
Miguel Valente trabalhava para o jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1959, quando Fidel Castro, Che Guevara e companhia limitada assumiram o poder em Cuba. Quase meio século depois ele recorda daquele dia como se fosse ontem porque representou para ele uma oportunidade única de tornar-se mundialmente famoso. No entanto, estava lutando pela própria vida no meio de um fogo cruzado.
De um lado, os soldados do exército de Fulgêncio Baptista, o presidente constitucional; de outro, os comunistas, que brigavam pelo poder alegando que o povo cubano era explorado por Fulgêncio e que as riquezas do país eram cedidas para os Estados Unidos sem a devida contrapartida.
“Havia intensa propaganda de parte a parte, mas no fim os comunistas levaram a melhor porque havia muita pobreza. Fidel e seu pessoal conseguiram fazer a população acreditar que a ilha tinha enorme potencial inexplorado e que um governo popular poderia tranquilamente garantir a exploração destes valores e assegurar uma justa distribuição da renda”, relata Valente em conversa com o autor.
Valente afirma que despachava suas matérias todos os dias. Eram textos escritos à máquina sob supervisão do departamento de imprensa do governo Baptista. “A lauda tinha 30 linhas de 70 caracteres, algo em torno de 2.100 caracteres. Até que não era muito difícil tratar sobre a política cubana, os políticos viviam se exibindo para a imprensa, sobretudo os jornalistas estrangeiros, o grande problema era fazer com que os censores aceitassem o material. Muitas vezes a matéria estava pronta para ser enviada e a gente tinha que cortar tudo, escrever tudo de novo”, comenta.
A poucos dias da invasão, Miguel Valente foi chamado no Palácio Presidencial. Fulgênio Baptista estava acompanhado do general Zenóbio Dantas, que era o ministro do Exército e homem forte da segurança nacional. “Um torturador nato. Deve ter matado pra mais de cinquenta pessoas, entre culpados e inocentes. Ele matava comunistas, tinha ódio por eles, os seguidores de Fidel Castro eram seu brinquedo predileto. Os porões do governo estavam repletos de cadáveres insepultos, uma podridão, se quer saber”, revela.
Chegou ao palácio e deparou-se com uma situação totalmente incomum e que representava perigo real para sua vida. “Fulgênio era um homem sedutor, um sujeito de hábitos aparentemente refinados. Na verdade, viveu sempre às custas do poder. Sua família mandava no país há muitas décadas. Ele nunca soube o que era trabalho, esforço pessoal para conquistar objetivos. Ganhou a presidência de presente do pai, que havia ganho de presente do avô e assim sucessivamente. Uma sucessão efetivamente hereditária”, ironiza.
Fulgênio aproximou dele e falou mansamente que gostaria muito de contar com sua ajuda para livrar o país de uma situação de perigo. Disse que Cuba estava em risco de cair nas mãos dos socialistas sob o controle da União Soviética e que seria o fim para a sociedade cubana. Claro que Fulgêncio Baptista falava por si porque apenas a elite fazia jus às benesses do poder e obtinha alguma vantagem fora dele. A economia girava em torno dos hotéis e cassinos à beira mar. O Malecón, gigantesco calçadão de frente para o mar do Caribe, em Havana, era ponto de prostituição. Os homens ricos dos Estados Unidos iam para Cuba apenas para se divertir com suas belíssimas negras e mulatas.
“Jogo e prostituição eram o grande negócio. Fulgêncio era presidente e também o maior empresário. Tinha hotéis, restaurantes, postos de combustíveis, era dono das empresas de ônibus, das companhias de táxis, dos aeroportos e assim por diante. Era literalmente onipresente”, diz o jornalista afetado por uma angústia notável. Ele toma um gole d’água explica, explica que tem problemas renais como saldo da velhice e prossegue em suas lembranças.
O presidente queria que o jornalista se aproximasse de Fidel sob pretexto de fazer com ele uma entrevista e o executasse. No começo da década, Miguel Valente havia entrevistado Fidel Castro quando de sua prisão. Na condição de jovem advogado, o comandante foi acusado de incitar trabalhadores rurais contra o regime e amargou cinco anos de reclusão. Após a soltura, viajou para os Estados Unidos, recrutou apoio e empreendeu a revolução.
Miguel relutou. Disse ao presidente que não fazia sentido algum, que era apenas um jornalista e não tinha prática nenhuma com armas. Além do mais, Fidel estava muitíssimo bem guardado por seus seguidores. Chegar perto dele com uma arma e atirar contra o comandante era missão impossível. De outro lado, não havia como saber sua exata localização. Ele estava sob proteção e seu paradeiro era mantido sob sigilo. Somente seu irmão Raúl Castro e o médico argentino Ernesto Guevara Serna, o Che, tinham informações sobre a localização do comandante guerrilheiro.
A movimentação era intensa em Havana, milhares de pessoas deixavam suas casas em busca de proteção por temerem. Temiam serem atingidos no confronto que fatalmente se daria entre a guarda nacional e os revoltosos. Os sinais do enfrentamento cercavam a capital na forma de longas espirais de fumaça decorrentes de tiros e explosões, cujo barulho era ouvido cada vez mais perto.
“Eu disse ao presidente que não atenderia seu apelo mas ele colocou algumas fotos na mesa em minha frente. Eram imagens de minha mulher e minha filha, que ele mantinha em lugar incerto e não sabido. Neste momento, o general Zenóbio segurava o cabo da pistola, prevenido contra uma possível reação intempestiva, irada, de minha parte. Fiquei sem saber o que fazer, a vida de minha família estava nas mãos daqueles homens. Eu tinha que matar Fidel. Mas como?”, enfatiza.
O velho encara o repórter do alto de seus oitenta e poucos anos e continua falando sem parar. Relata que fez contato com núcleos da guerrilha alojados na periferia. Um deles, Ramón, prometeu de levá-lo até onde estavam Raúl e Che. Valente pensou em aproximar-se de Fidel, apoderar-se da arma de um dos seus guardas e executá-lo sem demora com um tiro na cabeça. Garantiria a liberdade de sua pequena família ao mesmo tempo em que atenderia o projeto de Fulgênio Baptista: a morte de Fidel, ele imaginava, colocaria um ponto final na revolução.
Conseguiu chegar até Fidel com muita dificuldade. Alegou que gostaria de uma declaração do líder horas antes da possível capitulação do poder vigente e que a matéria deveria ser publicada no Brasil e América do Sul dali a quarenta e oito horas. O comandante também posaria para fotos que seriam reproduzidas em jornais do Cone Sul e que certamente chegariam aos Estados Unidos, com quem o guerrilheiro já estava rompido. Os americanos lhe negaram apoio. Optaram por apoiar o presidente. Os revolucionários conseguiram ajuda do Kremlin. Era o auge da Guerra Fria.
A matéria de Valente seria de grande serventia para Castro e seus seguidores. Somente por isso o jornalista conseguiu chegar até o guerrilheiro pelas mãos de fontes muitíssimo privilegiadas que ele não revela até os dias atuais “nem a peso de ouro.”
“Estava nervoso e suando muito. O comandante bem ali na minha frente, falando sem parar, como é de seu costume, eu imaginando em meter-lhe uma bala na cabeça e não sabia como, porque sequer tinha uma arma. Os homens que o guarneciam eram autênticos cães de guarda, não descuidavam um só instante, em número de três. Pareciam dispostos a matar e a morrer. Tudo em nome da causa. Fidel era como um santo para eles. Pensei na hora: se eu conseguir matar o homem, jamais sairia dali com vida. De fato. Porém pensei em minha mulher e filha. Eu tinha que conseguir, tinha que matar Fidel Castro”, assinala.
Havia uma mulher entre eles. “Era Anita, amante de Fidel, mas que, muitos diziam, também transava com Raúl e Guevara.” Valente pernoitou num acampamento na selva. No dia seguinte andaria alguns quilômetros até um reduto ainda mais escondido aonde se encontrava o líder. Seus planos não foram percebidos. Pelo menos, não de imediato. Mas seriam. E aquilo seria muito ruim para ele.
Por pouco não perde a vida no meio da selva. “Pelo menos o clima era muito agradável – apesar dos mosquitos. Fazia frio a maior parte do tempo.” Fidel estava angustiado ao recebê-lo. Parecia não acreditar no que estava acontecendo. A guerrilha estava chegando ao final. Ele estava prestes a se tornar o chefe supremo da nação cubana. Mas ainda tinha um problema muito sério a resolver: Camilo Cienfuegos era bem mais popular e queria ser presidente.
“Perguntei a ele o que pensava em fazer logo que assumisse o poder, sua primeira providência como chefe revolucionário”, relembra Miguel Valente. “O guerrilheiro me olhou, ainda não era um bandido internacional mas apenas um político em ascensão que, acredito sinceramente, gostaria de melhorar a vida da maioria. Mas o poder corrompe. Fidel foi corrompido por ele.” Pretendia executá-lo ao final da entrevista avançando sobre a arma de algum dos guardas e logo em seguida fazendo Anita de refém.
“Anita era mulher conceituada junto aos guerrilheiros. Percebi quando ela sussurrou algo no ouvido de Fidel. Foi pouco antes de ele me receber em sua cabana. Era uma armação rústica de lona, folhas verdes e galhos retorcidos no meio da mata. O gigante barbudo estava de pé na entrada da toca e parecia me chamar ao seu encontro. Então ela se aproximou e disse algo bem baixinho para ele. Fidel me olhou furiosamente e fez um sinal para Raúl, seu irmão e cão de guarda. Che estava a alguns metros ajudando outros elementos a tirarem o couro de um animal abatido. Parecia, a mim, um veado. Mas não sei direito. Raúl segurou o cabo da pistola e caminhou em meu rumo. Daí ouvimos tiros, explosões e gritos. Os homens de Fulgêncio haviam seguido em nosso encalço. Eles chegaram para arrebentar com tudo, fortemente municiados e disparando sem piedade. Havia linhas de contenção em redor do acampamento, várias delas, e foi por isso que Fidel conseguiu escapar ileso. Fulgêncio jogara sua última cartada naquele ataque, ato de total desespero. Se eu eu não conseguisse, e não conseguiria, porque não sou assassino, seus matadores vinham logo atrás e cumpririam a tarefa. Nem uma coisa nem outra. Consegui escapar embrenhando-me na floresta densa, seguindo o rastro de alguns guerrilheiros covardes que, como eu, apenas queriam preservar a própria vida. Estavam desiludidos com o movimento e talvez soubessem, dias antes da marcha sobre Havana, que Fidel era um sujeito frio, sanguinário, apenas sedento pelo poder, como todo e qualquer ditador.”
Miguel Valente toma uma dose de conhaque. Um jovem que organiza seus escritos entrega ao repórter os originais de um livro intitulado “Minha história em Cuba” que ele escrevera há décadas e que pretendia publicar. “Nunca consegui editora. Naquele tempo a imagem de Fidel Castro e seus sequazes era muito romantizada tanto pela direita quanto pela esquerda. Os donos de editoras não queriam se comprometer. Um livro contra Fidel não venderia nada. O contrário de livros a favor dele e de seus matadores, que vendiam aos montes, como se eles fossem realmente pessoas preocupadas com o bem estar social. Nunca houve esta preocupação. Sou testemunha ocular de tudo o que aconteceu na ilha nos dias subsequentes. E escapei com vida por muito pouco. Consegui resgatar minha mulher e filha porque elas se esconderam num recanto do palácio presidencial logo após a fuga de Fulgêncio Baptista e seus ministros. Muita gente do antigo regime se refugiou ali e foi fuzilada. Minha família, graças ao Criador, escapou sem um arranhão. Como jornalista eu havia construído uma excelente rede de relacionamentos, igual à que me levara até o barbudo. E foi por meio destes amigos, muitos tombados em sacrifício pela crueldade do tirano, que consegui embarcar para Miami e logo em seguida para o Brasil. O pessoal do Diário de Notícias ficou felicíssimo em me ver. Escrevi a melhor reportagem de toda a minha vida. Foram inúmeros prêmios. Dei palestras ao longo de meses a fio. No Brasil, outra revolução estava em curso, tão ruim quanto aquela. Mas essa é outra história sobre a qual podemos tratar oportunamente.”
O jornalista pergunta se Miguel gostaria de voltar a Cuba para ver a quantas anda a revolução socialista dos Castro. “De modo algum. Sou persona nón grata para o regime castrista. Mesmo que o ditador esteja doente, quase à morte, isso não importa. Meu nome foi lançado no rol dos culpados. Se eu colocar os pés na ilha serei imediatamente fuzilados. Muitos foram antes de mim. Os fuzilamentos sumários continuam a acontecer até hoje. Cuba, nunca mais.”

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