domingo, 16 de maio de 2010

MORADOR DE RUA



Fui um morador de rua por 48 horas, tempo suficiente para a produção de uma reportagem. Eu trabalhava no Sistema Meio Norte de Comunicação e queria retratar a dura realidade dos sem-teto na capital piauiense. Eles perambulam pelas ruas e praças, vivem de esmolas e pequenos furtos e consomem muita bebida e drogas. Dormem ao relento, geralmente sobre pedaços de papelão e embaixo de marquises de lojas do centro. Alguns preferem os bancos de praças. Meu editor considerou muito arriscado, notadamente porque eu não contaria com nenhuma proteção em caso de necessidade. Adotamos como parâmetro que eu me limitaria às praças do centro – Pedro II, Saraiva, Bandeira, Rio Branco e Costa e Silva. Teria que adotar alguns cuidados para não ser reconhecido. A simples pronúncia da palavra jornalista poderia colocar tudo a perder. O ideal era que não houvesse nenhuma alteração comportamental.

O primeiro dia foi de adaptação. Fiquei na praça Saraiva. Estabeleci contato com um casal. Duas crianças andavam com eles. Não eram seus filhos. Eles não me conheciam. Queria saber de onde eu vinha e o que estava fazendo ali. Disse que não tinha emprego e nem aposentadoria. Não tinha casa e nem como me sustentar. Perguntei se podia ficar por ali até arranjar um lugar melhor. Me avisaram que eu deveria ter cuidado. Principalmente com os “trombadinhas”. Eram ladrões, drogados e perigosos. Por qualquer coisa espetavam alguém. Andavam com ferros de ponta e facas enferrujadas. Alguns armamentos eram produzidos ali mesmo, usando-se pedaços de madeira, ferro e borracha. Fiquei impressionado com a habilidade do casal. As armas eram feitas a menos de 300 metros da Secretaria de Segurança.

Vários outros moradores de rua se juntaram a nós ao cair da noite. Eles fizeram uma roda e ficaram bebendo e conversando madrugada adentro. Os moleques ficavam de longe se embriagando e fumando maconha. Um deles se aproximou e perguntou se eu não queria um “tapinha”. Disse que não e não estiquei a conversa. Fiquei com receio porque os outros permaneceram a uma certa distância. Pareciam interessados na minha pessoa. A mulher me chamou e perguntou se eu não queria dar uma trepada. Custava apenas 5 reais. Falei que não tinha cabeça para aquilo naquele momento e pedi desculpas. O companheiro dela ficou chateado. Contava com o dinheiro para comprar maconha dos meninos.

Havia mais dois sujeitos conosco. Eram pequenos e magros. Tinham faces encovadas, bocas murchas e olhos perdidos. A certa altura, um deles tratou o outro pelo nome. Foi agredido com um murro no rosto famélico. Não queriam ser identificados pelos nomes verdadeiros. Na rua, assumem outra identidade. Isso os ajuda a se distanciar das outras pessoas. Não consegui dormir naquela noite. Fiquei o tempo inteiro atento. O medo era maior que o sono. Todos os demais adormeceram. O casal e as duas crianças ficaram na escadaria da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Pela manhã, o pessoal da paróquia serviu uma sopa. Um deles me reconheceu e colocou a matéria a perder. Os moradores de rua ficaram desconfiados e se distanciaram de imediato. Em pouco tempo, não havia mais nenhum deles por ali. Nem os meninos ficaram. Um deles me mostrou um punhal, da distância, e fez gestos de estocagem em minha direção. Segui para a redação e produzi a matéria que nunca publicaram.

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