo, sei lá, quem sabe fosse até casada. Não fiz força para descobrir porque imaginava que assim ampliaria meu sofrimento.

E sofri bastante, pode crer!

OUTRAS MULHERES...

Decidi pegar Luciana, a amiga de Anísia. Ficamos algumas vezes mas ela era muito recatada. Queria transar mas não queria fazer sexo oral. Não podia aceitar relação com uma garota assim. Ela me disse que eu era muito avançado pra minha idade e me deixou. Fiquei tentado em dizer-lhe “já vai tarde!”, mas pensei que poderia reencontrá-la numa carência qualquer em futuro próximo. Era sempre bom ter uma carta na manga.

Naqueles dias de 1982 ainda estávamos muito sentidos com a derrota da Seleção Brasileira na Copa da Itália. Eu, duplamente afetado: a perda do título mundial de futebol da Espanha, onde seríamos tetra, e a ausência de minha doce Anísia. Gonzaga e Geno ficavam o tempo inteiro me dando força e dizendo que viriam outros campeonatos e que seríamos campeões sem dúvida em 1986. Diziam também que surgiriam outras mulheres como Anísia. Eles estavam enganados. Mas eu ainda não sabia, eles tampouco.

Conheci Rosângela num fim de tarde na praça Pedro II, que naquela época já começava a ser frequentada por homossexuais e prostitutas. Ela era apenas uma jovem comerciária, tal qual Anísia, e talvez isso tenha me impelido em sua direção. Morena, cabelos longos e cheios, olhos sublimes e um corpo divino. Nunca entendi por que essas mulheres belíssimas se interessam por mim!

Não disse meu nome verdadeiro. Dali por diante decidi ser um pegador sem escrúpulos. Rosângela gostava de uns amassos. Geralmente ficávamos ali mesmo, na praça, ou então entrávamos no cinema. Algumas vezes fomos a uns quartinhos de aluguel no centro, coisa de pobre mesmo, com paredes encardidas, cama de solteiro e um ventilador. Ela me induzia ao sexo apenas com o olhar.

Nossa relação durou poucas semanas. Ela tinha um namoro firme com o ascensorista do comércio em que trabalhava. O cara estava desconfiando de suas saídas. Ela dizia para ele que estava com as amigas – mas não era possível que todo dia tivesse o mesmo programa. Mesmo assim, senti saudades de seus olhos súplices e seus lábios doces e carnudos. Fiquei me remoendo por bem uns três ou quatro dias e até deixei crescer uns fios de pêlos que me havia pelo rosto.

Logo, apareceu Marina, que eu conheci na saída de uma boate do centro. Ela me deu bola e eu me aproximei perguntando qual era seu nome. Conversamos pouco e em seguida nos beijamos. Havia uma química poderosa na minha forma de beijar, mas não posso dizer para você. É um segredo que trago comigo desde esse período e até imagino que seja por isso que tenho tanta sorte com as mulheres.

Há também uma história que conto para as meninas e que as deixam doidinhas para ficar comigo, nem que seja por uma noite apenas. Quem sabe um dia eu decida contar.
Marina era bem alta, muito mais que eu, e queria entrar para a Seleção Brasileira de Voley. Nunca achei que ela conseguiria. Creio que tenha desistido ao cabo de alguns anos. Mas naquela época fomos felizes, até porque tínhamos praticamente a mesma idade. Ela estava com 15 anos, eu tinha 14.

Minha mãe reclamava. “Por que tantas mulheres. Você nem tem idade.”

Lembrava de meu pai. Ele me dizia: “Um homem é reconhecido pela quantidade de mulheres que conquista ao longo da vida. Mas é respeitado ao se fazer gostar por todas elas.”

No caminho para a casa de Marina conheci um sujeito musculoso e de fala mansa. Era professor de educação física e perguntou se eu não gostaria de fazer uma viagem com ele. “Como assim, uma viagem?!”

Ele me respondeu que era uma viagem na qual a gente não sai do lugar. A mente é que se desloca por lugares os mais diversos e distantes. Havia experimentado cigarro algumas vezes. Não vi nenhum mal em fumar uma maconha com Sandoval.

Algum tempo apareceram outros que foram preenchendo uma necessidade cada vez mais ampla que eu tinha pelo produto infame. Em menos de um ano Sandoval desapareceu das ruas. Consta que teria sido apanhado pela polícia e processado por indução de menores ao vício. Pegou uns anos de cadeia mas conseguiram aliviar sua pena para internação numa clínica psiquiátrica. Os pais tinham condição.

Há alguns meses eu o vi caminhando numa rua do centro. Parecia um zumbi, sem vida, o olhar perdido. Seu corpo era magro, nem de longe lembrava o antigo professor de educação física, verdadeiro “pecado” para as menininhas de sua geração.

Com Marina, não houve sexo, apenas aquele contato de pele que nos deixa irados e faltando pouco explodir de desejo. Achei que não fazia sentido ficar com alguém que não fazia amor e então a dispensei. Ela ficou estupefata ao me ouvir dizendo que não dava mais para continuarmos. Nunca imaginou que seria dispensada e até disse que estava gostando de mim.

“Lamento.”

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