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Imagino que todos vocês tenham tido desilusões amorosas. Eu tive muitas. Sobrevivi para contar a história. Ou as histórias. Nenhuma como a de Marluce. Era linda desde pequena. Eu a conheci quando tinha talvez oito anos. Eu, a mesma idade. Nossas famílias eram amigas de há muito. Nos encontrávamos em finais de semana durante visitas que minha mãe fazia à mãe dela e aproveitávamos para brincar às escondidas. Na infância, trocávamos beijos à moda dos artistas de tevê.
Eu te amo, ela me dizia, sem saber absolutamente do que se tratava aquela palavra. O amor verdadeiro talvez seja este de que se fala sem o conhecimento do seu significado. A palavra, a inocência, tudo em profundidade, brotando do mais fundo de nossa alma. Eu a abraçava com ternura, imaginando-a minha mulher no futuro. Eu também te amo, dizia para ela, e tocava seus lábios com meus lábios, como se fôssemos feitos um para o outro. Nunca me senti tão feliz em toda a minha vida como naqueles anos em que brincava de casal com Marluce.
Alguns meses depois sofri um terrível acidente que me tirou parcialmente a mobilidade dos membros inferiores. Morávamos em uma cidadezinha perto de Teresina. Fui submetido a várias operações e a um tratamento demorado. Fiquei muito tempo hospedado em casa de Marluce. Sua mãe, dona Graça, era uma mulher extraordinária, que fora abandonada pelo marido e criava sozinha os filhos – a partir do exaustivo trabalho no pensionato que mantinha no centro. Estava triste, deprimido, não queria que Marluce me visse naquela situação, com as pernas engessadas, jogado ora sobre um colchão d’água, ora sobre a cama de um hospital. O teto branco, horas intermináveis, no rádio canções de época. Me acostumei a ouvir as vozes de Agnaldo Rayol, Jerry Adriani, Paulo Márcio, Odair José, Benito de Paula, transmitidas em programas das rádios Clube, Pioneira e Difusora. Também gostava de programas jornalísticos apresentados por Deoclécio Dantas, Chico Figueiredo, Carlos Augusto e Tomaz Teixeira, dentre outros.
Eram os anos 70. Teresina era então uma cidade provinciana, de hábitos simples. As pessoas se reuniam na praça para conversar. Não fazia tanto calor como agora. Havia poucas ruas asfaltadas. Prédios, praticamente não existiam. No centro, um dos mais altos era o sobrado de dona Graça. O que houve contigo?, Marluce me perguntou. Fiquei sem saber o que dizer para ela. Vou ficar paralítico, falei. O que é paralítico? Não sei. De fato, não sabia. Apenas ouvira minha mãe fizer para minha tia que em seguida disse para meus irmãos. Todos ficaram com os olhos marejados de lágrimas e eu fui tomado por uma estranha sensação de insegurança que desaparecia por completo quando estava perto de Marluce. Ela me fez companhia por algum tempo, porém à medida em que os anos passavam deve ter entendido o que era paralítico e por isso foi se distanciando de mim, até que desapareceu por completo, sem deixar vestígios.
A situação financeira de minha família mudou drasticamente no começo da década de 80. Minha mãe tinha algumas economias na poupança bancária que foram tragadas pela inflação galopante nos estertores do regime militar. Também gastou muito dinheiro com meu tratamento. Possuía muitos imóveis em diversas cidades da região norte e teve que se desfazer da grande maioria deles para custear minhas cirurgias. Algumas delas foram feitas em outros estados. Só em São Paulo ficamos durante quase um ano. Minha mãe também não tinha marido. Eles haviam se separado há muitos anos. Tive uma infância longe do meu pai. Parece que ele tinha outra família e sua mulher não gostava nada que ele se relacionasse com os filhos do matrimônio anterior.
Minha adolescência foi difícil. Sem dinheiro, muita precisão. Em alguns dias, tínhamos comida. Em outros, não. Quando tínhamos comida, não havia gás. Quando havia gás, raramente havia alimento. Eu estudava e lia muito. Às vezes ficava deitado no terraço de casa mirando as estrelas, sem saber ao certo o que seria de mim. Pensava em Marluce como uma daqueles pontinhos de luz no Universo. Onde estaria naquele momento? Com quem estaria? Ficava pensando em seu abraço, em seus lábios, em como ela silenciosamente desistira de mim. Minha tristeza era enorme.
Conheci outras garotas. No entanto, não podia firmar compromisso com nenhuma delas. Não havia dinheiro para nada. Nem mesmo para levar uma namorada ao cinema ou a uma lanchonete. Aqui e ali sobrava algum e então eu aproveitava para pagar um sanduba. Coisa sem classe. E sem futuro. Quem iria querer namorar um sujeito sem dinheiro e naquelas condições físicas? Passei três anos em cadeira de rodas, consegui andar por esforço próprio. Os médicos já haviam desistido de mim. Eles disseram para minha mãe que eu não conseguiria. Um deles, que depois se tornou político, falou que ela deveria ser forte para suportar a verdade. Caí, levantei, errei, aprendi, voltei a andar e aqui estou, tentando tocar a vida com alguma esperança.
Tive uma namorada linda. Chamava-se Leila. Devia estar com treze anos quando a conheci. Eu contava dezesseis. Nos conhecemos no ônibus, na volta da escola. Corria o mês de março, as chuvas eram intensas, o nível dos rios Parnaíba e Poty aumentou consideravelmente, invadiu ruas, casas, estabelecimentos comerciais. O trajeto dos coletivos teve que ser alterado porque a avenida Maranhão estava completamente inundada. Lá estava Leila, com seus olhos pretos, profundos, o olhar preso ao meu, indefinidamente, por todo o percurso. Não consegui desligar-me dela por todos os dias seguintes até que descobri onde morava. Tomei coragem e fui até sua casa.Fiz e declamei poemas para ela. Princesa da tarde. Ficou encantada comigo.
Começamos a namorar e então ela decidiu me fazer uma surpresa. Foi até minha casa. Eu estava em meu quarto ouvindo música num toca-fitas que ganhara de presente de aniversário de minha tia. Ritchie cantava “A vida tem dessas coisas” e Leila adentrou o quarto com olhar estranho. Parecia estar em outro mundo, um lugar de pobreza extrema que ela só conhecia de ouvir falar. As paredes estavam sujas, havia poucas cadeiras, não havia sofá, a televisão ainda era em preto e branco. Em outra época aquele aparelho de tevê fora saudado como uma grande conquista. Minha mãe tinha dinheiro e comprara a primeira tevê da sua cidade. Centenas de pessoas vinham para nossa todas as noites para assistir aos programas da antiga TV Tupi ou da nascente TV Globo. Mas naquela tarde muito tempo decorrera e Leila encontrou-nos em uma situação completamente adversa. Foi demais para ela. Seu poeta era um pobretão. Além de tudo.
Os dias seguintes foram de depressão. Pensei que ia enlouquecer. Não conseguia me concentrar nos estudos. Ficava lembrando de Leila, seu olhar, seus beijos. Marluce estava banida da minha mente. Pelo menos por enquanto. O sentimento por Leila persistiu além da conversa que tivemos, posteriormente, na praça Pedro II, quando implorei que ficasse comigo. Ela disse que não, porque era muito nova e pretendia investir mais nos seus estudos. Queria ser alguém na vida e por isso não podia se envolver seriamente com ninguém. Mas por que não deixamos a coisa evoluir, por que não aproveitamos o fato de estarmos juntos, a beleza de sermos felizes no esplendor de nossa juventude?, argumentei. Por favor, Boris, é melhor assim. Não insista porque assim sofremos mais. Meu abalo foi maior quando apenas alguns dias depois deparei com ela, em plena praça João Luiz Ferreira, por volta das treze horas, aos abraços e beijos com um camarada de cor que era filho de empresário e morava na zona leste. Tudo por dinheiro.
Leila deixou de existir como num passe de mágica. Foi aí que Marluce reapareceu. Matriculei-me para o ensino médio numa escola particular do centro. No segundo dia de aula ela adentrou a sala com uma elegância no andar que nunca vi em outra pessoa. Cabelos loiros, olhos verdes, lábios finos, a sensualidade latente, embora não proposital. Lembra de mim? Pareceu não me reconhecer, a princípio, mas em seguida disse que sim, que lembrava, era Boris, o filho de dona Luiza, grande amiga de sua família. Como está sua mãe? Bem, respondi. Vocês ainda estão morando em Cidade Alta? Não, estamos em Teresina, no Saci. Bom te encontrar. Aparece lá em casa qualquer dia. Minha mãe vai adorar.
Nem tanto. Dona Graça fez pouco caso de minha chegada. Não queria a filha envolvida com um pobre qualquer. Mesmo que fosse filho de amiga. Que amizade é essa?! Você pode até pensar que tenho complexo de Peter Parker. Não é bem assim. Estou contando a mais pura verdade. Nunca me abri tanto sobre meu passado como agora. Marluce queria ficar comigo e demonstrou isso nos primeiros dias após nosso reencontro. Foi aí que entendi o que de fato havia acontecido. Ela fora afastada de mim por influência de seus familiares, que achavam demasiado para ela carregar-me como peso quase morto ao longo da existência. Como se eu nunca fosse voltar a andar ou então fosse ficar encostado o resto dos meus dias. Talvez fosse esta a impressão que eu causava naqueles dias depois do acidente.
O fato de estar mergulhado em pobreza não parecia importar muito para ela. Parecia sinceramente feliz ao meu lado. Ouvíamos músicas de Michael Jackson, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Legião Urbana. Todas pareciam feitas sob medida para nossa história. Em "Fixação", Paula Toller cantava "Seus olhos no retrato, minha assombração, fantasmas no meu quarto, i want to be alone..." Queríamos apenas estar juntos.
Eu quase nunca tinha dinheiro. Ela pagava a conta do lanche durante o recreio na escola. Quando saíamos, eu conseguia emprestado o carro do meu vizinho que era jogador de futebol. Ele confiava cegamente em mim mesmo sabendo que eu não possuía carta de habilitação. Eu e Marluce namoramos muito em seu velho fusca. Em diversas oportunidades tivemos que nos conter para não chegarmos às últimas consequência. Nos gostávamos tanto que queríamos fazer amor de uma forma planejada, de modo a não impor nenhum sacrifício ao outro ou a quem quer que fosse.
Minha mãe começou a se preocupar. Estou achando que você e esta garota estão ficando muito tempo juntos. É melhor tomarem cuidado. Nem você nem ela têm qualquer condição de assumir relacionamento agora. Você, principalmente, que não tem onde cair morto. Minha mãe não precisava falar desse jeito. Nunca entendi ao certo porque fez isso. Acho que a senhora está exagerando. Não pretendo casar agora. Nem Marluce. E por que passam tanto tempo juntos? Ela te liga o tempo inteiro. A vizinha já até reclamou. Diz que está cansada de te chamar pra atender telefone na casa dela. Falei com Marluce e pedi que não ligasse mais pra casa de minha vizinha da direita. Ela passou a ligar para o vizinho da esquerda ou então para a casa de meu amigo jogador, que era um pouco longe, isso quando eu não ligava pra ela, porque ficava aquela vontade em mim de estar ao seu lado e eu conseguia compensar ouvindo sua voz macia. Ajude-me, eu dizia; beije-me, ela dizia.
Fizemos amor num dia em que sua mãe viajara pro Rio de Janeiro. A pretexto de fazer trabalhos da escola, Marluce inventou de dormir na casa de uma amiga. Os irmãos de nada desconfiaram. Ficamos em casa de sua amiga por toda a madrugada. Dormimos e acordamos várias vezes. Nos amamos de todas as formas possíveis e imagináveis. Não quero ter filho agora, disse ela. Eu também não. No entanto, quero que fique ao meu lado pra sempre. Acha que é possível na situação em que estamos hoje? Claro que sim. Querer é poder, ela disse. Nunca mais consegui viver tão intensamente uma relação. Não me deixe nunca. Promete?, ela disse. Claro que sim. Nunca vou deixar. Prefiro antes a morte. Lágrimas em seus olhos. Eu te amo, ela falou. Eu também. Como quando éramos crianças. Só que agora éramos adolescentes, quase adultos, estávamos cada vez mais perto de realizar nosso antigo sonho de nos tornarmos marido e mulher. De verdade.
Nenhuma felicidade é para sempre. Marluce já conhecia Gustavo. Os dois tinham ficado antes. Ele era filho de um fazendeiro rico do interior do Maranhão. Estudava em Teresina e ficava hospedado no pensionato de dona Graça. Dividia o mesmo teto com minha doce amada. Conseguiu roubá-la de mim com muita insistência e mimos. Creio que ela tenha resistido inicialmente. Mas o poder corrompe. Sobretudo o poder do dinheiro. A mãe era louca por gente de posses. Eu não tinha absolutamente nada a oferecer à sua filha que não fosse o meu amor. Segundo ela, não existe amor que consiga sobreviver à falta de grana. Talvez dona Graça tenha razão. Desisti de tentar entender esse tipo de gente e esse tipo de sentimento.
Numa tarde de sábado, cheguei para apanhá-la em casa. Havíamos combinado de ir ao cinema. Mandou dizer que não estava. Na semana seguinte, tentei falar com ela por telefone todos os dias. Não consegui. Ela nunca atendia. Dava uma desculpa qualquer, dizia estar com dor de cabeça ou então estudando para provas. No sábado seguinte cheguei em sua casa e ela de fato não estava. Geraldo, seu irmão, me disse que ela havia saído para o Jóquei Center em companhia de Rosália, sua melhor amiga. Decidi seguir até lá – eu não devia ter feito aquilo. Marluce estava trocando um caloroso beijo com Gustavo enquanto sua amiga Rosália conversava animadamente com o namorado, que parecia lhe dizer palavras doces e que de vez em quando bebericava uma dose de rum. Pensei em fazer um escândalo, entretanto me contive porque seria um papel ridículo. Melhor seguir em frente.
Outro dia a revi. Está mais linda que nunca. Tem filhos lindos também. De vez em quando lembro de sua voz na infância me dizendo “eu te amo”. Suas palavras fazem eco na adolescência e me perseguem até hoje. Saudade.

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